2009/07/14

MAIS FRAGMENTOS DE MEMÓRIAS

CURITIBA, NÃO, RIO DE JANEIRO!


...e depois de bebermos a noite toda esperando o ônibus para Curitiba acordamos na avenida Brasil, com direito a banda e desfile patriótico, afinal era o sete de setembro.

Acordamos nas poltronas ao som de clarins, bumbos e espanto. Afinal não íamos a Curitiba?

Pois é o álcool...

Aos pouco nossa mente foi clareando e começamos a nos lembrar do que aconteceu na noite anterior.

Ficamos pelo centro da cidade, bebendo, e fazendo hora, pois o ônibus soa sairia à meia-noite, chegada a hora fomos ao guichê. Entramos na fila, e quando faltava apenas uma pessoa à nossa frente, eis que ela, a madame começa a bater boca e fazer escândalo, ato contínuo, nos dirigimos ao guichê mais sossegado, compramos a passagem, entramos, nos sentamos e “morremos” só acordando na segunda linha desse texto.

Descemos na rodoviária e logo pegamos um barco para Paquetá, já que não íamos mais nos encontrar com o Cláudio (o amigo que nos esperaria por muito tempo lá em Curitiba) seguimos para conhecer a Pedra da Moreninha... (nunca fui muito fã do Zé de Alencar, depois disso fiquei menos ainda)

Desembarcamos assim, eu aterrorizado com os passageiros, - quem me conhece sabe a que estou me referindo, - e o Vadinho com fome. Andamos pela Ilha por quase uma hora. Nada vi por lá que me comovesse. Resolvemos voltar para o Rio, mas não naquele barco – de jeito nenhum eu voltaria a por meus pés e o resto de desse corpo simpático naquele barco!

Voltamos numa espécie de lancha de alta velocidade, que me lembrava o desenho animado Jonny Quest - cujo nome e tipo se apagaram com o passar do tempo, e ponham tempo nisso...

No meio do caminho, olhando para o céu vejo um cidadão de braços abertos e o Vadinho diz:

- Aquele é o Redentor!

E lá fomos nós para lá conhecer o Cristo Redentor.

(a fome já nos comia pelas beiradas)

Aos trancos e barrancos chegamos ao Cosme Velho...

Aos pés do Redentor nos informaram que para subir deveríamos “lotar” um fusca, mas há algo mais fácil de fazer que lotar um fusca? Se você leitor estivesse lá naquela época (depois confirmarei a data com o “Memorioso”) descobriria que os motoristas de lá dão um novo conceito à palavra “lotar um fusca”.

Depois de um curto pensar, resolvemos não ir, e fomos à procura da Rua Nascimento e Silva 107. Mas como sair de um lugar que não conhecíamos? Fácil, usando de minha lógica.

Vi numa placa o nome da rua em que nos encontrávamos – Avenida Pinheiro Machado, então lhe disse do alto de tanto saber!

- Amigo Vadinho, Pinheiro Machado é Canal Hum, e Canal Hum dá na praia, sigamos!

Fomos para na Praia Vermelha. Quanto a Rua Nascimento e Silva 107? Não encontramos. E ficamos devendo mais uma visita...

Resolvemos almoçar, afinal estávamos ainda com as cervejas da noite anterior e um cafezinho de uma padaria carioca. À essa altura dos acontecimentos minha velha gastrite, batizada carinhosamente pelo Vadinho de “Irene” manifestara-se na forma de estomatite, e minha boca e garganta eram só aftas, que doíam, até a saliva causava dores.

Entramos num restaurante de frutos do mar, pedimos filé de pescada e caipirinha, a “Irene” surtou de alegria, cada porção da comida era uma dor só “anestesiada” pela caipirinha, de vodca, é bom frisar.

Esqueci de comentar uma bobagenzinha bem besta, chovia desde a hora que pusemos nossos pés na “Cidade Maravilhosa”

Cansados revolvemos voltar.

Chegamos à cidade e estado errado às oito horas da manhã, e voltamos de lá às quatro horas da tarde

Ô vidinha mais besta!

2009/07/06

video

2009/06/29

BEBIDAS E FUTEBOL



23:35h, quarta tulipa de chope escuro, duas caipirinhas de abre-alas, porção de fritas com queijo já na saudade, e de repente o Magrão pergunta assim à queima-roupa:

- Tem jogo amanhã lá no estádio, vamos?

O miserável sabe duas coisas importantes sobre mim:

1. Detesto esportes em geral, e futebol em particular, e

2. Topo qualquer coisa depois de três chopes.

- Então combinado, às seis horas da tarde todo mundo em casa e vamos juntos pro estádio.
Ok! respondemos juntos e pedimos outra rodada de chope. Lá pela uma e pouco da madrugada fomos embora. Acompanhei o Magrão até perto de casa, ele seguiu em frente e eu fui para o meu apartamento. Subi as escadas lenta e tropegamente, tirei as roupas e o sapato, quando as chaves caíram no chão foi que reparei que havia trocado a ordem das coisas, me dei conta que estava nu no corredor do prédio, e quase arrombando a porta de meu apartamento, entrei. Tomei banho e me enxuguei no lençol da cama...

Acordei sábado, passava do meio-dia, com ressaca. Dirigi-me à cozinha e fiquei a meditar profundamente - na verdade acho que dormi mesmo em pé - no que faria, se café ou almoço, resolvi abrir um pacote de amendoim. Não me fez nada bem.
Voltei ao aconchego da cama.

Toca o telefone, era o Magrão confirmando o futebol de hoje à noite.

- Mas que futebol? E eu lá sou homem de futebol? Quando que em sã consciência... – foi ai que me lembrei, malditos chopes...

- Como fazemos? Você passa aqui ou vou ai? – Pergunto bancando o desentendido.

- Você passa que os lastros vão vir também, tomamos uns aperitivos aqui em casa e vamos calibrados pro estádio.

Importante explicar o que são os lastros. São dois sujeitos dos mais sem importância que andam conosco somente para dar lastro ao carro, sem mais explicações.

Desliguei o telefone, virei de lado e voltei a dormir. Não sei se sonhei, mas acho que os amendoins fizeram uma festa no meu estômago...

Acordei faltando pouco para as cinco da tarde.

Não escapei do banho, mas me enxuguei nas toalhas.

Vesti-me, desci para a rua, cumprimentei o porteiro do prédio que me respondeu com cara de desaprovação... Sei lá o que passa na cabeça desse sujeito. Vou até a calçada e grito:

- Roubaram meu carro! – Faço o espetáculo padrão dos roubados: grito, arranco os cabelos, xingo e por fim vou culpar o porteiro. Por isso ele me olhou daquele jeito, é cúmplice, é cúmplice...

Antes que dissesse qualquer coisa ele me perguntou:

- O senhor esqueceu o carro no bar outra vez?

Meu Deus esqueci o carro no bar outra vez! A bebida ainda me fará andar de ônibus um dia!

Telefono pro Magrão:

- Vou demorar prá chegar ai, vou passar no bar e pegar o carro.

Sigo a pé até o bar, chegando lá vejo Ivan limpando as mesas e esvaziando os cinzeiros. Quando me vê, abana os braços à guisa de cumprimento e nem bem me aproximo ele grita:

- Esqueceu o carro outra vez hein?

Todos os outros garçons olham para mim e para uma fileira de carros de luxo ali estacionados. Cabisbaixo entro no meu fusca azul e crio um anticlímax no bar.

Sigo para a casa do Magrão, os lastros já estão lá. Buzino e logo os três descem cantando alguma coisa que lembra hino religioso e grito de guerra. Trazem quatro buzinas, quatro bandeiras coloridas, quatro chapéus ridículos

- Onde eu me meti?

- O que foi que você disse? – pergunta o Magrão sacudindo uma bandeira na janela do carro. Nada respondo.

Sigo o engarrafamento até o estádio, e para a minha alegria uma fila imensa já se apresenta na rua.

- Desçam aqui que vou arrumar estacionamento, nos encontramos lá dentro.

O Magrão desce e logo é seguido pelos lastros.

Espero para vê-los entrarem na fila e vou-me embora. Minutos depois entro no bar;

- Ivan, dois chopes! Cumpri minha palavra, combinei de ir ao estádio, e fui “até o estádio”. O Magrão tem muito ainda o que aprender quando o assunto é "levar ao futebol". – sorrindo esvazio a tulipa.


2009/06/23

CIDADE DE TRÊS PRAÇAS

- Já estou andando há horas e horas e não consigo encontrar meu carro.

Esta deve ser a qüinquagésima vez que ele repete isso.

– Estou andando por essa cidade, mas não consigo encontrar a droga do meu carro. Como é possível que numa cidadezinha deste tamanho com apenas três praças, um sujeito possa perder seu próprio carro?

Da primeira vez que ele falou “cidadezinha desse tamanho com apenas três praças”, os velhinhos sentados à mesa do bar onde ele pedia informação, não gostaram nem um pouco e sua reação não foi das mais simpáticas.

- Eu me lembro que deixei o carro numa curva onde três ruas e uma ferrovia faziam uma curva para a direita, não deve ser difícil para vocês me informarem onde fica localizada essa curva! – exasperava-se.

Como não conseguia nenhuma informação seguiu andando a esmo. Passou pelo prédio do correio, pela delegacia onde não ousava entrar para pedir mais informações, pois ao indagar dois policiais a respeito das ruas e do carro, pediram-lhe seus documentos e o do carro, mais disposto a prendê-lo do que a auxiliá-lo.

A tarde já estava no meio e o sol castigava-o de forma inclemente, o calor fazia sua camisa grudar no corpo, deixando uma má impressão que o tornava mais antipático à vista do moradores locais.

Entrou em um bar, pediu uma garrafa de água, aproximou-se de outros velhos – ele havia reparado que nessa cidadezinha só havia idosos, não vira um jovem sequer, aliás, nem escolas havia por ali – que ali estavam matando tempo e sem mais delongas foi perguntando se alguém havia visto seu carro.

Nada lhe responderam, pois achavam impossível alguém perder um carro, ou qualquer outra coisa naquela cidade.

- O que poderia esperar de uma cidade que só possui três praças e ninguém trabalha? – Vociferou enquanto saía do bar sob os olhares belicosos dos fregueses.

- Não posso perder tempo aqui, preciso ir embora, tenho que encontrar meu carro e sair daqui o quanto antes.

Seguiu pela avenida principal, ou assim pensou que fosse, já que aquela era a rua mais larga que havia ali. Seguiu até perceber que ela tornava-se uma ladeira.

–Lá do alto vou poder me localizar, de lá vou achar as três ruas que fazem uma curva para a direita junto com a ferrovia.

Uma vez lá no alto, tudo o que conseguiu ver foram as onipresentes três praças.

-Mas não é possível... – Murmurou coçando a cabeça. Olhou para céu, mais para ver a posição do sol do que para clamar por ajuda divina. A subida da ladeira o deixou mais suado e mal ajambrado que antes.

- Maldita cidade! Onde você escondeu o meu carro, onde? Preciso sair daqui, quero voltar para a minha casa, para minha mulher, para os meus filhos, cidade dos infernos deixe-me ir embora.

O que começara com uma explosão de frustração, terminara com um choro fraco e impotente...

Voltou pela mesma ladeira até chegar à avenida e por ela foi andando até chegar à praça central, feia, com poucas árvores raquíticas e sem folhas. Nela não havia igreja, nem bancos, nem pombos. Uma praça feia e sem sentido, tendo à sua direita e esquerda outras praças tão feias e tristes quanto ela, e que o sol só ajudava a piorar...

Cansado, suado e sujo, tudo o que ele queria era ir embora para a sua casa, tomar um banho e esquecer aquele pesadelo.

- Maldita cidade! – gritou outra vez com os punhos cerrados em direção ao céu – maldita, mil vezes maldita cidade.

O vendedor de pipoca que ouviu isso não gostou e xingou-o de alguma coisa que ele não entendeu e seguiu para o bar onde os velhos viam toda essa cena patética.

O pipoqueiro entrou, sentou numa mesa e começou a confabular com os presentes, entre uma conversa e outra olhavam para o sujeito que agora não parava mais de falar sozinho.

-Precisamos dar um jeito nisso. – Disse um.

- E tem que ser logo. – Emendou outro com um copo de café.

- Não precisamos ouvir isso o dia inteiro. – Falou o português dono do estabelecimento.

- Essa história de carro perdido no estacionamento? – Disse o mais velho deles enquanto cuspia um cuspe preto de mascador de tabaco. – Já não me impressiono com mais nada que ouço por aqui.

- Onde nessa cidade tem três ruas que fazem uma curva para a direita com uma linha de ferro? – Perguntou a galega esposa do dono do bar.

- Cala a boca mulher e volta lá prá trás do balcão.

Enquanto isso lá na praça central sob o sol escaldante, o sujeito andava de um lado para outro gesticulando os braços e xingando quem passasse por perto.
- Preciso lembrar onde estacionei meu carro, preciso sair daqui, essa cidade vai me enlouquecer – e olhando para o bar, gritou:

– O que vocês estão olhando? Devolvam meu carro que eu vou me embora daqui e juro nunca mais voltar, devolvam meu carro, me digam onde ele está e eu vou embora daqui –, e ajoelhando-se começa a chorar.

No bar os velhos voltam a falar.

- O que vocês acham...? – Pergunta o galego.

- Por que você pergunta isso? – Cuspiu o mascador de tabaco

- Não cuspa no chão – Gritou a galega de trás do balcão

- Não grita com os fregueses – Berrou o marido português.

- Parem de gritar um com o outro e vamos nos ater a situação daquele infeliz lá fora cozinhando os miolos no sol. – Manifestou-se o pipoqueiro.

- Vou telefonar para o Vadinho então. – Contemporizou o homem que ainda tomava café. – Mas ele não vai gostar e vai chegar enfezado aqui...

- Quando que o Vadinho não chega ou vive enfezado? – Retrucou o bebedor de café.

- Coitado do Seu Vadinho, com a vida que ele leva...- Comentou a mulher detrás do balcão arrumando as garrafas de cachaça na prateleira.

- Ifigênia, o que já lhe falei sobre se meter na conversa dos fregueses? – Vociferou o marido coçando os cabelos do peito.

- Tá certo, eu telefono pro Vadinho, mas telefono e vou me embora, não quero estar aqui prá ver a desgraça que vai dar. – Falou baixinho o mascador de tabaco.
Cuspindo um cuspe preto de tabaco, o velho mais se arrastou do que caminhou até o telefone sobre o balcão. Discou lentamente os números, como se eles fluíssem à sua memória um a um. Ouviu-se um breve murmúrio e logo desligou.
Tornou a sentar-se e disse:

- Ele falou que vai buscar o carro e já vem, é só o tempo de eu tomar uma saideira. Não tenho mais idade para ver essas coisas... – emborcou o copinho de cachaça que estava sobre a mesa, levantou-se e foi embora, da porta do bar deu uma olhada para o infeliz na praça, balançou a cabeça e foi-se sem se despedir de ninguém.

2009/06/18

O Amor No Escritório






Dado o: - ”bomdia” de sempre, senta-se à sua mesa e começa a...

Sonhar com o chefe. E em seus delírios, vêem-se deitados nas quentes areias das praias do nordeste, passando óleo bronzeador nas costa de Farias, o chefe do Departamento de Pessoal. Lambuza a mão e generosamente espalha a loção.

O mar verde, verde de inveja, vem molhar os pés dos dois.

O sorriso de satisfação enche-lhe o rosto. Nem ouve quando toca o telefone de sua mesa, é preciso que o contínuo que passa carregado de papel da xérox lhe acorde e lhe traga de volta à realidade cotidiana do trabalho.

Era o Farias querendo um documento qualquer.

- Mas não precisa vir aqui pessoalmente, mande o contínuo trazer aqui para mim, ok?

Farias faz de tudo para se preservar, não dá a entender a esse povinho o caso de amor deles, pensa, enquanto chama o contínuo para levar a pilha de documentos.

Distraindo-se, volta à praia, onde agora se entregam ao prazer capital da gula, juntos devoram uma lagosta e devoram-se com os olhos. Farias está lindo com o bronzeado conseguido de manhã. Ah! Se não fossem suas mãozinhas a passar o óleo bronzeador, e suspira tão profundamente que os colegas ao lado se assustam.

Riam de mim, nojentos, invejosos, riam, um dia eu e o Farias colocaremos todos vocês na linha...

Toca o telefone.

- É o Farias - grita a Tia do café, temporariamente no papel de telefonista – ele avisou que vai fazer uma reunião hoje, antes do fim do expediente. Pra ninguém sair sem falar com ele.

Pronto – pensa - hoje ele vai mostrar a essa gente quem vai mandar aqui de agora em diante, hoje ele vai declarar a todo o escritório o nosso amor. É capaz até que ele me peça em noivado. Corre ao banheiro, passa o fio dental, escova os dentes, penteia os cabelos pintados de loiro, retoca o perfume o francês (Lulu). Arfando de excitação volta à sua mesa, olha o relógio e chega à conclusão que hoje demorará mais para o dia chegar ao fim.

Abra a gaveta, finge que trabalha, revolve tudo que há dentro, faz barulho para dar a impressão que está procurando alguma coisa, seguido de - Ah! Achei – olha para os lados para ter certeza que todos viram o seu showzinho. Na verdade achou foi a foto de Farias numa revista de futilidades em que representava a empresa, não era grande coisa, mas o fotógrafo pegou-o em um bom ângulo.

- Aquele furinho no queixo...
...
Hora do almoço, todos saem.

Em sua mesa, espalhando papeis de um lado para outro, faz hora esperando Farias sair de sua sala e ouvir o convite:

- Vamos sair para comer?

Mas Farias não sai o convite não feito e o horário de almoço é perdido.

- Melhor – pensa - assim esse corpinho vai ficar mais delgado para ele...

Mas a fome aperta e sobra para o contínuo buscar, na rua, um sanduíche natural de frango com catupiri e uma coca diet, e ainda recomenda.

- Vem chacoalhando para tirar o gás, assim evito as estrias...!

Tudo pelo amor...

Passa a tarde, chega a reunião. Nada de novo, só metas e mais metas, nada de declaração, nada de pedido de noivado, nada de nada.

Jean Batist, (afrancesou o nome só para agradá-lo!) vai embora para casa, cabisbaixo, triste, com fome e coração partido.



2009/06/16

Na falta de inspiração, vai um texto velho ai.

JEREMIAS





Dezenove horas, está escuro e Jeremias, encostado no muro de sua casa mira o mar, que por já estar perto do inverno, está bravo. O barulho das ondas enche o ar, e gosto do sal chega à sua boca. Jeremias fuma, e solta uma longa baforada azul, deixando uma névoa bem particular à sua volta.

Estrelas brilham no céu azul e frio, alguns vaga-lumes renitentes ainda voam tontamente, talvez despedindo-se uns dos outros e comprometendo-se a se verem no próximo verão, ri e pensa Jeremias envolto em uma nova baforada.

De repente Jeremias fixa o olhar lá longe no mar (o que vê Jeremias?).

Ele coça a cabeça, pigarreia, dá outra baforada e força ainda mais o olhar, tentando ver a forma ainda sem definição no mar.

Ele pensa ser uma gaivota perdida de seu bando, - o som não é de gaivota – diz para si mesmo Jeremias.

Enquanto pensa nisso, Jeremias dá mais uma baforada, longa, bem longa e solta a fumaça lentamente, e outra névoa levemente azulada se forma ao seu lado.

Uma mancha branca aproxima-se dele voando, e como um raio, raspa-lhe a cabeça e quase arranca-lhe as tranças rastafari e grita:


- Abunda-me de ti, ó Senhor!


Jeremias, assustado sente a terra tremer sob seus pés descalços, ao olhar para cima procurando pela gaivota ele vê as estrelas tremeluzirem e começarem a se apagar, os vaga-lumes como num arco-íris em espiral sobem para o breu celeste e desaparecem também, aterrorizado com toda essa escuridão, Jeremias expira toda a fumaça de seu peito, joga fora o seu cigarro e pensa enquanto é envolvido pela azulada névoa:

- Preciso parar de fumar essa droga! - jogando o cigarrinho fora ele corre para a praia.


Entra n’água até a altura dos joelhos, olha para trás assustado procurando pela ave e mergulha. Enquanto o corpo afundava n’água ainda ouve a gaivota gritar outra vez:

- Abunda-me de ti,ó Senhor! – e dava outra rasante desenhando um risco n’água à procura de Jeremias.

Jeremias ficou no mar até o amanhecer quando o bando de gaivotas voltou com seus gritos anárquicos e estridentes, mergulhando no mar a procura de peixes, abafando assim os gritos da gaivota catequista que voando em círculos, ainda gritava:

- Abunda-me de ti, ó Senhor!

2009/06/15

Carola Hóstia Seculorum

(estática)



(Música incidental)


Hobbs Nietsch – Hoje temos uma má notícias para os nossos queridos ouvintes.

Lindomar Orlando – Sim queridas ouvintes. Por ordens expressas de nosso patrão Seu Pepe-Manolo, proprietário da “Casa do Norte e pertences para feijoada Pepe-Manolo & Hijos”, hoje excepcionalmente não apresentaremos o prometido debate sexualmente explícito entre um ator pornô, uma stripper e um confeiteiro erótico francês amplamente anunciado desde a semana passada.

Hobbs Nietsch - Contamos com a compreensão dos senhores ouvintes. Mas em compensação...

Lindomar Orlando - ...Deixaremos os microfones abertos para as reclamações de nossos queridos ouvintes.

Hobbs Nietsch - Técnica é com vocês. (eco)



(Som de telefone)



Lindomar Orlando – Já temos a nossa primeira chamada. Alô? Pode falar. Qual é o seu nome?


(BG de valsa)


Carola Hóstia Seculorum – (voz de telefone) (voz de velha) (tímida) - Alô. Alô. Meu nome é Carola Hóstia Seculorum.


Lindomar Orlando - Onde a senhora mora Dona Carola Hóstia Seculorum?


Carola Hóstia Seculorum (voz de rádio) (voz de velha) - Eu moro aqui no bairro da Aguarrás, nos altos, meus filhos, por que lá nos baixos mora uma gentalha...


Hobbs Nietsch - Pode falar dona Carola. O que a senhora tem para nos dizer?


Carola Hóstia Seculorum –( voz de telefone) (voz de velha) ( suspirosa) - Ah! Meu filho se você soubesse... eu tenho tanta coisa para dizer... tantas coisas eu já vivi...


Lindomar Orlando – (interrompendo) (rindo) - Não Dona Carola Hóstia Seculorum, nós queremos saber a razão de seu telefonema, a senhora tem alguma coisa “im-por-tan-te” para nos dizer?



Carola Hóstia Seculorum – –(voz de telefone) (voz de velha) Ah! Meu filho eu liguei para reclamar dos meus vizinhos de cima, sabe eu vivo num apartamento, e o pessoal que mora em cima faz muito barulho de noite e eu não consigo dormir, imagine que até a minha samambaia, a Yvone, tadinha, está se desfolhando toda, espalhando aquelas folhinhas tão pequininhas pelo chão e o carpete do apartamento, em cima dos móveis e depois dá trabalhão para varrer e colar de volta nos galhinhos dela...



Hobbs Nietsch – Como a senhora fala rápido. Puxa vida que fôlego a senhora tem. Qual a sua idade?


Carola Hóstia Seculorum - –(voz de telefone) (voz de velha) (orgulhosa) Tenho noventa e cinco anos, mas não aparento. E quanto ao fôlego, eu me trato meu filho! Imagine que no ano passado eu fiz três abdominais, sozinha sem ajuda de ninguém...


Lindomar Orlando- ( em off) - Três abdominais o ano passado? Mais que eu em toda a minha vida...

Hobbs Nietsch –(em off) - Estamos empatados.


Lindomar Orlando - O que a senhora gostaria nós fizéssemos? Afinal não entendemos bem qual é a sua reclamação. Afinal é o barulho ou a samambaia desfolhando que está lhe incomodando?


Carola Hóstia Seculorum – (voz de telefone) (voz de velha) (brava) - Samambaia não! Ivone, o nome dela é Ivone e não esqueça mais disso... Depois dizem que a exclerosada aqui sou eu... Tenha a santa paciência! Minha vontade é de desligar essa porcaria...


Lindomar Orlando - Desculpe Dona Carola Hóstia Seculorum, ninguém lhe chamou de exclerosada e não vamos repetir mais essa falha, queira nos desculpar.


Hobbs Nietsch – Afinal que providência a senhora gostaria que fosse tomada?


Carola Hóstia Seculorum - (voz de telefone) (voz de velha) (fazendo charme) - Os senhores bem que poderiam mandar o seu Fausto J. Hecatombe, aquele mocinho lindo lindo que trabalha aí na rádio para falar com o casal lá de cima. Tem que ser o seu Fausto J. Hecatombe, que alem de lindo lindo, também é forte prá chuchu...(suspirando) Ai aqueles músculos!!! Ai que eu fico todinha arrepiada...


Lindomar Orlando (interrompendo) - Porque tem ser alguém forte? O seu vaso, digo a Ivone é assim tão pesada?


Carola Hóstia Seculorum ––(voz de telefone) (voz de velha) (brava) Ai meu sais! Ai meus sais! Ainda vou desligar esse telefone! Eu não quero um homem para a Yvone, é para apartar a briga do casal lá de cima, toda a noite quando ele chega da rua, não dá quinze minutos e a coitada da mocinha, tão jovem, começa a gritar “ai meu Deus, ai meu Deus” depois ela soluça, grita e chora, se sacode a cama... É isso toda noite, pobrezinha... Alguém tem que dar um jeito nisso, e tem que ser já! Tem dar um fim naquele bruto! Afinal são duas criaturas estão sofrendo, é a pobre mocinha e a minha Yvone.


Hobbs Nietsch – Dona Carola Hóstia Seculorum, a senhora saberia nos dizer a idade desse casal?


Carola Hóstia Seculorum (voz de telefone) (voz de velha) (triste) – Veja que pecado, ai ai, eles são um casal tão jovem, devem ter uns vinte e poucos anos, e já brigam desse jeito. Imagine quando estiverem com a minha idade? Um pecado, um verdadeiro pecado...


Lindomar Orlando – (rindo) - Sabe Dona Carola Hóstia Seculorum não achamos que esse seja um caso para enviar o nosso Homem Certo Na Hora Certa e no Lugar Certo...


Hobbs Nietsch - (em off) (rindo) – Quero ver você explicar isso para ela...


Carola Hóstia Seculorum (voz de telefone) (voz de velha) - Vocês estão rindo do quê?? Vocês não respeitam mais nada? No meu tempo de mocinha agente respeitava os mais velhos. Esse mundo acabou. Eu faço parte da TFP! Eu vou reclamar com bispo! Chega, eu vou desligar esse telefone!


(Bate o telefone)


(Baixa o BG de valsa)


(estática)