Eu não queria tocar nesse assunto este ano, mas alguma coisa dentro mim, nas minhas tripas, na minha cabeça, na minha alma clama, ...(cadê a conclusão do raciocínio?) então vamos lá, falar do Natal.
Todos sabem que não gosto desta data.
Não gosto das ruas cheias de gente mal educada, que nos empurram, pisam em nossos pés, gente suada, fedida, carregadas de sacolas, que correm como se fosse o fim do mundo.
Não gosto do clima, não gosto dos enfeites de gosto duvidoso, das luzezinhas, não gosto daqueles que nos servem ou deveriam servir durante o ano com patente má-vontade, nos bajulando, sorrindo, curvando-se subalternamente na esperança de serem lembrados e presenteados por nós.
Não, não, não...
Não gosto de ir aos supermercados que tocam aquelas músicas batidas de Natal, ou coisa pior, preços altíssimos e filas, e mais gente nos empurrando, e mais gente passando com carrinhos de compras sobre os nossos pés e o indefectível "velho-gordo-de-falsas-barbas-brancas" fantasiado de Papai Noel cercado por crianças (como sempre digo: a fruta nunca cai longe da árvore) mal educadas, pidonas, feias...
Francamente esse foi o legado do cristianismo?
Superadas as agruras das lojas e supermercados, começamos a sofrer com o que preparar para a ceia, sabendo que prepararemos o que temos preparado nos últimos anos, e dependendo da situação do indivíduo, nas últimas gerações...
À tarde, cozinhando com um calor dos infernos, o sol torrando as paredes de casa (impressionante como Natal e Verão me irritam), as crianças (sempre elas, e que nunca são minhas) correndo pela casa, o telefone tocando, e a constatação de que esquecemos de comprar alguma coisa e corremos ao supermercado, onde uma horda de selvagens se atracam nas gôndolas, se engalfiam nas filas, isso sem contar a existência de uma mísera vaga no estacionamento que não esteja reservada aos idosos...
Se tivermos um pouco só de má-sorte, conseguiremos comprar o que faltava para o jantar, caso contrário, modificaremos a receita e pronto!
Chega a noite, chegam os parentes, e percebemos que o que bebemos não "chega"...
Beliscamos algumas coisinhas, bebemos muitos copos, e as malditas crianças incansáveis continuam a correr e a gritar, pular no sofá e trepar na estante ameaçando os bibelôs da mulher; e ameaçam à guisa de Tarzan atravessar a sala trepados nas cortinas; e percebo que só eu e somente eu que vos escrevo reparo nelas. Seus pais fingem que nada acontece, que nada vêem, nada ouvem.
Meu estomago dá um espasmo e disfarçadamente tomo um anti-ácido. Alguém sugere que se retire os tapetes da sala, mas a sugestão chega tarde, pois os refrigerantes já fazem poças nele.
Olho o relógio, e a meia-noite ainda está longe, procuro pela minha mulher, nossos olhares se cruzam, e por telepatia ou desespero, faço-a entender que essa É a família dela, pois se fosse a minha já os teria colocado para fora a tiros...
Tomo outro anti-ácido, e por via das dúvidas, encho o bolso da calça, pois essa noite será longa, como foram todo as noites dos último anos...
Essas crianças além de não crescerem não param de se multiplicar...
Olho o relógio outras vez.
Um cunhado pergunta, achando que faz graça, se estou esperando alguma coisa, minha vontade é de responder:
- Sim estou esperando vocês morrerem! - mas rio amarelo e digo que o relógio é velho e estou conferindo se ele está trabalhando. Ainda tenho que ouvir sua resposta comentando que sou muito miserável, pois ele troca de relógio cinco vezes por ano e que jamais ficaria vinte anos com o mesmo...
Sem ser discreto, tomo outro anti-ácido com uísque. Levanto-me e vou até a estante que bravamente se mantém em pé a despeito dos demônios, digo, das crianças que pulam da última prateleira sobre o sofá e de lá (quisera Deus, atravessassem a janela e se estatelassem no chão lá na rua) para a poltrona de couro onde descanso esse velho corpo após um dia de trabalho. Pedindo licença dentro da minha casa para uns fedelhos que deveriam estar num colégio interno, vou à prateleira onde guardo meus DVDs.
Começo a procurar um filme específico. Demoro poucos minutos, e vitorioso o seguro acima da cabeça balançando-o como se fosse um prêmio, um troféu.
Atravesso a sala em direção à TV, e quando vou colocar a mídia para rodar, minha mulher, fuzilando-me com os olhos fala alto, em tom casual, que essa não é hora, nem local, nem ocasião para assistirmos Férias Frustradas de Natal, - e delicadamente pega o controle remoto da TV de minha mão e a desliga.
Tomo outro anti-ácido com uma dose dupla de uísque e me apago.
Acordo, mais com o tropel dos convidados que com a mulher anunciando a ceia.
Dirijo-me à mesa, sem apetite mas com o estômago nos trinques. Nem etíopes fariam tamanha confusão comendo...
Sentado à cabeceira da mesa, olho para as pessoas, conto-as e vejo que falta uma irmã de minha mulher, bestamente pergunto por ela e meu cunhado
responde:
- Foi fazer miojo para a caçula!
Emborco uma garrafa de uísque de uma vez só.
Todos sabem que não gosto desta data.
Não gosto das ruas cheias de gente mal educada, que nos empurram, pisam em nossos pés, gente suada, fedida, carregadas de sacolas, que correm como se fosse o fim do mundo.
Não gosto do clima, não gosto dos enfeites de gosto duvidoso, das luzezinhas, não gosto daqueles que nos servem ou deveriam servir durante o ano com patente má-vontade, nos bajulando, sorrindo, curvando-se subalternamente na esperança de serem lembrados e presenteados por nós.
Não, não, não...
Não gosto de ir aos supermercados que tocam aquelas músicas batidas de Natal, ou coisa pior, preços altíssimos e filas, e mais gente nos empurrando, e mais gente passando com carrinhos de compras sobre os nossos pés e o indefectível "velho-gordo-de-falsas-barbas-brancas" fantasiado de Papai Noel cercado por crianças (como sempre digo: a fruta nunca cai longe da árvore) mal educadas, pidonas, feias...
Francamente esse foi o legado do cristianismo?
Superadas as agruras das lojas e supermercados, começamos a sofrer com o que preparar para a ceia, sabendo que prepararemos o que temos preparado nos últimos anos, e dependendo da situação do indivíduo, nas últimas gerações...
À tarde, cozinhando com um calor dos infernos, o sol torrando as paredes de casa (impressionante como Natal e Verão me irritam), as crianças (sempre elas, e que nunca são minhas) correndo pela casa, o telefone tocando, e a constatação de que esquecemos de comprar alguma coisa e corremos ao supermercado, onde uma horda de selvagens se atracam nas gôndolas, se engalfiam nas filas, isso sem contar a existência de uma mísera vaga no estacionamento que não esteja reservada aos idosos...
Se tivermos um pouco só de má-sorte, conseguiremos comprar o que faltava para o jantar, caso contrário, modificaremos a receita e pronto!
Chega a noite, chegam os parentes, e percebemos que o que bebemos não "chega"...
Beliscamos algumas coisinhas, bebemos muitos copos, e as malditas crianças incansáveis continuam a correr e a gritar, pular no sofá e trepar na estante ameaçando os bibelôs da mulher; e ameaçam à guisa de Tarzan atravessar a sala trepados nas cortinas; e percebo que só eu e somente eu que vos escrevo reparo nelas. Seus pais fingem que nada acontece, que nada vêem, nada ouvem.
Meu estomago dá um espasmo e disfarçadamente tomo um anti-ácido. Alguém sugere que se retire os tapetes da sala, mas a sugestão chega tarde, pois os refrigerantes já fazem poças nele.
Olho o relógio, e a meia-noite ainda está longe, procuro pela minha mulher, nossos olhares se cruzam, e por telepatia ou desespero, faço-a entender que essa É a família dela, pois se fosse a minha já os teria colocado para fora a tiros...
Tomo outro anti-ácido, e por via das dúvidas, encho o bolso da calça, pois essa noite será longa, como foram todo as noites dos último anos...
Essas crianças além de não crescerem não param de se multiplicar...
Olho o relógio outras vez.
Um cunhado pergunta, achando que faz graça, se estou esperando alguma coisa, minha vontade é de responder:
- Sim estou esperando vocês morrerem! - mas rio amarelo e digo que o relógio é velho e estou conferindo se ele está trabalhando. Ainda tenho que ouvir sua resposta comentando que sou muito miserável, pois ele troca de relógio cinco vezes por ano e que jamais ficaria vinte anos com o mesmo...
Sem ser discreto, tomo outro anti-ácido com uísque. Levanto-me e vou até a estante que bravamente se mantém em pé a despeito dos demônios, digo, das crianças que pulam da última prateleira sobre o sofá e de lá (quisera Deus, atravessassem a janela e se estatelassem no chão lá na rua) para a poltrona de couro onde descanso esse velho corpo após um dia de trabalho. Pedindo licença dentro da minha casa para uns fedelhos que deveriam estar num colégio interno, vou à prateleira onde guardo meus DVDs.
Começo a procurar um filme específico. Demoro poucos minutos, e vitorioso o seguro acima da cabeça balançando-o como se fosse um prêmio, um troféu.
Atravesso a sala em direção à TV, e quando vou colocar a mídia para rodar, minha mulher, fuzilando-me com os olhos fala alto, em tom casual, que essa não é hora, nem local, nem ocasião para assistirmos Férias Frustradas de Natal, - e delicadamente pega o controle remoto da TV de minha mão e a desliga.
Tomo outro anti-ácido com uma dose dupla de uísque e me apago.
Acordo, mais com o tropel dos convidados que com a mulher anunciando a ceia.
Dirijo-me à mesa, sem apetite mas com o estômago nos trinques. Nem etíopes fariam tamanha confusão comendo...
Sentado à cabeceira da mesa, olho para as pessoas, conto-as e vejo que falta uma irmã de minha mulher, bestamente pergunto por ela e meu cunhado
responde:
- Foi fazer miojo para a caçula!
Emborco uma garrafa de uísque de uma vez só.
Onde estamos?

