2010/02/08

POR QUE ELA ME DEU AQUELE BILHETE?








Sentado, lamentava-se:

- Ainda não consigo compreender a razão daquele papelzinho com o número do celular que ela me deu.... Para que ela me deu o número do celular se não era para sair comigo?


- Talvez.... – Empaquei. Não há talvez para papéis com número de telefone.

- Sim, vamos, responda.

- Talvez... – Empaquei pela segunda vez. O que eu poderia responder para ele naquele momento?

- Eu imaginei, não, afirmo que entendi que ela queria sair comigo. O que mais poderia ser?

- Sim, só poderia ser isso, sem sombra de dúvida ou talvez. – Desempaquei.

- E o que eu fiz? Liguei e marquei um encontro. Fui encontrá-la na saída do trabalho dela. Fui sem dinheiro, a uma pastelaria (restaurante), pedi dois daqueles chopes de vinho. Olhei dentro dos olhos dela e propus um brinde.

- E...

- Ela levantou a taça e brindou: “À nossa amizade!”

- Meus Deus! – Disse estalando os dedos.


- Sim! Meu Deus, onde fui me meter! Foi o que me passou pela minha cabeça naquele instante. Fiquei mudo, e dentro da minha cabeça as palavras “amizade” ecoavam, “amizadeamizadeamizadeamizade...”

- E ela?

- Bebia o chope sofregamente, como que tivesse uma desculpa para não falar nada.

- E você?

- Olhava para ela como quem olha para um acidente de trânsito, um desastre, era o que eu via, um desastre, e o acidentado era eu. Vi ali, na mesa, um cadáver. Você já viu um cachorro atropelado numa estrada?

- Sim. Feio de se ver...

- Pois é. Era isso o que se via ali. Um desastre feio, e o desastre era eu. Ia voltar pra casa a pé, estava gastando o dinheiro da condução com ela em troca de um brinde de amizade...

- Que situação...

- Que situação a minha, ali naquela hora. Tudo congelou. O papo, os planos, o futuro, os filhos, os passeios de mãos dadas ao por do sol, nossas bodas de ouro no nordeste, e tudo o que eu via pela frente era o caminho que eu faria a pé indo para casa.

- Mas você não tentou nada?

- Tentar o quê? Falar mais o que depois desse brinde “à nossa amizade”? Minha vontade na hora foi pegar uma arma e matar todos os meus amigos, para nunca mais precisar pronunciar a palavra “amizade”.


- Obrigado pela parte que me toca.


- Desculpa. Sei que foi mal...

- Tudo bem, continue.

- Ela bebeu todo o chope de uma vez sem respirar e pediu outro. Além de acabar com minhas ilusões, acabaria também com meu orçamento... Outro chope e mais um ônibus que eu deixaria de pegar...

- Então ela era boa de copo?

- Boa de copo?... Ela era boa de bico. Me responda: para que ela me deu o telefone? Qualquer um entenderia que era uma cantada... Por que só comigo tinha que ser diferente? Onde eu errei na interpretação do bilhetinho?

- Mulheres! – Argumentei filosoficamente, mantendo-me assim numa posição ambígua sem me comprometer.

- Mulheres, mulheres, mulheres! Se eu pudesse viver sem elas...

- Quem as entende...?

- Olha aqui. – Tirou do bolso um papelzinho dobrado e amarfanhado. Veja os números, veja a letra dela. Tem alguma coisa aqui que dê a entender que ela queria só amizade comigo? Leia, leia, leia!

Para não ter um dos olhos vazados pelo papel, peguei-o de sua mão.

- Realmente, nada aqui dá a entender que era um bilhete de amizade...

- Não precisa ser irônico na pronuncia da palavra amizade! – Rosnou.

- Quer que eu rasgue essa porcaria? – Ameacei


- Não –, disse tremendo, quase chorando – não rasgue, preciso ler e reler esse papel até entender onde está escrito que ela queria só a minha amizade.

Pegou o papel de minha mão, olhou-o contra luz e tornou a guardá-lo no bolso.

- Até quando você vai curtir essa decepção?

- Essa eu vou levar pro túmulo, e quando reencarnar vou lembrar disso outra vez...

- Carma é uma coisa, isso já está ficando meio psicótico.

- Agora você vai dizer que estou louco, imaginando coisas, vai dizer que estava patente aqui no bilhete – e outra vez ele tirou o papelzinho do bolso –, que ela queria só a minha amizade?

- Olha –, disse olhando para o relógio –: está quase na hora de voltar a trabalhar. Vamos deixar isso prá lá, esqueça; pelo menos você bebeu um chope e... – fui interrompido.

- Que chope? Antes de pedir o segundo ela bebeu o meu. Disse que ia esquentar e tomou o copo da minha mão...

- Quer dizer que a noite foi perdida mesmo, você nem mesmo bebeu? Que...

- Nem pronuncie a palavra, nem pronuncie. Me sinto assim desde de aquela noite. Maldita mulher, maldito bilhete, maldito mal entendido, maldita vida essa que me leva prá...

- Nem continue! – Disse levantando-me da mesa. – Deixe um pouco para amanhã. Por hoje chega. Vamos trabalhar.


- Vá indo na frente, tenho uma coisa a fazer e devo fazer sozinho. – Seus olhos marejados encaravam o bilhete.


- O que você vai fazer? Não faça besteira, pense bem, não tem mulher que mereça... – outra vez interrompido.

- Pode ir em paz. Fique sossegado. Para provar que não vou fazer nenhuma besteira te prometo ligar mais tarde. Vá, vá.

Saí um pouco mais aliviado, da porta o ouvi pedir:


- Garçom um chope!

2010/02/05

Variação sobre o mesmo tema (ainda)

sim ela virá
com seu avental preto
caminhando
como quem anda nas nuvens
com passos leves
delicados
como uma bailarina
tocará o solo
com as pontas do pés
ela vira na sua direção
trará no rosto
um sorriso
(profissional, não se iluda)
ela olhará através de você
(sim esse é o seu olhar)
seu café se aproxima
na bandeja
a xícara
o peti-four
o copo d’água
ela se aproxima de sua mesa
falta pouco para chegar até você
e a poucos passos
ela tropeça
cai
a bandeja, a xícara, o peti-four, a água e ela vão ao
chão
você sorri
você ri
você gargalha
seu dia está ganho
(murmurará você entre dentes)
e no chão frio do Café
as lágrimas dela se confundirão
à cor negra do café...

2010/02/04

MAIS UMA DAQUELE MEU AMIGO QUE SOFRE COM O SEXO OPOSTO

mulher
assombro
paquidérmico
de mastodôntica
memória
nada esquece
nada perde
nada perdoa
ela não reconhece o manhã
guarda na geladeira da memória
suas faltas
erros
desacertos
e aquela olhada na gostosa de biquíni na praia
(nas férias de 1972)
numa amanhã
sol a encontrará dando lustro
nos seus erros e pecados
mulher
esse monstro que não esquece!

2010/02/02

Quando achamos que mais nada pode dar errado na vida, eis que a noite chega e...

ele veio
mas não foi
não foi tudo isso
tudo o que esperava-se que fosse
sim ele veio
mas veio a quê?
ele estava ali
na frente
de frente
olhos nos olhos
mas faltava algo
ele veio
mas onde estava
o resto dele?
onde estavam seus pensamentos?
ele estava ali
mas seu desejo
qual era?
qual seria?
onde estaria?
sim, sim ele estava
bem à sua frente
mas
mas
mas
por que diabos ele broxou então??

2010/01/28

Não Corte os Pulsos


Não corte os pulsos
Desligue a Billie
Ponha o copo no chão
Lentamente feche a janela
Não corte os pulsos
Guarde a faca de volta na gaveta
Ponha o disco de volta na capa
A Billie não pode ajudá-lo nesse momento
A bebida só anestesia
Mas não o faz esquecer
Repita e repita
(a si mesmo)
Não corte os pulsos
Aquelas cartas
Aquelas linhas tortas de paixão
Aquelas folhas amassadas
Rasgadas
rabiscadas
Esqueça tudo isso
Esqueça
E lembre-se
Não corte os pulsos
Tente amanhã
Tente outra vez amanhã
Mas para haver um amanhã
É preciso muito que você
Não corte os pulsos

O TEXTO É ANTIGO MAS O SENTIMENTO É ATUAL

EDUCAÇÃO, PARA QUÊ?




Triste o nosso trópico, triste.

Tento não ser pessimista, mas vejam essa experiência com crianças.

Estava esses dias na Feira da Cidadania, em São Vicente, num stand, não interessa qual, conversando com crianças.

Entre as muitas que lá estavam, uma me chamou mais a atenção.

Ela, não declinarei o nome, com treze anos, falava, com certo orgulho, que não gostava de ler.

Não lia nada, absolutamente nada. Nem quando o professor assim mandava, para fazer algum trabalho. Se muito, passava os olhos num livro ou outro em dias de prova. E mesmo assim, copiaria o que pudesse dos colegas.

Fiquei besta com isso.

Perguntei-lhe se nunca nenhum livro lhe havia chamado a atenção, um livro de histórias, mesmo história da carochinha...

Em certo momento, perguntei-lhe:

- Você já leu Drummond?

- Leudrummond? Não, nunca ouvi falar nesse cara. - Disse olhando-me nos olhos, como se eu tivesse lhe indagado se já havia visto um marciano.

Expliquei-lhe, entre as gargalhadas dos presentes, (sim, há testemunhas) que não era “Leudrummond”, mas Drummond, Carlos Drummond de Andrade.

Mas debalde.

Ela não entendia nada. Nada de leitura, nada das gargalhadas. Mudei o rumo da “prosa”.

Quis saber o que ela planejava para o seu futuro (pra quê?).

Respondeu, outra vez, toda orgulhosa (pobre, pobre criatura!):

- Faxineira de shopping ou diarista!

A princípio engasguei.

- Como alguém em sã consciência quereria ser faxineira de shopping?

- Para ver gente bonita por perto toda hora! - Respondeu horrorizada com a minha ignorância.

Como fazê-la ver que isso não era sonho? (quando não um pesadelo?) Que ser faxineira de shopping era mais uma triste conseqüência que uma opção?

Expliquei-lhe, já nervoso e desiludido, que se ela não estudasse, se empenhasse em ser melhor, em se destacar dos seus colegas, ela não seria nada na vida. Que sem estudo, sem um pouco que fosse de cultura, educação, sua vida não seria nada gloriosa...

Que em última instância, o conhecimento era o único bem que ninguém poderia tirar, que o saber não era um relógio, um tênis de marca que poderia ser roubado, que diferente da sua juventude, ele não se perderia ou acabaria...

Quando ela me interrompe com sua displicente arrogância:

- Então vou para Miami casar com um homem bonito e rico!

Mais gargalhadas!

Passei as mãos no rosto, cocei os cabelos, respirei fundo, e tornei à minha arenga. Tentei, já a essa altura dos acontecimentos, inutilmente, fazer-lhe ver que nenhum homem “bonito & rico” se interessaria por uma mulher feia e burra, sem um mínimo de conhecimento, modos e educação.

Pondo as mãos na cintura, ajustou a mini-saia, suja e surrada, e jogando os cabelos para trás, falou cheia de soberba estupidez:

- Hiii tio, que papo! Se nada der certo, então viro mulher de traficante.

Virou-se e saiu, rebolando e arrastando as chinelas.

Que fiz eu?

Acendi o meu charuto, velho amigo e companheiro dessas desditas.

2010/01/25

Vejam a alegria estampada em seu semblante!

2010/01/22

a noite será longa...

sobre a mesa
garrafas
copos virados
cascas de amendoins
sob ela
(a mesa)
dorme um cachorro
que
cansou de esperar
por uma calabresa com cebolas
risadas
gargalhas
um de cara feia
(vítima talvez dos risos)
um estalo dedo
outra
garrafa
beber para ignorar
o telão
lá canta
(prá desgosto dos bem pensantes)
celine dion
o cachorro se incomoda
com aqueles agudos
lancinante
e ameaça ir-se de vez
mas ele sabe
que outra rodada de
tira-gosto pode chegar
um cigarro é aceso
olhares que convergem
uma pressão
(ou opressão?)
sem uma única tragada
vai o cigarro
ao chão
é pisado
num misto de raiva e frustração
chega o garçom
outra cerveja
o cão se lambe
enchem-se os copos
riem-se por nada
a noite chega
as garrafas
os copos se chocam
e alguém grita:

- um brinde ao Vadinho!

palmas
hurras
e vivas
copos
ao alto
alguém comenta soturno e sacana:

- e pensar que o Magrão não bebe cerveja...

Melancólico
debaixo da mesa
com o rabo entre as pernas
o cão
contenta-se em roer
o cigarro apagado

a noite será longa...