2013/06/27

2013/06/26

FATO




O frio chegou antes do inverno, mais ou menos em meados de abril

a casa esvaziou

a temperatura caiu

sobrou espaço no guarda-roupa

o cachorro emagreceu

e o peixinho continua boiando naquela água verde do aquário.

2013/06/25

FOI ASSIM



Então foi assim, saímos todos à rua, chovia, mas estávamos juntos, unidos, de braços dados, marchávamos mais que andávamos. Erámos uma massa – ai começou o erro - homogênea, unida num único ideal. Derrubar o sistema.

Sistema...

Por causa da queda no sistema - naquele justo dia - ninguém conseguiu se comunicar. Os telefones não funcionavam, e juntos na rua, sob a chuva, de braços dados, apanhamos da polícia. Nosso movimento de sete pessoas acabou numa delegacia.

Por isso sempre repito, cuidado com seus sonhos, seus desejos, cuidado com a sua motivação, e mais importante, cheque sempre seus e-mails e recados na secretária eletrônica antes de ir para rua.

Cuidado com seus sonhos e cuidado com quem você pensa que pode ser um grande líder...

Já me dizia a um Grande Sábio (que não declinarei o nome aqui*): - O líder de esquerda hoje é o Tirano de Direita amanha!

Hoje não sou um velho amargo ou desiludido, não desdenho dos anseios dos jovens, nem desprezo os sonhadores e idealistas. Precisamos sim de movimentos populares, precisamos sim sair às ruas, gritar, levantar bandeiras, gritar palavras de ordem, nos posicionar enfim!

Dou meu total apoio, apoio, aliás, incondicional! Mas, eu não tenho mais idade para isso, nem mais sonhos, tenho dívidas.

Mas aqui estou, na rua, sob chuva, outra vez, fazendo a minha parte, vendendo máscara contra gás lacrimogêneo, guarda-chuvas e fogos de artifício. Mas também tiro fotos desses caras-pintadas, emolduro, e se necessário, por um precinho módico, faço curativos.

É o sistema, digo, mercado, é o mercado e eu preciso viver, cansei dos sonhos e minha família precisa de arroz com feijão.

Vai uma máscara aí?




*Mas que o Magrão sabe quem é.


2013/06/21

NAS NOSSAS RUAS





O medo grassa

Cada esquina um perigo

A cada grito, brado, ordem

Um cai

Uma bandeira

Uma ideia

Uma bomba

A massa vai em frente

A massa segue um líder

A massa é a ameaça

Sim queremos

Queremos o certo

Queremos o justo

Queremos a nossa parte

Outros querem tudo

Os tiros cortam o ar

Cortam a carne

Choramos de orgulho

De medo

Do gás lacrimogêneo

Muitos gritam viva

Uns poucos gritam morte

A massa segue com suas bandeiras

De cores tantas

Com as bandeiras de outros

De ideias e ideais tantos

Sem saber para onde vão

Mas vão sorrindo

Cantando

Repetindo palavras de ordem

Segue em que direção?

A massa?

Amassa a massa







2013/06/18

SOMENTE UM CIGARRO ME BASTA AGORA



PEQUENO DRAMA-RELÂMPAGO





Luz sobre um homem que fala.
Não se vê mais ninguém, ouve-se somente a sua voz.



- Nada, nada a declarar! – só isso tenho a dizer a cada um de vocês. Não me sinto com obrigação de falar nem uma única palavra sequer! Sim, dei o tiro, mas poderia ter sido uma facada, uma paulada, uma pedrada, uma garrafada como nos filmes de ação. Mas resolvi que deveria dar m fim naquela situação um simples e rápido tiro.

“Pum! Fração de segundo depois o corpo no chão. A mancha vermelha no chão. Minha arma ainda fumegante também no chão, e no chão deixei as marcas de meus sapato que seguiram vermelhos pela sala, para a saída do apartamento.

Não pensei em correr, em fugir, em me esconder. Era patente o meu desejo, a minha ânsia, só não viu quem não quis, quem não quis se envolver, tomar partido, meter a colher.

Aqui estou dando meu depoimento. Perguntem e responderei, sequer alegarei ser réu-primário, um cigarro nesse momento me basta.

Não, não sinto qualquer tipo de arrependimento, nem culpa, nem frio, nem nada, somente a vontade de fumar um cigarro.

Cumpra-se a Lei, sigamos a Ordem, façam a Justiça. Eu já fiz a minha. Estou em paz. E vocês?

Poupem-se de me perguntarem por que fiz o que fiz, não sou louco, logo motivos tive, e ouso dizer, tive-os muitos!

Não os enumerarei, não me justificarei, cumpram o rito e condenem-me logo. Não quero ir ao velório, nem ao funeral, por mim que joguem o corpo aos abutres ou deem de pasto às chamas.

Um cigarro, por favor”.




Silêncio.

Cai o pano

2013/06/01

DOIDINHO -

A PAZ

A paz reina no lar, a família sorri, respira aliviada, a harmonia domina o ambiente. Se não fosse já noite alta, os pássaros estariam cantando, as flores estariam abertas emanando seus perfumes e um arco-íris enfeitaria o céu...
Dona Dedé deixa seu tricozinho de lado, senta-se à mesa com os sobrinhos; jantam, bebem vinho, tomam um licor e cochicham bem baixinho. Não seria bom facilitar com o azar...
Juntos desfrutam de tudo que um verdadeiro lar pode oferecer a uma família.
Sim, a felicidade está no ar.
Mas cuidado, qualquer barulho pode acordar o Doidinho!

- Shhhhhhhhhhhhhhhhh!!!