2009/12/08

CONTO DE NATAL DE 2009

Eu não queria tocar nesse assunto este ano, mas alguma coisa dentro mim, nas minhas tripas, na minha cabeça, na minha alma clama, ...(cadê a conclusão do raciocínio?) então vamos lá, falar do Natal.

Todos sabem que não gosto desta data.

Não gosto das ruas cheias de gente mal educada, que nos empurram, pisam em nossos pés, gente suada, fedida, carregadas de sacolas, que correm como se fosse o fim do mundo.

Não gosto do clima, não gosto dos enfeites de gosto duvidoso, das luzezinhas, não gosto daqueles que nos servem ou deveriam servir durante o ano com patente má-vontade, nos bajulando, sorrindo, curvando-se subalternamente na esperança de serem lembrados e presenteados por nós.

Não, não, não...

Não gosto de ir aos supermercados que tocam aquelas músicas batidas de Natal, ou coisa pior, preços altíssimos e filas, e mais gente nos empurrando, e mais gente passando com carrinhos de compras sobre os nossos pés e o indefectível "velho-gordo-de-falsas-barbas-brancas" fantasiado de Papai Noel cercado por crianças (como sempre digo: a fruta nunca cai longe da árvore) mal educadas, pidonas, feias...

Francamente esse foi o legado do cristianismo?

Superadas as agruras das lojas e supermercados, começamos a sofrer com o que preparar para a ceia, sabendo que prepararemos o que temos preparado nos últimos anos, e dependendo da situação do indivíduo, nas últimas gerações...

À tarde, cozinhando com um calor dos infernos, o sol torrando as paredes de casa (impressionante como Natal e Verão me irritam), as crianças (sempre elas, e que nunca são minhas) correndo pela casa, o telefone tocando, e a constatação de que esquecemos de comprar alguma coisa e corremos ao supermercado, onde uma horda de selvagens se atracam nas gôndolas, se engalfiam nas filas, isso sem contar a existência de uma mísera vaga no estacionamento que não esteja reservada aos idosos...

Se tivermos um pouco só de má-sorte, conseguiremos comprar o que faltava para o jantar, caso contrário, modificaremos a receita e pronto!

Chega a noite, chegam os parentes, e percebemos que o que bebemos não "chega"...

Beliscamos algumas coisinhas, bebemos muitos copos, e as malditas crianças incansáveis continuam a correr e a gritar, pular no sofá e trepar na estante ameaçando os bibelôs da mulher; e ameaçam à guisa de Tarzan atravessar a sala trepados nas cortinas; e percebo que só eu e somente eu que vos escrevo reparo nelas. Seus pais fingem que nada acontece, que nada vêem, nada ouvem.
Meu estomago dá um espasmo e disfarçadamente tomo um anti-ácido. Alguém sugere que se retire os tapetes da sala, mas a sugestão chega tarde, pois os refrigerantes já fazem poças nele.

Olho o relógio, e a meia-noite ainda está longe, procuro pela minha mulher, nossos olhares se cruzam, e por telepatia ou desespero, faço-a entender que essa É a família dela, pois se fosse a minha já os teria colocado para fora a tiros...

Tomo outro anti-ácido, e por via das dúvidas, encho o bolso da calça, pois essa noite será longa, como foram todo as noites dos último anos...

Essas crianças além de não crescerem não param de se multiplicar...

Olho o relógio outras vez.

Um cunhado pergunta, achando que faz graça, se estou esperando alguma coisa, minha vontade é de responder:

- Sim estou esperando vocês morrerem! - mas rio amarelo e digo que o relógio é velho e estou conferindo se ele está trabalhando. Ainda tenho que ouvir sua resposta comentando que sou muito miserável, pois ele troca de relógio cinco vezes por ano e que jamais ficaria vinte anos com o mesmo...

Sem ser discreto, tomo outro anti-ácido com uísque. Levanto-me e vou até a estante que bravamente se mantém em pé a despeito dos demônios, digo, das crianças que pulam da última prateleira sobre o sofá e de lá (quisera Deus, atravessassem a janela e se estatelassem no chão lá na rua) para a poltrona de couro onde descanso esse velho corpo após um dia de trabalho. Pedindo licença dentro da minha casa para uns fedelhos que deveriam estar num colégio interno, vou à prateleira onde guardo meus DVDs.

Começo a procurar um filme específico. Demoro poucos minutos, e vitorioso o seguro acima da cabeça balançando-o como se fosse um prêmio, um troféu.

Atravesso a sala em direção à TV, e quando vou colocar a mídia para rodar, minha mulher, fuzilando-me com os olhos fala alto, em tom casual, que essa não é hora, nem local, nem ocasião para assistirmos Férias Frustradas de Natal, - e delicadamente pega o controle remoto da TV de minha mão e a desliga.

Tomo outro anti-ácido com uma dose dupla de uísque e me apago.

Acordo, mais com o tropel dos convidados que com a mulher anunciando a ceia.
Dirijo-me à mesa, sem apetite mas com o estômago nos trinques. Nem etíopes fariam tamanha confusão comendo...

Sentado à cabeceira da mesa, olho para as pessoas, conto-as e vejo que falta uma irmã de minha mulher, bestamente pergunto por ela e meu cunhado
responde:

- Foi fazer miojo para a caçula!

Emborco uma garrafa de uísque de uma vez só.

2009/11/25

FIM DE ANO




O fim de ano se aproxima e desta vez não escreverei nenhum conto natalino daqueles bem ao meu estilo(cunhados, sosseguem!). Desta vez quero falar e listar as pessoas com quem mais convivi no decorrer de 2009.

Pessoas que passaram aqui no Blog, que conversei na rua, etc. Aqui vão eles:

1. O Sr. Alexandre Costa, amigo e sócio na CostaPrado Editora – Hand Made Books – parceiro de planos e fracassos, sonhos tornados pesadelos, leitor inveterado de Clarice Lispector e escritor (aqui ele discordará) labiríntico, hermético e sensível. Designer Gráfico e meu capista particular, pago com leite de pato e promessas de participação nos lucros futuros. Uma alma pura!
2. Sir Rodrigo Lopes, residente e domiciliado em Londres. Meu informante no primeiro mundo. Criador do Site Lista Brasil – O Que Há de Melhor do Brasil em Londres. Torço para que um dia fique rico! Vivo aqui a desestimulá-lo a voltar para Pindorama. E creio que consegui...
3. Vadinho. Vítima de minhas memórias. Parceiro e o Sócio do Grupo Etílico & Teatral João Ciclista – O Glorioso!, nos idos dos anos 80. Figura folclórica, professor fantástico (segundo seus alunos, que se contam às centenas) e dono de uma memória perigosamente fantástica, razão pela qual o trato carinhosamente de “O Memorioso”. Companheiro de copos e aventuras. Fundador junto com esse escriba da cidade secreta de “ JOÃOCICLISTÓPOLIS” no alto da Serra do Mar, lugar (sagrado) que será o último refúgio da raça humana quando chegar (se chegar) o fim dos dias, o apocalipse, 2012 (não o filme) ou o que vier primeiro.
4. Thiago B., um sujeito que ainda precisa se encontrar. Ele tem um grande futuro na industria da pornografia. O dia que começar a cobrar pelo que nos envia de graça, fará a “América”!
5. O Besta Cinzenta, amigo dos tempos da faculdade e criatura inspiradora dos meus textos mais sacanas. Alguns leitores (bem poucos) chegam a apiedar-se dele.
6. Ana Maria, minha mais fiel comentarista. É tão ou mais fã de Clarice Lispector que o Sr. Alexandre Costa. Tenho certeza que ela ainda há de escrever um grande romance. É só questão de tempo... Ela também jura de pés juntos que não conhece o Vadinho!
7. Bibi, do Blog Devaneios da Menina Colombina. Tem futuro, mas no presente momento me parece estar em recesso. Vamos ver o que nos apresentará em 2010.
8. Silvio Barreto, não tem blog, mas um grande articulista também. “Outsider de Plantão” e que começou a ler O Apanhador no Campo de Centeio... Que Deus nos ajude!
9. Nanda Assis do Blog Luz dos Olhos. Uma mineira que, vejam só que espanto!, ainda mora em Minas, diferente de outros blogueiros que vivem espalhados por esse mundão de Deus. Como por exemplo a:
10. Milu, do blog da Milu, lá da Rússia. Boas músicas e livros. Todo verão aqui invejo o frio e a neve que ela curte lá na terra da vodca...
11. O Mandrião, também conhecido por Papito Pindoba, autobiográfico e lírico que ele só. Um dia tenho certeza que ele arranjará um tempinho para tomar um café lá na Bolsa...
12. O pessoal do café, onde projetos grandiosos são discutidos à beira da agressão física e logo depois esquecidos... Boas crônicas já foram escritas inspiradas nos turistas, principalmente os velhos americanos, que aparecem por lá com seus pedidos de “café descafeinado”. Excursões de crianças que me fazem exclamar em voz alta: Herodes tinha razão! Muitos textos nasceram lá, e projetos gráficos, sendo que o último foi As Drágeas Literárias”.

Bom, acho que me expliquei demais, vou terminar por aqui, desejando um Feliz Natal aos Amigos, e esperando que 2010 não supere 2009 em desgraças. O próximo ano não precisa nem ser melhor que este, basta que não seja igual.

Abraços fraternais a todos os citados e aos esquecidos, e deixo aqui meu grito final:

VIVA HERODES!
VIVA GODZILLA!

2009/11/11

Ranzinza & O Magrão

Onde estamos?
Click aqui para saber

2009/11/05


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2009/11/04

UM CIGARRO






Um click do isqueiro
A chama azul que se ergue
Um cigarro
Uma baforada
O cigarro que descansa
A fumaça que sobe
O tempo que passa
Outra baforada
Um pensamento que passa feito um raio
O tempo que passa
A cinza que cai
O tempo que passa
O tempo que passa
O tempo que passa

Em tempos de recesso, vai ai mais um texto antigo.

Esse amaldiçoado cruzou meu caminho de novo



Novamente ele atravessa o meu caminho!

Estava eu sentadinho em minha mesa, tentando trabalhar, mas um ruído, uma estática, um arranhar de unhas em um quadro-negro trouxe-me de voltar a esse vale de lágrimas.

Era ele, aquele que acende velas negras ao Demo, aquele que sacrifica virgens e bodes pretos ao senhor das trevas, aquele que profana nossos ouvidos com músicas (?) que nos levam a pensar seriamente em suicídio.

Ele:

Richard Claydeman!

Esse amaldiçoado, esse cão, esse...

Estava o supracitado indivíduo profanando a bela” La Vie em Rose”, quando eu já saturado, levantei-me de minha mesa, que fica no extremo oposto da repartição e estupidamente dirigi-me à mesa onde estava o cd player.

Encostei na mesa, olhei para as colegas, (leiam as Harpias e entenderão) e perguntei:

- Vocês gostam mesmo dessa música?

Para meu espanto, elas responderam que sim, ao mesmo tempo e em uníssono (como costumam fazer sempre).

Por um segundo as fulminei com os olhos, debalde, não perceberam. Respirei fundo e como que divagando, deixei sair bem baixinho, entre dentes, alguma coisa assim:

- É muito bom ouvir La Vie Em Rose, tocada por um velhinho francês e seu igualmente velho acordeon, nos brancos degraus da branca Sacre Coeur, em Paris.

Tornei a suspirar e segui para o banheiro, sob apupos e vaias.

2009/10/29

A Carta



Naquela carta
toda a verdade era revelada
O grande amor!
A traição !
Uma explicação
Chegou por fim
Tarde demais.
Pois a carta reveladora
Veio psicografada!

2009/10/21

THRILLER



Agitação.

Gente entrando e saindo da sala apinhada. Música alta, mesas cheias de petiscos e bebidas.

Edemeia num canto da sala encara Pedro, sentado no braço da poltrona emm que está sentada com Zildinha .Ele coloca uma a uma as uvas rosadas na boca carnuda e sensual da ex-namorada – nutre o sonho de tê-la de volta um dia, ou mesmo por uma noite,o que vier primeiro - sem se dar conta que é alvo dos olhares tristes da morena encostada no canto escuro do outro lado.

Zildinha, fútil como sempre foi, é e será, come as frutas enquanto procura por Heliomário, amante recente (na verdade são amantes há dois meses, nove dias e seis horas) que neste momento encontra-se à beira da piscina tomando uma “marguerita”[1](sem limão, sem cointreau, sem sal e sem gelo moído) e pensando se vale a pena continuar com Zildinha, com o “emprego”, e levando essa vida de fugitivo procurado em todo o MERCOSUL..

Começa a tocar uma rumba e quem gosta[2]de músicas caribenhas vai dançar e quem não gosta sai para fumar na rua ou à beira da piscina. Oitenta por cento dos convivas saem...

Heliomário joga seu cigarro na água e resolve dançar. Melhor música ruim que aquela gente, afinal alguém ali poderia reconhecê-lo.

Edemeia ao ver Heliomário puxa-o para dançar, ele a empurra para o lado e segue para uma mesa cheia de bebidas, ao passar pela poltrona no canto da sala vê, desgostoso, Zildinha sendo alimentada com uvas, ele olha profundamente em seus olhos e discretamente passa a longa unha do dedo polegar da mão direita no pescoço Zildinha engasga e Pedro perde a cor.

A música continua alta e chata, Heliomário bebe, Zildinha engasga, Pedro corre pelas sombras e foge da festa, Edemeia encostada em seu canto da parede onde Heliomário a jogou, chora.

Pedro na rua, encosta-se num poste e sob a luz amarela passa um lenço no rosto enxugando o suor que brota da testa. Assustado ele se pergunta onde já havia visto aquele rosto, espreme os miolos e procura nos arquivos-mortos de seu cérebro onde já tinha visto aquele sujeito.

Nunca mais Pedro irá esquecer aquele discreto aviso de morte, nunca mais. Tremendo, queima os dedos três vezes antes de, enfim, conseguir acender o cigarro – pelo lado do filtro.

Heliomário embriagado, começa a procurar por Zildinha, e depois de pouco procurá-la a encontra-a saindo do toalete.

Ele a pega pelo braço e em seguida segura seu corpo todo que desmaia de puro terror. As mulheres à volta gritam gritinhos mais de afetação que de medo, e levam Zildinha de volta ao toalete esperando que a água em seu rosto a trouxesse de volta à consciência.

Tal expediente realmente funciona e Zildinha recupera-se, e ato-contínuo, tenta fugir pela pequena janela. Não consegue.

Da porta vem os sons dos chutes de Heliomário – controlado, ele não grita..

As mulheres apavoradas fogem em desabalada carreira ao verem a porta vindo abaixo e deixam Zildinha entregue a própria sorte. Má sorte, má sorte.

Enquanto isso na sala...

Mudam a música, passam a tocar Frank Sinatra, e enquanto Heliomário estrangula Zildinha o “Velho Olhos Azuis” canta “I've Got You Under My Skin”[3]. Ele murmura bem perto de seus ouvidos:

- Essa era – ênfase no era - a nossa música, lembra?

Zildinha tentando angariar alguma simpatia de Heliomário aproveita o “empuxo” e sacode a cabeça concordando com ele.

- I've got you under my skin I've got you deep in the heart of me. So deep in my heart that you're really a part of me. I've got you under my skin – murmura enquanto aperta lentamente o pescoço de Zildinha.

Mas antes do “estalo final” começa o foguetório lá fora e todos acorrem para ver os fogos de artifício. A voz do velho Sinatra é abafada e tudo se perde no barulho dos rojões, morteiros...

Zildinha entrega os pontos e sabe que o fim se aproxima inexoravelmente. Mas antes de seus último suspiro o celular de Heliomário toca. Ele atende segurando o pescoço de Zildinha com o pé esquerdo e com o pé direito trava a porta quebrada do toalete.

- Alô – diz bruscamente. Segundos depois desliga o parelho e o guarda no bolso do paletó, apruma-se e tirando o pé de cima do pescoço de Zildinha diz:

- Tua sorte é eu ser profissional. Tenho um serviço a completar, quando eu voltar nós continuamos de onde paramos.

Saindo do toalete segue em direção à piscina, perde-se em meio a multidão que pula, grita e dança ao som dos fogos.

Zildinha foge, corre e pula o muro da casa perdendo-se na rua. Talvez procure por Pedro (que não tornará a encontrar nunca mais) talvez procure voltar para casa, mas em casa encontrará Heliomário, pensa bem e muda de direção, sumindo-se na noite...

Em meio a confusão, um crime será cometido e não encontrão o criminoso, e somente dias mais tarde darão pela falta de Edemeia, que num canto do jardim viu e foi vista por Heliomário.





[1].Ingredientes:
- 3/4 de dose de tequila branca
- 1/3 de dose de cointreau
- 1/3 de dose de suco de limão
Modo de preparo:
Bater todos os ingredientes e servir em taça de coquetel. Crustar a borda do copo usando suco de limão e sal.

[2] Há quem?
[3] (Irving Berlin)[Recorded December 21, 1960, Los Angeles]