2010/12/28

O VELHO BILL, AS FLORES E EU



01 - Só para começar, quero deixar bem claro que eu não queria ir ao tal encontro. Alguma coisa me dizia para eu não ir. Não foi só a minha quiromante particular, ou as cartas, as imagens na bola de cristal. Não, era alguma coisa dentro do meu peito que dizia: - Não vá!
Mas no convite estava escrito: BOCA LIVRE.

02 - Cheguei duas horas depois de começado o encontro dos Amigos da Turma de 19..., umas múmias do século passado! O salão estava cheio, aliás, o que eu deveria esperar de um encontro daquele pessoal? E ainda era “Boca Livre”! Eles nunca perderiam essa oportunidade, nunca!

03 – Me “camuflei” no meio da massa e pus-me a procurar o meu velho amigo Bill. Quem é o meu velho amigo Bill? Respondo-vos. O bom velho Willian Grant, o uísque! Só assim para agüentar o porre que seria ver todos aqueles Zé-Manés da minha juventude.

04 – Acho que eu reconheci o Valete do estacionamento... Bem, nesses encontros nós nunca sabemos ou recordamos mesmo quem estamos vendo... Mas acho que o careca gordinho que pegou as chaves do meu carro era o Tomzinho... Naquela época era o Antonio, técnico em contabilidade, malhado de tanto esporte, o “Deus Greco”, sim, Greco, o intelectual de músculos salientes não sabia falar grego... (entendam como quiser isso). Se for mesmo ele, o cara está acabado. E eu, que não praticava nenhum esporte, estou aqui inteirão!

05 – Enfim avisto o garçom. Vou matar as saudades do amigo Bill. Vou atrás do garçom, mas ele segue em frente ou foge de mim! Sigo-o em meio à multidão. Mas quem será aquele sujeito ali no meio...?

06 – Ora, ora, ora, se não é o Alexander Von Brumm, vulgo Scorpion... Ah! A juventude e sua mania de apelidos americanizados. Vou ver de perto se é ele mesmo. Mas no meio do caminho havia um garçom com uma bandeja e sobre a dita bandeja um copo de uísque. Deixo para ver o Scorpion depois, primeiro o prazer, depois o depois...

07 - O miserável desapareceu como por encanto outra vez. Começo a perceber que o garçom é o meu antípoda, está sempre do lado extremamente oposto ao meu. Quando volto a avistá-lo e começo a segui-lo, vejo surgir à minha frente, graças a Deus distraído, o V.V.. Faço meia-volta e sumo de vista. Acho que era isso aquela sensação que me avisava para não vir hoje...

08 - Que burburinho enjoado! Mas é bom ficar calado por enquanto, senão vão dizer que estou mais chato que antes... Resolvo procurar o Scorpion. Como ele tem dois metros e quinze de altura, é fácil encontrá-lo. É só procurar um gigante de careca brilhante. Lá esta ele.
09 – Aproximo-me dele carregando uma cadeira de plástico. Detesto festas com cadeiras de plástico... Lá estou eu reclamando outra vez... As pessoas à minha volta pensam que vou arrumar confusão. Elas não me conhecem... Ou será que sim? Como não reconheço noventa e nove por cento dos que estão aqui, é bem capaz que me conheçam... Sigo com a cadeira às costas e a deposito nas costas do Scorpion.

10 – Com as pessoas estupefatas à minha volta, subo na cadeira, e cutuco Scorpion. Silêncio! – O pau vai comer! Quase consigo ouvir o pensamento das pessoas ao lado. Scorpion vira, num misto de espanto e surpresa. Ao me ver me dá um abraço e grita: - Beto!

11 - Aí começou a estragar a minha noite. Se tem uma coisa que detesto mais que meu nome, é o meu apelido. Detesto Beto, Betinho, Betão! Meu nome é Felizberto, com Z em vez de S. Aliás, o único Felizberto mal-humorado que a turma conhecia. Como se houvesse outro Felizberto com Z que eles conhecessem...

12 – Já no meu estado normal, fechei a cara e disse para o Scorpion quem era o Beto. Mas com aquele tamanho ele não se preocupa com meu mau-humor ou o de qualquer outra pessoa... Tapinhas nas costas. Como-vai-a-vida-o-que-tem-feito e por aí vai. Claro que não poderia faltar aquela maldita pergunta.

13 – -Como vai a sua esposa? A..., a..., esqueci o nome dela... – Margarida. Menti, o nome dela era Faustina. Onde uma mãe arruma um nome desses? Isso mesmo, como anda a Margarida? Mudou-se. Agora vive na Europa. Europa?? Como foi isso? Separaram-se? Sim. Faz uns dez anos. Mas o que ela faz na Europa? Aliás, em que país ela está? Deixa adivinhar... Portugal. Vocês sempre quiseram viajar para lá, não é? Não! Na verdade ela está vivendo na Romênia. Na Romênia? Mas como ela foi para lá? Está estudando? Bolsa de estudos, não é? Não!- respondi prontamente. Ela fugiu com um cigano e agora aquela desgraçada deve estar seqüestrando crianças, batendo carteira e lendo mãos...

14 – Com isso a minha noite azedou de vez. Quem me conhece, os amigos recentes, sabem que não falo de casamento. Assunto tabu. Proibido. Casamento, futebol, religião, política, estanhager. Não se comenta isso perto de mim! Que droga! Eu sabia que não deveria ter vindo. Mas de vingança perguntei quem era o rapazinho bonitinho de vinte e poucos anos que estava com ele. Já adivinhava a resposta. – Meu sobrinho. Desde nossa juventude era sempre essa a resposta. Imaginem de onde vem o apelido Scorpion?

15 – Cadê o Bill? Cadê o Bill? Lá está o garçom. Como uma nau em um mar revolto e tempestuoso, estico meu braço direito e vou singrando naquele mar de gente. Aproximo-me do garçom, estico meu braço, que deve ter um metro e pouco, estico meus dedos longos de poeta & cronista mundano e, faltando milímetros/segundos, uma mão fria e pegajosa puxa meus dedos de poeta & cronista mundano, junto com meu antebraço, braço e resto desse corpo sedento de uísque. Mentalmente disse: - Até logo Bill. Assim que der, eu volto. Bye-bye...

16 – Viro sobre os calcanhares, torcendo e pedindo ao meu Padroeiro São Peregrino Laziosi que não fosse V.V., que não fosse V.V. E abrindo os olhos lentamente vejo o gordinho careca que pegou a chave de meu carro. Veio explicar que havia um risco na porta da frente que ia até o porta-malas, dava volta e voltava até o capô, fazendo um estranho e bizarro zig-zag. As suas mãos tremiam, e jurava-me que nada tinha a ver com isso... Pelo tremor das suas mãos reconheci o velho, e como estava velho!, Tomzinho de minha juventude. Apazigüei-o explicando que eu comprei o carro com aquele arranhão mesmo; que ele, o arranhão, emprestava-lhe um certo charme pós-moderno sem desdenhar um certo apelo, um certo chamado à arte de meu Mestre Hieronimus Bosch. Os olhos do pobre coitado quase saltaram das órbitas.

17 – Agora eram seus lábios que tremiam. Ele balbuciou, sim balbuciou... Sempre escrevi balbuciou, mas nunca antes alguém havia balbuciado na minha frente. Estou grato a ele por isso. Não lhe falei isso, não! Aquele miserável mercenário seria capaz de me cobrar por isso. Agora foi a minha vez de perguntar: - E aí, Tomzinho, como vai a, a, a... Essa também foi a minha vez de esquecer o nome da mulher dele. Detesto essas festas, já falei isso antes? Ah! Velho Bill, o que não faço para estar com você...

18 – Tomzinho tremeu outra vez. Comecei a temer pela sua saúde. Será que além de gordo e careca estava com a doença de São Guido? Passou as mãos pela cabeça, talvez esperando encontrar algum cabelo por ali ainda. Ou talvez fosse só cacoete! Respirou fundo, e tremendo ainda mais (sim, ele deve estar doente mesmo) me explicou que largou a mulher. Foi traído! Traído! Gritou. Outra vez as pessoas olham para mim. Devem estar confirmando a má impressão que elas têm a meu respeito. Sou mesmo um arruaceiro.

19 – Com as mais baixas intenções convidei-o a tomar um uísque comigo, assim quem sabe o garçom não me serviria um também. Debalde! Nenhum de nós dois foi servido e as outras pessoas agora se afastavam de mim, talvez me considerando um arruaceiro e socialista. Haja vista que Tomzinho, como Valete, não fora convidado. Vejam a minha situação, mal visto e mal servido. Mas voltemos à desgraça dele. Explicou que depois de três anos de casado e dois filhos descobriu que a mulher o traia... Um dia chegou em casa mais cedo e... – já via aí o velho clichê, ela na cama com outro, o outro sai correndo, pula janela, etc,etc,etc – vê a mulher no banheiro – oba, mudou o cenário, mas continua o clichê – tingindo os cabelos – que anticlímax! Tremia agora convulsivamente. - Tingindo o cabelo, Beto! – pronto! o maldito apelido a me assombrar outra vez. – Você se lembra que só me casei com ela por ser loira, por ser loira... – de que adiantava agora dizer-lhe que todos nós sabíamos que Marta era loira oxigenada? Só faria o pobre diabo sofrer mais. Mas a natureza humana é mesmo mesquinha. – Tomzinho, todo mundo sabia que a Marta era loira-falsa. Até “os peixinhos a nadar no mar” da música do teu xará (Tom Jobim, caso ainda paire alguma dúvida no ar) sabiam...

20 – Saindo em disparada para a rua, ele passa pelo garçom e rouba o copo de uísque que, tenho certeza, vinha em minha direção. Desgraçado! – gritei a pleno pulmão. E olhando para as pessoas que já não tiravam mais os olhos de cima, gritei ainda mais alto: - Você vai pagar pelo arranhão na lataria do meu carro. Vai pagar. Enfiei as mãos no bolso da calça e voltei para o meio da massa humana, camuflado; ainda conseguiria pegar o maldito copo de uísque, nem que tivesse que matar a metade daquelas pessoas. Vi o garçom, fui atrás dele, segurei-o pelo colarinho do fraque e o sacudi, sacudi, sacudi até que o Scorpion apareceu para me apartar. Não sabia que o garçom já tinha sido “sobrinho” dele. Quase apanho daquela monstruosidade.

21 – Pensei em ir embora quando, quando, quando – até me arrepia lembrar dessa parte – vi o espectro de Júlia. Mais branca do que me lembrava, pálida, translúcida, olhos fundos como um precipício, cabelos negros e longos como uma noite sem fim... – apelei, sei que apelei, fui longe na descrição! Mas ela estava acabada. Via-se que o casamento também não lhe fez bem. Aproximei-me dela sorrindo, era o primeiro sorriso da noite, eu estava guardando para uma boa ocasião, talvez quando eu encontrasse o Velho Bill, mas deveria improvisar, era por uma boa causa. Júlia... Ah! Júlia.... – suspirei tão fundo que ela acabou falando comigo antes que eu falasse com ela. – Beto! – falou sorrindo, fechei a cara. – Você ainda continua implicando com isso depois de mais de trinta anos! Você continua tão implicante quanto antes! Fechou a cara também. Estou vendo que tenho uma inclinação que é quase um dom divino de estragar qualquer encontro.

22 - Como que para me provocar, perguntou: Como vai a, a, a, a... Esqueci o nome da sua segunda esposa – sim, só ela sabia do meu segundo casamento, muito embora ignore o terceiro –, acho que esqueci. Hermelinda (meu segundo dom é arrumar mulher com nome de gerúndio!), digo, Violeta! Ah! Isso mesmo, a Violeta... Como ela está? De cara amarrada respondi que não sabia. Me separei! Sinto muito – disse assim muito sem graça. Que chato dar um fora desses, não é? Não poderia ser pior. Como poderia ser pior? – vi que ela corou um pouco – o V.V. poderia me perguntar a mesma coisa. O que é que o V.V. tem a ver com isso? – Com uma calma anormal em mim expliquei que ele fugiu com a Hermelinda, digo, Violeta. Foram para Buenos-Aires... – menti, sempre achei que deveríamos fazer alguma coisa contra os argentinos, nada poderia ser pior que mandar aquele sátiro-priápico-egocêntrico e a minha ex-mulher para lá.

23 - Como um fantasma Júlia sumiu e me deixou falando sozinho – ótimo- falei com meus botões. Estiquei o braço direito e voltei à luta. Gritei: À carga! – todos olharam para mim outra vez, estava começando a me divertir com isso, e sou inimigo de me divertir, e saí singrando aquele mar de gente atrás do Velho Bill. Passei perto de V.V., senti um impulso de perguntar por Hermelinda, digo, Violeta. E, como sempre, cedi aos meus impulsos.

24 – Grande V.V.! – disse quase gritando e chamando, dessa vez por vontade própria, a atenção daquela raça. Como vai essa bizarria? O sorriso amarelo dele valeu todos os anos que passei remoendo uma vingança. – Como vai a sua esposa, a, a, a, a, cara, acho que esqueci o nome dela. Os seus lacaios... – ele vive cercado de lacaios, V.V. era o único vivente bem-nascido da nossa rua, e vivia esfregando isso em nossa cara. Com o tempo passou a comprar amigos, seguidores e por fim descobriu que é mais barato comprar lacaios. Ele os tem aos montes. Capitalista dos infernos. Mas voltando ao assunto, os seus lacaios iam me cobrir de porrada, quando, magnânimo, V.V. disse bem alto para que todos ouvissem. – O nome da minha esposa é Violeta, digo, Hermelinda. Como você pôde esquecer o nome da sua ex-mulher? – Do alto de minha indignação respondi-lhe que não entendia de hortifrutigranjeiro. Virei as costas e fui embora a tempo de escapar de ser socado até morte. Mas, por Deus! O que vejo lá na frente?

25 – O garçom estava, outra vez, do outro lado do salão. Só nesse momento me dei conta de que o miserável do organizador só havia contratado um garçom para servir nessa reunião. Isso estava me cheirando a vingancinha do Scorpion. Aposto que ele estava fazendo isso só para humilhar o seu penúltimo “sobrinho”. Ele sacaneia o garçom e eu fico sem beber... A vida é mesmo muito engraçada.

26 - Olho o relógio. Já deve estar na hora de ir embora. Pelos cálculos que fiz antes de chegar aqui, a essa hora já deveria estar caindo de bêbado, brigado com todo mundo e sido chutado para a rua, mantendo o velho padrão autodestrutivo de sempre. Mas que nada, aqui estou sóbrio, mas coerentemente arrumando encrenca, assim, logo-logo, sou chutado para a rua. Eu sabia que isso aqui não ia prestar... Só quero ver aquele arranhão que o Tomzinho falou.

27 – Amanhã, quando eu acordar, vou escrever tudo isso. Ah! Eu vou dar nome aos bois! Essa história vai me dar dinheiro para pagar o divórcio da Almerinda, digo, Rosa.

“STAPLAFT”

OU COMO DUROU POUCO A MINHA CARREIRA DE LIDER MILITAR





Não vou me demorar no relato de minha triste história.
Ela começou assim numa quinta-feira de céu azul claro que mais parecia uma pintura, um dia tão lindo que só serve para aumentar ainda mais a ironia de tudo isso.

Estávamos em guerra e os inimigos se aproximavam de nossa cidade. Todas as pessoas importantes estavam reunidas na sala principal da prefeitura onde eu pedira a palavra. E ai começa a minha desdita...

- Isso não pode continuar assim, as hordas inimigas já estão nas nossas barbas – gritei e bati com mão espalmada no tampo da mesa.
Esperava que o som fosse algo parecido com um trovão, que derrubasse os copos e as canetas, mas o som que produzi saiu mais parecido com um “staplaft”. Um som parecido com alguma coisa chata, plana, fina e inexpressiva caindo n’água. Um efeito bem pouco másculo, sem dúvida!

Ao redor da mesa as pessoas me olharam mais com piedade do que com medo ou respeito. "Comecei mal, comecei bem mal." - pensei com meus botões. Mas à essa hora já havia perdido o fio da meada e seja lá qual fosse a crise, com aquela batida de mão na mesa eu já tinha demonstrado ser incapaz de resolve-la.

Ninguém seguiria a liderança de um homem que bate na mesa e faz “staplaft”, ninguém em sã consciência me seguiria... Que tipo de líder faz “staplaft” numa hora de crise? Só eu! Esse líder de quinta categoria.

Por parcos segundos pensei ser Gêngis Kan, Aníbal, César, Napoleão, um general, um líder de homens, mas o “staplaft” acabou com a minha vida, minha liderança virou fumaça e fiquei ali, feito um fantasma, deixado de existir.

Por mim, a crise poderia ter aumentado tanto naquela hora que o mundo poderia ter se acabado, os inimigos poderiam ter nos invadido, matados a todos e a terra ter me engolido.

Mas nada disso aconteceu. O céu continuou ali, azul, e as pessoas em volta da mesa me olhando. Sai de lá humilhado e olhando para minha mão, me perguntava como uma mão máscula, grande, de longos dedos, com um grosso anel de ouro, poderia ter produzido tal “staplaft”?

Uma vez na rua amaldiçoando minha mão, o céu, meu país, a guerra e os miseráveis na sala, que talvez agora estivessem rindo de mim, decidi:
- Nunca mais me meto a ser o salvador da pátria, ser aquele que sabe, ser aquele que dá o primeiro passo. Não, nunca mais!

Agora só espero o fim dessa guerra, a vitória dos inimigos e o fuzilamento de todos os que estavam naquela sala comigo, pois só assim terei coragem para sair à rua outra vez.

Acompanho dia-a-dia, os noticiários do avanço do exército inimigo, em poucos dias, pelos meus cálculos, eles entrarão na cidade. Já estou tomando as devidas providências para recebê-los.

A primeira será um belo discurso de rendição ao exército vitorioso e libertador, e a segunda, a mais complicada por hora, é arrumar uma mesa que não faça “staplaft” quando eu bater com a mão no tampo dela!

Agora é tudo uma questão de tempo, tudo uma questão de tempo...

2010/12/22

2010/12/20

BEBIDAS E FUTEBOL

Mais um texto velho...


23:35h, quarta tulipa de chope escuro, duas caipirinhas de abre-alas, porção de fritas com queijo já na saudade, e de repente o Magrão pergunta assim à queima-roupa:

- Tem jogo amanhã lá no estádio, vamos?
O miserável sabe duas coisas importantes sobre mim:

1. Detesto esportes em geral, e futebol em particular, e
2. Topo qualquer coisa depois de três chopes.

- Então combinado, às seis horas da tarde todo mundo em casa e vamos juntos pro estádio.
Ok! respondemos juntos e pedimos outra rodada de chope. Lá pela uma e pouco da madrugada fomos embora. Acompanhei o Magrão até perto de casa, ele seguiu em frente e eu fui para o meu apartamento.
Subi as escadas lenta e tropegamente, tirei as roupas e o sapato, quando as chaves caíram no chão foi que reparei que havia trocado a ordem das coisas, me dei conta que estava nu no corredor do prédio, e quase arrombando a porta de meu apartamento, entrei. Tomei banho e me enxuguei no lençol da cama...

Acordei sábado, passava do meio-dia, com ressaca. Dirigi-me à cozinha e fiquei a meditar profundamente - na verdade acho que dormi mesmo em pé - no que faria, se café ou almoço, resolvi abrir um pacote de amendoim. Não me fez nada bem.

Voltei ao aconchego da cama.

Toca o telefone, era o Magrão confirmando o futebol de hoje à noite.

- Mas que futebol? E eu lá sou homem de futebol? Quando que em sã consciência... – foi ai que me lembrei, malditos chopes...

- Como fazemos? Você passa aqui ou vou ai? – Pergunto bancando o desentendido.

- Você passa que os lastros vão vir também, tomamos uns aperitivos aqui em casa e vamos calibrados pro estádio.

Importante explicar o que são os lastros. São dois sujeitos dos mais sem importância que andam conosco somente para dar lastro ao carro, sem mais explicações.

Desliguei o telefone, virei de lado e voltei a dormir. Não sei se sonhei, mas acho que os amendoins fizeram uma festa no meu estômago...

Acordei faltando pouco para as cinco da tarde, temei banho, e sai me exugando pelo apartamento.Vesti-me, desci para a rua, cumprimentei o porteiro do prédio que me respondeu com cara de desaprovação...

Sei lá o que passa na cabeça desse sujeito. Vou até a calçada e grito:

- Roubaram meu carro! – Faço o espetáculo padrão dos roubados: grito, arranco os cabelos, xingo e por fim vou culpar o porteiro. Por isso ele me olhou daquele jeito, é cúmplice, é cúmplice...

Antes que dissesse qualquer coisa ele me perguntou:

- O senhor esqueceu o carro no bar outra vez?

Meu Deus esqueci o carro no bar outra vez! A bebida ainda me fará andar de ônibus um dia!

Telefono pro Magrão:

- Vou demorar prá chegar ai, vou passar no bar e pegar o carro.

Sigo a pé até o bar, chegando lá vejo Ivan limpando as mesas e esvaziando os cinzeiros. Quando me vê, abana os braços à guisa de cumprimento e nem bem me aproximo ele grita:

- Esqueceu o carro outra vez hein?

Todos os outros garçons olham para mim e para uma fileira de carros de luxo ali estacionados. Cabisbaixo entro no meu fusca azul e crio um anticlímax no bar.

Sigo para a casa do Magrão, os lastros já estão lá. Buzino e logo os três descem cantando alguma coisa que lembra hino religioso e grito de guerra. Trazem quatro buzinas, quatro bandeiras coloridas, quatro chapéus ridículos

- Onde eu me meti?

- O que foi que você disse? – pergunta o Magrão sacudindo uma bandeira na janela do carro. Nada respondo.

Sigo o engarrafamento até o estádio, e para a minha alegria uma fila imensa já se apresenta na rua.

- Desçam aqui que vou arrumar estacionamento, nos encontramos lá dentro.

O Magrão desce e logo é seguido pelos lastros.
Espero para vê-los entrarem na fila e vou-me embora. Minutos depois entro no bar;

- Ivan, dois chopes! Cumpri minha palavra, combinei de ir ao estádio, e fui “até o estádio”. O Magrão tem muito ainda o que aprender quando o assunto é "me levar ao futebol". – sorrindo esvazio a tulipa.



Em tempo:
- Ivan te lembra alguma coisa Vadinho- Memorioso?

2010/12/15

GRINGA

(essa velha, mas resolvi postar assim mesmo)


- Isbiutiful, isbiutiful!!

Ela chegou. Uns tocam campainha, outros batem à porta, a gringa grita:

- Isbiutiful!

Tudo é “Isbiutiful”. Ninguém sabe onde ela aprendeu a falar isso, mas repete a palavra, que pensa ser inglês, a toda hora, em qualquer situação.

Pobrezinha.
É conhecida por gringa por dois motivos, a saber:

1. Recém chegada de algum lugar ermo do Nordeste;
2. Esse hábito de repetir feito papagaio a palavra “Isbiutiful”.

Desgraçadamente, como costuma acontecer, arrumou um emprego de empregada doméstica ou, politicamente correto, de “secretária do lar”.

Na sua hora de almoço conheceu Sidney, conquistador barato, loiro falso, olhos azuis falsos, pivô no incisivo lateral direito, quase ninguém nota, só quando cai, cartão de crédito..., também falso.

Ele faz bico numa pet shop, onde a gringa vai passar tempo vendo cachorrinhos poodle e sonhando em comprar um pitbull, segundo ela - Para ter segurança, sabe como esse povo aqui do sul é, né? Não pode ver uma moça bonita que já mexem com a gente! - Diz fazendo biquinho, e pensando onde colocar um “Isbiutiful” na conversa.

Não arrumou lugar, vê-se pela feição carregada de frustração.

Gringa vive tentando fugir dos galanteios de Sidney, faz-se de difícil, diz que não quer, mas cede, sempre.

Dia desses, com calor, foi tomar um guaraná com Sidney. Reclamou:

- Não tem petiscos? - Palavra nova para salgadinhos.

Sidney sai correndo e traz um pratinho cheio de ração de cachorro, e serve Gringa, que maravilhada diz:

- Isbiutiful! Delicioso! - enchendo as mãos, e conseqüentemente a boca, repete- Isbiutiful!

Sidney ri e oferece mais.

Eles se olham nos olhos e pensam se acharão coisa melhor nessa vida.

2010/12/09

O PORTA-RETRATO DE CELESTE


Acabara de polir o porta-retrato de Celeste, e o colocara sobre a velha cômoda. Sentou-se na poltrona e ficou a contemplar a foto. Admirava-se da beleza jovial de Celeste, o sorriso, os cabelos, o vestido azul-claro, as mãos brancas, o colo levemente sardento...

Celeste imortalizada naquela foto.

As horas passavam lentamente e Lúcio continuava a olhar para o porta-retrato alheio a tudo mais.


- Celeste... - murmurava com um sorriso maroto e baboso.


Pensava sobre o milagre da fotografia, da capacidade, do poder de imortalizar o momento e as pessoas.


- Celeste tão linda Celeste. - resmungava baixinho para a foto.


A barba por fazer, os cabelos longos e desgrenhados, as roupas puídas, as costa curvadas, enfim um homem acabado e apaixonado por uma foto, um momento, um período passado de sua vida.

Tantos sonhos, tantos planos, projetos de vida, a certeza de envelhecerem juntos.

Lúcio e Celeste, Celeste e Lúcio.

Mas o tempo inclemente que devora os próprios filhos e os sonhos levou o melhor de Celeste...

Levou-lhe a juventude, o viço, a pele de pêssego, o sorriso, o brilho dos cabelos cor de ouro, a alegria, enfim levou de Lúcio a sua Celeste, que hoje vive em um porta-retrato de prata que ele pule todos os dias.


- Celeste...


Dos fundos da casa uma voz aguda e estridente chama seu nome:


- Lúcio seu vagabundo, cadê você, seu imprestável?


Lúcio enxuga uma lágrima amarga que corre pelas rugas de seu rosto magro e seco, e quase chorando olha para o porta-retrato de Celeste e se pergunta:


- Celeste o que tempo fez com você meu amor? – E com dificuldade levanta-se da poltrona para atender aos gritos de Celeste, a velha.


2010/12/07

Natal... (tem que ser todo ano?)

O Natal está chegando
Já vejo nas vitrines
Luzes coloridas

(piscando)

E preços extorsivos

(um assalto institucionalizado)

O Natal se aproxima

(ouço seus passos)

Cada ano
Mais célere
Poupo meu tempo
Com e-mails em vez de cartões

(assim economizo nos selos)

Cada vez mais facilidades

(malditos crediários)

Cada vez menos carinho

(o amor se foi...)

O Natal esta se achegando

(ouçam, ouçam)

Olha ele ali na esquina
(quase tocando seus ombros)

Mais que Boas-Novas
Vejo ofertas
Tudo em doze vezes sem juros

(e, tsc, o próximo Natal já está condenado antes da hora)

O Natal se infiltra em nossas preocupações
Listas e mais listas
Sortear quem presentear
Lembra de quem?
Quem esquecer?
Escolher quem foi bom
Quem foi ruim

(isso é cada vez mais fácil)

O Natal que está logo ali

(não, não olhe para trás)

Me obriga a ser juiz, júri e executor

(mas não me é qualquer sacrifício)

Os dias que o antecedem a nos aborrecer...
Tão poucos dias para aproveitar
E depois...
...os dias a contar para o próximo.

- Ah! O Natal!

2010/11/17

Basicamente acabou assim

...e então às cinco e meia da manhã do dia vinte e cinco de dezembro, natal, tia Tulipa saiu de fininho com o motorista da família, colocando um ponto final nessa festa dos infernos, da qual, tinha certeza, era a sua última com esse bando de abutres.

Foi-se, levando o que pode poucas roupas, uns pedaços de peru, dois figos, um punhado de cerejas, um engradado de cerveja e todo o dinheiro que conseguiu roubar dos bolsos e bolsas dos parentes.

Enquanto Tia Tulipa fazia a pilhagem, num suspeito fusca azul estacionado na rua de trás, que dava para os fundos da casa, Celinha, que se despedia do namorado traficante, tonta e alucinada, vomitava toda a comida consumida na noite anterior. O que, para sua sorte, a salvou de um envenenamento por cianureto, haja vista o prato que lhe foi servido, por engano, era destinado à Tia Tulipa, que naquele momento encontrava-se ao telefone recebendo votos natalinos de felicidades e bom ano novo.

Tio Zezinho, ao acordar, para seu desgosto - com a justiça divina, afinal sempre se sentiu perseguido pela má sorte, um fantoche do destino! - desgraçadamente percebe que ainda está casado e não viúvo, mas abandonado e trocado por um motorista semi-analfabeto. Maldita má sorte – pragueja para si mesmo...

Amaldiçoou Deus, a indústria farmacêutica, e os sobrinhos-netos, aqueles drogados inúteis, incapazes de uma simples troca de pratos. Em silêncio felino revirou a casa à cata de algo de valor, mas amargurado, constato que Tulipa não deixara nada de grande valor que valesse roubar.

Ouvindo passos no andar de cima Zezinho, silenciosamente voltou ao seu quarto e fingiu dormir, mas ficou de ouvidos atentos.

As crianças dormiam o sono dos justos e inocentes enquanto esse drama se desenrolava.

Os passos ouvidos eram dos donos da casa, Aurélio e Sarita que acordavam para contabilizar os estragos da noite anterior, velho hábito de família que passava de geração a geração. Todos os anos eles acordavam cedo, contabilizavam o que havia sido quebrado, estragado, roubado, e durante o café da manhã, cobravam dos parentes e convidados.

Com grande espanto, mesmo para essa família constataram que os estragos desse ano haviam passado da conta. Pois além dos eternos roubos de talheres, quadros, copos de cristal esse ano houve roubo de carteiras, relógios, jóias em geral!

Um abuso de confiança, mesmo para uma família como aquela!

Acusaram-se mutuamente por terem, mais vez, resolvidos comemorar outro Natal em família.

Aurélio depois de discutir com Sarita trancou-se em seu quarto – pois dormiam em quartos separados, segredo esse guardado à sete chaves - e telefonou para o amante.

Ela, chorando, com as mãos cheias de tranqüilizante, acorreu à garagem procurando consolo nos braços de Jeremias, e lá chegando, descobre um bilhete deste, explicando sua fuga com Tia Tulipa e pedindo desculpas pelo roubo do carro. Em choque Sarita deixa suas pílulas caírem de suas mãos e rolarem pelo chão, desesperada joga-se ao solo, e rastejando começa a catá-las uma a uma, sem prestar atenção à gritaria no quarto das crianças.

Pois elas ao acordarem, sorrateiramente vão ao quarto destinado à velha tia, e lá em vez de encontrarem o corpo duro, morto e envenenado da parenta, encontram isso sim, outro bilhete, na raiva cega de ex-herdeiros, e como de hábito nessa família, passam a atracar-se entre si, a se acusarem mutuamente, e no calor da discussão rasgam o bilhete sem ler.

E a missiva assim ao ser picada e jogada fora, priva essa história de uma boa dose de drama e conspiração.

Nem mesmo a competentíssima polícia, mais tarde, tomará conhecimento dessa peça de grande interesse literário e policialesco.

Os outros convidados que ainda dormiam foram acordados pelos gritos que agora vinham de todos os cantos da casa. Aurélio, ao telefone num misto de choro, desespero e palavrões – pronunciados em alemão com forte sotaque da Bavária - gritava com o amante, não querendo conselhos, ou palavra de apoio, queria vingança, sair daquela hoje mesmo, queria ser feliz, tudo dito entre soluços, socos nas paredes, chutes em Estácio III, seu poodle cor-de-rosa, que nervoso com tantos gritos, latia histericamente; Sarita, na garagem, gritava pela perda de Jeremias, das pílulas, pela vergonha de, agora, todos saberem que seu marido tinha um amante, e pela receita de seus calmantes que estavam no porta luva do carro; as crianças continuavam brigando, e lutando rolavam escada abaixo, derrubando os vasos chineses, os quadros das paredes, e derrubando os resto de comida da mesa no tapete.

Aproveitando-se da confusão, Tio Zezinho tenta empreender fuga, levando consigo um quadro de Picasso, de sua fase azul, mas quando abre a porta da frente, Celinha entra correndo, aos vômitos, amparada por seu namorado chapado, que fugia da polícia...




EPILOGO
Agora Dramaticamente Resumido




Tia Tulipa foi feliz até uma parada na estrada para um café, quando foi abandonada no toalete, e Jeremias fugiu com todas as sacolas do saque da velha senhora.

Tio Zezinho, acusado pelos sobrinhos-netos - em troca de redução de pena - foi preso por tentativa de assassinato por envenenamento, sedução de menores – eles mentiram para a polícia, dizendo que eram molestados pelo velho safado – e, por fim, tentativa de roubo. (aqui um pequeno adendo - Tanto o velho quanto os policias, não souberam reconhecer a falsidade do quadro, que havia sido trocado pelo verdadeiro por Aurélio que presenteou o amante com o original).

Sarita, histérica em último grau foi internada num sanatório, e logo esquecida pelos filhos.

Celinha, posteriormente descobriu que vomitava tanto por estar grávida. Hoje se dedica de corpo e alma a uma seita neo-pentecostal. Largou o antigo namorado-forncedor, e também as drogas sintéticas.

As crianças foram enviadas para um colégio interno, onde dois dias depois, encontraram o ex-namorado de Celinha e passaram a traficar em portas de escolas. Esse cronista crê não durarão muito!

Aurélio hoje mora com o marido – casaram-se em Londres – mas ainda é infeliz, desconfia que é traído, toma calmantes cinco vezes por dia e corre o risco de ficar impotente.

E Jeremias com o dinheiro roubado de Tia Tulipa, criou uma Igreja Neo-Pentecostal para ex-drogados...

CONVERSA DE BAR E SUAS IMPLICAÇÕES

Na terceira mesa à esquerda de quem entra no bar do portuga, num canto sujo e infecto, sob uma lâmpada de quarenta watts, seis amigos, já altos, conversam, riem alto e bebem outra rodada de chope.
A peroração continua, até que de repente Zé Carlos, o fuinha, batendo a mão com força na mesa a ponto de jogar os amendoins ao chão grita com fúria nunca vista antes:

- Pelo menos eu não sou corno!

O silêncio cai sobre a mesa fazendo mais estrago que um container sobre um fusca. Todos se olham, baixam a cabeça e deixando os copos cheios, as rodelas de lingüiça com cebola e os amendoins no chão. Lentamente, colocam as mãos nos bolsos, tiram de lá uns trocados que deixam sobre a mesa e vão-se. Nunca mais se encontram.

Ou.

Todos se olham, dois pegam o Fuinha pelo colarinho e começam a sacudi-lo, Andrézinho, cobre o rosto com as mãos calejadas e começa a soluçar, num segundo pula sobre Fuinha e ameaça cortar sua garganta com uma tulipa de chope. Os outros dois que estavam ao seu lado ficam espantados com:

1. A violência de Andrézinho, e
2. Saber que ele é corno.

- Logo o Andrézinho o mais bacana de todos ali na mesa, que injustiça!

Os fregueses acorrem para apartar a briga, os garçons correm para cobrar a conta e o português puxa o bigode preocupado com os prejuízos.
O pau corre solto.
Após a briga nunca mais se falam, e dias depois lêem no jornal que Andrézinho foi preso por agressão, mas a mulher passa bem no hospital

Ou.

Entra o pessoal do “deixa disso”, pedem outra rodada de chope e mais amendoim salgado. Fuinha, explica que não sabe o que deu nele para falar uma coisa dessas, bebe três tulipas de chope de uma só vez, engasga, tosse e começa a chorar. Todos se olham sem graça.

- Será que ele é o corno? - Perguntam-se.

O garçom chega com os amendoins e quebra o gelo.
No balcão toca o telefone que o português atende com rápida presteza. Ele grita:


- Telefone “prú” Fuinha, ó Fuinha! É a Dona Emília.


Os amigos param de beber e com os copos a meio caminho entre a mesa e a boca, se perguntam:

- Quem é dona Emília?

Fuinha, calmamente acaba seu chopinho, enche a mão com os amendoins e levanta-se para ir balcão atender ao telefone.
O garçom traz outra rodada de chope.
A noite vai ser longa para explicar essa história...

Ou.

2010/11/11

ALMOÇO


Feliz é o Vadinho, pois com ele nada disso acontece!


Estava indo almoçar quando, de frente aos Correios um mendigo (qual é palavra politicamente correta para isso?) quase me abordou para me vender umas jujubas, diante de meu espanto, sim espanto, pois andava mergulhado em preocupações e elucubrações outras que comprar guloseimas. Com tal sobressalto ele se afastou e começou a gritar - sua boca possuía somente dois dentes -, que estava feliz, não, muito feliz, transbordante de felicidade, que estava até melhor que eu, pois trazia ele Jesus no coração.

- Mais para assombrar minha alma já tão atormentada...

Seus gritos de insana alegria foram ficando para trás á medida que seguia o meu caminho em direção ao restaurante onde eu deveria comer minhas folhas verdes em detrimento das adoradas massas e as deliciosas sobremesas – maldita diabetes.

Mas foi andar uma ou duas ruas e uma mocinha (ruiva, olhos negros e sardas) muito simpática me pára para fazer uma pesquisa “ultra-rápida senhor”, respondi de má-vontade, não deixei meu celular, pois como lhe disse; - “Não vou comprar nada” - segui sem ouvir-lhe qualquer outra explicação.

Já via meu restaurante e suas alfaces quando uma mão me segura o braço, fazendo quase cair meu cigarro (velho companheiro de desditas), e ouço a voz histérica que me diz:

- Pare de fumar! Eu consegui, faça o mesmo, esforce-se e largue do cigarro enquanto ainda é tempo. Siga meu exemplo, para de fumar!

Olhei para o sujeito de alto a baixo, era um fulano que trabalhava no mesmo lugar que eu, um sujeito a quem me limitava a dar um bom ou um até amanhã quando o encontrava no corredor do prédio. Nunca havia trocado outra palavra sequer com ele, nunca havia lhe dado qualquer liberdade, como ele poderia vir falar assim comigo?

Pelo meu olhar ele deve ter desconfiado do meu desagrado, largando meu braço pediu para que eu pensasse no assunto com carinho e seguiu seu caminho, talvez frustrado, pois não lhe dei nenhuma esperança de vir a pensar nisso.

- A salada de hoje vai me cair amarga! – matutei com meus botões.

Antes de atravessar a praça e entrar para comer vi um pastor evangélico começar a pregar seus apocalipses e antes que ele olhasse para mim, apertei o passo para o restaurante.

E pensar que ontem choveu tanto...

2010/10/29

PATIFES II

A VIDA REAL CONTINUA


Naquela casa de subúrbio outra vez.

Ela anda de um lado para outros roendo as unhas e olhando par o telefone sobre a mesa, na mão esquerda trás o celular. Já mandou os filhos para a casa da avó, colocou comida no pote do cachorro na esperança que uma hora dessas ele retorne ao lar, a cama já está feita,a comida pronta, passou até as cortinas, varreu a casa três vezes, colocou uma música suave para tocar – um pagode romântico- regou a plantação de tiriricas e samambaias nas frestas do quintal, já fez de tudo para manter-se ocupada, mas o telefone não toca.

Ainda segurando o celular pendura-se no muro de casa esperando alguma chamada, já são cinco e quinze da tarde, o sol logo irá se pôr...

Cinco e meia da tarde, as unhas da mão direita roídas, enfim o celular toca.
Angustiada e sem fôlego ela responde:

- Alô, alô, alô!

- Calma mulher, calma, o que é isso?, está fugindo de cobrador ou do ex-marido? Ta pronta?

- Claro que estou pronta, aliás, já estou pronta desde as dez horas da manhã. Achei que você não fosse me ligar mais hoje. Isso são horas... – interrompida.

- Não comece com cobranças. Será que você nunca aprende? Não me pressione, não me cobre, não me exija nada, não me dê diretas nem indiretas, quer que eu desligue esse telefone na tua cara? Quer?

Silêncio constrangido e magoado, quase se ouve um suspiro...

- Desculpe, é que fiquei preocupada...

- Preocupada com o quê? Por quê? Quando te dei liberdade de se preocupar comigo? Tá pronta ou não?

- Tô...

- Fala alto que não estou de ouvindo direto, ta cansada? Mulher preguiçosa.

- Estou pronta sim. Quando você vem me buscar?

- Olhe eu tive uma idéia genial, coisa de louco, de gênio, nem no cinema se vê uma coisa dessas. Lembra que você me perguntou qual era o meu sonho erótico?

- Lembro sim, qual é o seu sonho? – responde rindo de felicidade. A noite está ganha! - murmura para si mesma.

- Você está pensando alguma coisa?

- Eu...?

- Pois para com essas suas idéias ou passe a pensar mais baixo. Não tenho tempo para suas tolices e pare já com o choro...

- Desculpe...

- E deixe de tanta reticência...

- (silêncio constrangido)

- Por sua causa veja quanto minutos preciosos nós perdemos. Sua irresponsável. Sabe duma coisa? Acho que vou prá casa, se tiver que me aborrecer com alguém, que seja com minha mulher.

- Não – gagueja nervosa – não, não vá embora. Me conte sua fantasia, estou disposta a fazer o que você quiser.

- Ok. Preste bem atenção ao que vou te falar, se for preciso, anote prá não errar. Essa é a tua última chance. Pegou papel e caneta? Então vamos lá.

Quarenta e sete minutos depois ela sai de casa, o sol já se pôs, a noite chega e ela sai de casa vestindo uma mini-saia de couro preto, meia arrastão, rasgada nas coxas, sandália de saltos altíssimos – tropeçou algumas vezes – maquiagem supercarregada, cabelo Chanel, blusa vermelho berrante, batom combinando, cílios postiços – que pegou emprestado com uma prima - bolsinha de corrente dourada – emprestada da vizinha - e na mão direita a chave de casa que ela ia rodando pelo caminho. Já noite fechada chega ao centro da cidade.

Todo o comércio já fechou, aberto só os bares mais mal afamados de onde se ouve músicas de gosto duvidoso, pessoas as suspeitas circulam por lá. Ela rodando as chaves de casa anda para cima e para abaixo na rua escura. As “profissionais” olham-na com um misto de suspeita e pena, pois suas carnes “vazam” pela sua blusa e a saia de couro está prestes a rasgar. Sob um poste ela tenta ver as horas.

- Está ficando tarde, onde esse sujeito terá se metido? – nervosa pede um cigarro a uma mulher sentada na escadaria dum hotel.

Duas horas e várias cantadas depois, ela sabiamente deduz que ele não vem mais. A fome começar a bater, o cigarro deixou sua boca seca, sedenta ela entra num bar, encosta no balcão – sua maquiagem já está totalmente borrada - e pede um copo de água. Um marinheiro que bebia conhaque oferece-lhe uma bebida, a princípio ela sente-se insultada – Afinal quem você pensa que eu sou? – Mas o marinheiro é sueco e não entende nada de português e concluindo que ele nunca iria fazer fofoca para ninguém conhecido, sem qualquer relutância, aceita.

Mais tarde irá acordar na cama de hotel com um maço de notas de dólares na cabeceira da cama.

- A noite não foi uma perda total – consola-se.

Antes de voltar para casa passa no supermercado e faz compras para os filhos, antes de ir para a cozinha para em frente ao telefone para ver se há mensagens para ela...

2010/10/26

PATIFES - UMA HISTÓRIA REAL

CADA MISERÁVEL COM SUA MOEDA
Como
essa miserável é baratinha, basta uma florzinha, um aceno, uma promessa, um
“amanhã te ligo” e seu dia está ganho.
O sorriso bobo enfeita-lhe a cara
parva.
Tão bonitinha, mas...




Dez horas da noite sábado, num subúrbio um telefone toca.

- Alô.
- Vou passar ai. Te arruma que vou te pegar. É hoje o dia e nem tente me enrolar.
- Quem fala? – pergunta com voz histriônica e irritante.
- Ora, não banque a burra, sou eu. Estava esperando outra pessoa?
- Ah! É você... – desdenha.
- Claro que sou, estava esperando quem?
- Estava não, estou! O Ginno vem me pegar pra sair.
- Está me traindo, sua vadia?
- Traindo? Não tenho nada com você... O Ginno é meu namorado – ênfase no meu – Você não é nada prá mim.
- Não sou nem nunca serei, já te falei isso. Contigo só quero uma coisa, e você sabe o que é – ri com escárnio.
- Não me procure mais, o Ginno já está aqui na porta.
- De carro?
- Não...
- De moto?
-Você sabe que o Ginno é um duro... - responde entre magoada e arrependida da resposta.
- Você não presta nem para escolher namorado mesmo. Não presta.
- Então por que você corre atrás de mim?
- Justamente por isso, você não presta. Não presta nadinha...
- Você me magoa falando assim... – finge que chora.
- Engole esse choro falso, nem chorar você sabe. Mentirosa...
- Mentirosa, eu ?
- Sim. Se o Ginno tivesse chegado você já teria desligado o telefone...
- Vou desligar.
- Antes me responda.
- O quê?
- Vocês vão a um motel ou pra casa dele...?
- ... (silêncio)
- Safada.
- Prá casa dele...
- O duro não tem grana prum motelzinho?
- Não é isso, a casa dele é muito melhor que um motel qualquer, lá tem uma escadaria...
- Uma o quê? Escadaria?
- ... (silêncio) - Você não presta mesmo. A que horas vai voltar de lá?
- Uma ou duas horas da manhã, afinal tenho que ver meus filhos voltarem da rua...
- Você não presta mesmo, não presta mesmo!
- Você vai passar aqui quando eu voltar?
- Não posso, amanhã tenho que fazer a feira com a minha mulher. Se quiser me ver é agora, despacha o Ginno, diz que está com dor de barriga, diz que desceu antes da hora, diz que teu ex-marido quer discutir a pensão das crianças, minta, afinal mentir é muito natural prá você, ande, invente alguma coisa. Já estou saindo.
- Olha..., vou pensar em alguma coisa...
- É o seguinte, vou desligar e te chamo em cinco minutos, cinco minutos com uma resposta.

Dez minutos depois o telefone toca.

-Alô
- E então?
- Despachei o Ginno...
- Que pena, resolvi não te ver mais. Olhe, estive pensando, não me procure nunca mais, ok, nunca mais, me esqueça, apague meu celular, não me procure...
-... (soluços, ela chora baixinho)
- Alô? Você já cortou os pulsos?
- Não... Você me fez desmarcar com o Ginno prá quê? E agora quem vai arrumar a fiação da sala? As goteiras do teto...
- Te vira. Não é assim que você sempre faz? Te vira, liga pro Ginno, diz que mudou de idéia...
- Ainda te mato um dia! Bate o telefone.

Passada meia-hora...

Telefone toca

- Ainda está ai vadia?
- Mudou de idéia vem me buscar? Ainda estou arrumada – ri – Aproveita que o perfume ainda não venceu.
- Vou ai sim, mas nada de sairmos, pode ir tirando a roupa, meia hora estou ai. Mande seus filhos prá casa do pai. Solta o cachorro na rua que hoje não estou pra latidos.
- Tá bom. Vai querer jantar quando chegar?
- Você não vale nada mesmo...
- Essa é a tua sorte! – ri aliviada, pois pensa que a noite está ganha.
- Meia hora, esteja pronta, nada de me pressionar prá largar a família, e trate de chamar o Ginno para arrumar essa goteira, pois se chover durante a noite me levanto e vou embora.

Ele não apareceu, o cachorro fugiu, durante toda a noite choveu.

Pela manhã...

- Ginno...? Sou eu...

2010/10/18

NÃO...

- ... deixe que ele pronuncie seu nome, não deixe não! Aqui, veja, só os fantasmas me visitam e nenhum deles é da família ou amigos... Malditos sejam!
Por isso te repito, não deixe que ele pronuncie seu nome, não deixe não. Pois quando ele faz isso, tudo muda, tudo. Olhe pro lado, olhe, olhe nada era assim, nada, sai daí, sai daí. Odeio esses fantasmas desconhecidos, não que eu goste dos conhecidos, pois grito para todos “vade retro, vade retro”! Mas eles, como você bem vê, não vão e ficam aqui me incomodando o dia todo ora atravessando paredes, ora surgindo no pé de minha cama, todos chorando e reclamando...

- Vade retro, vade retro! – Mas não adianta nada, ele pronunciou meu nome e nunca mais nada será o mesmo...

2010/10/05

O CENÁRIO ATÉ AJUDA, MAS...

Contaram-me essa história mais ou menos assim:
O mar abriu-se à sua frente, ela abriu os braços também, mergulhou.
O mar a abraçou, ela se deixou abraçar, aos poucos soltou o ar em forma de bolhas, que como estrelas cintilavam e subiam em direção ao céu enquanto ela afundava na escuridão fria e salgada.
O sol continuou brilhando durante as buscas, mas as ondas apagaram suas pegadas...


- E depois?

- Depois o quê?

- Não vá me dizer que a história se limita a isso? Acaba assim?

- Sim. Isso é uma mini narrativa. Você lê o texto, “vê” a imagem e pronto, acabou!

- Só isso? Vê e acabou? Você acha que alguém quer ler isso? Uma imagem e acabou? E aquele começo, - "Contaram-me essa história assim". – Você não pode estar falando sério. Isso não é escrever uma história, não é não!

- O que mais você queria ler? O começo é gancho dramático para emprestar alguma veracidade ao texto. Isso não lhe bastou?

- Claro que não! Quero um começo, meio e fim. E necessariamente nessa ordem!

- Preguiçosa...

- Mau escritor.






Cai o pano! (click para ouvir)

2010/10/04

99

Acordo, hoje segunda-feira, dia 04 de outubro, com a sensação de ressaca e vergonha, e vejo pelas ruas que o sentimento é quase o mesmo. As ruas continuam sujas.
Os “santinhos” estão ainda colados no asfalto.
Conversando por e-mail com colegas vejo que votamos quase nos mesmos candidatos, todos perdedores, - graças a Deus! Repetimos.
Se tínhamos dúvidas sobre a verdadeiras função do Congresso, agora temos certeza, votaram num palhaço.
Um milhão de votos!
O que significa que existe em território Nacional pelo menos – com título de eleitor e muita cara-de-pau - um milhão de palhaços que se identificam com ele...
Vamos mal, muito mal.
Na minha zona eleitoral tive que mostrar um documento com foto, mostrei minha carteira nacional de habilitação, a mesária olha para a foto, olhou para mim, tornou a olhar para a foto – chovia, meus pés estavam começando a ficar molhados – ela ainda olhou para minha foto e para mim mais duas vezes, e por fim, perguntou-me à queima-roupa:

- Nome da sua mãe?

- Você está falando sério? – perguntei entre indignado e espantado.

A pobre criatura explicou-me que era obrigada a perguntar isso a todo mundo, - Ordens são ordens – rebateu.

- Declinei, então, o nome da minha mãe.

Entrei, fui à urna, encarei aquela máquina, puxei do bolso minha “cola” e pus-me a teclar o número de meus candidatos.
Poucos segundos depois saia de lá com certeza que poderia ter continuado a dormir, pois o domingo além de chuvoso estava frio.
E hoje, vejo que tinha razão.
Tudo está como era antes...
Nada mudou.

2010/09/24

OUTRO CAPÍTULO

Depois de ser imortal por mais de mil anos, morri. Morri em paz, ok a flechada até que doeu um pouco, mas morri.

Ou assim pensei.

De repente, não mais que de repente, apareço do nada, no alto de uma montanha de frente para o mar. Céu azul, uma ou outra nuvem no céu, no chão minha velha e conhecida sombra.

O que estou fazendo aqui? – me pergunto, ainda meio boba e atordoada, não sei por quanto tempo estive morta, mas ainda me sentia cansada...

Olho à minha volta – tentando me localizar, afinal voltar da morte é meio desnorteante.

Logo aparece um vulto, que se transforma num homem, ele vem sujo, suado, enlameado, cabelos desgrenhados, traz na cintura uma espada – ok, ok,ok, pela espada percebo que não fiquei muito tempo morta, o que explica meu cansaço - ele vem em minha direção – Sobrou prá mim! – pensei olhando para minhas unhas.

Viro de costas para ele e volto a encarar o mar.

Ouço seus passos no chão de areia e cascalhos, ele aproxima-se, seus braços fortes agarram minha cintura, ele fede, fede muito, ele levanta-me do chão, e me beija.

- Quando vou fazer parte de uma história decente? – Lógico, pela cara de parvo, ele não entendeu que a pergunta era retórica e dirigida a outra pessoa. – Meu destino será sempre esse? Tentei fugir de seus braços, mas em vão, pois sua força era avassaladora e esse corpo frágil.

Olho para os céus e me pergunto por que isso me acontece? – Logicamente a resposta não vem, e vez disso gaivotas gritando passam voando por nós.

Carregada às suas costas descemos em direção à praia, ele nada diz, por minha vez, grito, arranho-lhe as costas, me descabelo – pelo menos dessa vez meus cabelos são naturalmente cacheados! – mas nada que faço chama-lhe a atenção, e pressinto que deveria ter permanecido morta.

Pelos trirremes em alto-mar me parece que ainda faço parte da mitologia grega...

O quê esse autor tem contra mim, o quê.

Não sei quanto tempo estive desacordada, mas agora me vejo numa tenda branca, cercada de presentes, pulseira e diademas de ouro, ânforas de vinhos, sendo que uma boa meia-dúzia estava vazia – o que explica essa dor de cabeça dos Hades.

Onde me meteram dessa vez, onde?

O que me espera o futuro?

Ser mãe? Ter cólicas? Ficar viúva cedo? Virar refrão de “Mulheres de Atenas”?

Quando essa história – comigo – irá acabar?

Lá fora começa a ventar, as velas dos barcos inflam, logo meu herói virá buscar.

O que me espera no próximo capítulo?

2010/09/22

CRÔNICA

HOJE DIA INTERNACIONAL PARA DEIXAR O CARRO EM CASA
(ou, seja besta e –como sempre - faça a sua parte mais uma vez)



Agora me responda você que se matou para comprar o dito carro, pagou (ou ainda está pagando) o preço absurdo de um, vai deixá-lo em casa, se apertar num ônibus, que fatalmente estará atrasado, cheio “até o ladrão”, com um motorista que pensa que vai buscar a mãe na zona de tanto que corre, ou que, por achar que a velha já está tranqüila e trabalhando, vai devagar sem se importar com seu horário de entrar no serviço?

Se você estiver bem localizado no coletivo (vamos torcer para também não estar chovendo...) – entenda, apertado lá nos fundos, encostado à porta de saída – irá perder o espetáculo de humilhação sem tamanho que é ver uma idosa esconder-se atrás de alguém mais jovem, e entendam por jovem qualquer um que não aparente mais de cinqüenta anos, pois se esse “jovem” não fizer um sinal de parada, o ônibus ignorará o velho/velha no ponto quer esteja fazendo sol ou chovendo a cântaros...

Vamos lá, faça a sua parte, afinal você não faz mais nada mesmo! Não está achando que só porque paga uma meia-dúzia de impostoszinhos acha que já fez mais que a sua parte...

Deixe o carro em casa, deixe de tomar banho para poupar a água do planeta, deixe de respirar, assim você, sim você mesmo seu inconseqüente, deixa de depositar sua taxa de CO² na atmosfera.

Ontem foi dia da miserável da Árvore.

Criatura mesquinha que deveria ser banida da face da terra. Faz muito bem certo vereador – um herói aos olhos de seus pares - que tem urticárias cada vez que vê uma delas pela frente.

Uma praga que solta folhas nas ruas, arrebenta calçadas, faz pessoas honestas e boas torcerem seus delicados pezinhos em suas malditas raízes. De todas essas pragas, tem aquelas que, Santa-desfaçatez, lançam seus frutos sobre nós, sobre nossos carros, casas, sujam e mancham nossas calçadas. As autoridades estão certas – aliás, me mostrem quando elas estão erradas – em derrubarem árvores, asfaltar ruas, concretar tudo o que vêem pela frente.

Mas como sou um ser humano desprezível, nojento, egoísta, fdp mesmo, vim trabalhar de carro, meu carro zero – que pagarei em meses sem fim, mais IPVAs, combustíveis adulterados (álcool demais na gasolina, água demais no álcool), Pedágios, Flanelinhas – e de dentro dele, ouvindo boa música, vi ônibus e mais ônibus lotados, sujos, soltando fumaça preta – ai de meu carro se não passar na Inspeção Veicular Obrigatória... – e sorrindo cinicamente (eu não presto mesmo!) comentei com minha mulher:

- Deus estará vendo o sacrifício desses bons cidadãos em prol do Planeta Terra?

Não fosse uma pequena e dolorosa inflamação em meus pulmões, juro que teria acendido um cigarro...

2010/09/21

Essa é para o Amigo Vadinho

Que venham os vendavais
os tufões
que soprem sobre mim todos os ventos do mundo
venham,
venham,
não os temo
pois saibam,
sou careca!

2010/09/20

THRILLER


Agitação.

Gente entrando e saindo da sala apinhada. Música alta, mesas cheias de petiscos e bebidas.

Edemeia num canto da sala encara Pedro, sentado no braço da poltrona em que está sentada com Zildinha .Ele coloca uma a uma as uvas rosadas na boca carnuda e sensual da ex-namorada – nutre o sonho de tê-la de volta um dia, ou mesmo por uma noite,o que vier primeiro - sem se dar conta que é alvo dos olhares tristes da morena encostada no canto escuro do outro lado.

Zildinha, fútil como sempre foi, é e será, come as frutas enquanto procura por Heliomário, amante recente (na verdade são amantes há dois meses, nove dias e seis horas) que neste momento encontra-se à beira da piscina tomando uma “marguerita”[1](sem limão, sem cointreau, sem sal e sem gelo moído) e pensando se vale a pena continuar com Zildinha, com o “emprego”, e levando essa vida de fugitivo procurado em todo o MERCOSUL..

Começa a tocar uma rumba e quem gosta[2]de músicas caribenhas vai dançar e quem não gosta sai para fumar na rua ou à beira da piscina. Oitenta por cento dos convivas saem...

Heliomário joga seu cigarro na água e resolve dançar. Melhor música ruim que aquela gente, afinal alguém ali poderia reconhecê-lo.

Edemeia ao ver Heliomário puxa-o para dançar, ele a empurra para o lado e segue para uma mesa cheia de bebidas, ao passar pela poltrona no canto da sala vê, desgostoso, Zildinha sendo alimentada com uvas, ele olha profundamente em seus olhos e discretamente passa a longa unha do dedo polegar da mão direita no pescoço Zildinha engasga e Pedro perde a cor.

A música continua alta e chata, Heliomário bebe, Zildinha engasga, Pedro corre pelas sombras e foge da festa, Edemeia encostada em seu canto da parede onde Heliomário a jogou, chora.

Pedro na rua, encosta-se num poste e sob a luz amarela passa um lenço no rosto enxugando o suor que brota da testa. Assustado ele se pergunta onde já havia visto aquele rosto, espreme os miolos e procura nos arquivos-mortos de seu cérebro onde já tinha visto aquele sujeito.

Nunca mais Pedro irá esquecer aquele discreto aviso de morte, nunca mais. Tremendo, queima os dedos três vezes antes de, enfim, conseguir acender o cigarro – pelo lado do filtro.

Heliomário embriagado, começa a procurar por Zildinha, e depois de pouco procurá-la a encontra-a saindo do toalete.

Ele a pega pelo braço e em seguida segura seu corpo todo que desmaia de puro terror. As mulheres à volta gritam gritinhos mais de afetação que de medo, e levam Zildinha de volta ao toalete esperando que a água em seu rosto a trouxesse de volta à consciência.

Tal expediente realmente funciona e Zildinha recupera-se, e ato-contínuo, tenta fugir pela pequena janela. Não consegue.

Da porta vem os sons dos chutes de Heliomário – controlado, ele não grita..

As mulheres apavoradas fogem em desabalada carreira ao verem a porta vindo abaixo e deixam Zildinha entregue a própria sorte. Má sorte, má sorte.

Enquanto isso na sala...

Mudam a música, passam a tocar Frank Sinatra, e enquanto Heliomário estrangula Zildinha o “Velho Olhos Azuis” canta “I've Got You Under My Skin”[3]. Ele murmura bem perto de seus ouvidos:

- Essa era – ênfase no era - a nossa música, lembra?

Zildinha tentando angariar alguma simpatia de Heliomário aproveita o “empuxo” e sacode a cabeça concordando com ele.

- I've got you under my skin I've got you deep in the heart of me. So deep in my heart that you're really a part of me. I've got you under my skin – murmura enquanto aperta lentamente o pescoço de Zildinha.

Mas antes do “estalo final” começa o foguetório lá fora e todos acorrem para ver os fogos de artifício. A voz do velho Sinatra é abafada e tudo se perde no barulho dos rojões, morteiros...

Zildinha entrega os pontos e sabe que o fim se aproxima inexoravelmente. Mas antes de seus último suspiro o celular de Heliomário toca. Ele atende segurando o pescoço de Zildinha com o pé esquerdo e com o pé direito trava a porta quebrada do toalete.

- Alô – diz bruscamente. Segundos depois desliga o parelho e o guarda no bolso do paletó, apruma-se e tirando o pé de cima do pescoço de Zildinha diz:

- Tua sorte é eu ser profissional. Tenho um serviço a completar, quando eu voltar nós continuamos de onde paramos.

Saindo do toalete segue em direção à piscina, perde-se em meio a multidão que pula, grita e dança ao som dos fogos.

Zildinha foge, corre e pula o muro da casa perdendo-se na rua. Talvez procure por Pedro (que não tornará a encontrar nunca mais) talvez procure voltar para casa, mas em casa encontrará Heliomário, pensa bem e muda de direção, sumindo-se na noite...

Em meio a confusão, um crime será cometido e não encontrão o criminoso, e somente dias mais tarde darão pela falta de Edemeia, que num canto do jardim viu e foi vista por Heliomário.


[1].Ingredientes:
- 3/4 de dose de tequila branca
- 1/3 de
dose de cointreau
- 1/3 de dose de suco de limão
Modo de preparo:
Bater todos os ingredientes e servir em taça de coquetel. Crustar a borda do
copo usando suco de limão e sal.

[2]
Há quem?

[3] (Irving
Berlin)[Recorded December 21, 1960, Los Angeles]


SOBRE ESTRELAS E CIGARROS

Tarde da noite no alto dum edifício no centro da cidade um casal acocorado no parapeito conversa.
- Como o céu fica mais bonito visto daqui.
- É sim...
- Só isso?
- O que mais você quer que eu diga?
- Me dá um cigarro.
Ele acende o cigarro, dá uma tragada, solta fumaça e por segundos consegue apagar as estrelas.
- Por que você me chamou aqui? – Pergunta a companheira.
- Para ver as estrelas, aqui ainda é o melhor lugar. Compare o brilho azul delas com as luzes da cidade lá embaixo, as vermelhas dos anúncios, amarelas e verdes das lojas, das farmácias. O verde-amarelo-vermelho do gado que pasta nas ruas. Dos postes...
- Muito sentimental hoje... Meditabundo ou metafísico?
- Não. Nem uma coisa nem outra. É que olhar para o céu à noite me deixa assim..., querendo entender o que nos acontece, o que nos faz ser como somos... O céu...
- Céu, luzes, noites e dias, é tudo igual prá mim...
- Não sei como ainda ando com você, não sei mesmo. Nem parece que somos iguais...
- O que está te acontecendo? Na fase da crise de identidade? Quem é? De onde veio? Para onde vai? Tendo o quê e onde comer, não me interesso por mais nada nessa vida! – Diz num misto de futilidade e provocação enquanto cheira o ar como que procurando por algo.
- Me dá outro cigarro! Acho que você não me compreende e não se compreende também... Nunca olha para os lados, nunca olha para o céu... Veja as estrelas, nelas estão todas as respostas!
- Espero que algum dia alguém me explique essa sua fixação por estrelas. Olhe as pessoas lá embaixo, veja se alguma delas tem essas preocupações metafísicas, veja se alguma delas perde tempo com isso. Elas seguem em frente como rebanho que são...
- Acho que você é um caso perdido, me dá logo esse maço de cigarros. Quero fumar em paz, só eu, a fumaça e as estrelas. – Dizendo isso ele empurra a companheira do peitoril do 18º andar do prédio onde conversavam.
- Droga, esqueci do isqueiro! – pula logo atrás e abrindo suas asas fala ao chegar perto da companheira que plana no ar:
- Me dá isqueiro, depois te encontro em casa.
Batendo suas asas de couro cada um segue o seu caminho, pois a noite ainda é uma criança e a fome ainda precisa ser mitigada.

O PESCADOR


Ok. Dois calmantes, uma dose de uísque, uma caipirinha de vodka, suco de maracujá no cantil, cortesia de Dona Madalena, a esposa. E o espírito já estava preparado para sair e pescar.

Calmo, tranqüilo, sereno, respirando pausadamente.

A vara, os anzóis, as chumbadas, linhas, iscas, samburá – por pura pretensão – a faca, o alicate, para tirar o anzol da boca do peixe ou do dedo, ou o que for fisgado primeiro.

A calma, o importante era manter a calma conseguida, a fleuma britânico-etílica, não pensar em nada, nada que causasse qualquer preocupação, nada, nada que o inquietasse. Ele ia p-e-s-c-a-r hoje.

- “Dia de pesca” – avisou-lhe a mulher.

Ele não queria ir pescar, Vadinho já gostara muito de pescar, quantas vezes ele esqueceu o cinema com a mulher?, ele não esqueceu de ver o filho na maternidade por causa da pescaria?, quase esqueceu do próprio casamento por causa disso?

Mas hoje, hoje Vadinho preferiria até ir à missa a ter que pescar. Ele ainda quis ir à casa da sogra almoçar, mas a mulher, firme, insistia que hoje era dia de pescar e que ele não arrumasse desculpas.

Vadinho saiu à rua cabisbaixo.

- O anti-depressivo já perdeu o efeito! E arrastando os pés foi em direção à praia.

- A mulher mandou pescar Tião? – riam-se os vizinhos.

- Não esqueça do protetor solar na calva! – gritou outro.

- Miseráveis. – resmungava, triste e deprimido. O anti-depressivo já mostrava-se sem efeito.

Poucos minutos depois ele chegava à praia. Andou pela areia, molhando os pés na água gelada e salgada. Olhando para o horizonte, aquele céu claro e límpido o desanimava ainda mais de pescar. Com esse tempo bom não tenho desculpas. –Lamuriou-se. Logo chegou às pedras e começou a preparar as linhas e anzóis.

Olhou ainda para o nada por muito tempo, esperando que algo dramático acontecesse e o impedisse de começar a pescar...

- Herman, mande-me uma Baleia Branca! – murmurou em forma de prece. Mas o Herman nada lhe enviou!

Alguns banhistas, de longe o observavam intrigados.

- Um, dois, três! – Num forte arremesso a chumbada levou o anzol e a isca para longe dentro d’água.

Vadinho nem esperou a linha molhar e começou a recolhe-la, não queria correr o risco de fisgar algum peixe. Afinal ele estava ali para se d-i-s-t-r-a-i-r, como lhe ordenara o médico e insistira a esposa. Ninguém dissera nada que ele deveria levar peixes para casa, ninguém.

- Distrair, distrair, distrair, distrair – enquanto recolhe a linha Vadinho repete o mantra – distrair e não pegar peixe, distrair e não pegar peixe, distrair e não pegar peixe...

Jogou a linha outra vez, e como antes, puxou-a de volta, e cada vez mais rápido repetia esse movimento, que de longe, onde estavam os banhistas, Vadinho mais parecia estar querendo abater as gaivotas do que capturar um peixe.

- Eu não queria vir pescar, eu não queria vir pescar hoje, eu não quero pescar nunca mais, nunca mais – e agitando a vara, a linha dispara em direção ao mar. – Não, não, não – desesperado Vadinho quase quebrando a carretilha puxa a linha de volta e por fim acaba por embaraçar tudo. Nervoso, joga a linha, anzóis, iscas, chumbadas e vara na água. Senta-se emburrado na pedra, agora quente.

Passado alguns minutos, recuperado da pequena crise de nervos, Vadinho decide ir embora, ia chegar em casa fingindo-se calmo, mentiria dizendo que pescou muito mas acabou deixando os peixes no bar, onde aproveitou para beber com os amigos. Claro que a mulher acreditaria nele, afinal qual mulher não acusa o marido de ficar bebendo em bar?

Decidido, começou a limpar a areia colada nas pernas, na bermuda e nos pés. Deveria ter pensado nessa mentira há mais tempo, e assim nunca mais teria que ser obrigado a pescar.

Afinal pescador profissional aposentado, a última coisa que ele queria nessa vida era “relaxar” pescando...

AH! O AMOR

Para O Mário e sua bárbara dor



não sofras meu jovem
tu ainda não sabes nada de nada
e sofres por tão pouco
lá frente
no futuro
(por isso não te mates ainda)
tu verás que aquilo não era dor
talvez fosse
quando muito
um beliscão no orgulho
ferido, sim, eu reconheço
mas não são dores de amores
sofres
sim, outra vez reconheço
sofres, mas não sofres a falta dela
sofres, mas é por não tê-la e o outro sim
sofres, pois outros braços que não teu
a abraçam
outros lábios que não o teu
a beijam
outro teto que não o da tua casa
a abriga à noite
mas isso, embora doa muito,
não é amor
pode ser o despeito
a vontade assassina
(segure essa onda)
de torcer o pescoço do rival
que até pouco tempo
apresentavas como mais que amigo:

- um irmão!

pense assim
tudo passa
o que tens é uma paixão
uma febre
uma doença de verão
passageira
amanhã
(por isso pedi para que não te matasses)
rirás disso
e não rirás sozinho
rirás e muito
em companhia desses
que hoje te atormentam
e fazem de tuas noites
pesadelos suarentos e arfantes
cuida-te hoje
para tenhas amanhãs
siga em frente
nem olhes para os lados
(exceto é claro, na hora de atravessar ruas)
e, preste atenção
lá no horizonte
que não é assim tão distante
verás, sem sombra de dúvida, acolá
outra(s) garota(s)
e comentarás rindo
(via e-mail?, telefone?)
com esse canalha de seu,
hoje ainda, odiado ex-amigo:

- cara, encontrei a mulher da minha vida!

e, pode até, ser ela
pode também não ser
mas nesse dia
nem sequer
te lembrarás que um dia
sofrestes por essa que agora
me leva a te escrever essas linhas.


2010/09/16

Essa só o Silvio para entender...

nas janelas
pombos
no horizonte
o mar
aqui dentro
um cacarejar sem fim
palavras sem sentido
risos parvos
nas janelas
os pombos voam
no horizonte
vejo os navios partirem
aqui na sala
o tempo se arrasta
e as conversas seguem sem fim...

2010/09/14

REFLEXÕES II

CADA MISERÁVEL COM SUA MOEDA

Como essa miserável é baratinha, basta uma florzinha, um aceno, uma promessa, um “amanhã te ligo” e seu dia está ganho.
O sorriso bobo enfeita-lhe a cara parva.
Tão bonitinha, mas...

REFLEXÕES

Estou na enésima cerveja, os olhos secos de tanta fumaça, garganta arranhada de tanto cigarro, aloira na mesa em frente está cinco quilos mais magra, pois a estou secando desde que entrou no bar.
As vozes à minha volta me atordoam, já não sei se são dos fregueses ou dos fantasmas minha cabeça.
O dono passa com uma bandeja cheia de copos vazios, mas mais vazios ainda estão os freqüentadores...
Lá fora a noite continua, a escuridão cobre as ruas, ninguém mais entra aqui, tão pouco saem também.
O tempo não passa, peço outro copo, na porta, feito um cão fiel, a vida real me espera...

2010/09/13

ALTEMAR


- Altemar, afaste-se! Não vou falar outra vez, afaste-se. Não vou escrever a história da sua vida, desista! E para com essa fumaça, você sabe o quanto ela me incomoda. E não bata a porta quando sair da sala.

Altemar sai e bate a porta. Desce as escadas fazendo barulho, derruba o vaso que estava num console, e pelo estrondo, tropeçou outra vez no tapete da sala. Pela janela ele vê as galinhas fugindo apavoradas pelo quintal, seguidas pelo cachorro que late aterrorizado.

- Altemar ainda vai me deixar louco! – murmura rindo de si mesmo.

Voltando o silêncio, Rigoberto retorna ao computador, pousa os dedos – os dois de cada mão, pois o resto mais atrapalha que ajuda – e tenta escrever. Onde estava mesmo? Relê o texto pela terceira vez.

Volta à janela, olha o maço de cigarros sobre a escrivaninha, ele está ali há cinco anos, desde que conhecera Altemar ele largou o vício pois os dois juntos era fumaça demais. Mas tinha vezes que o cigarro era uma ajuda bem-vinda. Rigoberto pegou um, mas logo se arrependeu e o jogou pela janela.

- Não fumarei hoje e nem nunca mais!

Desolado volta ao computador e recomeça a digitar a sua história encalhada a tantos dias. Escrever e deletar, escrever e deletar, escrever e deletar, realmente a história não avança uma sílaba sequer. O suor brota em sua testa, as folhas de papel grudam em suas mãos, os latidos do cachorro e o cacarejar histérico das galinhas não o ajudam a relaxar nem escrever. Rigoberto bate com as mãos na mesa e espalha sua coleção de lápis pelo chão.

- Ele não vai me convencer a pô-lo nessa história, não vai! Para seu espanto, uma galinha voa até a janela de seu escritório que fica localizado no sótão da velha casa. A galinácea está em pânico.

– Essa vai ficar sem botar uma semana, eu ainda vou acabar matando o Altemar... E acho que deveria ter continuado com o cigarro...

– Toby!, pára de latir desse jeito! Não deixe o Altemar te perturbar desse jeito! – grita com o cão.

Positivamente esse conto não sai mais. Outra história que vai, ou para o fundo da gaveta ou para a lata de lixo. Mais brinquedinho para o Altemar...

Rigoberto pensa em descer até a cozinha, tomar um café, comer alguma coisa, ler um jornal, uma revista, qualquer coisa que o faça esquecer por uns instantes essa porcaria de história inacabável, mas logo ouve o barulho de panelas caindo no piso da cozinha, e resolve que comer os amendoins ao lado do computador dá menos aborrecimentos.

Rigoberto encara o monitor, olha com desânimo para as cento e duas teclas do computador, mas a galinha catatônica no vidro da janela não o deixa concentrar-se em nada. Lá fora o céu começa a escurecer.
- Lá vem chuva – pensa – o que vai acontecer com essa galinha ai?

Outro barulho vindo agora da sala faz Rigoberto deixar suas preocupações com a galinha de lado. Altemar ligou a televisão.

Programa de entrevistas, perguntas vazias, respostas pomposas e sem sentido, risadas programadas, intervalos com propagandas imbecis, Altemar absorvia tudo isso como uma esponja absorve água, e depois entornava esses disparates pela casa. Rigoberto mais que tudo, detestava esse hábito medonho de Altemar repetir tudo o que ouvia, principalmente se fosse bobagens.

O tempo passava, e ele passava inutilmente sem produzir nada, sem escrever nada, esgotando o prazo de entrega do texto, as horas correndo como se fossem minutos, os minutos como segundos, Altemar firmemente decidido a por a casa abaixo, o barulho, as galinhas correndo no quintal, Toby ficando rouco de tanto latir, a carijó paralisada de pânico na janela...

Rigoberto então grita:

- Altemar, pode subir.

As escadas rangem com o peso de Altemar, a porta quase cai quando ele a abre, e soltando fumaça pelas fuças, pergunta, enquanto a galinha desmaia e cai para o quintal:

- Então, resolveu escrever histórias de dragão?

2010/09/10

MENINAS


Foi um sentimento agudo no peito, uma pontada, fisgada, coisa rápida, de segundos. Logo passou, mas para Fialho, Antonio Fialho da Silva, era o aviso. Voltou para dentro de casa e dirigiu-se a seu escritório, lá ele sentou-se em sua poltrona de couro e ficou fitando o telefone. Ligaria? Esperaria que o aparelho tocasse? Olhou para a garrafa de uísque, pegou o copo de cristal, mas resolveu que não beberia dessa vez. Fizesse o que tivesse que fazer, faria sóbrio. Passados minutos, poucos minutos, resolveu ligar.

- Alô? – atendeu uma voz feminina do outro lado.

-Sou eu... – falou reticente –, você também sentiu? Coisa de meia hora atrás?

- Sim, mas dessa vez esperei que você me ligasse. Por mais que isso me aconteça, não vou me acostumar jamais – disse num misto de tristeza e certa mágoa. – Minha situação aqui está insuportável... – queixou-se chorosa.

- Mas o que você espera que eu possa fazer? Acha que eu tenho algum controle sobre isso? Pensa que faço isso de propósito? Que quero de alguma forma me vingar ou te prejudicar?

- Como faremos? – ela perguntou friamente, como se essa fosse uma mera transação comercial. Acha que será primeiro comigo ou com você?

- Não sei, não sei o que acontecerá... – desculpou-se em vez de responder. Vamos esperar.

- Está certo. Vou preparar um quarto e meu espírito para ter que explicar tudo isso outra vez
.
Não sei como isso pode acontecer a alguém, muito menos quatro vezes, quatro vezes.

– Desligou o telefone sem dar outra chance de ouvir as desculpas de Fialho, o velho, desde sempre velho, Fialho.

Uma hora e meia depois um toque de campainha fez Mariana lembrar-se do “compromisso” forçado para o dia de hoje. Desde o telefonema de Fialho passara o resto da tarde preparando um bolo e biscoitos, pois seria uma tarde muito longa para conversar de estômago vazio e garganta seca. Por via das dúvidas, caso a conversa se prolongasse muito, sempre haveria uma garrafa de Porto para socorrê-la. Deixando os pensamentos de lado foi atender a porta.

Respirou fundo e preparou-se para o “choque anunciado”.

Arrumou os cabelos precocemente – segundo ela - brancos num coque, beliscou as bochechas e abriu, por fim, a porta. E lá estava uma mulher de seus trinta anos, magra alta, longos cabelos negros e – surpresa entre as surpresas – trazia no colo uma criança de uns três ou quatro meses...

- Seus delírios não têm limites... – quase gritou num espanto.

Sentadas, xícara de chá nas mãos, as mulheres se encaram, e esperavam o tempo correr para quebrar o gelo e começarem a entabular uma conversa com um mínimo se sentido e nexo. Várias xícaras foram servidas...

Foi preciso que a criança acordasse com fome para que enfim começassem a falar.

- Qual o nome dele? – perguntou a Velha Mariana sem jeito e quase sem ânimo.

- Antonio Fialho da Silva Neto – e completou – como o avô! – e riu.

- Sem dúvida ele se superou, ele foi além do imaginável, do bom-senso, ele enlouqueceu de vez.

- Mariana falava e deixava a xícara de chá partir-se no piso frio da sala.

Com o grito da Velha a criança voltou a chorar.

- Mãe, você poderia me explicar o que está acontecendo?

Ao ser chamada de mãe, Mariana começou soluçar e resolveu socorrer-se com o Porto. Serviu-se generosamente sem oferecer à outra, e tomando as rédeas da situação começou a contar a sua história.
 
- Antes de começarmos a conversar permita-me somente dar um telefonema.

Sem esperar qualquer anuência da parte da outra ela começou a discar, errou três vezes o número, quando por fim quando começou a chamar, pareceu uma eternidade até que atendessem do outro lado.

- Mariana? – a voz denotava apreensão.

- A...? Como é seu nome mesmo? – lembrou-se então de perguntar à visita.

- Elisabeth – respondeu secamente a mulher que nervosamente chacoalhava o nenê.

- A Elisabeth chegou, é melhor você vir aqui. Desligou bruscamente, como costumava fazer
quando falava com Fialho.

Cruzando as mãos Mariana começou a falar.

- Elisabeth..., pelo menos esse nome foi bem escolhido dessa vez, essa história começou a mais de quarenta anos, e como estou tão farta dela, serei o mais breve, sucinta, concisa possível. Poupe-se de me pedir detalhes! Eu era muito jovem quando conheci o homem que hoje você conhecerá como seu pai. Foi uma paixão dessas de mocidade que não deveria ter maiores conseqüências, não fosse eu ter conhecido o Fialho e ele ter se apaixonado por mim de uma forma que o mundo nunca viu, e espero que nunca mais venha a ver, pois isso poderia abalar as estruturas da sociedade. Mas acho estou indo longe de mais em minhas divagações, esqueça o que eu disse sobre abalar as estruturas da sociedade, à vezes esse assunto mais o Porto me deixam assim. Em outros tempos, no começo de tudo isso, eu me emocionava e chorava, agora teço teorias calamitosas...

Elisabeth pigarreia e Mariana volta ao assunto.

- “Pois bem, me apaixonei pelo Fialho, na época um poeta parnasiano-tardio – que mais tarde enveredaria pelo concretismo sem sucesso também - mas nosso romance não tinha futuro, até porque eu não tinha pretensões de nada sério, minha inclinação sempre foi religiosa e por fim, pouco tempo depois ingressei numa ordem religiosa e esperava que minha história se acabasse por lá, longe de tudo, do mundo e assim terminar minha vida em contemplação sem complicações. Até que um dia, quinze anos atrás, apareceu a sua primeira irmã, na verdade a caçula...

Elisabeth engasgou-se com o biscoitinho.

-“Não me faça perder tempo com tapinhas nas costas – rosna. Preste bem atenção, pois não consigo mais contar essa história sem-cabeça sem acabar o dia com uma enxaqueca. Um dia batem à porta do Convento procurando por mim, era uma moça, bem mais nova que você – afinal ela nasceu caçula, coisas de seu pai – contou-me que simplesmente havia dado por si ali, em frente àquela porta, sabendo que eu era a sua mãe e que precisava falar comigo. Imagine a minha surpresa, eu virgem velha – bem menos àquele tempo, claro – e com uma filha que eu desconhecia me procurando.

 Imagine o escândalo, e como foi minha expulsão.

Não me peça detalhes, aliás, nada me peça. Depois de Clara, sim, Clara é o nome de sua irmã caçula, veio a Laura, a segunda, ela vem logo depois de você e a terceira é a Leonora. Mas para eu conseguir entender tudo isso foi preciso passar muito tempo, até que eu conseguisse encontrar e entrar em contato com Fialho. Resumindo, antes que eu esvazie meu Porto, seu pai me contou que nunca me esqueceu e sempre imaginou como teria sido a nossa vida, como teria sido a nossa família, e de tanto imaginar, ele estragou a minha vida, digo, criou vocês, fora de ordem, pois ele nunca foi organizado em nenhum ponto de sua vida...

Hoje vivo da pensão alimentícia que ele me paga e só agüento mesmo essa situação graças às garrafas de Porto que ele me envia semanalmente. Não é nada pessoal, mas espero que você seja a nossa “última” filha, pois não nasci para a maternidade – olhando agudamente para a criança que agora dorme no canto do sofá –, tampouco para ser avó.”

Mariana emborca o resto do Porto, agora direto da garrafa, olha para o relógio, e diz:

- Logo seu pai chegará – suspira com forte hálito de vinho – junto com as suas irmãs. Por favor, segure o choro, senão começo a chorar junto, e não, não se engane, pois minhas lágrimas serão de desgosto, pois tudo o que eu queria era acabar meus dias no meu convento.

A campaninha toca e um cachorro late.

- Ah! Não! Cachorro, não Fialho!

2010/09/02

O DIABO NA CABEÇA

(UMA CURTA NARRATIVA)

Mas o diabo é que eu não queria fazer nada daquilo, nada mesmo, mas o Diabo na minha orelha não parava de falar “faça-faça-faça”, e eu, o que fiz? Fiz!
Depois da coisa feita me deu até vontade de fugir, de correr, mas eu ria tanto, da piada que o Diabo me contava, bem aqui dentro da cabeça, que não consegui fugir quando polícia chegou, e mesmo dentro da viatura, tomando porrada, não conseguia parar de rir, as piadas que o Diabo conta são muito engraçadas mesmo.
Veja, mesmo agora com essa camisa de força, ainda não consegui para de rir. O Diabo é mesmo um sujeito muito engraçado...

2010/09/01

OU BONDE OU


Talvez fosse domingo, ou sexta à tarde de azul turquesa, ou de bolinhas quadradas e furta-cores, mas a sensação era de um alívio opressivo sabor jiló com amêndoas.

Mas tudo mudou com uma simples pergunta:

- Batatas à parte?

Nesse momento, nesse exato e inesquecível momento, o bonde passou e...

- Sim batatas à parte – respondi deixando de reparar no bonde que passava. O que poderia ter mudado em minha vida? Não sei e afirmo:

- Nunca saberei, pois ele passou, e com ele todas as previsões de minha quiromante!

Servi-me das batatas à parte, tão à parte que não reparei no prato principal, fosse o que fosse hoje acordei vegetariano, e saborearei as carnes mais famintamente à noite, ao som tambores - comprei uns discos novos em Paris semana passada – e conto com indulgência de meus vizinhos, um há de reclamar, e contando com isso já deixei a lenha para a fogueira preparada nos fundos da casa. Espetos novos com cabos de marfim!

Vi numa folhinha: “lua nova” - espero que seja uma edição antiga, mês errado e noite de lua cheia.

Esvazio a taça de vinho tinto – surpreendi-me, pois havia pedido água tonica, mas a partir de agora, sou um alcoólatra desde de pequenininho. Tonto segui rua acima, queria admirar a paisagem de hoje, pois ontem a vista era horrível.

Não me enganei.

Desde que sai do restaurante recriminei-me sobre essa idéia de subir a rua, pois a paisagem de ontem, comparada a de hoje, não havia melhorado coisa nenhuma. Nada se via de novo, as obras ainda estavam a começar, se é que algum dia os vereadores iriam aprovar alguma obra para aquela paisagem... Me irritava ver aquele horizonte sem sentido, vazio, cheio de um céu ora azul,ora cinza, ora chuvoso, ora ventoso, ora isso,ora aquilo... Ah! Como me irrita a inconstância desse cenário!

Abri o jornal que trazia no bolso da calça, escolhi uma notícia para me aborrecer, foi fácil achar uma. Li a gazeta com os dentes cerrados e os punhos fechados, deixando bem claro meu descontentamento caso alguém me visse lendo. Após alguns segundos de sério agastamento desci a rua mais aliviado, sentia-me, agora sim, um homem sério,circunspecto e poderia entabular conversa com o barbeiro, caso resolvesse ir a algum salão.

Ajeite meu chapéu, o cravo na lapela, sentia sede, mas à lembrança do vinho tinto, resolvi esperar mais um pouco, afinal ninguém deveria tomar conhecimento de meu vício em álcool recém adquirido.

Mas aquela sensação de não saber se era domingo ou sexta-feira à tarde estava me...

- Olhe o bonde! Murmurei para mim mesmo - eu poderia ter gritado - mas resolvi ser discreto, essas pessoas nas ruas, sei não!

O bonde passou outra vez e com ele levou minhas preocupações com o fantasma de Elisa...