
Sentado, lamentava-se:
- Ainda não consigo compreender a razão daquele papelzinho com o número do celular que ela me deu.... Para que ela me deu o número do celular se não era para sair comigo?
- Talvez.... – Empaquei. Não há talvez para papéis com número de telefone.
- Sim, vamos, responda.
- Talvez... – Empaquei pela segunda vez. O que eu poderia responder para ele naquele momento?
- Eu imaginei, não, afirmo que entendi que ela queria sair comigo. O que mais poderia ser?
- Sim, só poderia ser isso, sem sombra de dúvida ou talvez. – Desempaquei.
- E o que eu fiz? Liguei e marquei um encontro. Fui encontrá-la na saída do trabalho dela. Fui sem dinheiro, a uma pastelaria (restaurante), pedi dois daqueles chopes de vinho. Olhei dentro dos olhos dela e propus um brinde.
- E...
- Ela levantou a taça e brindou: “À nossa amizade!”
- Meus Deus! – Disse estalando os dedos.
- Sim! Meu Deus, onde fui me meter! Foi o que me passou pela minha cabeça naquele instante. Fiquei mudo, e dentro da minha cabeça as palavras “amizade” ecoavam, “amizadeamizadeamizadeamizade...”
- E ela?
- Bebia o chope sofregamente, como que tivesse uma desculpa para não falar nada.
- E você?
- Olhava para ela como quem olha para um acidente de trânsito, um desastre, era o que eu via, um desastre, e o acidentado era eu. Vi ali, na mesa, um cadáver. Você já viu um cachorro atropelado numa estrada?
- Sim. Feio de se ver...
- Pois é. Era isso o que se via ali. Um desastre feio, e o desastre era eu. Ia voltar pra casa a pé, estava gastando o dinheiro da condução com ela em troca de um brinde de amizade...
- Que situação...
- Que situação a minha, ali naquela hora. Tudo congelou. O papo, os planos, o futuro, os filhos, os passeios de mãos dadas ao por do sol, nossas bodas de ouro no nordeste, e tudo o que eu via pela frente era o caminho que eu faria a pé indo para casa.
- Mas você não tentou nada?
- Tentar o quê? Falar mais o que depois desse brinde “à nossa amizade”? Minha vontade na hora foi pegar uma arma e matar todos os meus amigos, para nunca mais precisar pronunciar a palavra “amizade”.
- Obrigado pela parte que me toca.
- Desculpa. Sei que foi mal...
- Tudo bem, continue.
- Ela bebeu todo o chope de uma vez sem respirar e pediu outro. Além de acabar com minhas ilusões, acabaria também com meu orçamento... Outro chope e mais um ônibus que eu deixaria de pegar...
- Então ela era boa de copo?
- Boa de copo?... Ela era boa de bico. Me responda: para que ela me deu o telefone? Qualquer um entenderia que era uma cantada... Por que só comigo tinha que ser diferente? Onde eu errei na interpretação do bilhetinho?
- Mulheres! – Argumentei filosoficamente, mantendo-me assim numa posição ambígua sem me comprometer.
- Mulheres, mulheres, mulheres! Se eu pudesse viver sem elas...
- Quem as entende...?
- Olha aqui. – Tirou do bolso um papelzinho dobrado e amarfanhado. Veja os números, veja a letra dela. Tem alguma coisa aqui que dê a entender que ela queria só amizade comigo? Leia, leia, leia!
Para não ter um dos olhos vazados pelo papel, peguei-o de sua mão.
- Realmente, nada aqui dá a entender que era um bilhete de amizade...
- Não precisa ser irônico na pronuncia da palavra amizade! – Rosnou.
- Quer que eu rasgue essa porcaria? – Ameacei
- Não –, disse tremendo, quase chorando – não rasgue, preciso ler e reler esse papel até entender onde está escrito que ela queria só a minha amizade.
Pegou o papel de minha mão, olhou-o contra luz e tornou a guardá-lo no bolso.
- Até quando você vai curtir essa decepção?
- Essa eu vou levar pro túmulo, e quando reencarnar vou lembrar disso outra vez...
- Carma é uma coisa, isso já está ficando meio psicótico.
- Agora você vai dizer que estou louco, imaginando coisas, vai dizer que estava patente aqui no bilhete – e outra vez ele tirou o papelzinho do bolso –, que ela queria só a minha amizade?
- Olha –, disse olhando para o relógio –: está quase na hora de voltar a trabalhar. Vamos deixar isso prá lá, esqueça; pelo menos você bebeu um chope e... – fui interrompido.
- Que chope? Antes de pedir o segundo ela bebeu o meu. Disse que ia esquentar e tomou o copo da minha mão...
- Quer dizer que a noite foi perdida mesmo, você nem mesmo bebeu? Que...
- Nem pronuncie a palavra, nem pronuncie. Me sinto assim desde de aquela noite. Maldita mulher, maldito bilhete, maldito mal entendido, maldita vida essa que me leva prá...
- Nem continue! – Disse levantando-me da mesa. – Deixe um pouco para amanhã. Por hoje chega. Vamos trabalhar.
- Vá indo na frente, tenho uma coisa a fazer e devo fazer sozinho. – Seus olhos marejados encaravam o bilhete.
- O que você vai fazer? Não faça besteira, pense bem, não tem mulher que mereça... – outra vez interrompido.
- Pode ir em paz. Fique sossegado. Para provar que não vou fazer nenhuma besteira te prometo ligar mais tarde. Vá, vá.
Saí um pouco mais aliviado, da porta o ouvi pedir:
- Garçom um chope!


