2011/02/24

VITRINES

(revisada e levemente ampliada)



Quem me conhece, mesmo que vagamente, sabe que perco o(s) amigo(s) , mas não perco a piada – sim, intuo já uma velhice solitária e amarga, mas fazer o quê? É o preço que pagarei por se o que sou:

- Fiel aos meus princípios, pois ouço e escrevo!, mas sigamos...

Outro dia, bebericando meu santo cafezinho ouço a história de um recém-solteiro de meia-idade, que num domingo desses de pouco sol e sem presa à vista, saiu para se socializar com a ex-família.

Me contava o nabokiviano amigo os detalhes com tal riqueza, que me vejo aqui incapaz de transcrevê-la, furtando-os assim, meus leitores, dos pormenores sórdidos, das cores fortes, da linguagem docemente impudica que tais conversas impõem...

Mas dou-lhes, de forma poética, esse breve e aprazível resumo, vejo-os lá embaixo.


Foi entre as vitrines

Que ele a viu

E sentiu-se visto

olhares cruzaram

promessas no ar

ele

um velho sátiro

ela

uma ninfeta

digna dum Nabokov da melhor safra

ela com a mãe

ele, ex-mulher

manequins testemunhas mudas

cabides cúmplices sem culpa

corredores de lingerie apimentando os desejos

o rubro à sua frente

serão das peças

ou de seus olhos?

ela, de soslaio

ele, a vibrar

o não-dito

o não-feito

o desejo no ar

a Lolita ali

- será que ela ouve o seu latejar?

desejo a lhe sair pelos poros

ele sente que brilha

seus olhos o traem

suas mãos suam

ela vai com a mãe

antes de sumir olha-o

a ponto de fazer seu sangue ferver

mas é tarde demais

ele está velho

ele está perdido

ele está, hoje, com a ex-mulher do lado...

por que hoje?

por que hoje?

sofre a dor da perda

sofre a dor de saber nunca mais outra chance

sofre a dor das escolhas desse domingo...


Mas como sabemos e os jovens logo saberão, as dores de uns são as doçuras de outros.

Passem bem!

2011/02/23

CRÔNICA DA SÉRIE HOMEM DE MEIA-IDADE DE “VOLTA AO MERCADO”


SIM ELA VIRÁ


Que jamais me digam ou me deixem saber que já disseram que sou um mau amigo!

Depois de ouvir a triste história citada na crônica Vitrines fui para casa com as minhocas de minha cabeça revirando-se dentro do crânio. Aquilo não poderia ficar assim, não poderia passar em branco pela História pessoal de meu amigo. Segundo Paulo Coelho todos nós temos que escrever a nossa “lenda pessoal” - ou algo assim, pois não pensem vocês que perco meu tempo com tais desimportãncias – e meu amigo não deixaria esse vale de lágrimas como vítima de uma piada de mau gosto do Destino.

Cobrir a dita-cuja de porrada não posso fazer, ainda mais com a Lei Maria da Penha e a imagem de pacifista que teimo em manter diante da sociedade. Aliás, aqui cabe uma boa pergunta:

- Quem é mais hipócrita? Eu ou a sociedade? - Divago muito, voltemos ao resultado do melancólico caso desse meu amigo.

Não podendo partir para a ignorância, resolvi usar a minha melhor arma, o meu escárnio e uma praga bem pregada na forma de um poeminha.

Agora é só torcermos para estarmos todos - inclusive você leitor - lá no dia e hora.



Sim, ela virá
Com seu avental preto
Caminhando
Como quem anda nas nuvens
Com passos leves
Delicados
Como uma bailarina
Tocará o solo
Com as pontas dos pés
Ela vira na sua direção
Trará no rosto
Um sorriso

(profissional, não se iluda)

Ela olhará através de você

(sim, esse é o seu olhar)

Seu café se aproxima
Na bandeja
A xícara
O petit-four
O copo d’água
Ela se aproxima de sua mesa
Falta pouco para chegar até você
E há poucos passos
Ela tropeça
Cai
A bandeja, a xícara, o petit-four, a água e ela vão ao
Chão
Você sorri
Você ri
Você gargalha

- Meu dia está ganho!

(murmurará você entre dentes)

E no chão frio do Café
As lágrimas dela se confundirão
À cor negra do café...
E na rua o sol brilhará
(só você perceberá isso, sossegue)
Como um orgasmo cósmico


PRIMEIRO CAPÍTULO

Abro as janelas de par em par, o sol entra e ilumina a sala, um gato gordo e velho arrasta-se até o meio do tapete e deita-se, tapete? Que tapete é esse? Gato? Desde quando tenho um gato, ainda mais gordo e velho?, vou segurar o espirro, vou segurar o espirro...

Olho em volta e não reconheço essas paredes, vou procurar a cozinha, lá se houver uma geladeira, e há de haver uma, vou abri-la, e antes que a luz interna acenda sei o que vou encontra lá dentro. Gostaria sinceramente de não de:

1. não encontrar a cozinha, e se encontrá-la
2. não achar lá dentro uma geladeira, e se achar e abrir:
3. não encontrar aquele pedaço de pernil de porco...

Não sei por que sou o único personagem coma consciência de sê-lo, não sei por que meu criador me detesta tanto a ponto de escrever sempre a mesma história só alterando, por pura maldade – ou seria esquizofrenia? - os cenários.

Não há um capítulo que não comece comigo abrindo uma janela... E nunca, nunca há uma paisagem a ser descrita, um cenário cinematográfico de deixar o leitor sem fôlego, nada, isso quando não chove, neva, ou como no último conto, ele fez-me abrir – falta de conhecimento é claro – uma vigia de um navio e inundou-me a cabine. E esse gato deitado no tapete morreu... Era o que me faltava, uma morte na minha história, será que nessa casa existe um jardim?

Se sim:

1. Por favor, que não seja secreto me fazendo perder horas procurando por ele;
2. Que eu não descubra outros mortos enterrados nele;
3. Que eu não seja alérgico a nenhuma planta de lá...

Ok, ok, lá vou procurar por um nessa casa, à frente tenho um longo corredor, espero que a casa seja térrea, hum, quadros bonitos nas paredes, então, quero crer, devo esperar por belas estátuas no jardim, pela claridade há espelhos também... Tenho medo de espelhos, no penúltimo conto eu era um corcunda ruivo e caolho e carregava no ombro um macaco empalhado, por que ele me expõe assim ao ridículo?

Aproximo-me do espelho de olhos fechado, sinto vontade de passar por eles com olhos fechados, mas alguma coisa dentro de mim – subtexto talvez? – me obriga a olhar-me...

Quero seguir em frente, minhas pernas paralisam-se, e abro os olhos e constato que sou um personagem odiado. Esse louco - e para de colocar tachado no que eu penso!! – me odeia, me odeia, agora sou uma gorda tatuada e, o que é isso no meu peito – e que peitos! – parece um crachá, parece não, é um crachá, ó meu Deus, sou uma funcionária pública. Mas o que estou fazendo numa casa desse tamanho? Tenho certeza que eu não ganho para isso...

Espere ai. Não estou sozinho, digo sozinha aqui, ouço passos, passos de homem – como sei que são passos de homem?, não faço nem idéia, isso é coisa do autor desse folhetim miserável – eles se aproximam. Qual será o meu papel nessa trama? Sei que não deveria, mas sinto medo, calafrio, palpitações, um estremecimento, receio, não, certeza que vou me dar mal...

A voz máscula chama por Martha, serei eu, espero que não. Marta, repete a voz, e estremeço, espero que não seja eu. Encosto-me numa parede onde não bate a luz do sol e espero que a tal da Marta apareça. A voz aproxima-se chamando pela Marta, prendo a respiração. E espero que capítulo acabe antes do sujeito aparecer.

Acabe capítulo, acabe, acabe...

- Genézio!

Fim do capítulo.

Agora que me chega esse fim do capítulo, agora? Agora o Genézio já está arrancando minhas roupas...
Enquanto ele sobe as escadas comigo no colo – juro que esperneei um pouco – penso quanto tempo leva para um gato morto começar a feder...



DIÁLOGO SOBRE TERNOS, CASAMENTOS E PREVISÕES


Quando cheguei ao ponto de ônibus a conversa já ia assim:

- Não admitirei que fales mal do casal. Afinal eles esperaram que eu pagasse a ultima prestação do meu terno para se separarem.

-Tens razão. Doze meses já é até bastante tempo...

- Que doze meses? Ta pensando que eu sou o quê? Um miserável? Um pobre-coitado? Paguei o terno em três vezes, sem juros!

- Então o casamento só durou três meses...?

- Sim, nem abriram a caixa do fogão.

- Quem deu o fogão? Você?

- E meu nome é Vadinho prá presentear noivos com fogões? Expliquei que estava sem dinheiro e depois daria a eles o que estivesse faltando... Não falha! Quando vejo que um casamento não tem futuro faço isso. Prometo o presente para mais tarde. Imagine se gasto dinheiro assim. O terno ainda tem alguma utilidade, afinal na nossa idade tem sempre alguém morrendo...

- Que pessimismo mais mórbido!

- Mórbido? Estou é sendo pragmático. Veja o Garcia com aquela úlcera feia que ele tem. Quanto tempo você que vai levar para ela evoluir para coisa pior e morte?

- Jesus Cristo! Agora você está gorando o Garcia? Sei que você não ia muito com a cara dele, até compreendo depois daquela experiência com a Rutinha, mas daí a ficar esperando a morte dele...

- Não estou gorando ninguém, estou só exemplificando...

Chega meu ônibus.

Faço sinal, entro, vou embora pensando na sabedoria do interlocutor. Já gastei muito dinheiro em roupas para casamentos que duraram menos as prestações. Mas o que me intrigava mesmo na volta para casa era a história entre o sujeito, o tal do Garcia e a Rutinha... Essa minha pressa, deveria ter ficado mais tempo no ponto, afinal percebi que o outro sujeito estava se deleitando com a fumaça de meu cigarro...

2011/02/15

O BAR


No balcão sujo, as marcas de copos se multiplicam exponencialmente; o barman já não sabe se sorri de verdade ou se aquilo no seu rosto tornou-se um ricto, uma cicatriz; as garrafas estão sempre pela metade, nunca vazias, nunca cheias, sempre a um passo de acabar no próximo copo que nunca deixa de chegar.

Há anos que não se vê mais a cor das paredes, tamanha a densidade da fumaça de cigarros; as cadeiras são fundas, dada a quantidade de fregueses que se sentam ali diariamente, e o chão está gasto de tantos passos perdidos que passaram por ali em tantos e tantos anos...

Em algum canto um piano toca, mas onde?

Não pense em procurar onde!

Ninguém sabe, afinal nada se vê naquele ambiente turvo de fumaça e emoções desencontradas e sentimentos conflitantes; as vozes, roucas, roufenhas, sussurrantes, abafam a melancólica melodia da triste música que escorre dos teclados tocados pelos pálidos e suarentos dedos do pianista, que há anos, séculos - quem sabe? - toca a mesma canção deprimente.

As luzes no teto são como estrelas, brilham mas não iluminam, nada atravessa aquela atmosfera tão densa.

Um freguês encosta no balcão, e, antes de pedir alguma coisa, o barman, em “piloto-automático”, serve-lhe uma dose de conhaque, que é sorvido de um só gole; outro copo e mais outro são servidos, muitos outros seguirão, até que o indivíduo se deixe seduzir pela melancólica canção, e, como os outros que lá se encontram, esqueça de voltar para casa, para o trabalho, para a família, para a vida; se somará à procissão de espectros que, bebendo, esperam pelo fim dos tempos, para que enfim possam descansar.

O barman olha para o estranho calendário na parede que, em vez de dias, marca anos e séculos, e, contando-os para o fim do mundo, faz com o lápis uma cruz nele e olhando para o relógio resmunga:


- O tempo não passa... - Pegando o pano de prato, passa a limpar pela enésima vez o balcão marcado de copos e dores .


Pela porta da frente, mais um infeliz entra e o barman, suspirando, pega às suas costas uma garrafa qualquer na prateleira, e lá do fundo a música recomeça, a mesma música melancólica de sempre...

- O tempo não passa... - reclama o barman com o homem que bebe e não presta atenção em nada à sua volta. Enquanto limpa as marcas de copos num lado do balcão, no outro, elas renitentemente voltam. - O tempo não passa...

ITINERÁRIOS

Cid abre a janela, um ônibus passa na avenida, e ele vê um jovem encostado, quase dormindo com a cabeça encostada no vidro, e nesse momento, Eli –esse é o nome do jovem – dá com seus olhos nos olhos de Lena, que sonhadora, pensa em João no momento em um jato passa sobre a cidade, João vai embora do país, cansado e desiludido – jurou nunca mais voltar.

O motorista do coletivo segue seu caminho diário e rotineiro, impermeável às misérias que carrega ou o cerca, e por pouco atropela a velhinha na faixa de pedestre. Ela levanta a mão e roga-lhe alguma praga, o ônibus faz uma curva à direita e passa pela banca de jornal de Pedro que acena-lhe um bom dia e volta a leitura do jornal do dia que estampa um crime hediondo, como qualquer crime deveria ser, hediondo, e por um segundo pensa ter reconhecido a foto de um dos suspeitos nos passageiros do ônibus que acabou de passar, mas deve ser engano pensa, pois ele vê todo o tipo de gentes durante o seu dia, e seus dias são tão longos...

Cid continua à janela, olha para o céu, acha que chove, mas Cid não tem inclinações para meteorologista e sempre erra suas previsões, toca o telefone, imagina que seja Verônica, erra, erra feio, pois não te inclinações para adivinho, atende e é Débora, ele foge de Débora há semanas, como ela encontrou seu número? Sabe que nunca saberá, Cid nunca sabe, desconhece a leitura dos sinais, não reconhece o perigo nem tropeça nele.

Atende ao telefone com voz fria e distante, impessoal, Débora pergunta se tudo está bem, ele diz que sim, Cid mente mal, ela percebe, chora e percebe que Cid não a quer mais, silêncio e por fim desliga sem despedir-se.

Cid fica com a mão direita sobre o aparelho por alguns segundos, talvez o telefone tocasse outra vez, e dessa vez seria Verônica, mas o aparelho não tocou e Cid retornou à janela e vê nuvens pesadas de chuva cobrir o céu, a chuva será rápida, diz, mas ele erra e choverá por quatro dias e meio. Enquanto esses acontecimentos ordinários se desenrolam, Eli chega à escola, atrasado, corre para a sala de aula, é repreendido pelo professor, hoje é dia de prova, havia esquecido, o dia vai de mal a pior, pode sentir isso nos ossos. Lá fora o céu já está carregado, além da bronca, ir mal na prova chegará molhado em casa, quem entende esse clima?

Lena no escritório não consegue focar-se no trabalho, de quando em quando olha para o celular, sente ganas de ligar para João, talvez ele ainda esteja com o seu aparelho ligado, talvez ela consiga falar com ele, talvez ele mude de idéia e reembarque de volta ao descer no aeroporto, talvez, toca o interfone e ela não terminou o relatório, talvez ele esteja lendo o livro que ela lhe deu, não daqui a pouco entrego os relatórios, talvez ele ache a carta que ela colocou na página trinta e cinco, mais dez minutos e já levo os papeis!, talvez, talvez eu peça as contas desse escritório e vá atrás dele...

O motorista já começa a segunda viagem do dia, a velhinha volta das compras com a sacola cheia de legumes, traz sob o braço esquerdo uma baguete, a chuva fina começa, o motorista liga os limpadores do pára brisas, e a velhinha amarra um lenço sobre a cabeça, o ônibus faz a curva no momento em que a velhinha atravessa a rua, ele freia para dar-lhe passagem, mas o carro que vinha esquerda segue em frente, passa numa poça d’água e molha a velha, essa encharcada faz o mesmo gesto ao motorista do ônibus, ele sorri, está acostumado com ela, e pensa como vai ser o dia em que ela morrer, ela chega à calçada e faz outro gesto ao motorista e discretamente sorri, essa é sua única alegria, ofender o motorista, e pensa como será o dia em ele mudar de linha. Em casa enquanto corta cenouras pensa no motorista e chora com as cebolas.

Cid fecha as janelas, a chuva engrossa e começa a molhar o seu quarto, o telefone não toca mais, ele volta a deitar-se, tentar ler o livro que comprou num sebo, começa a folheá-lo, em busca de ilustrações que lhe prendam a atenção, e na página trinta e cinco cai uma carta que ele lê com avidez, e desinteressa-se pelo livro, na casa da velhinha a sopa está quase pronta e o telefone toca, ela atende lentamente, sem pressa, ela já não tem pressa para mais nada, é a filha dizendo-lhe que o avião do filho já decolou e que ela torna a ligar quando ele chegar a Londres, lá já deve estar fazendo frio, diz a velha, e eu aqui fazendo a sopinha de legumes que ele gosta tanto, falam mais uns poucos minutos e ela desliga.

A chuva engrossa, troveja, e logo chega a noite.

A sopa de legumes esquenta os ossos da velha, antes de deitar-se ela vai ver o que falta na geladeira, assim ela terá a chance de xingar o motorista do ônibus a caminho de mercado amanhã.

O motorista enquanto janta com a família, diz que acerta o relógio pelos gestos obscenos da velha, por isso nunca atrasou o seu trajeto, e por causa dela ainda vai conseguir uma promoção, uma linha melhor, Verônica ri, e serve a sobremesa ao marido.

CRIAÇÃO

...onde eu estava mesmo quando a campainha tocou? Deixe-me ver nas anotações. Cavalos mortos, tiros, fumaças, gritos, hum..., acho que isso já foi escrito antes em outro conto, vejamos, vamos continuar procurando. Tenho que encontrar minhas anotações, um dia desses vou ter que começar a me tornar metódico..., mas alguém se torna metódico ou já nasce assim? Se for o caso de nascer assim, vou ter que revirar as outras caixas...

Será que eu estava escrevendo sobre pescaria? Joga linha, puxa linha, torna a jogar e torna a puxa, e peixe que é bom mesmo, neca! Não, esse já está escrito! Tabernas mal-assombradas? Anjos, demônios, apocalipses? Hum...

Mas como é possível acontecer uma coisa dessas?

Num momento estou digitando feito um possesso, a história desenvolvendo-se no monitor, uma página, duas, três, toca a campainha, levanto para atender, procuro pela chave, onde larguei a bendita chave, reviro os bolsos da calça, nada, o bolso do blazer, nada, vou à bolsa, nada, então a encontro sobre o fogão. Não, não quero nem imaginar como ela foi para lá, a campainha continua a tocar, abro a porta, desse canto da sala consigo ver o notebook e a tela, nela o texto.

A campainha toca mais uma vez enfim abro aporta, era uma entrega, assino o recibo, pego o pacote, procuro um lugar na sala onde pô-lo, não acho e deixo em cima do fogão lá na cozinha.

Pronto refiz meus passos.

Mas nada de me lembrar onde deixei as anotações, e olhando para o conto na tela, não consigo achar uma solução para ele.

Continuar como? Como terminar?

Terremoto?

Não, muito usado e mal visto, falta de imaginação de um sujeito que se diz escritor.

Incêndio?

Não!

Já usei esse expediente e mesmo assim depois descobri que o vilão da história não só tinha sido o único a sobreviver, como ainda mudou de nome, cultivou um bigode cafajeste e se meteu num outro conto...

Reler.

Reli e acho que o mundo não perdeu grande coisa mesmo, uma história sem sal, sem pé e nem cabeça, creio até que fui salvo pela campainha, agora até me arrependo de não ter dado uma gorjeta decente pro garoto em vez de uns papeizinhos..., papeizinhos..., papeizinhos...

Corro à janela, mas o entregador já está longe demais...

2011/02/11

MARISKA VOIVODINA PORUMBESCU, SUA NETA E O FANTASMA


Festas nas ruas, fogos no céu, bandeiras nas janelas e risos no ar. É primeiro de dezembro e celebra-se a união da Transilvânia com o Reino da Romênia, ocorrido em 1928 e ato fundador da Romênia moderna, mas na casa de Mariska Voivodina Porumbescu, nascida no Condado de Ilfov, cigana, taróloga, parteira e punguista, as coisas não pareciam assim tão bem.

Senão, vejamos...

Mariska Voivodina Porumbescu estava polindo sua bola de cristal (na verdade feita de vidro reciclável dos mais ordinários), quando um arrepio subiu-lhe pelas pernas, atravessou todo o robusto e hirsuto tronco e foi terminar no alto da cabeça, arrepiando-lhe todos os fios de cabelo.

- Nu înţeleg, nu înţeleg – (não entendo). – Nu, nu (não, não) - e balançando a cabeça para arrumar os cabelos desgrenhados, Mariska Voivodina Porumbescu olha para a bola de cristal para entender o que está lhe acontecendo.

Mariska Voivodina Porumbescu senta-se à sua mesa coberta de veludo vermelho e amarelo, fecha os olhos, começa a recitar uma ladainha e por fim entra em transe.

- Salut - (olá) - diz a voz que sai da bola de cristal.

- Salutare - (olá) - responde Mariska Voivodina Porumbescu, tremendo de medo, afinal essa era primeira vez em sua vida que ela falava com algum espírito de verdade.

- Vorbiţi portugheza? - (você fala português?) - pergunta o espírito com forte sotaque.

- Nu! - (não) - responde Mariska Voivodina Porumbescu, sentindo seus cabelos rejeitarem os cinqüenta e cinco anos de tinturas e começando a embranquecer de pânico... - De unde sunteţi? (de onde você é?) – indaga, gaguejando e já prestes a desmaiar.

- Unde e toaleta? - (onde é o banheiro?) - pergunta a voz com um tom fortemente angustiado.

Mariska Voivodina Porumbescu, antes de desmaiar após bater a já agora encanecida cabeça na quina da mesa (e acordar trinta e sete dias depois, vesga e gagá), aponta para um canto da casa.
- Mulţumesc - (obrigado) e Pa!- (tchau).

Silêncio, e então...

...um vento forte abre a porta da frente do casebre, joga a bola de cristal no chão, faz trinta e sete embaixadas, e jogando-a contra a parede, à guisa de gol, estilhaça-a em milhares de fragmentos, vindo a cortar o pezinho de sua neta Constantina Eminescu Vlahuţă, que, infeccionando, fará com ela manqueje para o resto de sua miserável vida.

Numa cela fétida, cheia de baratas, Constantina Eminescu Vlahuţă cumprirá pena pelo seu crime hediondo: - empurrar a entrevada e louca Mariska Voivodina Porumbescu em cadeira de rodas para a frente de um trem de carga.

Constantina Eminescu Vlahuţă morrerá em vinte e nove de julho, e em seu último suspiro, amaldiçoará sua avó, sua bola de cristal e o espírito do brasileiro que lhe causou tudo isso.

O ESCRITOR E O BUSTO DO EDGAR

As contas não param de chegar. Sobre a mesa acumula-se uma pilha de cobranças.

Um busto de Poe é usado como peso de papel.

Por baixo da porta entra mais um envelope, agora é conta de luz, a de água deste mês já está com o autor do Corvo.

Falta de tudo na casa.

E sentado na poltrona da sala o homem arranca os cabelos (metaforicamente falando, é claro), a mulher tenta convencê-lo a não se entregar ao desespero, debalde.

O sujeito se diz escritor, se acha escritor, ficcionista. Já enviou seus escritos para várias editoras, grandes jornais, jornais de bairro, jornais de sindicato, jornais de supermercados, e nenhuma resposta até agora.

Ela tenta consolá-lo dizendo que uma hora ele será descoberto...

Mas no desespero ele fica surdo, e entrega-se à depressão, e deprimido ele escreve ainda mais e mais e mais...

E não consegue publicar.

Ele olha para o busto de Poe e se pergunta o que fazer. Nenhuma resposta vem do torso do escritor.


- Nunca mais, nunca mais – grita feito um covo – escreverei coisa alguma pelo resto da minha vida!


Só não atirou a estátua pela janela por medo que o vento espalhasse as contas acumuladas, afinal ele usava o verso dos envelopes como rascunhos para seus contos.

O papel já estava no fim e não havia dinheiro para comprar mais. Era muita miséria para uma pessoa só. Sua vida de escritor está ficando igual a dos personagens de contos russos, só faltava nevar, sua espiral descendente de autocomiseração só foi interrompida pelo grito da mulher:


- Benhê! A geladeira queimou!

- Pronto! Minhas preocupações com neve acabaram.


Olhou com ódio para o velho Edgar.

Num último suspiro de razão que ainda lhe restava no fundo da alma, tentou pensar que ele mesmo fazia parte de um conto de Poe, sim, só poderia ser isso, ou então não restaria alternativa para ele do que... ( Oh! Deus, isso é pior que ver um gato preto emparedado)...prestar concurso e virar servidor público onde poderia ser pago para escrever, nem que fossem ofícios, memorandos, cartas sem fim...

Outra vez ele olhou para o busto do velho Edgar que por poucos segundos ganhou vida e lhe disse:


- Isso não! Serviço público, não!

2011/02/10

Crises E Mais Crises

12h00 minhs

Meia hora em frente ao espelho do banheiro da repartição fazendo maquiagem, outros tantos minutos penteando os cabelos, olha para as unhas, vira de costas e quase quebrando o pescoço, vê como está a sua roupa recém-comprada (modelo exclusivo, disseram a ela!)

Saí e vai à rua almoçar seus legumes e verduras.

Olha-se em todos os reflexos das vitrines por que passa, sempre ajeitando, ora a roupa, ora o cabelo, ora um detalhe qualquer. No restaurante, escolhe a mesa mais bem localizada, de preferência na entrada, para que possa ser vista por quem entra.

Manipula os talheres com graça e leveza, observando as mãos. Tem com elas uma implicância patológica, acha que as sardas traem a sua idade.

- Não fosse esse um país tropical, andaria de luvas o ano inteiro... - reclama baixinho. - Tantos cuidados, tanta vaidade, quanto dinheiro gastos em cremes para o corpo, cremes para os cabelos, esmalte para as unhas, e essas mãos traindo a minha idade...

Terminada a refeição, sai à rua para tomar um pouco de sol antes de voltar para a repartição e amarelar-se até as dezoito horas.

Olha em volta de si enquanto anda, tanta gente jovem e ela ali envelhecendo, enrugando-se, azedando-se cada dia mais.

Execrando o elevador ela sobe a escada nervosa, pensando com seus botões:

- Assim subindo as escadas acabo engrossando as panturrilhas!

Quando chegar em casa à noite, vai socar o filho que a tornou avó!

- Ele não perde por esperar...


18h00minhs


Fim do expediente, na rua, o carona de sempre a espera impaciente.

No carro.
Chove fininho, o limpador dos pára-brisas indo de lá para cá. O trânsito, carregado.

Dentro do carro, o casal calado. Olham para frente, esperando uma chance de se deslocarem, saírem do lugar, poucos metros que sejam.

Falta assunto.

A razão? Não vem ao caso e nem nos interessa...

Para quebrar o gelo, o homem, comenta, tentando, quem sabe melhorar o clima:

- Nunca mais essa rádio tocou a nossa música, não é?

No que a mulher entre ríspida (afinal ela está ao volante) e com pouco caso:

- Nossa música? Desde quando nós temos uma música? Você tá viajando? Vê se entende uma coisa de uma vez por todas, isso é só carona, não sou sua mulher, não sou sua namorada e nada sua, além da pessoa que lhe dá carona, compreendeu isso de uma vez por todas?

De repente parece que o engarrafamento nunca mais irá acabar. A chuva engrossa, e o rádio não toca a música “deles”...

E o clima dentro do carro piora.

Ela pensa:

- O vou fazer para o jantar...?


19h35minhs

(aqui cabe uma cena dramática)

Cenário: Banheiro cheio de vapor.

Ela sai do banho.

Pega a toalha e começa a enxugar-se lentamente.

Passa a mão no espelho para limpar o vapor e deixa a toalha cair no chão. Mira-se no espelho, vê um cravo.

Aproxima-se um pouco mais no intuito de espremê-lo.

Olha-se profundamente no reflexo, apóia a mão no lavatório.
Soluça e começa a chorar.

- Onde eu errei meu Deus, onde?

O jantar atrasa hoje.

No dia seguinte.

(Aqui acompanha bem, como fundo musical, um Cantochão)

De cócoras, depois de joelhos, arrastando-se pelo altar da velha igreja, com os olhos fundos, marejados, o peito apertado e pesaroso, entre soluços, se perguntava:

- Onde perdi a minha fé? Onde?

Lá do alto os anjos barrocos se olhavam embaraçados.



2011/02/09

A REFORMA!

(Uma história (i)real)




1. Primeiro chegaram arrebentando as paredes. Depois as levantaram e pintaram, deram acabamento de gesso, coisa bonita de ser ver, depois;

2. chegararam os eletricistas, arrebentaram as paredes, passaram canos para fios, mais fios para as lâmpadas, e outros tantos para as tomadas, quando eles se foram vieram os;

3. pedreiros reformar as paredes outra vez. Pintaram, recolocaram os gessos, limparam o salão e se foram para;

4. que o pessoal da informática instalasse os cabos lógicos, logicamente arrebentando novamente as paredes, o gesso recém recolocado no teto, empurrando as mesas e os outros móveis, arranhando o chão já tão sofrido. Foram-se e;

5. voltaram os pedreiros para repintarem as paredes e recolocarem os gessos de volta ao teto. Sentado à minha mesa olhava aquilo entre desolado e histérico, roendo as unhas, quando olho para a porta;

6. os marceneiros chegam para retirar as persianas. Arrebentam as paredes na operação. No chão acumulam-se persianas e pedaços de cimento e gesso que caiu do teto. Horas depois chegam as faxineiras. Depois de tudo limpo;

7. voltam os pedreiros. Cimentam os buracos de onde saíram as persianas. Pintam outra vez as paredes e outra vez o gesso e recolocado no teto. Minhas unhas já se acabaram, acho que agora vão cair-me os cabelos. Pensando nisso vejo;

8. chegar o pessoal que vai passar cascolaque no chão de taquinhos dos anos quarenta (não perguntem o século). Saímos da sala e vamos embora para casa, afinal o cheiro é forte demais. No dia seguinte;

9. nem bem chegamos à repartição, nos damos bonsdiasecomovão, comentamos como o chão ficou bom, quando;

10. voltam os pedreiros para, agora, pintarem o teto!

2011/02/08

A MALDITA PERGUNTA

(É quando me pergunto se vale a pena ser educado)



- Acordei com trinta e sete graus e meio!

Respondeu o cão, quando por educação (sim a tenho), perguntei-lhe como estava.

Mordi os lábios, e discretamente amaldiçoei a hora que o encontrei. Tentei seguir em frente, mas ele segurou-me pelo braço, ( os chatos tem esse hábito!) e começou uma história sem fim e/ou sentido sobre tudo e sobre nada em especial (especialidade dos chatos), minto teve fim, quando por milagre a porta do elevador abriu-se e deixando-o a falar sozinho, entrei naquele cubículo espelhado, apertei o botão do terceiro andar, e fui.

Mas antes que o maravilhoso meio de transporte vertical chegasse, ouvi muito. Não entendi nada, deixei-me ficar em piloto automático e balançava a cabeça afirmativamente para cada frase, palavra, sentença, afirmações e negações que ele fez. Concordando, falsamente, com suas exclamações, balançava a cabeça com mais veemência ainda.

Com as mãos nos bolsos eu quase me castrava, sentia em meu íntimo, que quando a conversa terminasse, se terminasse, estaria eunuco...

Tudo isso por um simples:

- Tudo bem?

No bolso do meu blazer trazia um exemplar de “Ficções”, de Jorge Luis Borges, que ainda feliz com a vida, havia comprado num sebo onde passo religiosamente todos os dias.

Pergunto-me se isso tem alguma coisa a ver com a essa situação.

...e ainda gasto dinheiro comprando livros sobre realismo fantástico!

A Grande História Jamais Escrita!

Tinha a vontade de escrever uma história sobre uma terra que vivia sob a sombra de reis barbudos, severos, gigantes e belicosos.

Que viviam em lutas constantes, destruindo tudo à sua volta, não respeitando vilas, famílias plantações.

Espalhando a morte e a peste, doenças e pragas pelos quatro pontos cardeais.

Teria também nessa história, como costumam acontecer nessas narrativas, dragões cuspidores de fogo e devoradores de donzelas, muitas donzelas. Ah! Heróis também teriam a sua vez, haja vista que não durariam muito, afinal se lutar com gigantes não é moleza, imagine somado a essa miséria ainda tivessem dragões?

Muito e muito tempo se passaria até que alguém, talvez um estrangeiro, eles sempre fazem suas avarias por onde passam, daria um jeito nesses gigantes e dragões, e por fim se casaria com a última donzela do vilarejo, claro que ele teria ainda de esperar uns anos, que por causa dos excessos dos dragões, a última donzela estaria com sete anos de idade...

Já ficou imaginando as aventuras que o estrangeiro viveria!

Afinal ele teria que empregar seu tempo, paciência e energia em alguma coisa, enquanto a sua donzela estivesse crescendo.

Depois de matar gigantes, dragões, praticar um ou outro estupro (pense na donzela, como demoram a crescer!), roubo de cavalo, ele iria explorar outras vilas, outros países e quem sabe, procurar uma outra donzela menos complicada.

Sim seria uma grande história, com um pouco de boa vontade de minha parte, tornar-se-ia uma grande saga.

Mas a preguiça...

De mais a mais, tenho lá meus problemas com donzelas..

2011/02/03

A VIRGEM VITORIANA


“O velho sátiro entrou no quarto da mocinha, ela estava estendida na cama, lânguida e ofegante.
Na verdade a mocinha era uma fada, de asas tão diáfanas que pareciam com as de libélulas. Magra, fina, frágil e branca feito uma porcelana chinesa, ela tremeu ao ver a figura priápica, perdeu o fôlego e sorriu.
Seu sorriso excitou ainda mais a monstruosa figura que avançou e baixou lentamente seus cascos eqüinos, evitando assim qualquer barulho que chamasse a atenção dos guardas que ficavam do outro lado da porta.
Sua respiração fazia vibrar o ar à sua vota.
A fada agitava suas frágeis asinhas e também arfava fazendo com que as chamas das velas tremeluzissem e produzissem sombras fantasmagóricas.
A besta lentamente achegou-se aos pés do leito da donzela...”



Abanando-se com as folhas manuscritas, a virgem vitoriana, afogada em uma desconhecida agonia, dirige-se à janela de sua casa de grossas paredes de pedras. Na velha lareira uma acha de lenha estala assustando-a. Ela se vira para trás e pensa ver a sombra do velho sátiro, encosta-se na parte mais escura da sala, e entre amedrontada e ansiosa pede a Deus que sua criatura tenha conseguido fugir do reino da fantasia e venha resgatá-la dessa vida insossa e sem cor. Mas outro estalo da lenha levanta uma minúscula faísca, que mesmo assim produz uma luz fugaz o suficiente para iluminar a sala e fazê-la sentir-se uma idiota.

Abana-se com mais força, fazendo com que as folhas se espalhem pelo chão, mas ela não pensa em recolhê-las de imediato. Antes de tudo o mais precisa respirar, precisa urgentemente respirar e chamar uma aia para libertá-la do espartilho, soltar-lhe os cabelos, trazer-lhe uma jarra de água – água, não – uma jarra de vinho tinto – vermelho cor de sangue – sente que precisa recuperar a cor.

Da janela a virgem vitoriana olha para a vila lá embaixo no vale. Mas pouco poder ser visto a essa hora da noite, pois é noite de lua nova e uma névoa muito espessa cobre tudo. Ela fecha a janela a tempo de evitar que um morcego entre em sua casa.

- Um morcego! – ela murmura – um morcego iria muito bem à minha história. Volta à escrita, relê, toma da pena de ganso – que cria exclusivamente para isso – e volta escrever.

“A criatura meio-homem, meio-bode estica sua gigantesca mão em direção à virgem. Ela sofre de angústia, desejo, escrava de um desejo até então desconhecido. Seria o forte odor caprino do mitológico ser que a enfeitiçava? Seriam seus olhos negros feito carvão?”

Outro estalo da lenha a fez jogar a pena de ganso para o alto, e quase cair da cadeira, onde se sentava na beirada, vítima, ela também, do encanto de sua história.

E com o susto, ela acaba por esquecer de introduzir o morcego na história.

A virgem vitoriana resolve, enfim, chamar a sua empregada, e pedir uma jarra de água e outra de vinho tinto. Com uma mataria a sede e aproveitaria para limpar o suor que lhe brotava na testa, com a de vinho, recuperaria a cor e a coragem para seguir em frente com a história.

Somente bebendo ela poderia imaginar a consumação do ato de amor entre a Besta e a Virgem. Enquanto esperava a velha serviçal chegar ela aproveitou para acender mais velas, a criada não deveria pegar jamais uma dama vitoriana como ela sozinha com uma história contendo sátiros príapicos, alcova e virgens prestes a deixar de sê-lo. Ela era uma mulher vitoriana ciente de seus deveres sociais.

Passados poucos minutos, ela torna à sua pena de ganso (outra, pois aquela outra só seria achada anos depois do...- bem isso é outra história e eu não vou contar nada aqui) e à escrita. Como que possuída por mil demônios, escreve e bebe, escreve e bebe e de quando em quando, sacudindo a cabeça, ri.

Descreve com impressionante riqueza de detalhes as preliminares (que ela descrevia da lembrança de uma noite em que, procurando a chave das adegas, pegou sem querer sua serviçal namorando com o chacareiro, protegidos pelas sombras dos corredores da velha mansão), trinta e três páginas depois, ela finalmente chega ao momento da consumação, e...

Para.

Estaca.

Petrifica-se, pois não sabe como continuar a partir daí, afinal, desgraçadamente, ela é uma virgem vitoriana, velha e feia.

Por exaustivos minutos, ela escreve, rabisca, rasga as folhas e nada consegue produzir. Olha para o chão agora coberto de folhas amassadas e chora.

Chora frustrada, pois:

1. Desconhece as delícias do sexo, e;
2. Precisa chamar a aia para, (que humilhação!) perguntar-lhe o que acontece depois das preliminares.

Gemendo, amaldiçoa ser uma virgem vitoriana...

2011/01/31

CATEDRAL


Entro em uma igreja velha - e não antiga - no centro da cidade estilo Gótico tardio, comprida, longilínea, com torres em forma de pontas agudíssimas, quase um cenário para um filme de terror. Atravesso seu umbral e para meu desgosto, por obra de algum modernista inimigo da fé de meus amigos católicos, a vejo totalmente pintada de branco, suas longas paredes, seu teto abobadado, de um branco que quase ofusca aquele que, desavisado e despreparado, ali entra.

Naquele mesmo momento deu-me vontade de sair correndo. Meu espanto só fez aumentar quando percebi que os vitrais também haviam sido substituídos por vidros brancos e foscos, fazendo-me afundar numa brancura opressiva e agonizante. Nenhuma imagem se via lá dentro.

Onde fui à procura de paz, uma solução, um refúgio, só encontrei desespero...

Explico-vos.

Numa igreja, principalmente uma Gótica, tardia ou não, procuro a grandeza, seja de um Deus, um Universo sem fim, tão grande (os dois) que quero ver na minha pequenez uma porta que sirva de saída de minhas angústias, desespero...

De que me adianta achar-me igual a Deus ou o Universo, se não consigo resolver meros problemas cotidianos?

Afinal procuro por algo mais que possa me auxiliar nessa hora de necessidade.

Mas, mesmo desiludido e frustrado, resolvi ficar por ali mais uns instantes...

Perdi totalmente a vontade (ou a coragem?) de orar e clamar por ajuda, e me deixei vagar à procura de entendimento para aquilo. Quem teria a idéia de pintar a igreja de branco por dentro, não deixando um canto sequer no escuro?

Não havia mais o lugar para as velas (há em mim um clamor por fogos, tochas e velas, eco talvez da Idade Média...), e sim caixinhas com pequenas lâmpadas que são acesas com o “simples” depositar de moedinhas! Teria o autor de tal concepção a idéia de que em cantos escuros escondem-se demônios? Ou será que ele acha-se em “pé de igualdade” com o Criador e o Universo? Passou-lhe pela cabeça que nessa “obra”(?) ele estaria “olhando nos olhos dos “Gigantes” como um igual?

Respeito a arrogância, mas nunca o mal gosto!

Deixando essas divagações de lado, levanto-me para ir embora, mais triste do que quando entrei...

Procurei ali uma luz no “céu”, mas tudo o que vi foi um prédio, pintado de branco, me afastando da ilusão de ter “saído” do mundo real, da dureza do dia-a-dia, ali estava eu em mais um edifício ordinário, como se fosse um prédio de apartamentos, um conjunto de escritórios, ou seja, mais um prédio comercial como outro qualquer...

Quando entrei ali queria sentir-me pequeno, minúsculo, a ponto de achar que meus problemas eram ainda menores que eu diante de toda a criação, mas vi que eu era do mesmo tamanho, talvez só pouca coisa maior que o verme que concebeu a idéia de fazer aquilo ali dentro...

Não pensem que sou religioso, não sou, sou um ateu espiritualizado (ironia de minha parte?) que às vezes procura abrigo e que dessa vez não encontrou.

Uma vez lá fora, percebi que o sol era menos ofuscante que a pintura da igreja...

2011/01/25

CINQÜENTA ANOS

(só você meu cigarro, me compreende)


Cinqüenta anos...
E teimo com o trema
Cinqüenta anos...
E daí?
Meio século de vida...
Tartaruga vive mais que isso!
Cinqüenta anos...
Tantos sonhos
Perdidos
Outros tornados
Pesadelos
Perdi cabelos
Ganhei barriga
Umas rugas
Cinqüenta anos...
Vejam só...
Grande bosta
Vos digo, grande bosta!
Trocaria tudo o que aprendi
(quase nada vos garanto, quase nada)
Para ter de volta o tesão dos vinte!
Cinqüenta anos...
Nada no banco
nas mãos
Ou nos bolsos
Cinqüenta anos e
Sou o pesadelo dos cobradores
Dos planos do passado
(quase nada realizado...)
Sobrou-me somente contar os dias
Para a aposentadoria...
Cinqüenta anos...
Cheguei à idade em que nos jornais
Não leio mais as manchetes
Mas o necrológio
Torcendo para não ver o nome de nenhum amigo...
(cinqüenta anos prá quê?)
Cinqüenta anos
Nunca esperei por isso, nunca!
Aos dezoito bradava:
Morrer aos trinta e cinco, aos trinta e cinco!
Não me perguntem por quê...
Mas ultrapassei a data limite e cheguei aos
Cinqüenta anos!
Os amigos de chopes diminuíram
Uns por pressão alta
(o sal das batatinhas)
Outros diabetes
(o açúcar das caipirinhas)
Outros por causa da barriga
Outros...
Cinqüenta anos...
Não vejo nisso uma vitória, não...
A memória (caridosa?) fez-me esquecer
As grandes aspirações
Mas ainda funciona para os horários dos remédios...
(um empate com sabor de derrota)
Cinqüenta anos...
Não quero comemorações!
Não quero presentes!
Não quero tapinhas nas costas!
(até porque me ataca a tosse)
Quero o mesmo esquecimento,
Que experimento um pouco todos os dias...


QUE A MORTE, DIFERENTE DA VIDA,
SEJA RÁPIDA E INDOLOR!
TIM TIM!

2011/01/21

VAIDOSA


(ou não fodas mais com a vida do meu amigo!)


hoje cansei
chateado com
lero-leros
conversas fiadas
palavras vazias jogadas ao ar
dei um basta
o momento crucial do:
dá ou desce!
fartei-me - talvez demasiado tarde -
das lágrimas
(em pixels)
das ladainhas
(fonte branca sob fundo negro)
das ânsias virginais
(aqui empregado só como ilustração)
das dúvidas infantis
cansei das “causadeiras”
das que publicam –impunemente:

“- não sei se dou, não sei se não dou...”
“- ele me amará com eu o amo?”
“ – oh! Meus leitores que devo fazer com ele?”

ora a vida passa
(rasteira na gente)
tão rápida
ligeira
vertiginosamente
e vocês falsas amantes de meio-período
falsas julietas de subúrbios
rapunzels de aplique
vampiras de nossa paciências
carpideiras renitentes...
hoje cansei
dei basta
sacrifiquei o resto de minhas forças
e dei uma basta.
não me incomode mais com suas
misérias falsamente existencialista
o que você quer é
palhaçada
(me desculpe ai Paiação
por tal expressão)
o que você quer é
se exibir às suas iguais
(pobre mundo esse que pastamos!)
o que você quer é
um homem para exibir
no picadeiro
em que você transformou a sua miserável
vida
em que és:
a mestre de cerimônias
bilheteira
vendedora de pipoca
a vaidosa domadora
de um leão sem dentes
sem amor-próprio
sem sombra...
esse circo acabou hoje para mim
que o fogo consuma essa lona
sem graça e sem cores
me pergunto até quando
sua vaidade homicida se alimentará
de dessas almas perdidas
desnorteadas e desamadas?
o que mais você fará para
alimentar a sanha
louca de seus leitores?
Viciados que estão em sua miséria cotidiana?
malditos sejam todos!
cada um!
cada seguidor!
cada um vocês bebedores!
desse fel hedonista!
desse sangue frio e aguado
que jorra dessa doentia vaidade!
Basta!
Estais excluída de meus favoritos...


2011/01/20

A PESCA

Enrolava a linha em volta da garrafa, molhada e já cheirando a mar, pescava com linhada, que dava mais prazer que vara e carretilha.

Rodou sobre a cabeça a chumbada, deu uma, duas, três voltas no ar e lançou-a ao mar.

Esperou uns minutos, nada dos peixes beliscarem a isca. Tornou a puxar a linhada, enrolar na garrafa e lança de novo n’água.

Assim passou toda a tarde.

Não tinha pressa nenhuma de voltar para casa. Olhou em volta procurando o cachorro, e o viu correndo atrás de gaivotas, latindo feliz da vida, indo e vindo atrás das aves. Só se ouvia o barulho das ondas e o latido do cão. Isso era bom, e sorria pensando no alvoroço que deveria estar em sua casa a essa hora. Gente falando alto, crianças correndo, os velhos gritando para se fazerem ouvir.

Suspirou e jogou a chumbada de volta à água, a linha corria e espalhava água salgada para os lados, nesse momento tocou o celular, viu que era a mulher procurando por ele.

Pensou se deveria atender ou não.

Não atendeu.

- Parou de tocar, - vai ver a mulher cansara de esperar que ele atendesse.

Recolheu a linha mais uma vez, nada de peixe, só água salgada e algumas algas. O cachorro continuava a correr atrás das infelizes gaivotas, estava molhado e sujo de lama, teria que tomar banho quando voltasse para casa.
Sorriu outra vez vendo a imensa alegria do cão. Novamente o celular tocou, sem pensar, quase como um reflexo, jogou o parelho no mar, em segundo depois arrependeu-se, teria que comprar outro agora.

- Mas que diabo a mulher tinha que ligar tanto?

Recolheu a linha, estava mais desanimado ainda com a pescaria. Não estava lá só para pescar, queria mesmo era ficar sozinho com seus pensamentos, os peixes seriam um bônus, mas essa chamada insistente da mulher...

Colocou o camarão no anzol, girou a chumbada sobre a cabeça e arremessou o mais longe possível, e esperou. Para seu espanto a linha deu um tranco, e ele imediatamente começou puxá-la.
Puxou, puxou e por fim na ponta da linha aparece um peixão, o cachorro parou a sua tola correria e veio ver o que o dono tinha conseguido, sentou-se ao seu lado abanando o rabo, quando o dono coçou-lhe a cabeça e as orelhas.

O sol começa a se pôr, o dono pergunta ao cachorro se deve continuar tentando mais um peixe antes de voltar para casa, em resposta o cachorro sai correndo para se divertir com as gaivotas.

O velho sorrindo começa a enrolar a linha em volta da garrafa...

2011/01/17

saudade
suas fotos antigas
liguei
-caixa postal-

lembrança
suas fotos em minhas mãos
e deu caixa postal

falta
suas fotos amassadas em minhas mãos
maldita caixa postal
-não deixo mensagem

raiva
suas fotos picadas pelo chão
caixa postal
o celular contra a parede


2011/01/14

Constatação

Ser solitário é:
Tomar café sozinho num balcão imundo de um botequim e ter por carinho - o único do dia - a tragada do cigarro.

2011/01/10

Constatação Preocupante....

Na sala pessoas rindo, copos vazios, pratos sujos, garrafas pelo chão, alegria; no quarto a mulher se tranca a ler Clarice Lispector.

2011/01/06

CELESTINO

DRAMA RELÂMPAGO E METAFÍSICO



Som de choro, soluços e fungadas de nariz.
A mocinha, vamos chamá-la de Eleonice, ainda esfrega o rosto da última bofetada.
Começa a chorar, quando a porta da sala é aberta de forma brusca e entra Jurandyr Tosco.

Jurandyr Tosco – Eleonice, o que te aconteceu?

Eleonice – O Celestino esteve aqui hoje e... - Empurrando os cabelos louros para trás, chora e gagueja.

Jurandyr Tosco – Celestino? Aqui? Como você pode permitir que ele atravessasse o umbral de nosso lar? – irado, ele grita – eco.

Eleonice tenta falar algo, mas é interrompida por uma outra bofetada violentamente desferida em seu rosto por Jurandyr Tosco, aumentando ainda mais o hematoma sob o olho direito.
Ela cai ao chão e rola até ser amparada pela parede pintada de amarelo canário do quarto de visitas, derrubando pelo caminho a mesinha de centro, vinte e dois bibelôs de cristal, uma ou duas cadeiras de cana da índia e por fim uma replica de o Triunfo da Morte de Bruegel, comprado numa feira de praia...
Jurandyr Tosco, chocado com a destruição dos bibelôs, presente de sua mãe para Eleonice, destrói todos os CDs e DVDs de Celine Dion que Eleonice tocava na hora em que ambos faziam amor. Antes de sair do apartamento, ele dá uma última olhada na mulher caída no chão coberta de cacos de cristal e uma tela atravessada na cabeça.

Jurandyr Tosco – Pobre Bruegel, sempre achei que você merecia sorte melhor. Ele sai e bate a porta.

Som de porta batendo.

O vizinho do terceiro andar reclama do barulho e ameaça começar uma confusão logo resolvida pela violência inerente de Jurandyr Tosco.

Eleonice– Jurandyr, esse teu mau gênio será o nosso fim... – fala chorando

Fim do Primeiro Ato

SEGUNDO ATO


Eleonice – Ainda chorando e maquiando o olho inchado – Pleno Segundo Ato e ninguém faz idéia de meu drama.

Toca o telefone.

Ela dirige-se à mesinha caída no chão e atende o aparelho.

Eleonice - Alô¬? Quem fala?

Toca a campanhinha, o fax dá sinal, a televisão liga sozinha, o vizinho do terceiro andar reclama, as flores nos vasos murcham, e a unha do de dedo anular direito quebra.
Eleonice – Minha unha nããããão – terminem esse ato, terminem esse ato, por favor. Uma voz poderosa vinda de todos os lugares responde.

Voz – Não! The Show Must Go On!

Eleonice – chorando - por favor mudem esse roteiro, aqui eu só sofro, choro, apanho, e acabaram de destruir meu cenário no primeiro ato. Por favor, eu sou linda, rainha da laje 2009, eu mereço o melhor, o melhor, o melhor – ri loucamente...

Voz – Luzes... Apaguem!
Som de objetos caindo.

Eleonice – Força Superior, eu te odeio, eu te odeio, entenda bem isso, eu te odeio.

Som de porta sendo chutada.

Entra Jurandyr Tosco mais furioso que o seu normal.

Jurandyr Tosco – Eleonice, responda-me o que eu estou fazendo aqui? Eu estava no aeroporto, quase embarcando no avião e quando dou por mim o que acontece? O que acontece é que me vejo entrando nesse apartamento, nesse maldito apartamento onde você me traiu com o Celestino.
Música dramática.

Eleonice – eu nunca o trai com o - interrompida por outra bofetada de Jurandyr Tosco.

Ela cai sobre a mesinha do telefone outra vez , mas em vez de chorar agora ela ri, ri e gargalha histericamente.

Jurandyr Tosco – Com essa gargalhada devo entender que você admite ter me traído com o Celestino?

Eleonice – rindo e corando ao mesmo tempo - não, Jurandyr, rio sim, mas rio de meu destino. Saiba você, Jurandyr Tosco, que há muito mais mistério entre o céu e a terra que pode entender sua vã – interrompida por outra bofetada de Jurandyr Tosco.
Jurandyr Tosco – Quantas vezes já lhe falei para nunca, nunca e nunca me chamar de ignorante! – Dá-lhe outra bofetada e sai do apartamento.
Som da porta batendo e voz do vizinho do terceiro andar reclamando do barulho, seguido de som de porradas.
Eleonice – gritando - Ok, ok, você me provou que existe uma força superior, que você pode mandar no meu destino, destruir minha vida quando bem entender, e daí? Me responda, o que você quer provar? Me diga!

Voz – Eu não me reporto a ninguém, não me explico a ninguém, sou um ser superior, muito superior a você, sua criaturazinha inferior e ridícula.

Som da porta da sala sendo aberta outra vez, e outra vez entra Jurandyr Tosco.

Jurandyr Tosco – Eleonice, não quero mais te dar porrada, tenho um avião para pegar e nunca mais quero ver a sua cara e esse apartamento onde você me traiu com o Celestino.

Eleonice – Mas é que, Celestino – outra vez interrompida por outra porrada de Jurandyr Tosco.

Jurandyr Tosco – gritando - Nunca mais pronuncie esse nome na minha frente, nunca mais.
Eleonice – Jurandyr, você não está entendendo – interrompida por um chute.

Jurandyr Tosco – furioso – Não me chame de ignorante, não me chame de ignorante, já te pedi, não me chame de ignorante – chuta o que restou da mesinha de centro – som do aparelho telefônico caindo ao chão.
Eleonice – Jurandyr, entenda que somos meros fantoches nas mãos de seres superiores, não somos donos de nosso destino, não temos livre arbítrio nenhum, tem alguém lá em cima – interrompida por outra porrada.
Jurandyr Tosco – Então é lá em cima que o celestino está morando? O sacana mudou-se pro quinto andar? Tá aí um lugar que eu nunca pensaria em procurá-lo – interrompido por Eleonice.

Som de outro chute.

Jurandyr Tosco – Nunca me interrompa, tenho poucas falas nesse drama e você ainda me interrompe?

Eleonice – É isso mesmo Jurandyr, isso aqui é um drama, um drama escrito por uma entidade muito superior que nós todos, tanto os que estão aqui deste lado como os que estão nos lendo, vendo ou ouvindo agora.

Jurandyr Tosco – nervoso – Pare com essa conversa, mulher, para agora, você está tentando me confundir.
Eleonice – Se é verdade que eu quero te confundir, suba até o quinto andar, procure pelo celestino.. - interrompida por um soco de Jurandyr.

Jurandyr Tosco – eu sabia que se te apertasse bastante você se entregaria. Então é aqui em cima mesmo que mora o tal do Celestino. Pois vou lá agora acabar com esse miserável.
Jurandyr Tosco sai intempestivamente batendo a porta e fazendo o vizinho do terceiro andar reclamar. Logo ele volta, nervoso e chutando a porta, que dessa vez cai definitivamente.
Jurandyr Tosco – Eleonice, nesse prédio não tem quinto andar. Me diga onde mora esse Celestino, me diga logo, eu tenho um avião prá pegar e eu perder esse vôo nem sei do que sou capaz de fazer. Me diga onde eu encontro o Celestino?


FIM DO SEGUNDO ATO


TERCEIRO E DERRADEIRO ATO
Deus ex-machina



Eleonice – Ok Celestino, ok, você provou seu ponto de vista O Jurandyr é a besta que você falou, ele é limitado, irracional e incapaz de compreender algum coisa metafísica, e que eu tenho muita resistência física, mas não vou me dedicar o Box-tailandês.

Jurandyr Tosco – Com quem você esta falando, ficou louca de vez? Para de falar com o teto! Eleonice, com quem você está falando? – Demonstrando medo pela primeira vez nesse drama - Que história é essa de se dedicar ao Box-tailandês?

Eleonice – Agora que você provou que está certo, será que você poderia dizer pro Jurandyr quem é o celestino?

Voz – Jurandyr – que corre a se esconder sob o que sobrou do sofá – Jurandyr Tosco, eu só fiz uma aposta com a Eleocine, que você irracional como é nunca compreenderia um drama metafísico como esse. Você foi uma falha na minha produção, mas antes de descartar-te resolvi provar que você realmente não tinha solução, e assim sendo, decido que vou apagá-lo desse texto, a partir de agora você não existe mais.

Toca a campainha e Eleonice, desligando a televisão, levanta-se para atender.


FIM

CATEDRAL



Entro em uma igreja velha - e não antiga - no centro da cidade estilo Gótico Tardio, comprida, longilínea, com torres em forma de pontas agudíssimas, quase um cenário para um filme de terror. Atravesso seu umbral e para meu desgosto, por obra de algum modernista inimigo da fé de meus amigos católicos, a vejo totalmente pintada de branco, suas longas paredes, seu teto abobadado, de um branco que quase ofusca aquele que, desavisado e despreparado, ali entra.

Naquele mesmo momento deu-me vontade de sair correndo. Meu espanto só fez aumentar quando percebi que os vitrais também haviam sido substituídos por vidros brancos e foscos, fazendo-me afundar numa brancura opressiva e agonizante. Nenhuma imagem se via lá dentro.

Onde fui à procura de paz, uma solução, um refúgio, só encontrei desespero...

Explico-vos.

Numa igreja, principalmente uma Gótica, tardia ou não, procuro a grandeza, seja de um Deus, um Universo sem fim, tão grande (os dois) que quero ver na minha pequenez uma porta que sirva de saída de minhas angústias, desespero...

De que me adianta achar-me igual a Deus ou o Universo, se não consigo resolver meros problemas cotidianos?

Afinal procuro por algo mais que possa me auxiliar nessa hora de necessidade.

Mas, mesmo desiludido e frustrado, resolvi ficar por ali mais uns instantes...

Perdi totalmente a vontade (ou a coragem?) de orar e clamar por ajuda, e me deixei vagar à procura de entendimento para aquilo. Quem teria a idéia de pintar a igreja de branco por dentro, não deixando um canto sequer no escuro?

Não havia mais o lugar para as velas (há em mim um clamor por fogos, tochas e velas, eco talvez da Idade Média...), e sim caixinhas com pequenas lâmpadas que são acesas com o “simples” depositar de moedinhas! Teria o autor de tal concepção a idéia de que em cantos escuros escondem-se demônios? Ou será que ele acha-se em “pé de igualdade” com o Criador e o Universo? Passou-lhe pela cabeça que nessa “obra”(?) ele estaria “olhando nos olhos dos “Gigantes” como um igual?
Respeito a arrogância, mas nunca o mal gosto!

Deixando essas divagações de lado, levanto-me para ir embora, mais triste do que quando entrei...

Procurei ali uma luz no “céu”, mas tudo o que vi foi um prédio, pintado de branco, me afastando da ilusão de ter “saído” do mundo real, da dureza do dia-a-dia, ali estava eu em mais um edifício ordinário, como se fosse um prédio de apartamentos, um conjunto de escritórios, ou seja, mais um prédio comercial como outro qualquer...

Quando entrei ali queria sentir-me pequeno, minúsculo, a ponto de achar que meus problemas eram ainda menores que eu diante de toda a criação, mas vi que eu era do mesmo tamanho, talvez só pouca coisa maior que o verme que concebeu a idéia de fazer aquilo ali dentro...

Não pensem que sou religioso, não sou, sou um ateu espiritualizado (ironia de minha parte?) que às vezes procura abrigo e que dessa vez não encontrou.

Uma vez lá fora, percebi que o sol era menos ofuscante que a pintura da igreja...

2011/01/05

É triste eu ter que explicar isso...

Minha felicidade não é ébria, ébrio sou eu (quando sobra algum para o uisquinho)!
joguei fora as palavras
todo o sentido
todos os sentidos
a lógica
a razão
meus pensamentos vagueiam
espalhados pelo vento
nada mais penso
nada mais quero
acendo um cigarro
e dou o primeiro passo
sigo em frente
até um muro me pare
um buraco me engula
ou o diabo que me carregue

BRAGUEANDO

A árvore do vizinho caiu, (envenenada lentamente por seu proprietário, pois ela teimava em jogar folhas no quintal) agora onde meus sanhaços e bem-te-vis vão cantar?

2011/01/04

AQUELES OLHOS AZUIS

- Oi! Você é nova por aqui?
- Acabei de chegar..., aliás, onde “é aqui”?
- Não se preocupe, no começo ficamos assim mesmo, desorientadas, perdidas, tentando entender o que aconteceu.
- Não consigo entender nada, afinal onde estou?
- É melhor darmos uma volta antes de começar a te explicar “os ondes, comos e porquês”. Eu mesma já perdi a conta de quanto tempo estou aqui, acho que fui uma das primeiras a chegar – coça a cabeça - faz tanto tempo me Deus...
- Onde estou? – Assustada, começa a chorar.
- Calma, calma. Você ainda está em choque, vamos dar uma volta, conhecer outras mulheres e quando estiver calma, todas nós te explicaremos o que houve. Começam a andar.
- Mas aqui é tudo igual. Não tem paisagem, não tem cor, flores, perfumes, nada, nada, nada.

Começa a desesperar-se.

- Eu morri! Oh meu Deus! Eu morri é isso não é? Estou morta, morta, morta...! Por isso esse lugar é assim. Estou no limbo, no “grande nada” por toda a eternidade esperando pela....- antes de terminar é interrompida.
- Não! Não é nada disso que você está pensando. Veja – diz apontando para frente –, vamos até ali, vou te apresentar a Luciana.

Caminham, e como lá não há referências espaciais, não sabemos se andaram muito ou pouco.

- Luciana, essa aqui é a nossa nova amiga, acabou de chegar.
Luciana dá um longo suspiro, olha para a recém-chegada com um olhar triste, abraça-a, passa a mão pelos seus cabelos.
- Como você é jovem, qual é a sua idade?
- Dezenove...

Luciana, demonstrado grande apreensão, olha para a outra mulher e comenta.

- Elas estão chegando aqui cada vez mais jovens...
- Pobrezinhas... Ela pensa que morreu, que está no purgatório...
- Criança... – diz Luciana – criança, como isso pôde acontecer...? Não, não responda, essa pergunta é retórica...
- Você poderia explicar em poucas palavras o que lhe aconteceu para que ela pare de pensar que está morta e no purgatório? Já fiquei nessa função por muito tempo e não tenho mais paciência para isso. – Diz a primeira.
- Venha minha criança, vamos caminhar mais um pouco e por favor, não precisa nos dizer que andar aqui não dá em lugar nenhum, há muito tempo que sabemos disso...

As duas mulheres riem dessa grosseira constatação.

- Qual a sua última lembrança? Pense bem antes de responder. Qual a sua última lembrança?
- Estava andando num shopping com minhas amigas, quando... – interrompida pelas duas.
- Quando você viu um homem lindo, de não menos lindos olhos azuis. – falam juntas as duas mulheres.
- Sim! - responde a menina. Nunca vi um homem mais lindo em toda a minha vida e, aqueles olhos azuis...- angustiada.
- Me deu uma vontade de...
- Mergulhar dentro deles, não é? – perguntam as duas juntas.
- Sim, isso mesmo. Como vocês descobriram? – Pergunta espantada.

Tristes, as duas, outra vez, falam juntas:

- É onde você está agora!

DISCUSSÕES FILÓSOFICAS

- O que você entende? O Que você entende? – pergunta raivosa a moça loira para a morena sentada ao seu lado.

- Ora essa você pega um livrinho desses e já começa a bancar a professora para o meu lado, me responda você o que entendeu da mensagem do autor, vamos, vamos...

Os gritos ecoam pela escadaria, só parando quando as duas fazem:

- Psiu, psiu, psiu...

- Hei! Hei!


Passado dois segundos, começam a bater boca outra vez.


- Descartes, por vezes chamado de "o fundador da filosofia moderna" e o "pai da matemática moderna", é considerado um dos pensadores mais importantes e influentes da História do Pensamento Ocidental. Inspirou contemporâneos e várias gerações de filósofos posteriores; boa parte da filosofia escrita a partir de então foi uma reação às suas obras ou a autores supostamente influenciados por ele... – ta aqui na quarta capa. Vê! – aponta o livro para amorena de tranças aplicadas e levemente loiras.

- Sim, já li, mas o que ele deixou para a posteridade? –desdenha.

- Muitos especialistas afirmam que a partir de Descartes inaugurou-se o racionalismo da Idade Moderna.

- Sim, mas e daí? O que é um René Descartes diante do meu dinamarquês loiro e lindo do Soren Kierkegaard...

- Racista – grita a loira – Você só se liga no Soren por que ele é dinamarquês. Pensa que todo marinheiro loiro é escandinavo. Sua besta existencialista...


Quando a morena ia retrucar, já com as unhas prontas para rasgar o rosto maquiado da loira, interrompem a discussão outra vez para:

- Psiu! Psiu!

Voltam.

- Eu não sei a razão de ainda sentar ao teu lado. Você não me compreende. – resmunga a morena, agora lixando as unhas. – Vou embora daqui, não vou mais perder meu tempo discutindo com uma cartesiana de terceira...


Pega bolsinha e começa a subir a escadaria, quando ouve a loira:


- Ei, psiu! Ei mocinho bonito vamos fazer um nenê?

- Não sei como ainda trabalho nesse hotelzinho. – reclama a morena, que fecha o livro “O Conceito De Ironia Constantemente Referido A Sócrates” – e ameaça jogar o volume no auxiliar de pedreiro que sobe as escadas de mãos dadas com a loira, que contando os trocadinhos, faz um muxoxo para morena e fala-lhe baixinho:

- Sou cartesiana sim, mas me dou melhor que você sua existencialista de beira de cais!


A morena faz menção de usar a lixa de unha como estilete, mas na rua passa outro possível freguês, ela desce as escadas correndo e fazendo:


- Psiu, ei psiu...


Envergonhado Kierkegaard, fica corado na quarta capa do livro...

2011/01/03

Vejam isso, click

O CANDITADO E SEUS ASSESSORES

DRAMA RELÂMPAGO




Cenário:
Uma sala pequena, num canto há uma pia, lá um homem candidato a um cargo eletivo lava as mãos e gargareja, depois de mais um discurso prometendo mundo e fundos aos pobres eleitores

(sons de gargarejo)

Candidato – (nervoso e com nojo) (som de água saindo da torneira) Mais sabão! Mais detergente! Mais sapólio! Mais querosene. Mais gasolina! Rápido, me tragam um esmeril! Uma escova de aço!

Assessor 1- Mas senhor! Assim o senhor vai acabar comas suas mãos...

Candidato - Que mão? Que mãos? Eu estou usando luvas!

Assessor 1- Mas se o senhor está usando luvas para quê quer todos esses produtos?

Candidato - Para poder usar as minhas mãos. Não tocarei com minhas mãos em nada que essas luvas tocaram nada!

Assessor 1- Se o senhor quiser posso tirá-las.

Candidato - Então, por favor, faça isso.


O assistente retira-lhe as luvas e joga-as num duto que em serão incineradas.


Assessor 1 - Pronto agora o senhor está livre dessas imundícies.

Candidato - E você está despedido. Fora! Saia da minha frente! – grita virando-se para a parede. Saia, não estou conseguindo respirar por sua causa, saia, saia já.


O assistente assustado sai correndo da sala, no corredor tromba com outros dois assistentes que entram correndo.


Candidato – Telefonem para aportaria e mandem eliminá-lo. Apaguem o nome dele do sistema. Quero que ele nunca mais tenha existido!

Assessor 2 - Sim senhor. – o assessor vai para o canto da sala e (som de teclados de celular) liga para a portaria.

Assessor 3 – Senhor. Telefone.

Candidato – Quem é?

Assessor 3 – O senhor tem mais uma inauguração.

Candidato – Inauguração de quê? Creche? Escola pública? Parque? Campo de futebol? Pontes?

Assessor 3 - Não senhor. Agora o senhor vai inaugurar... - interrompido pelo candidato.

Candidato – Não importa o que vou inaugurar! Não importa! Assessor nº 2.

(Som de algo caindo no chão, vento forte, som de derrapada)

Assessor 2 – Sim senhor candidato.

Candidato – Vá ver quantas pessoas têm reunidas para a essa outra inauguração. Conte quantas mulheres, crianças, homens, velhos, velhas, doentes e sãos. Depois calcule quanto vou precisar de produtos de limpeza para minhas mãos.

Assessor 2 – Sim senhor! (som de vento e porta batendo)

Candidato – Minhas luvas de borracha. Minhas luvas de amianto! Minhas luvas de soldador! Meus antibióticos! Meu tubo de oxigênio de bolso.

Assessor 3 – Tudo aqui senhor!

Toca o telefone

Assessor 3 - Senhor. O Assessor nº 1 já foi eliminado.

Candidato - Ótimo.

Toca o telefone outra vez.

Assessor 3 - Má notícia senhor.

Candidato – (nervoso) O que foi agora?

Assessor 3 – A viúva junto com os cinco filhos, engrossou a fila dos pedintes aí na frente do prédio...

Candidato – (tossindo muito) Meus antiácidos.

Vozes vindas da rua começam a tomar o ambiente





CAI O PANO

O PERSONAGEM RENITENTE


O sol brilhava no céu azul, nada havia no mundo que pudesse estragar esse dia tão formidavelmente maravilho. Nada.
Um vento suave entrava pela janela balançando as cortinas, desenhando sombras etéreas no chão recém encerado.
O doce perfume das flores do jardim, docemente invadiam o ambiente.
Aquilo era uma pintura de pura perfeição.
Então delicadamente, ele puxou a arma e disparou um único e fatal projétil contra a cabeça.
Então aquele fio vermelho desenha um contraste nesse quadro.
Não! Não era isso que eu queria escrever. Vamos tentar outra vez.
Praia.
Verão quente, gente bronzeando-se na areia, vendedores de sorvetes, crianças jogando bola e correndo para a água, correndo da água, fugindo dos pais, procurando os pais. O caos do verão.
Sentado em sua cadeira,empastelado de protetor solar, boné, óculos escuros, ele tenta sem sucesso ler o jornal. Tem a seus pés um copo de caipirinha, uma raquete de frescobol e o aparelho celular desligado.
Vindo da calçada, uma loira fenomenal passa por ele, que finge que não vê ou não vê mesmo, pois ainda continua absorto lendo o jornal. Todos à sua volta param o que estão fazendo para ver a deusa semi-nua que desfila em direção a água.
Uma bola chutada por uma criança arrebata-lhe o jornal das mãos. Enfurecido ele olha para o lado de onde veio a bola, levanta-se e sacando uma arma que mais tarde as testemunhas dirão "sabe-se lá de onde saiu", dispara um único e fatal tiro na cabeça.
Não! Não era para sair assim! Vamos tentar outra vez.
O restaurante está cheio, são nove horas da noite, os casais estão jantando, outros namorando, não há mais nenhuma mesa vazia. Ele está sozinho, olha para o relógio. Helena está quarenta e sete minutos atrasada. Helena nunca chega na hora, ela é uma retardatária convicta e crônica.
Ele já está na segunda garrafa de vinho, um espumante italiano, tinto. Ele tem certo receio de vinhos tintos, eles sempre acabam por manchar alguma peça de sua roupa. O garçom, já sem graça, pergunta pela terceira vez se ele quer fazer o pedido, já sabendo que a resposta será não.

- Não. - ele responde, mas como está escrito na linha de cima, o garçom já esperava essa resposta.

Ele bebe o vinho do copo num gole só, e serve-se mais uma vez, esvaziando a garrafa. Faz sinal ao garçom pedindo outra, olha para o relógio e irrita-se. Hoje Helena passou das contas.

Tamborila com os dedos no tampo da mesa. O garçom chega, enche-lhe o copo, que ele sorve de uma vez só deixando os outros fregueses constrangidos, e bate com o copo com tanta força na mesa, que ele parte-se em pedaços.

E enquanto os casais, os garçons e a menina da chapelaria tentavam entender o que estava acontecendo, ele saca do bolso do paletó uma pistola, e num átimo, dispara um único tiro na fronte, morrendo imediatamente, estragando a noite de todos os que lá estavam, deixando particularmente preocupado o garçom, que perdera um ótimo freguês e a caixinha da noite, e intuindo que passaria longas horas prestando depoimento na delegacia.
Não! Mas que diabo! Esse sujeito me larga no meio da história?
Vamos tentar mais uma vez....
Terminado (fica melhor) o espetáculo, as pessoas saem felizes do teatro. A peça, uma comédia ligeira, servira para desanuviar a cabeças das preocupações por duas horas. Duas horas em que tudo que precisaram fazer foi rir, rir sem preocupações, rir das situações e apuros dos personagens no palco, pois sabiam que antes do fim do espetáculo, tudo ficaria bem. Todos seriam feliz para sempre, com cortina descendo e orquestra tocando.
Da platéia veio o aplauso, flores foram jogadas aos atores principais. Fim.
Abraçados os casais saem em direção às suas casas, a restaurantes, a andar na praça e rir. Mas ele, ele foi o último a deixar o prédio, sai meditabundo, cabisbaixo, parece não ter se divertido com a comédia, mais parece ter saído de um velório.
Saiu em passos lentos, com as mãos nos bolso e o olhar triste. No que pensava ele? Que tristes lembranças assolavam essa pobre alma?
Antes de atravessar a rua, tirou um cigarro do maço que trazia no bolso do blazer, acendeu, deu uma baforada para o alto, talvez com a intenção de, com a fumaça, cobrir as estrelas que brilhavam no céu.
Tossiu e tornou a por no bolso e...

...antes que esse miserável resolva matar-se outra vez, escrevo:

FIM

DUAS PARTES

Estou aqui tarde da noite, sentado em frente ao computador, tendo por companheiros a noite fria, um charuto e uma xícara de café.

Na cabeça, fantasmas de histórias que teimam em me assombrar e que se recusam a vir para os teclados...

Antes de vir para cá fiquei virando na cama, tentando dormir. Soquei o travesseiro, virei de um lado para outro, e dentro da minha cabeça as palavras se formavam, as histórias aconteciam, os personagens nasciam.

Sonado, vim para cá e nada me ocorre, nada me vem, fui abandonado pelos personagens e me esqueci das histórias a serem contadas.

Fico aqui a teclar à espera de que algo surja, mas pelo andar dos ponteiros do relógio acho que a madrugada já está perdida, e curto a insônia vendo TV...

Preciso arrumar uma forma de me livrar dessas assombrações que me perseguem todas as noites. Por que, quando deitado, quase dormindo, as histórias se formam de um jeito claro? As personagens aparecem tão sólidas, críveis, palpáveis e verossímeis? E quando, desperto, saído debaixo das cobertas tão quentinhas e vindo encarar esse monitor, tudo se esvai com num sonho?

Minha história deveria começar com a narrativa do personagem principal:

- Senti uma pontada no peito... Achei que estava enfartando e pus a mão com força sobre a camisa pressionando o coração. Achei que fosse desfalecer tão aguda era a dor, mas para meu estranhamento percebi que foi um corte. Alívio! Não era enfarto. De alguma forma havia me arranhado com alguma coisa e só agora estava sentindo a dor... Na primeira oportunidade fui ao banheiro para ver o tamanho do machucado. Diante do espelho tirei o paletó, a camisa, a camiseta regata e vejo para meu espanto o tal machucado em meu tórax... Por mais que eu imaginasse o pior – sou um pessimista fatalista – nada até aquele momento havia me preparado para aquilo. Não havia ali uma picada de inseto, um arranhão ou mesmo um corte – que por si só já seria um tanto complicado de se explicar e entender - o que eu via ali era uma, uma, uma..., uma rachadura! Sim uma rachadura, uma trinca, como dessas que vemos nas paredes das casa velhas e abandonadas. Ela, a trinca, vinha da altura da clavícula e descia quase três dedos abaixo do mamilo esquerdo. Fiquei ali boquiaberto, vendo a “rachadura” em meu peito, tentando entender como aquilo poderia estar acontecendo... Já não doía. Aliás, nem posso chamar, agora, a pontada que senti de dor, foi mais como um beliscão. A imagem daquela greta no peito me deixava anestesiado para qualquer coisa. Tudo o que queria agora era ir embora para casa. Mas o que dizer ao chefe? Simplesmente dizer a ele que meu peito “rachou” e que precisava ir embora para remendar e passar uma massa corrida não ia pegar bem... Resolvi, então, sair sem avisar ninguém, de casa, quando chegasse, daria uma desculpar qualquer, “mataria” alguém de família ou sei lá o quê eu conseguisse improvisar...

Entrei em casa correndo e fui direto para o banheiro, precisava rever o meu peito. No caminho tive a impressão que as canetas que trazia no bolso da camisa estavam entrando na rachadura. – Absurdo! – Gritei para mim mesmo, chamando sem querer a atenção dos outros passageiros no ônibus. No banheiro, arranquei as roupas quase rasgando, botões voando e ricocheteando nos ladrilhos e quicando no chão.

- Não! Meu grito deveria ter sido algo assustador, medonho, gutural, um grito vindo das estranhas do homem de Neanderthal que carregamos dentro de nós. Mas o que saiu de minha garganta foi um soluço. O que vi refletido no maldito espelho me tirou o fôlego antes de gritar. A rachadura agora descia até a minha cintura, e logo chegaria à minha pélvis. E sim, agora tive a certeza que as minhas canetas estavam mesmo entrando no buraco do peito. O horror com que olhava para o meu peito era tanto que me fazia ignorar a falta da dor lancinante que tal machucado deveria me causar e a perda de sangue que já deveria ter me matado... Mas o horror, o horror me paralisava e me desligava desses detalhes. O que me impediu de passar o resto de meus dias boquiaberto diante do espelho foi o ruído seco, baixo e discreto que vinha de meu peito. Era como uma barata roendo papel, um roc-roc-roc grave, baixo, que logo percebi se tratar do som de meu corpo dividindo-se ao meio. Aparvalhado via o corte crescendo e descendo, dividindo-me em dois lentamente...

Logo nada de mim restaria... Nada? Permitam-me corrigir isso. Logo duas partes de mim, muito mal-cortadas, diga-se de passagem seria encontrada no banheiro de meu apartamento. O que a polícia pensaria? O que seria noticiado nos jornais? Como explicariam o mistério de um corpo rasgado ao meio sem nenhuma gota de sangue próxima do cadáver? Homem solteiro encontrado cortado ao meio! Sim, delirava tamanho o absurdo de minha situação. Empurrando os cabelos para trás lamentava a minha situação e solidão... Será que se Márcia estivesse aqui ela tomaria pulso de minha absurda condição e conseguira juntar os meus dois pedaços? Por um momento rio, penso se ela ao chegar e me ver já em duas partes, iria reclamar sua parte “nesse latifúndio”. E como fez com tudo o que eu tinha quando foi embora, “pegaria sua metade de direito”? Será que ela seria capaz de fazer isso? Sinto uma fisgada no peito, não metafórica, mas sim literal que me responde essa pergunta. Sim, ela pegaria a sua parte.
Olho para o espelho e estou preso em minha outra metade por um fio – entendam isso como quiserem... Mais alguns segundos e serei duas partes da mesma coisa.
- Duas partes de nada! – Rosno. Duas partes que viverão (?) num apartamento que já está dividido, e que agora é meio-apartamento, numa meia-vida, numa meia-existência...

Antes de desfalecer, me pergunto que parte de mim Márcia escolherá?

- Que parte Márcia escolherá...?, e dou a última baforada no charuto olhando o fundo da xícara vazia de café. Continuo olhando para o monitor até os olhos começarem a arder. Não tenho vontade de fazer mais café nem de fumar, a boca já está azeda, o sono que vinha me comendo pelas beiradas enfim me pegou, acho que vou dormir, a história que se escreva por si própria, afinal elas sempre se escrevem mesmo e nós somos usados como meras ferramentas por elas...

Desligo o computador, deixo meus demônios arquivados e volto para a minha cama quentinha sem mais nenhum fantasma me assombrando a cabeça.

- Boa noite.