2012/08/10

PESADELO




Os passos estão ecoando pelas paredes, cubro minha cabeça com o travesseiro, mas não deixo de ouvir seus passos, meus olhos abertos ardem, não consigo dormir, pois os passos, os passos, ouço-os na escada, meu Deus, eles pararam na porta do meu quarto, mas não é possível, não é possível, é totalmente impossível, Jesus, a porta está abrindo, ouço o primeiro passo, isso não pode estar acontecendo, não pode não, esses passos, o som do salto o sapato no chão, não pode ser, estou sonhando de olhos arregalados, estou empapado de suor de tanto medo, não me mexo, não me movo, nem respiro, agora os passos estão ao pé da minha cama, estão puxando as cobertas, meu coração vai sair pela boca, minha cabeça está sendo descoberta, não, não quero acabar do mesmo jeito que...

2012/08/09

SONHOS DE UMA NOITE


As crianças estão dormindo
Veja, parece que sonham
O cachorro do vizinho parou de latir
Enfim sossego
Na TV nada que preste
Já desliguei
A noite só estrelas
Logo a lua cheia sairá
Uma noite perfeita
Só falta, por via das dúvidas,
Tirar o...

- E o maldito telefone tocou antes!!!



CAMA



O outro lado da cama parecia vazio, mas na verdade estava cheio de culpas, arrependimentos e palavras duras...

2012/08/08

MALDITO PRESENTE!



O tio presenteou-o com o um livro, grosso, muitas páginas, capa dura, ilustrações feitas a bico de pena, detalhes em dourado.
Havia muitas histórias de cavaleiros, dragões, batalhas, armas, sangue, intrigas, uma pitada ou outra de romance – mas pouca coisa, nada que distraísse muito. Mágicas, magos poderosos, gigantes, anões, calabouços, chuvas violentas, fogos, gritos, ais de mocinhas, gritos de soldados, era um grande épico - como se houvesse pequenos épicos! Aventuras de mãos cheias!

- Aposto que você nem vai dormir enquanto não acabar de lê-lo – disse lhe o tio orgulhoso.

A criança segurou o livro e correu para seu quarto.
Horas depois a mãe o encontrou prostrado na cama, chorando baixinho.
Aos soluços explicou:

- O que será de mim se nunca mais dormir por causa do livro?

Jogando o livro pela janela a mãe resmungou:

- Seu tio e essas porcarias de livros. Eu disse a ele, dê uma bola ao menino, mas não...

A criança assim dormiu e acordou tão ignorante como sempre foi.


A VISÃO


(para ler rápido, de um só fôlego)



Rosinha assustada entra em casa esbaforida.
Olhos arregalados, afogada no medo com o coração a sair-lhe pela boca, suas finas pernas tremem – ela não as depila - apoia-se numa cadeira, abana-se com o jornal de ontem - que estava reservado para embrulhar as escamas do peixe do jantar. Longos minutos passam antes que possa proferir palavras, palavras essas que abalarão os pilares daquele lar cristão e conservador – o pai é da TFP e a mãe da renovação carismática...
No quarto dos pais há uma foto do Papa Bento XVI.
Rosinha fita o quadro da Santa Ceia na parede sobre a mesa do jantar e com as mãos tremulas (suas unhas não tem esmalte) faz o sinal da cruz.
Sua mãe acorre a ajuda-la.
E antes de, por fim, desmaiar profere as palavras:

- Eu vi o Magrão!

- Aquele demônio, suspira a mãe apertando contra o colo a medalhinha de São Bento.



Cai o pano!


CLASSE DOMINANTE


(ou nosso lugar na cadeia alimentar)

O jantar fora servido sobe a mesa do almoço e o café da manhã, assim como o jantar do dia anterior. Na mesa farta, a comida está se estragando e os comensais, todos mortos há muito tempo, seriam servidos até o fim dos tempos. Os empregados à medida que fossem aposentados seriam trocados por outros novos, gerações e gerações de serviçais a atenderem os patrões decompostos.

- Os mortos são insaciáveis! – Murmura a criadagem.

Na cozinha mais pratos são preparados, os abutres há muito desistiram desses cadáveres e partiram para outras plagas, em algum decente haveriam de encontrar melhores mortos para se alimentarem...


2012/08/06

O FIO



As paredes fazem ângulos retos
Os corredores são estreitos
O caminho longo
Tudo tão escuro
E à frente
Mugidos assustadores
Meus passos são curtos e medrosos
Tateio feito cego
Para onde vou
Não sei
Mas também não sei mais
Como voltar
Ando
Ando
Ando
Meu medo
Vira pânico
Quando me dou conta
Que perdi o fio...



CASTIGO



Ao ouvir o estranho som, uma mistura de grunhidos e com mastigação de ossos, ele acreditou no Bicho-Papão. Mas de nada adiantou chorar e pedir desculpas à mãe, pois a porta já estava trancada à chave e a luz do quarto apagada...

2012/08/02

CAMINHOS




Ando na linha
Do bonde
Dos trens
Na faixa dos pedestres
Ando pelas ruas e
Avenidas dessa cidade-ilha
Tempo perdido andar tanto assim
Por maiores que sejam meus caminhos
Acabo por andar sempre em círculos...

PENSAMENTOS, PENSAMENTOS E NENHUMA RESPOSTA



Na rua pela manhã um mulher praticamente joga-se sob meu carro, por pouco, muito pouco não a atropelei.
Ela segue sua travessia suicida em diagonal pela avenida. Carros buzinando e desviando-se dela que seguia feito uma kamikaze empurrando um carrinho com um bebe a bordo.
Fosse esse mundo justo...

2012/08/01

TÃO TRISTE


estou tão triste

que dói respirar

quanto mais

suspirar

TRABALHO


Os livros são empilhados desordenadamente num canto do salão só para serem removidos no dia seguinte, o sol começa a se por e a luz do farol, intermitente, já ilumina o seu quarto.
Ora de sonhar, amanhã começa tudo outra vez. E Sísifo sonha com seu trabalho infinito.

2012/07/31

PLAFT



A manhã começou muito estranha, muito estranha...
Saiu a toca, não cama, espreguiçou as patinhas - tantas – não as pernas e braços, saiu arrastando-se pelo chão e não andando como um homem, e quando percebeu as anteninhas na cabeça um chinelo extinguiu-lhe a vida – tão breve e desconhecida!
Nem todos tem por destino virar um livro famoso...



2012/07/30

CAFÉ & CHUVA




Caminhando na rua sob a chuva, sapato escorregando nas calçadas, o blazer fechado, me protegendo do vento frio, deixei meus pés me levaram ao Café.


Minha mesa lá estava lá e o local praticamente vazio, rápido atendimento. Ele quentinho na xícara, o aroma, a fumaça subindo em direção ao meu nariz gelado, ah se eu pudesse fumar ali dentro...

Próximo a mim as caixas de som tocavam Dianna Krall. Meu Deus jazz, chuva e um Café vazio, isso dói.

Sorvi o divino líquido pensando nos amigos que tempos atrás se sentavam ali comigo...

Sei lá, mas esse tempo húmido, as mesas vazias à minha volta, eu ali sozinho, tudo isso numa segunda-feira, me deixa numa melancolia do diabo¹.

Da minha mesa, perto da porta, mas atrás de um pilar que me deixa ver a rua sem ser visto por ninguém lá, mesmo só ainda escolho quem quero ver, essa dicotomia ainda me mata. Por um segundo, por um mísero segundo quase mudei de lugar.

Quase...

Pedi outra xícara, nem demorou muito e fui logo servido.

Lentamente o adocei, fiquei girando a colherzinha distraído e distante, ao lado o jornal do dia, mas por azar não levei os óculos de leitura. Mexendo o café continuei pensando nos amigos ausentes, lá fora chuva caindo, meus pés molhados, os cabelos desgrenhados e eu sozinho no Café.

Poucos minutos que me pareceram uma eternidade. Levantei-me, fui ao caixa, paguei os cafés e fui embora.

A chuva me pareceu mais fria e o caminho de volta ao trabalho ficou mais longo, acendi o cigarro e segui em frente...



 
 
[1] Quem disse que o Diabo é melancólico? Ora, o Magrão que responda isso!
 
 
 
 
 
 

2012/07/27

ESPERANDO RESPOSTA



Queria perguntar
              Indagar
              Inquirir
              Saber
              Perquirir
              Perscrutar
              Averiguar
              Verificar
              Saber mesmo
Assim – assim meio cheio de dedos...
Pisando em ovos
Se você gostaria
Se interessaria
Quiçá mesmo pro futuro
(nada muito distante, afinal os anos andam passando tão rápido ultimamente...)
Se estaria em seus planos
Se não estiver muito ocupado
Coisa assim de estudar com aprofundamento
Um lance de extensas reflexões
Um dia
Não muito longe
(vide 15º linha)
Distante
Remoto
Voltar a ser meu amigo...

PLANOS



Na mão direita a carta de demissão
na jaqueta um poema de amor que jamais seria entregue
no bolso da calça um par de alianças que...
amanhã, se der sorte, manchete de jornal




2012/07/26

FATO


As moscas pousam
(uma mancha negra)
Na cabeça
Da criança morta
Apoiada no colo da mãe
Magra e faminta
Ninguém faz nada mais
Além de fotografar
A miséria é feia ao vivo
Mas vende
Jornais e revista
Deixemos tudo como está
Assim é esse mundo
Pois se ela (a mãe) precisa comer
Suas migalhas
Eu também preciso
Da minha lagosta e caviar
Assim é a vida
Uns tem outros não
Essas são as regras do jogo
Clic clic clic
Veja ali naquela esquina
Um morto de crack
Clic clic clic
O mundo é cruel concordo
Mas faço a minha parte
Te mostro
O que tu finges que não vê
Sou cínico?
Talvez
Mas os outros (que não eu, não eu)
São os assassinos
Somente te mostro
O que tu finges que não vê
Assim é esse mundo
Somente te mostro
O que tu finges que não vê

CRIAÇÃO


Enquanto a poesia não vem
A caneta vai prá lá e prá cá
Riscando
Rabiscando
Esperando
Pela inspiração..

MISSIVA



Completamente sozinha comemorou suas suas bodas de ouro tomando cicuta numa taça de cristal da Boêmia.
Esperando pela morte, escreveu sua última carta de amor si mesmo. Mas não teve tempo de selá-la...



A corda
- afinada em dó -
Sustentou bem o corpo
Mas o pescoço
Quebrou...

O CIRCO DA VIDA


A dor de corno do engolidor de fogo fez da matinê de domingo um espetáculo ardente, o mágico só ficou sabendo do incêndio, à noite, pela televisão no motel onde estava com amante.

2012/07/25

RINGUE


estrelas cadentes
coriscos
raios de luz
a vertigem
a lona branca
(o beijo fatal)
o tudo preto
o nocaute

2012/07/24

VIDA DURA



Levava sua vida de cão tão a sério que antes de dormir (e apanhar do marido) sempre enchia um potinho com ração e outro com lágrimas.
E assim ia levando a vida à espera da carrocinha que um dia a libertaria.

2012/07/23

FOTO FANTÁSTICA



Gritei ao velho na janela:

- sorria!

e ao fazer cairam-lhe os dentes...



ODE AO TEMPO PASSADO


onde os bares de antanho
as conversas
os planos e projetos
as discussões filosóficas
os banhos de água mineral
nas mesas de bares
as cervejas ruins
o Ivan se metendo nas conversas
os pés-sujos cinco baratas
cachaças com patcholi
aranhas e escorpiões
onde a juventude meu deus
teu amigo petista roxo
sempre um passo atrás de nós
a lata de tinta azul-royal
(francamente!)
os ensaios
aquele monólogo para duas pessoas
os palcos
a plateia
aquela feijoada tarde da noite
(quando não alta madrugada)
o Lalá e sua indigestão
cadê tudo isso
cadê a Caxuxa
não, não me responda...
o “relativo”
o luso da “baca”
os balcões, tantos
o Terraço Itália...
(ok, choveu naquele dia...)
o mundo era nosso!
os anos passaram tão rápido
veja quanto ficou para trás
e nós seguimos em frente
e veja só Vadinho
num momento de distração
ficamos com barriga
sem cabelos
e nos perdemos numa encruzilhada qualquer


2012/07/20

O PIOR


Após o telefonema, anônimo, correu para casa esperando pior, o pior. Abriu a porta silenciosamente, segurando a respiração, olhos fechado - espera vê-la - com o outro, mas qual não foi a sua surpresa em ver o apartamento vazio. O outro levou sua esposa e todos os móveis.

- Esperar o pior não falha - suspirou

INVERNO


Dia frio
Céu azul
E dedos roxos

2012/07/16

PERGUNTA


Nas areias brancas
Sem fim
Um barco jaz encalhado
De que mar teria vindo?
Será que ainda o esperam em algum porto?
O vento sopra
E grão a grão
Esse barco singra
Em direção ao esquecimento

2012/07/15

ALMOÇO DE NEGÓCIO

O pimenteiro e o saleiro ali na sua frente, o sal, a pimenta, a conversa fiada, o falar muito, não dizer nada, o sal e a pimenta à sua frente, o cardápio com comidas impronunciáveis, sabores desconhecidos, o sal e a pimenta à sua frente, tomou um gole de vinho, quis esvazia a taça, mas o vinho era muito seco, a pessoa à sua frente falandofalandofalandofalando, tomou outro gole, tão ruim era o vinho que não conseguiria embebedar-se para suportar tal lengalenga, o cardápio não o atraia, a conversa tirara-lhe todo o apetite, o vinho lhe embrulhara o estômago, mas o sal e a pimenta no seu campo de visão o impedia, em parte de olhar para o seu interlocutor que não parava de falar, agora vinha com suas digressões sobre política, sua sempre bem colocada opinião sobre tudo, sobre todos, sobre economia, saúde, educação, religião, tudo estava no seu campo de conhecimento, nada. As horas passavam – seriam dias? - , a fome se foi, a sede insaciada e o sal e a pimenta à sua frente, as horas arrastavam-se, e ao menos pudesse acender um cigarro...

Olhou para o relógio, somente meia hora havia se passado!

2012/07/11

AMANTES


Naquele beco escuro
Um lugar comum
Amantes ordinários
Encontravam-se furtivamente
Para trocarem, como celerados,
Beijos roubados

MARGARIDA



Pétala a pétala
Uma a uma
Uma sim
Uma não
Pétala a pétala
Uma a uma
Sim
Não
Descobriu-se
Não amada
E o chão
Manchado de
Amarelo e lágrimas

FIM DE JOGO


- Vamos por as cartas na mesa!
Ele jogou quatro azes e um curinga
Ela, as cartas do Adolfo, seu amante.

2012/07/06

SONHOS NEM SEMPRE SONHOS SÃO

Alimentando-se de sonhos
Um dia engasgou-se com um pesadelo
E morreu engasgada

BENTO

Religiosamente ele aspergia de sua água benta. Um gole de cachaça
E uma cuspida no chão

PENSAMENTOS


Pensar no mar é lindo
Se está no deserto
Pensar na terra é maravilhoso
Quando estamos a nos afogar
Menu é literatura na Etiópia
E besteira quando a barriga está cheia
Assim somos...
Mas isso não quer dizer que me conformo, não, não, não
Pobre do Compañero Castro

                                                                                                                                                                                       (diz ai Silvio!)

FIM DE NOITE


Cigarro na bituca
Os copos largados sobe a mesa
Os pratos sujos, que logo o garçom vem buscar
A lua feito besta no céu
Positivamente a noite está no fim
Mas ainda tem conversa
Ainda tem casos
Causos
E tantas historias e mentiras prá se contar
(Né mesmo Vadinho?)
Só nos resta uma solução
                                                                           - Garçom, tudo de novo outra vez!
As garrafas chegam
Os copos se enchem
O céu vai ficando vermelho
Logo trocaremos as últimas cervejas
Pelo primeiro café...

2012/07/05

DESPEDIDA


Não vejam aqui nesse caixão o morto que estou
Mas o vivo que fui um dia
Não chorem sobre o corpo
Mas riam como riamos em volta dos copos
Não pensem
- Ele se foi!
Mas assim:
- Nos aguarde, vamos logo!

ESTRANHAMENTO


Ao entrar na casa me surpreendi em reconhecê-la por completo, mas havia um elemento dissonante lá, aquele quadro ali na parede, aquelas pessoas não eram da minha família, e juro, o patriarca na foto olhava para mim com olhos graves e reprovadores. Mas a mobília e tudo mais me eram tão familiares...
Então tocou a campainha!

2012/07/04

DUREZA


Ao cair duro e morto
Deixou em casa a família
Dura, faminta e endividada
Ninguém chora por ele
Mas choram diariamente
Para o gerente do banco

2012/07/03

CARINHO

Aliso tua coxa
Ela é lisa como uma seda
Se de cima para baixo
Mas de baixo para cima
- Que peixe és!
Só escama...

2012/06/29

2012/06/27

SONHOS DESFEITOS


Feriu a corda
E alcançou um dó
Cantou o primeiro verso
E conseguiu uma vaia
Ali acabou seu sonho...
Acordou para vida batendo carimbo numa repartição!

CORDA



Na corda o corpo balançava
(tic-tac tic-tac)
Lembrando-nos como a vida pode ser breve
(quando queremos)

PENÉLOPE

Tricota e desfaz, tricota e desfaz, tricota e desfaz
- Essa criança não para de engordar!
Tricota e desfaz...



FÉ(ZES)!


O brâmane fiel
Faz suas orações e atira-se ao Ganges

Já aqui, depois de tanto orar
Só resta pular no Tiete



2012/06/26

DECISÃO


Peguei a tesoura e pensei em cortar
Todas as cartas que havia te escrito
Mas pesei bem o que iria fazer
Afinal eram tantas as cartas
Que achei mais fácil
Com a tesoura
Trespassar teu coração



TESTEMUNHA


Eu vi com esses olhos que a terra há de comer!
- de mãos dadas eles se afastaram de costas para mim
Para onde?
Pouco me importa essa era cena final e eu tinha pressa em sair do cinema

2012/06/25

O ÚLTIMO ADEUS

(ou como pensam os ratos)

Visionário como um rato de bordo
Que vê o mar encrespar
O horizonte escurecer
O céu tomar cor de chumbo
Ao perceber que o balanço do mar está mais forte
Que carga já saiu do lugar mais vezes que o normal.
Preso a um pedaço de pau
Salto no mar, e
De longe vejo o navio afundar.
E equilibrado em tão frágil prancha
Penso:

-Vão-se os anéis e ficam os dedos.

SÃO JOÃO


As estrelas atrevidas brilham no céu
Aqui na terra
Nada de soltar balões

2012/06/21

VELHO SURDO



Meu capitão, antes esses gatos miavam, agora só abrem a boca...

ESPECTRO



A assombração sempre repetia assim
Sou uma alma penada
Um fantasma cansado de arrastar correntes
Não quero mais atravessar paredes
Tudo o que quero
É uma vela, uma oração e partir
Para o meu descanso final
E sumia mergulhando no assoalho velho e carcomido
...a cortina esvoaçava na janela

INFELIZ



Bateu a mão no balcão e gritou:
- Me de dá uma dose
foi servido
bebeu de um gole só
saiu mais triste que entrou
pobre infeliz
só tinha dinheiro para uma dose
teria de encarar a realidade sóbrio

CÁLCULO


Pensou muito antes de pular do décimo andar
Olhou pela janela
Calculou as possibilidades
E por fim desceu de elevador
Ia dar outra chance à vida

MISÉRIA


Tamanha miséria nunca vi
Em lugar de uma mão pedindo
Um cotoco trêmulo e frágil
Que mal segurava uma moeda

GAVETAS



Suspirou profundamente
                                        - Triste meu porvir...
Ao constatar que havia
Nas gavetas mais passado que futuro



COISAS INTERNAS QUE NINGUÉM VÊ


Todos comentavam a sua calma
Ninguém sabia de suas tempestades interna
Até aquele dia fatídico

2012/06/18

BILHETE


cuide bem da mamãe
vou até ali pular da ponte
acho que não volto mais

LIXO


Na lata de lixo
até que havia o que comer
                      o que vestir
                      o que calçar
mas nada ali supriria a sua falta de dignidade

MORTE


O triste não é morte dos entes queridos
Mas a morte lenta deles
Em nossas memórias
Assim sendo, eles acabam por
Morrer duas vezes

2012/06/12

MÚSICA


Chet Baker toca
                     (no escuro)
E
                     (no escuro)
Tudo acaba num baque surdo

MARESIA


Um cheio de mar invade a minha casa
Mas essa maresia é outra
Vem da barraca de peixes
Da feira lá na esquina

2012/06/06

CHUVA N°2

O que me consola
Nos dias de chuva
É ver os pombos
Encharcados...


HONESTIDADE



Sempre fiquei ao lado dos fracos
Defendi os oprimidos
Nunca beijei a bota dos poderosos
Jamais me aliei ao mais forte
Sempre fui fiel à verdade
Essa é então a minha história
Agora que você já sabe
Tudo isso sobre mim
Seja bondoso
E me pague um café com pão!

2012/06/05

TORTURA



A mesa cheia
O estômago vazio
E as mãos amaradas às costas

CHUVA



A chuva não lava
o cinza do céu
A chuva leva
O que vem pela frente
Leva casas
Leva árvores
Leva os bens
Dos que nada tem

2012/06/04

TRISTE CENA



O palhaço triste
Num banco
Alimenta pombos
O mestre de cerimônias feliz
Assim engorda gatos

homem criado por mãe e irmã é assim



homem criado por mãe e irmã é assim
delicado
educado
entende de ciclo menstrual
sempre carrega um absorvente no bolso
anda com passos curtos e nervosos
(e nas pontas dos pés)
tem a mão hidratada
unhas aparadas e limpas
lenço sempre perfumado
só bebe licor de menta
sensível
chora à toa...

2012/05/31

GATO

Na lua nova
Um gato preto
Se alimenta
Na via-láctea

CIGARRO

Pela manhã acendi meu cigarro
Que doce a sensação de liberdade
Ninguém à minha volta
Expirei a fumaça
Doce e azul
E meu dia começou feliz

2012/05/25

PONTE


Não atravesso essa ponte
Pois já vi aqui dessa margem
Que a paisagem lá é igual a daqui

CARINHO DEMAIS


Quando ele saiu da sala
Ela cheirou tão desesperadamente o casaco dele
Que acabou com dois botões dentro do nariz

2012/05/23

MOCINHA ROMÂNICA

Naquele momento
O chão estremeceu
Ela imaginou o clímax
Mas era mesmo um terremoto

CAFÉ


Na mesa preta
Sob um céu azul
Numa xícara branca
Meu fumegante café
Lá fora o dia ficava em stand-by

GERAÇÕES E FOTOGRAFIAS


Só porque são jovens
Saem bem nas fotos
Fazendo caras & bocas
Mas eu sou velho
Fico bem assim sóbrio
De copo e cigarro na mão

ULISSES

Ele não morreu
Não partiu
Não sumiu
Somente recolheu-se para ler Ulisses
Talvez apareça por aqui um dia...

2012/05/22

A FACA

A faca
O sangue
E o pão
          No chão

RONCAS

Roncas
Acordo contrariado
Belisco teu bico
Acordas assustada
Reclamas
Viro para o lado e
Durmo em paz
Enquanto passas
O resto da noite
Em vigília

2012/05/21

CHEGOU TARDE



Ele chegou tarde, bêbado, um beijo no colarinho, caiu duro na cama e dormiu. Ela o lavou, barbeou, cortou-lhe as unhas e o sexo.

- Nunca mais ele fará isso de novo...

Fez as malas e voltou para o Norte.

FINGIDA


Fingia
Os orgasmos
Que tinha lido Os Irmãos Karamazov
Que cozinhava
Mas nunca
Nunca
Fingiu que não te traía
Tu sim fingias
Que não via nada disso

2012/05/16

TRISTE, MUITO TRISTE MESMO


A história mais triste que já me contaram é assim, domingo, fim de tarde, o pai chama a filha pequena e diz à ela;

- Vamos filhinha passear na Biquinha para ver as crianças comerem pipoca e algodão doce!

Feliz da vida ela vai de mãos dadas com ele.

2012/05/14

O AUTOR É ANTES DE TUDO UM COVARDE, QUANDO TEM VONTADE DE SUICIDAR-SE, MATA UM PERSONAGEM.

O ÚLTIMO CIGARRO



Esperou na cozinha algum tempo.
O cigarro entre os dedos, a isqueiro na outra mão, as janelas estavam fechadas, a música alta, o gato na rua e telefone fora do gancho.
Dado o tempo certo, pôs o cigarro na boca, acendeu a chama do isqueiro e tudo acabou-se numa bola de fogo...

GOTA A GOTA



Gota a gota
Contadas com cuidado
Gota a gota
A cor da água mudando no copo
Deixando de ser branca...
Gota a gota
Metodicamente as pingava
Gota a gota
                                         - Mas que paciência! – espantava-se com tanta calma
(e sua mão não tremia)
Gota a gota
A água já se mostrava menos clara e límpida
(turvava-se)
Gota a gota
                                         - E diziam que um dia eu pularia da janela.
(ria com isso)
Gota a gota preparou seu veneno
Bebeu
Deitou-se à cama...

CASAMENTO

Aliança no dedo, grãos de arroz presos nos cabelos, a gravata sendo vendida aos pedaços, a noiva chorando de felicidade e ele, de copo na mão resmungava:

- Devia ter dito não, devia ter dito não...

Mas começava a tocar a valsa...

2012/05/11

A ESTANTE DE MINHA MÃE


e na sala, sobre a estante as fotos chamavam a atenção. Lá estava eu vinte anos mais jovem, meu pai, na foto de seu casamento e a sua última, aquela que estava em seu túmulo, havia também as fotos de meus irmãos, pequenos, crescidos, casando, casados, com seus filhos recém-nascidos, adolescentes e alguns casando, lá também estava a minha filha quando pequena, fotografada fazendo beicinho e sorrindo com a inocência das crianças dessa idade.

Via esses retratos enquanto levava a minha neta para que, no colo de minha mãe, fosse também fotografada, seguindo a tradição de ser imortalizada naquela estante da sala.

Enquanto a velha segurava a sua bisneta, eu disfarçadamente contabilizava a minha vida através da sua coleção.

Lá entre tantas imagens estava eu, magro, sem barba (que hoje está branca), com orelhas de abano; meu irmão ainda com cabelos pretos, ri de mim pra mim, pensando que lá estava eu aumentando a coleção/patrimônio da velha, ela que era, e só agora percebia a guardiã pictórica da história de minha família.

Gerações, ali expostas naquela estante, à mostra para quem tivesse a curiosidade de vê-las, de perguntar sobre cada indivíduo, saber da história de cada um deles.

Um tesouro revelado!

Quem herdará tudo isso?

Sempre achei que fossemos pobres, senão pobres de “marré-marré”, pelo menos pobres de tirar o sono de gerentes de banco, mas não!, lá estava a nossa fortuna, ali naquela velha estante com um ou dois livros - nunca lidos - e uma antiga bíblia (de enfeite, com letras douradas), ali entre os seus bibelôs de velha, ali sim, bem ali na cara, na entrada da sala, ali, bem ali, está a nossa fortuna, minha família para sempre imortalizada nas fotos que a minha mãe coleciona.

Ao sair de sua casa ao fim da tarde, depois de muito fotografar minha mãe com minha filha e neta, saí satisfeito, feliz da vida comigo mesmo, pois eu havia depositado mais um tostão da poupança pictórica da história da minha linhagem e assim, algum dia, algum descendente, quer meu, quer de meus irmãos, filha, sobrinhos ou neta, irá também se deliciar em ver seus antepassados ali, imortalizados em papel, sorrindo ou chorando suas tristezas e alegrias, casando e morrendo, mas vivendo para sempre nas fotografias que minha mãe coleciona em sua estante.



2012/05/08

Microconto

Ficastes a ver a lua nascer
As estrelas a brilhar
E nem percebestes

- Bateram a tua carteira!

2012/05/04

MEU PEQUENO PONEI FAZ 18 ANOS


Agora tenho dezoito anos

Não sou mais um mocinho

Agora sou um homem

Tenho dezoito anos e cabelos no saco

Já posso ter as chaves de casa

Sem hora prá voltar

Sem dizer onde vou

Ou

Com quem vou

Tenho dezoito anos e

Sou dono do meu nariz

Posso beber

Encher a cara e vomitar em paz

Sem ouvi sermões ou recriminações

Pois sim, sim, sim, eu tenho dezoitos anos

Agora o mundo é meu e é pouco

Chega de ficar assustado achando que

alguém me reconheceu nas ruas

Pois agora saio de casa

e vou prá zona,

prá esbórnia,

pros puteiros de cabeça erguida

Serei o orgulho do papai

E preocupação da mamãe

Tenho dezoito

(Assim já cantava Alice Cooper)

Vou tirar a minha carta

Pagar imposto de renda

Pegar o carro emprestado do papai

Tenho dezoito e virei homem

Deixarei de ouvir Avril Lavigne

Bebendo fanta uva

E, fumando, vou me embebedar de uísque vagabundo escutando Tom Waits

Vou ser o orgulho do papai

E aumentar as preocupações da mamãe

Chega de encher os bolsos com balinhas

Agora é carteira com camisinhas

Vou deixar o papai tonto de orgulho

E mamãe, roendo as unhas, gritando:

- Netos não, netos não!

Agora tenho dezoito e ninguém manda em mim!





2012/04/04

CASINHA


1º Dia, café da manhã



- Mulher, que sonho estranho tive essa noite...

Coça a cabeça e sem jeito pergunta à mulher:

- Por acaso nós já moramos numa casa? Com árvores? Quintal gramado? Galinhas soltas no quintal? A casinha era de madeira, branca, janelas grandes, cachorro ruço amarrado na árvore - um limoeiro - porque latia muito... Você não acha estranho esse sonho? Parecia verdade, eu andava desenvolto pela casa, conhecia os quartos, corredores, cada gaveta, o macete para abrir uma janela problemática...

- Acho que você anda chateado demais com esse apartamento – responde a mulher sem dar muita atenção á angustia do marido - e anda louco prá se mudar para um lugar mais sossegado... É só isso, agora toma o café senão vai se atrasar.



5º Dia, consertos e machucados



- Ontem precisei trocar a torneira lá dos fundos – diz enquanto passa manteiga no pão. Olhe só, acabei machucando minha mão – estica o braço direito e mostrar uma mancha roxa no peito da mão. Essa casa me dá muito trabalho, - e batendo a mão sobre a mesa diz - mas não vendo ela não!

- Do que você está falando homem? Você deve ter batido a mão na cabeceira da cama, nunca vi sono mais agitado na minha vida, fala, resmunga, reclama, xinga...

- Que cabeceira nada, foi a chave inglesa que machucou minha mão! – Esfrega a mancha e reclama da dor.

- Deixe de bobagens, você está ficando é obcecado com esses sonhos. Vá trabalhar e depois para num bar e vá beber com seus amigos. Você precisa relaxar e parar de se preocupar com essas bobagens... Vá logo antes que se atrase perca o emprego esse apartamento e – e escarnecendo do marido - a sua casinha dos sonhos.



8º Dia, um domingo



- Achei que não fosse acordar mais, veja as horas! Quase hora do almoço. Não vou requentar café prá ninguém, se vire...

- Já tomei meu café lendo jornal na varanda da casa. Depois de pintada de branco está uma maravilha, você precisava ver, cadeira de balanço sem nhéc-nhécs, passarinhos, e o cachorro agora parou de latir feito bobo e está correndo pelo quintal todo feliz. Não precisa se preocupar com o almoço eu vou comer lá em casa mesmo, afinal tenho que aproveitar o meu domingo para terminar uns servicinhos que foram ficando, ficando e hoje vou terminar tudo.

- Sabe, - suspira profundamente - agora estou realmente preocupada com esse seu sonho, loucura, paranóia ou que nome se dê a isso. Amanhã vamos ao médico, vamos ver o que ele tem a dizer sobre isso... Isso não é normal... Vá tomar um banho enquanto troco os lençóis da cama.

Do quarto a mulher grita:

- Oswaldo! Que manchas são essas no lençol?

- Deve ser do Toby... – responde distraído remexendo sua caixa de ferramentas.

-Que Toby homem? Que Toby? – Oswaldo não ouve a mulher chorar baixinho num misto de profunda preocupação e um horror que começar a crescer em seu peito.



12º Dia, a sogra fica sabendo de algumas coisas...



- Agora ando com medo dele, - falando ao telefone com a mãe - medo dele morrer dormindo, dele acordar louco por estar no apartamento e não na “sua casinha dos sonhos” – fala entre afetada e assustada – tenho muito medo de ficar sozinha com ele em casa. Já nem tomamos café juntos, saio antes dele, tomo café na rua, pois ele já acorda de “café tomado, jornal lido, e andado com o Toby, o cachorro que latia muito. Aliás, outro dia o Oswaldo e disse que o Toby pega o jornal na rua e leva a te a cama. Onde já se viu isso, onde essa história vai parar? Quarta-feira foi dormir mais cedo para assistir o futebol “em casa”, lá tem parabólica e os vizinhos não são barulhentos... Mãe, estou com medo!



18º Dia, Toby aprendeu a pegar a coleira e saber a hora de passear na rua!



- Que progressos estou fazendo com esse cachorro. – Diz Oswaldo esfregando as mãos exultante. Ele me trás o jornal na cama, pega a coleira quando quer sair, sabe abrir a porta da cozinha nos fundo sem arranhar a madeira, fica com o pote de comida na boca abanando o rabo quando está com fome e parou de fazer escândalo, até os vizinhos estão admirados... Você precisa ver o pelo dele como está brilhante depois que mudei a marca da ração, embora aquele safado não resista à tentação de roubar meu franguinho assado de cima do fogão, pilantrinha...

A mulher ouve tudo isso trancada no banheiro, chorando e roendo as unhas em frente do espelho.



19º Dia, uma surpresa para mulher



Oswaldo entra na cozinha gritando:

- Ester, os primeiros ovos, os primeiros ovos!

- Que ovos? – pergunta a mulher guardando dentro da gaveta a faca com que descascava batatas - que ovos, eu não pedi ovos nenhum prá você Oswaldo! – suas mãos agora tremem sem parar, não penteia mais os cabelos e evita sair de casa e segurar facas quando o marido está por perto.

- As galinhas começaram a botar, agora teremos ovos caipiras frescos todos os dias – diz Oswaldo exultante. Ovos frescos, gemas vermelhas, legítimos ovos caipiras do meu galinheiro! Batendo as mãos nos peitos, grita:

- Orgulhe-se de nossas galinhas mulher!

A mulher recorre à solidão do banheiro, chora baixinho repetindo assustada:

- Nossas galinhas, nossas galinhas, nossas galinhas...

Liga o chuveiro e chora convulsivamente, tudo está perdido mesmo, perdido de vez.



23º Dia. Chega de omeletes!



- Oswaldo – a mulher chora, torce o avental entre os dedos, seus cabelos parecem irremediavelmente despenteados, suas unhas encontram-se no sabugo, seu queixo bate sem parar, pouco lhe falta para o colapso nervoso – não agüento mais essa história da sua casa, esses ovos caipiras, as marcas de cachorro nos lençóis, não quero mais ouvir das obras que você está fazendo, dos canais que pegam na parabólica da televisão da sua casa. Oswaldo você precisa de ajuda psiquiátrica, você precisa passar um creme nessas queimaduras de sol... Oswaldo, não sei mais o que fazer, acho que vou prá casa da minha mãe – aqui Oswaldo bem que tentou explicar que aquilo onde a sua sogra morava poderia ser chamado de tudo, menos de uma casa, mas Estela não o deixou manifestar-se. – Oswaldo vou sair daqui e vou sair agora, se não sair pela porta da frente saio pela janela, mas saio agora. Não tente me impedir.

Oswaldo não tenta impedi-la, sorri, abre a geladeira e pega quatros ovos de suas galinhas.



1º Dia. Casa nova. O galo canta, nasce o novo dia!



- Ester, tive um sonho terrível essa noite... – a xícara de café treme em sua mão.

- O que você sonhou Oswaldo, você está pálido e suando frio, o que você sonhou, me conte.

- Sonhei que morávamos num apartamento e eu te contava que sonhava que morávamos numa casa, e você achava que eu estava ficando louco por sonhar coisas assim... – Oswaldo é interrompido por Toby que trás a coleira batendo em todos os móveis pelo caminho.

- Mas você sonha com cada bobagem Oswaldo - ela ri - vá passear com o Toby, depois passe no galinheiro e me traga ovos, hoje estou com vontade de fazer um bolo.




2012/03/27

DUAS AMIGAS NO BAR

Estava sentado na mesa de um bar outro dia, e sem querer comecei a ouvir uma conversa entre duas mulheres. Devo confessar que esse é um hábito que cultivo, pois costumo usar esses dramas da vida real em meus contos, afinal a realidade é muito mais interessante que a ficção. Vamos lá.



- Você sabe que dia é hoje?

- Ai meu Deus!, outra de suas datas...

- Não começa.

- Não começa você. Olha aí. Já começou a chorar. O dia de hoje te lembra o quê?

- O quê?, não! Quem! Me lembra quem!

- Tá certo, tá certo. Te lembra quem?

- O Célio, me lembra o Célio. Se estivéssemos juntos hoje comemoraríamos quinze anos de casados Quinze anos...

- Mas ontem você estava falando do Jorginho...

- Ah! O Jorginho seria - se estivéssemos juntos ontem - treze anos de namoro, treze anos.

- Mas como você consegue guardar tantas datas?

- Sou uma romântica incurável...

- Só por isso você vive relembrando todos os seus relacionamentos?

- É muito amor nesse coraçãozinho...

- Você tem que beber mais. – Estala o dedo, chama o garçom e pede mais dois martinis e outra porção de pistache.

- Quinze anos, quinze anos e tudo o que me resta são bolachas dos chopes que bebemos...

- Como você pode pensar ainda num cara que te levou tudo?

- Tudo não!

- Certo. Tudo não! Ele te deixou as bolachas dos chopes que vocês bebiam... Como você consegue achar esses mondrongas?

- Eles não são mondrongas. São pessoas que não foram bem-amadas, que não tiveram o carinho necessário...

- E o Márcio, aquele cafajeste?

- Ah! O Marcinho..., ele sabia fazer uns ovos mexidos...

- Ovos mexidos? Como alguém pode se apaixonar por um homem que sabe fazer ovos mexidos?

- Sábado passado faríamos doze anos de casados se...

- Ele não tivesse te largado na José Paulino...

- Não foi na José Paulino, foi na Ladeira Porto Geral, e não fique envenenando o Marcinho desse jeito.

- José Paulino, Porto geral, o que interessa é que você foi a-ban-do-na-da. Abre os olhos mulher! Procure alguém que preste, que te dê alguma coisa concreta, qualquer coisa, menos lembranças e mais lembranças e marcas nas folhinhas- Você não me entende mesmo! – Esvazia o copo de Martini e fica jogando o caroço da azeitona de um lado para o outro na boca.

- E pare com esse cacoete nervoso!

- Que cacoete?

- Esse de ficar chupando caroço de azeitona. Admita, você não sabe escolher homem! Você é incapaz de reconhecer um homem decente e honesto. Olhe à sua volta.

Ela olha e dá com o olhar do garçom que lhe sorri. Ela sorri de volta e dá-lhe uma piscadela.

- Não adianta mesmo. Você nunca vai aprender nada.

- Agora você vai implicar com o garçom só porque ele é um humilde trabalhador? Ele não pode merecer nosso respeito, nosso amor, um pouco de carinho?

- Sua burra! Tudo o que ele quer é que você beba mais. Ele só quer te encher de martinis. Esse humilde trabalhar carente de “seu amor, seu respeito e um pouco do seu carinho”, vive dos dez por cento do que vender aos clientes, ou seja, ele é quase um cafetão!

- Mas, mas...

- Engole esse choro que o garçom está vindo aí, engole esse choro.

O garçom chega e anota mais um pedido de Martini e pistaches. Antes de ir embora olha para a moça de olhos vermelhos e percebendo que ela está chorando, oferece-lhe um lenço.

- Obrigada. – Sorri e devolve-lhe o lenço.

- Você viu que cavalheiro ele é? Você viu?

- Vi, e vi como você é burra sua tonta. Olhe embaixo da mesa.

- O quê tem embaixo da mesa?

- Só te matando. É nessa hora que agradeço a Deus minha mãe ter me dado uma educação religiosa.

- O que tem a ver uma coisa com outra?

- Na minha fé creio na reencarnação! Assim eu te mato, espero você voltar e te mato outra vez. Quem sabe renascendo uma terceira vez, você volte menos burra! Sua tonta, quando ele te passou o lenço, junto veio um bilhetinho, que caiu debaixo da mesa enquanto você assuava o nariz. Estou começando a achar que você tem muita sorte de acabar seus relacionamentos sem ficar só com a roupa do corpo!

- Você me ofende falando assim...

- Ora, como você pode dizer que eu te ofendo? Olha só que você faz consigo mesma, olhe! – Diz apontando para o garçom que vem trazendo outra rodada de martini.

– Olhe só o sorriso de sátiro no cio, olhe.

A amiga olha, sorri, pisca e fala:

- E pensar que logo-logo esse aí vai estar marcado na folhinha...

- Ah! Quer saber? Você não tem jeito mesmo! – Toma o martini num só gole, levanta-se e vai embora do bar.

Eu que já havia acabado o quinto chopinho, paguei a conta e fui embora também. Não queria ver como ia começar aquele novo drama.





2012/03/12

AMOR DIGITAL

Reclama a moça
No frio da noite
No escuro do quarto
Na imensidão da cama:


Aqueles que eu quero
Quando me querem
É à distância


Nossas únicas carícias
São pelas teclas
Do computador...

2012/03/02

QUEDA/CHÃO

o grito
é sinal último
(de vida)
antes do chão



o derradeiro encontro
é entre o corpo
e sua sombra
no chão



na queda não passa
filme de nenhum da nossa vida
o que se vê
- rapidamente -
é o cenário na vertical

MEDICAMENTO

Sonhos são
Pesadelos medicados
Com os comprimidos os certos

2012/03/01

Dragão

Quando implicam com meu cigarro
Respondo convicto:
- É o dragão dentro mim
Que solta fumaça pelo meu nariz