2010/12/28

O VELHO BILL, AS FLORES E EU



01 - Só para começar, quero deixar bem claro que eu não queria ir ao tal encontro. Alguma coisa me dizia para eu não ir. Não foi só a minha quiromante particular, ou as cartas, as imagens na bola de cristal. Não, era alguma coisa dentro do meu peito que dizia: - Não vá!
Mas no convite estava escrito: BOCA LIVRE.

02 - Cheguei duas horas depois de começado o encontro dos Amigos da Turma de 19..., umas múmias do século passado! O salão estava cheio, aliás, o que eu deveria esperar de um encontro daquele pessoal? E ainda era “Boca Livre”! Eles nunca perderiam essa oportunidade, nunca!

03 – Me “camuflei” no meio da massa e pus-me a procurar o meu velho amigo Bill. Quem é o meu velho amigo Bill? Respondo-vos. O bom velho Willian Grant, o uísque! Só assim para agüentar o porre que seria ver todos aqueles Zé-Manés da minha juventude.

04 – Acho que eu reconheci o Valete do estacionamento... Bem, nesses encontros nós nunca sabemos ou recordamos mesmo quem estamos vendo... Mas acho que o careca gordinho que pegou as chaves do meu carro era o Tomzinho... Naquela época era o Antonio, técnico em contabilidade, malhado de tanto esporte, o “Deus Greco”, sim, Greco, o intelectual de músculos salientes não sabia falar grego... (entendam como quiser isso). Se for mesmo ele, o cara está acabado. E eu, que não praticava nenhum esporte, estou aqui inteirão!

05 – Enfim avisto o garçom. Vou matar as saudades do amigo Bill. Vou atrás do garçom, mas ele segue em frente ou foge de mim! Sigo-o em meio à multidão. Mas quem será aquele sujeito ali no meio...?

06 – Ora, ora, ora, se não é o Alexander Von Brumm, vulgo Scorpion... Ah! A juventude e sua mania de apelidos americanizados. Vou ver de perto se é ele mesmo. Mas no meio do caminho havia um garçom com uma bandeja e sobre a dita bandeja um copo de uísque. Deixo para ver o Scorpion depois, primeiro o prazer, depois o depois...

07 - O miserável desapareceu como por encanto outra vez. Começo a perceber que o garçom é o meu antípoda, está sempre do lado extremamente oposto ao meu. Quando volto a avistá-lo e começo a segui-lo, vejo surgir à minha frente, graças a Deus distraído, o V.V.. Faço meia-volta e sumo de vista. Acho que era isso aquela sensação que me avisava para não vir hoje...

08 - Que burburinho enjoado! Mas é bom ficar calado por enquanto, senão vão dizer que estou mais chato que antes... Resolvo procurar o Scorpion. Como ele tem dois metros e quinze de altura, é fácil encontrá-lo. É só procurar um gigante de careca brilhante. Lá esta ele.
09 – Aproximo-me dele carregando uma cadeira de plástico. Detesto festas com cadeiras de plástico... Lá estou eu reclamando outra vez... As pessoas à minha volta pensam que vou arrumar confusão. Elas não me conhecem... Ou será que sim? Como não reconheço noventa e nove por cento dos que estão aqui, é bem capaz que me conheçam... Sigo com a cadeira às costas e a deposito nas costas do Scorpion.

10 – Com as pessoas estupefatas à minha volta, subo na cadeira, e cutuco Scorpion. Silêncio! – O pau vai comer! Quase consigo ouvir o pensamento das pessoas ao lado. Scorpion vira, num misto de espanto e surpresa. Ao me ver me dá um abraço e grita: - Beto!

11 - Aí começou a estragar a minha noite. Se tem uma coisa que detesto mais que meu nome, é o meu apelido. Detesto Beto, Betinho, Betão! Meu nome é Felizberto, com Z em vez de S. Aliás, o único Felizberto mal-humorado que a turma conhecia. Como se houvesse outro Felizberto com Z que eles conhecessem...

12 – Já no meu estado normal, fechei a cara e disse para o Scorpion quem era o Beto. Mas com aquele tamanho ele não se preocupa com meu mau-humor ou o de qualquer outra pessoa... Tapinhas nas costas. Como-vai-a-vida-o-que-tem-feito e por aí vai. Claro que não poderia faltar aquela maldita pergunta.

13 – -Como vai a sua esposa? A..., a..., esqueci o nome dela... – Margarida. Menti, o nome dela era Faustina. Onde uma mãe arruma um nome desses? Isso mesmo, como anda a Margarida? Mudou-se. Agora vive na Europa. Europa?? Como foi isso? Separaram-se? Sim. Faz uns dez anos. Mas o que ela faz na Europa? Aliás, em que país ela está? Deixa adivinhar... Portugal. Vocês sempre quiseram viajar para lá, não é? Não! Na verdade ela está vivendo na Romênia. Na Romênia? Mas como ela foi para lá? Está estudando? Bolsa de estudos, não é? Não!- respondi prontamente. Ela fugiu com um cigano e agora aquela desgraçada deve estar seqüestrando crianças, batendo carteira e lendo mãos...

14 – Com isso a minha noite azedou de vez. Quem me conhece, os amigos recentes, sabem que não falo de casamento. Assunto tabu. Proibido. Casamento, futebol, religião, política, estanhager. Não se comenta isso perto de mim! Que droga! Eu sabia que não deveria ter vindo. Mas de vingança perguntei quem era o rapazinho bonitinho de vinte e poucos anos que estava com ele. Já adivinhava a resposta. – Meu sobrinho. Desde nossa juventude era sempre essa a resposta. Imaginem de onde vem o apelido Scorpion?

15 – Cadê o Bill? Cadê o Bill? Lá está o garçom. Como uma nau em um mar revolto e tempestuoso, estico meu braço direito e vou singrando naquele mar de gente. Aproximo-me do garçom, estico meu braço, que deve ter um metro e pouco, estico meus dedos longos de poeta & cronista mundano e, faltando milímetros/segundos, uma mão fria e pegajosa puxa meus dedos de poeta & cronista mundano, junto com meu antebraço, braço e resto desse corpo sedento de uísque. Mentalmente disse: - Até logo Bill. Assim que der, eu volto. Bye-bye...

16 – Viro sobre os calcanhares, torcendo e pedindo ao meu Padroeiro São Peregrino Laziosi que não fosse V.V., que não fosse V.V. E abrindo os olhos lentamente vejo o gordinho careca que pegou a chave de meu carro. Veio explicar que havia um risco na porta da frente que ia até o porta-malas, dava volta e voltava até o capô, fazendo um estranho e bizarro zig-zag. As suas mãos tremiam, e jurava-me que nada tinha a ver com isso... Pelo tremor das suas mãos reconheci o velho, e como estava velho!, Tomzinho de minha juventude. Apazigüei-o explicando que eu comprei o carro com aquele arranhão mesmo; que ele, o arranhão, emprestava-lhe um certo charme pós-moderno sem desdenhar um certo apelo, um certo chamado à arte de meu Mestre Hieronimus Bosch. Os olhos do pobre coitado quase saltaram das órbitas.

17 – Agora eram seus lábios que tremiam. Ele balbuciou, sim balbuciou... Sempre escrevi balbuciou, mas nunca antes alguém havia balbuciado na minha frente. Estou grato a ele por isso. Não lhe falei isso, não! Aquele miserável mercenário seria capaz de me cobrar por isso. Agora foi a minha vez de perguntar: - E aí, Tomzinho, como vai a, a, a... Essa também foi a minha vez de esquecer o nome da mulher dele. Detesto essas festas, já falei isso antes? Ah! Velho Bill, o que não faço para estar com você...

18 – Tomzinho tremeu outra vez. Comecei a temer pela sua saúde. Será que além de gordo e careca estava com a doença de São Guido? Passou as mãos pela cabeça, talvez esperando encontrar algum cabelo por ali ainda. Ou talvez fosse só cacoete! Respirou fundo, e tremendo ainda mais (sim, ele deve estar doente mesmo) me explicou que largou a mulher. Foi traído! Traído! Gritou. Outra vez as pessoas olham para mim. Devem estar confirmando a má impressão que elas têm a meu respeito. Sou mesmo um arruaceiro.

19 – Com as mais baixas intenções convidei-o a tomar um uísque comigo, assim quem sabe o garçom não me serviria um também. Debalde! Nenhum de nós dois foi servido e as outras pessoas agora se afastavam de mim, talvez me considerando um arruaceiro e socialista. Haja vista que Tomzinho, como Valete, não fora convidado. Vejam a minha situação, mal visto e mal servido. Mas voltemos à desgraça dele. Explicou que depois de três anos de casado e dois filhos descobriu que a mulher o traia... Um dia chegou em casa mais cedo e... – já via aí o velho clichê, ela na cama com outro, o outro sai correndo, pula janela, etc,etc,etc – vê a mulher no banheiro – oba, mudou o cenário, mas continua o clichê – tingindo os cabelos – que anticlímax! Tremia agora convulsivamente. - Tingindo o cabelo, Beto! – pronto! o maldito apelido a me assombrar outra vez. – Você se lembra que só me casei com ela por ser loira, por ser loira... – de que adiantava agora dizer-lhe que todos nós sabíamos que Marta era loira oxigenada? Só faria o pobre diabo sofrer mais. Mas a natureza humana é mesmo mesquinha. – Tomzinho, todo mundo sabia que a Marta era loira-falsa. Até “os peixinhos a nadar no mar” da música do teu xará (Tom Jobim, caso ainda paire alguma dúvida no ar) sabiam...

20 – Saindo em disparada para a rua, ele passa pelo garçom e rouba o copo de uísque que, tenho certeza, vinha em minha direção. Desgraçado! – gritei a pleno pulmão. E olhando para as pessoas que já não tiravam mais os olhos de cima, gritei ainda mais alto: - Você vai pagar pelo arranhão na lataria do meu carro. Vai pagar. Enfiei as mãos no bolso da calça e voltei para o meio da massa humana, camuflado; ainda conseguiria pegar o maldito copo de uísque, nem que tivesse que matar a metade daquelas pessoas. Vi o garçom, fui atrás dele, segurei-o pelo colarinho do fraque e o sacudi, sacudi, sacudi até que o Scorpion apareceu para me apartar. Não sabia que o garçom já tinha sido “sobrinho” dele. Quase apanho daquela monstruosidade.

21 – Pensei em ir embora quando, quando, quando – até me arrepia lembrar dessa parte – vi o espectro de Júlia. Mais branca do que me lembrava, pálida, translúcida, olhos fundos como um precipício, cabelos negros e longos como uma noite sem fim... – apelei, sei que apelei, fui longe na descrição! Mas ela estava acabada. Via-se que o casamento também não lhe fez bem. Aproximei-me dela sorrindo, era o primeiro sorriso da noite, eu estava guardando para uma boa ocasião, talvez quando eu encontrasse o Velho Bill, mas deveria improvisar, era por uma boa causa. Júlia... Ah! Júlia.... – suspirei tão fundo que ela acabou falando comigo antes que eu falasse com ela. – Beto! – falou sorrindo, fechei a cara. – Você ainda continua implicando com isso depois de mais de trinta anos! Você continua tão implicante quanto antes! Fechou a cara também. Estou vendo que tenho uma inclinação que é quase um dom divino de estragar qualquer encontro.

22 - Como que para me provocar, perguntou: Como vai a, a, a, a... Esqueci o nome da sua segunda esposa – sim, só ela sabia do meu segundo casamento, muito embora ignore o terceiro –, acho que esqueci. Hermelinda (meu segundo dom é arrumar mulher com nome de gerúndio!), digo, Violeta! Ah! Isso mesmo, a Violeta... Como ela está? De cara amarrada respondi que não sabia. Me separei! Sinto muito – disse assim muito sem graça. Que chato dar um fora desses, não é? Não poderia ser pior. Como poderia ser pior? – vi que ela corou um pouco – o V.V. poderia me perguntar a mesma coisa. O que é que o V.V. tem a ver com isso? – Com uma calma anormal em mim expliquei que ele fugiu com a Hermelinda, digo, Violeta. Foram para Buenos-Aires... – menti, sempre achei que deveríamos fazer alguma coisa contra os argentinos, nada poderia ser pior que mandar aquele sátiro-priápico-egocêntrico e a minha ex-mulher para lá.

23 - Como um fantasma Júlia sumiu e me deixou falando sozinho – ótimo- falei com meus botões. Estiquei o braço direito e voltei à luta. Gritei: À carga! – todos olharam para mim outra vez, estava começando a me divertir com isso, e sou inimigo de me divertir, e saí singrando aquele mar de gente atrás do Velho Bill. Passei perto de V.V., senti um impulso de perguntar por Hermelinda, digo, Violeta. E, como sempre, cedi aos meus impulsos.

24 – Grande V.V.! – disse quase gritando e chamando, dessa vez por vontade própria, a atenção daquela raça. Como vai essa bizarria? O sorriso amarelo dele valeu todos os anos que passei remoendo uma vingança. – Como vai a sua esposa, a, a, a, a, cara, acho que esqueci o nome dela. Os seus lacaios... – ele vive cercado de lacaios, V.V. era o único vivente bem-nascido da nossa rua, e vivia esfregando isso em nossa cara. Com o tempo passou a comprar amigos, seguidores e por fim descobriu que é mais barato comprar lacaios. Ele os tem aos montes. Capitalista dos infernos. Mas voltando ao assunto, os seus lacaios iam me cobrir de porrada, quando, magnânimo, V.V. disse bem alto para que todos ouvissem. – O nome da minha esposa é Violeta, digo, Hermelinda. Como você pôde esquecer o nome da sua ex-mulher? – Do alto de minha indignação respondi-lhe que não entendia de hortifrutigranjeiro. Virei as costas e fui embora a tempo de escapar de ser socado até morte. Mas, por Deus! O que vejo lá na frente?

25 – O garçom estava, outra vez, do outro lado do salão. Só nesse momento me dei conta de que o miserável do organizador só havia contratado um garçom para servir nessa reunião. Isso estava me cheirando a vingancinha do Scorpion. Aposto que ele estava fazendo isso só para humilhar o seu penúltimo “sobrinho”. Ele sacaneia o garçom e eu fico sem beber... A vida é mesmo muito engraçada.

26 - Olho o relógio. Já deve estar na hora de ir embora. Pelos cálculos que fiz antes de chegar aqui, a essa hora já deveria estar caindo de bêbado, brigado com todo mundo e sido chutado para a rua, mantendo o velho padrão autodestrutivo de sempre. Mas que nada, aqui estou sóbrio, mas coerentemente arrumando encrenca, assim, logo-logo, sou chutado para a rua. Eu sabia que isso aqui não ia prestar... Só quero ver aquele arranhão que o Tomzinho falou.

27 – Amanhã, quando eu acordar, vou escrever tudo isso. Ah! Eu vou dar nome aos bois! Essa história vai me dar dinheiro para pagar o divórcio da Almerinda, digo, Rosa.

3 comentários:

MIRZE disse...

MUITO BOM!

Me vi no meio da multidão tentando arrumar um Whisky

Gente, que confusão. Eu também odeio
estas reuniões. Todos querem saber da sua vida,, ou falam de doenças ou de "NOSSA COMO ENGORDOU" ou NOSSA ESTÀ MUITO MAGRO, É AIDS?"

Não tem saída. recuso todas mas o Felizberto se saiu bem.

Ótimo conto!

Beijos

Mirze

Daniella Menezes disse...

Que encontro mais bizarro.Me senti no encontro dos ex alunos

Daniella Menezes disse...

Que encontro mais bizarro.Me senti no encontro dos ex alunos