2017/08/29

RASTEJE HUMANIDADE, RASTEJE!



dois idiotas discutem
sobre os males
do cigarro enquanto
abanando-se  tossem & choram
encobertos pela fumaça (preta)
do óleo diesel dos caminhões
- e os pombos – há esses cínicos! –
se atracam no chão por uns
míseros  grãos




2017/08/11

CARTA ONDE ENSAIA UMA DESPEDIDA DESSE NOSSO MUNDO





Caríssimo, afasto-me.

Tomei enfim a definitiva e final decisão. Carrego minhas malas, baús, embornais e duas ou três sacolinhas com pão de queijo e mandioca. Vou-me afinal. Sopesei muito, pesei, medi bem e às favas com as consequências. Cansei-me, enfadei-me, enjoei mesmo de tudo nessa vila e arredores.

Sou um homem velho, sou caçador de feras e outras maravilhas. Não sou homem de arrumar encrenca, brigas, desaforos e desafetos!

Ah! Bom amigo tenho passado por poucas e boas ultimamente. Essa velha pensão cada dia mais mal assombrada/frequentada. Meus nervos já não são mais os mesmos, eu já não sou mais o mesmo, que o digam os meus espelhos... Mal penteio os cabelos, já não faço mais a barba, branca, que já me chega ao peito...

Sai da pensão de madrugada, feito um ladrão, aliás, como costumo sair de todos os lugares onde já morei. Saio como fugido. Mas sossegue, a senhoria há de encontrar meu aluguel num envelopinho sob a sua porta pela manhã ao despertar. Sou estranho, mas ainda continuo honesto como meu velho pai. Lembrei-me dele dia desses, depois lhe conto.

Ao sair da velha pensão recomendei que os anjos continuassem por lá por mais uns dias e que me mantenham informado de tudo que por lá se passe e dos que  passem por lá também.

Ando impressionável.  Ouço vozes, vejo vultos, imagino complôs, intuo traições, nada de bom passa por esse velho e calvo crânio.

Por isso se você ficar muito tempo sem notícias minhas tente não se preocupar. Vou afastar-me de tudo e de todos. Descobri um jeito de escapar dessa realidade de três dimensões...
(abro esse parêntese para que você velho amigo possa recuperar o folego).

Espero que junto com o folego tenha ao seu lado sua velha xícara de café, lembrança da sempre saudosa Dona Maria Amália.

Pois é, depois de muito estudo, muita pesquisa, queimar muita pestana em velhas bibliotecas e antigos alfarrábios, descobri como sair disso aqui (estenda bem seus braços e olhe para o horizonte, respire bem fundo, e entenda o que significa o “tudo isso aqui!”).

Percebi, enfim, que vivi num mundo de ilusões, fantasias, pesadelos, quimeras e miragens... – imagino-o balançando a cabeça e pensando que o absinto acabou comigo – mas engana-se, só a sobriedade me enlouquece.

Despeço-me aqui. Logo hei de dar-lhe noticias, quer por escrito, quer em seus sonhos – mas tome cuidado com os súcubos, muito cuidado!!

Até mais Velho Homem.

P.S. Duvido que do “outro lado” eu possa enviar-lhe alguma lembrança ou peças para sua coleção de maravilhas.