2017/10/06

AQUELA SEMANA SINISTRA


(Revisada e ampliada)


Dia primeiro

Uma segunda-feira clara, fresca e azul de andorinhas e sanhaços, sabiás cantando e anjos voando, ela entrou na sala. Ai, nesse momento as cortinas deveriam ter descido e acabado o espetáculo. Todos lhe deram boas-vindas, beijinhos no rosto, tapinhas nas costas - tudo falsidade, tudo falsidade, eu sei, eu sinto, eu vejo, eu sinto o cheiro – mostraram-lhe a sua mesa, o serviço que faria, onde ficava o café - mas lógico que tudo isso seria para amanhã, pois hoje seria só festa. Faltaram os confetes e as serpentinas (que eu tinha em estoque na minha gaveta). Ela nem olhou para mim – sequer através de mim! - pois eu estava no canto da sala, canto direito onde batia o sol da manhã e o da tarde - as duas janelas sem persianas, o que explica o meu eterno bronzeado de janeiro a dezembro. Ignorado como estava, e sempre estive – e possivelmente sempre estarei - deixei que meu coração disparasse a bater, batia um tum-tum-tum louco e desenfreado, não fossem os colegas de sala tão ignorantes teriam a impressão de estarem a ouvir os acordes finais da Abertura 1812, onde sinos badalam e os canhões disparam e comemoram a vitória do exército russo sobre o exército de Napoleão Bonaparte... Mas guardei para mim toda essa impressão e segui batendo meus carimbos, escrevendo meus memorandos, minhas cartas, recortando trechos aleatórios do D.O.E. Mantive a minha eterna fleuma britânica – Deus salve a Rainha!, mas foi nesse dia que me apaixonei perdidamente por ela. Foi ai que começou meu inferno interior...

Segundo dia.

Cheguei mais cedo, tinha que ter certeza que a faxineira iria limpar bem a mesa dela, queria um serviço impecável, trouxe de casa um desinfetante importado, perfumadíssimo, o Chanel Nº 5 dos desinfetantes. Isso lhe causaria uma boa impressão da repartição.  Fechei as janelas, impedi assim que o mau cheiro da rua maculasse o ambiente. Liguei meu rádio, uma música suave preencheu todos os cantos da sala, quem resiste a um Frank (ah! aqueles olhos azuis!) Sinatra cantando FLY ME TO THE MOON? Ah!, mas o melhor, o melhor mesmo, o fantástico, o fabuloso, o incrível, o kafkiano em último grau, eu deixei para quando ela viesse me cumprimentar aqui no meu cantinho ensolarado. Às oito e trinta cinco – segundo dia e já se deixando levar pelo mau-exemplo dessas víboras da sala, pobre alma inocente! – ela chegou atrasada e sorridente distribuindo bons-dias e tudo-bens a todos, mas no caminho em direção ao meu cantinho ensolarado ela foi pega pelo braço pela rainha das víboras – a substituta da subchefe - e levada à copa. Volta uma hora e quinze minutos depois, sentando-se em sua mesa somente para ligar o computador e entrar no facebook. Fiquei entre chateado com sua indiferença por mim e triste pela surpresa que eu iria fazer-lhe, aliás, mais preocupado com o bem estar da surpresa em si. Mas aguardei tomando o sol que já me pegava pelas duas janelas de canto. Levantei-me para ir ao banheiro, era hora de renovar o protetor solar e falsamente, displicente passei pela mesa dela e dei-lhe o meu mais falsamente seco e indiferente “bom dia”. Mas acho que interpretei tão bem que ela me ignorou. Alguma coisa em mim sempre me dizia que eu estava me perdendo no serviço público. Agora ela deve achar que sou antipático, um arrogante, uma besta ou quem sabe, deve achar que sou pior que aquele Déspota do RH, aquele monstro insensível! Esses pensamentos me acompanharam ao banheiro e diante do espelho vi lágrimas em meus olhos, deve se a poeira, ou o cheiro do granel podre nas linhas dos trens, só poderia ser... Apliquei o creme protetor fator 200 que espalhei pelo rosto e principalmente no pescoço que pegaria agora todo sol forte da manhã. Suspirei, lavei as mãos e voltei para o meu cantinho no fundo da minha sala. Abro a porta e sinto-me violentado. O que ouvem meus ouvidos? Onde antes se ouvia Frank Sinatra, agora tocavam pagode, pagode, pagode! Pobrezinha, pensei, que má-impressão terá de nós. Como me preocupava com ela... Respirei fundo outra vez e fingindo indiferença entrei na sala, passei por sua mesa e perguntei irônico se estava gostando da “música” – (acho que consegui fazê-la ver as aspas) – e batucando com um lápis no copinho de café, respondeu-me que sim. Baixei minha cabeça, sentei-me à mesa e me afundei no trabalho até a hora do almoço. Não voltei à tarde, abonei.

Terceiro dia.

Entrei na repartição com renovadas esperanças e um jornal debaixo do braço.. Mas eu era mesmo um estúpido! A pobrezinha estava tentando enturmar-se, como poderia ela, recém-chegada dizer àquelas víboras que gostava de boa música, que Frank Sinatra tocava fundo o seu coração? Sim ela teve que fingir (e a que preço?) que gostava de pagode. Acho agora, em retrospectiva, que ela estava batucando no copinho até bem descompassada... Paguei à faxineira para usar mais daquele meu desinfetante especial importado na sala. Anonimamente mandei entregar-lhes rosas, vermelho-sangue, vermelho-paixão, vermelho quase negro. Isso deveria causar-lhe uma muito boa impressão e despertar-lhe a curiosidade de querer saber quem enviara tais flores... As oito e cinquenta cinco ela chegou - mais tarde ainda. Ah! a má-influência, ah! a má-influência... Jogou a bolsa sobre a mesa e foi à copa. Quando voltou, rindo muito e ajeitando os cabelos já passava das dez horas e enquanto ela entrava na sala eu saia para ir ao banheiro passar o protetor solar - em fevereiro aquelas janelas são um inferno – quando voltei as flores já haviam sido entregues, e as víboras ciciavam. Perguntavam histéricas quem era o admirador secreto, que a ela declinasse logo o nome do pretendente. Não fizesse “mistério” Nada de segredo entre elas, que contasse logo e contasse tudo. Percebi que ela sorria um sorriso de mistério, de cumplicidade, será que ela sabia que eu era o remetente? Não, ela não sabia que eu existia. Meu coração queria saltar do peito, ele ia arrebentar os ossos de meu externo, ele queria pular da janela, jogar-se sob o primeiro trem que buzinasse nos trilhos, batia tão forte que doía, doía uma dor horrível Passei como que invisível por todas elas. Desforrei minha frustração sobre o D.O.E.  Fiz dele um saco de confetes. Telefonei ao déspota do RH e o chamei para fumar- sou fumante passivo/agressivo – e subi ao quinto andar, de lá eu jogaria minhas frustrações em forma de minúsculos fragmentos de papel... Quando volto à minha sala, ao passar pelas mesas das víboras escuto comentários sobre o mau-cheiro do meu cigarro e que é uma vergonha alguém ainda fumar nos dias de hoje. Ela olhou-me num misto de pena e nojo. Demorou muito a dar a hora do almoço. Coloquei meus fones de ouvido e me entreguei ao Frank Sinatra. Almocei e não voltei outra vez. No dia seguinte era só assinar o ponto, pois eu era realmente invisível naquela repartição.

Quarto dia.

Cheguei vinte para as oito. Adiantei-me para encontrar o déspota do RH na rua e fumar passivamente um cigarro, estava tenso demais. Logrei encontrá-lo e desfrutei do seu fumo. Antes de entrar na minha sala pedi à faxineira que me devolvesse o desinfetante especial importado - minha mãe dera pela falta! Que ela usasse o que o Estado compra e já estava muito bom! Sentei-me à minha mesa, abri o D.O.E. e com o estilete pus-me a cortar qualquer coisa com mais de dez linhas, o resto picotei com minha mãos, rasguei, piquei, eviscerei o periódico e com as mão sujas de tinta comecei a rir e jogar tudo para cima. Parei quando a faxineira entrou na sala. Dei a ela dez reais e pedi-lhe que fosse discreta e limpasse tudo direitinho. Telefonei ao tirano do RH e fomos ao quinto andar fumar. Essa situação estava me fazendo fumar demais, daí para começar a beber era questão de tempo, de bem pouco tempo. Fumei e me acalmei. Arrependo-me do apelido que dei ao déspota do RH! Tudo por causa desses meus nervos! Mas acho que ele não liga muito para isso, sorte minha! Antes de voltar à minha sala fui ao banheiro passar o protetor solar, fevereiro parece que não vai acabar nunca! Nove horas, nove horas ela chegou, e ainda assim antes das outras víboras, deu-me um bom dia e vendo-se sozinha na sala, dignou-se a vir conhecer meu cafofo, digo, minha mesa. Sorri com muita polidez, embora por dentro estivesse pulando, gritando agitando a bandeira do São Paulo Futebol Clube, soltando fogos e chorando de emoção. Ela chegou-se a mim e perguntou se alguém havia telefonado e avisado que chegaria tarde hoje. Suspirei e – para não despertar nela nenhum sentimento de misericórdia por mim, omiti o fato de que ninguém me liga, nunca - e respondi-lhe que não, que ninguém me ligou, e expliquei-lhe a contragosto que esse era o funcionamento normal da repartição, ninguém chegava na hora aqui. Ela riu e comentou que “se esforçava muito para cumprir horário, e já que o negócio funcionava assim...” Não entendi a reticência, mas sabia que dali não viria nada que prestasse. Senti ganas de ligar ao  RH, mas pensei comigo mesmo, que se não conseguiria um dia deixar de fumar de vez, que ao menos me controlasse um pouco. Fui à rua comprar um jornal para rasgar, tinham atrasado a entrega do D.O.E. O resto do dia passei com o Frank Sinatra, Tony Bennet, evitei a Bilie - por medida de segurança -, só levantei da mesa para ir ao banheiro passar protetor solar no rosto e no pescoço. Assoviando baixinho esperei pelo fim do mundo ou do dia, o que viesse primeiro.

Quinto dia.

Sexta-feira. Metade das víboras não veio pela manhã e seguindo o padrão, a outra metade desaparecerá à tarde. Hoje descubro o caráter dela! Dez e vinte e cinco ela chegou! Mal me cumprimentou com um bom dia ligeiro e superficial, pegou o telefone e pediu café da manhã no bar em frente – isso é sinal de noite ruim e dia pior, reconheço esses sinais de longe - e foi ao banheiro maquiar-se, e essa foi a primeira e única vez que vi a de cara limpa. Para mim ainda era linda, mesmo sendo invisível a ela, ela ainda era linda para mim, emocionado e trêmulo com essa epifania liguei para o RH:

– Estou subindo! – e fui para o quinto andar.

Na volta, a caminho de minha sala no corredor, escutei choro vindo da copa, era ela, não poderia ser coisa boa e certamente ela não chorava por mim... Intui que passaria o dia sozinho na sala entre Frank Sinatra e telefones tocando sem parar. O vigia da manhã me trouxe a pilha de D.O.E.s de ontem – o passado não me dá folga. Agora minha sanha homicida será saciada, procuro pela minha tesoura – onde ela está? - não quero cortar papeis com estilete, quando estou com ele na mão sinto que não respondo por mim, preciso da tesoura, e quando abro a terceira gaveta para pegá-la saem de lá as esquecidas e ainda vivas borboletas azuis, a minha surpresa kafkiana para ela que até eu mesmo tinha esquecido. Elas começaram a voar atarantadas pela sala tentando sair pelas janelas fechadas e prestes a serem trucidadas pelos ventiladores, e então os telefones começaram a tocar, os trens começaram a apitar e os caminhões a buzinar para os mesmos trens saírem de sua frente, e a faxineira que tinha entrado na sala para me devolver o desinfetante importado, começou a gritar assustada com as borboletas. Ela era leptidopterofoba era só o que me faltava. Nesse momento, numa lucidez que há muito não vivenciava telefonei ao impiedoso do RH:

– Tô subindo!

Lá em cima entre uma tragada e outra segredei-lhe:


- Cara, o amor não presta! Acho que vou entrar com meu pedido de licença-prêmio ainda hoje...




2017/09/29

O QUE EU DISSE QUANDO CHEGOU MINHA VEZ DE PRONUNCIAR-ME


Depois de ouvir por horas dos cinco irmãos e cinco cunhados as mais lagrimosas desculpas, razões, motivos, “porque sins”, “porque nãos”, gritos, acusações, ofensas, ameaças, ranger de dentes, o mais velho dos filhos disse que agora era a minha vez [1]de expor minha opinião sobre o que fazer com os velhos. E quem me conhece, sabe que essa sempre foi “a minha praia...” O que faltou em apupos sobrou em silêncio e aversão por mim, mas sigamos.

Levantei-me dramaticamente devagar, aliás, os presentes não esperariam outra coisa de mim. Apoiei minhas mãos no tampo da mesa, olhei nos olhos de cada um à minha volta, pigarreei, tomei um gole de água, que bebi lentamente (quase gargarejando) e ao pousar o copo – coisa de segundos - bati fortemente com o punho na mesa fazendo, agora, por vontade própria, uma cena realmente dramática.

Pularam de suas poltronas, arregalaram os olhos, uns mais sensíveis (culpados talvez?) perderam o fôlego e os principais interessados demonstraram medo, medo de verdade. Alegrei-me, pois como podem ver, comecei bem.

- Vocês querem a minha opinião, pois aqui vai ela. Sou francamente a favor da internação imediata dos dois. Olhei para o velho casal, eles tiveram um calafrio, discreto, mas eu percebi.

– Vocês! – disse apontando o dedo indicador de forma dramática (detesto quando percebo que, contra minha vontade, agrado determinadas plateias), deveriam ser internados numa clínica imediatamente, para posteriormente serem transferidos para uma casa de repouso. Uma vez lá, deverão ficar em quartos separados em alas separadas, nunca mais se encontrando, nem em corredores ou jardins – quando forem levados para tomarem sol – nem durante as refeições. Deverão permanecer assim até que se esqueçam um do outro. Mas – lá vou eu ser dramático outra vez! – não pensem que faço isso por maldade. Não! – devo confessar que não fui muito convincente, mas os olhos marejados dos velhos já me bastavam no momento – Digo isso para o bem de vocês dois. Lá, os velhos – pronunciei os “velhos” olhando para os filhos, ignorando totalmente os interessados como se eles não estivessem mais lá – terão atendimento médico, enfermeiras treinadas, visitas de católicas piedosas, apoio psicológico e principalmente, nenhum motivos para se queixarem de nada! Juro que nesse momento senti a primeira praga da velha nas minhas costas.

- Mais ainda. Vocês terão pessoas para conversarem, para desaguarem esse mar de fel que os corrói por dentro.
Para a Dona Celinha vai ser como aquelas férias que ela sempre quis e o velho lhe negou. Lá terá casa, comida, roupa lavada e gente para conversar à vontade, não terá que pôr e tirar mesa, lavar louça, eles cuidarão de lembrá-los dos horários dos remédios, e quem sabe, visita dos filhos e netos saudosos (tá certo peguei pesado aqui) aos domingos...

Fiz uma pausa para mais um gole de água que bebi o mais lentamente possível. Na verdade essa pausa era uma provocação, sabia que a qualquer momento um dos filhos ou filhas pulariam em meu pescoço. Os importunava sim, mas é importante que os nobres leitores tenham em mente que eu nunca quis participar dessa reunião, mas o filho mais velho usou argumentos tão convincentes[2] que não o houve como eu recusar[3] e acabei vindo aqui. Sinto que vim não como mais um genro, mas como um artista que dá show em conferências e palestras, só para distrair os presentes, sem influenciar em qualquer resultado – e cá estava eu fazendo o que faço melhor, drama e palhaçada! Sorvido o último gole de água, voltei à carga.

- Agora vejam bem – apontei com esse dedo indicador que ainda haverá de ser item de colecionador no futuro - para o velho.

- Seu Bentinho, o senhor poderá se ver livre das tiranias da Dona Celinha, nunca mais comerá a gororoba ora insossa, ora salgada que ela lhe serve, poderá ler seu jornalzinho – esse momento foi meu ponto alto, por dentro, chorei por não estar sendo filmado – pois juro diante dos presentes que faço-lhe, de todo o coração, uma assinatura do Diário Oficial da União para que o senhor tenha o que ler pelo restos de seus dias. Pense nas enfermeiras que o atenderão, todas bonitonas, de uniformes brancos e justos, todas elas sempre sorrindo, sei que a princípio o senhor estranhará esse hábito das pessoas mostrarem-lhe os dentes todas as vezes que lhe virem, mas creia em mim, todas as pessoas, fora os dessa casa, fazem isso corriqueiramente. Logo o senhor se acostumará com isso. Imagine acordar e ver um dia claro, luminoso e, não se assuste, pois aquela grande bola de fogo no céu é o sol. Não me olhe assim tão espantado – não verdade ele estava era ficando apopléctico –.  E ao ser levado aos jardins pelas enfermeiras o senhor sentirá como é bom tomar solzinho da manhã. E logo irá sentir-se tão bem que perceberá como foi estúpido economizar tanto dinheiro por tanto tempo, que num átimo, pulará de sua cadeira de rodas – impagável a cara dele com os olhos quase soltando das órbitas – e saíra andando, andando não senhor, correndo...

Olhei para os lados enquanto o filho mais velho dava um calmante para o pai, e olhando para a velha vislumbrei satisfeito, que ela, com ódio desse escriba, tinha trincado o cabo da bengala.
Olhei para meu relógio e conferi as horas com o velho cuco na parede, dei a entender que tinha que ir embora e voltei ao pequeno e improvisado discurso.

- Não quero, e faço questão de deixar isso bem claro para os presentes, que não desejo nenhum mal aos seus pais, mas somente o melhor para eles agora que o fim se apresenta cada vez mais próximo e em cada esquina – “o fim se apresenta cada vez mais próximo e em cada esquina” -. Meu Deus, que momento de rara inspiração! – Tive vontade de dar tapinhas em minhas costas...

Os filhos olharam-se entre si, os velhos – pela primeira vez em muitos e muitos anos – fitaram-se nos olhos e procuraram por Deus naquela sala, mas posso afirmar-lhes, Deus não estava lá! E tremendo em suas bases perceberam que todas as suas maldades, suas maquinações e manipulações tinham cobrado um preço, muito alto, e EU estava lá cobrando...

- Quero, como já frisei anteriormente, unicamente o bem deles, um bem que jamais poderá ser encontrado aqui nessa casa, pois nenhum de vocês tem qualquer tipo de treinamento médico, com exceção é claro do Fred - marido da filha mais velha, veterinário com licença cassada –, então pelos motivos fartamente citados e expostos, voto por mandá-los imediatamente à uma casa de repouso, e nesse momento tiro de minha pasta 007 setenta e dois folhetos de clínicas de repouso e asilos,  sendo que sessenta e nove estão localizados em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Acre. De olhos marejados, jurei que era a melhor, bastava pesquisar na internet, outros em Maranhão, Rio Grande do Norte e dois ou três nas Guianas[4].

- Para terminar tão longa e cansativa peroração, quero ratificar os meus melhores votos ao Seu Betinho e Dona Celinha, e desejo do fundo de meu (raso) coração todo o bem e toda a felicidade a vocês e que seja feita somente a vontade do Bom Deus! Então abaixei minha cabeça em uma muda oração que confrangeria o coração de qualquer um com um mínimo de fé na humanidade.

Terminando de falar esperei que alguém entusiasmado deixasse de lado certas antipatias por mim e aplaudisse meu discurso, mas que nada, somente o silêncio temperado por um enorme e amargo desprezo me acompanhou até fora da sala. Saí sem que o filho mais velho me pagasse a velha dívida prometida. Mas, uma vez na rua, praguejei sacudindo meus punhos para o céu: - Espero que todos vocês morram quinze minutos depois de encontrarem a felicidade![5]

Esperei que um raio seguido de um estrondo cortasse o céu como se fosse uma confirmação do registro da minha praga, mas...






[1] O sexto cunhado.
[2] Ele me devia dinheiro. Estava, secretamente, quebrado, pois perdeu tudo o que tinha em jogos e corridas de cavalos.
[3] Eu precisava daquele dinheiro!
[4] Omiti a que havia em Maceió, muito sol e praia, que nunca desfrutariam.
[5] Vide a cena em que Scarlett O’Hara jura nunca mais sentir fome em  “...E O Vento Levou”

2017/08/29

RASTEJE HUMANIDADE, RASTEJE!



dois idiotas discutem
sobre os males
do cigarro enquanto
abanando-se  tossem & choram
encobertos pela fumaça (preta)
do óleo diesel dos caminhões
- e os pombos – há esses cínicos! –
se atracam no chão por uns
míseros  grãos




2017/08/11

CARTA ONDE ENSAIA UMA DESPEDIDA DESSE NOSSO MUNDO





Caríssimo, afasto-me.

Tomei enfim a definitiva e final decisão. Carrego minhas malas, baús, embornais e duas ou três sacolinhas com pão de queijo e mandioca. Vou-me afinal. Sopesei muito, pesei, medi bem e às favas com as consequências. Cansei-me, enfadei-me, enjoei mesmo de tudo nessa vila e arredores.

Sou um homem velho, sou caçador de feras e outras maravilhas. Não sou homem de arrumar encrenca, brigas, desaforos e desafetos!

Ah! Bom amigo tenho passado por poucas e boas ultimamente. Essa velha pensão cada dia mais mal assombrada/frequentada. Meus nervos já não são mais os mesmos, eu já não sou mais o mesmo, que o digam os meus espelhos... Mal penteio os cabelos, já não faço mais a barba, branca, que já me chega ao peito...

Sai da pensão de madrugada, feito um ladrão, aliás, como costumo sair de todos os lugares onde já morei. Saio como fugido. Mas sossegue, a senhoria há de encontrar meu aluguel num envelopinho sob a sua porta pela manhã ao despertar. Sou estranho, mas ainda continuo honesto como meu velho pai. Lembrei-me dele dia desses, depois lhe conto.

Ao sair da velha pensão recomendei que os anjos continuassem por lá por mais uns dias e que me mantenham informado de tudo que por lá se passe e dos que  passem por lá também.

Ando impressionável.  Ouço vozes, vejo vultos, imagino complôs, intuo traições, nada de bom passa por esse velho e calvo crânio.

Por isso se você ficar muito tempo sem notícias minhas tente não se preocupar. Vou afastar-me de tudo e de todos. Descobri um jeito de escapar dessa realidade de três dimensões...
(abro esse parêntese para que você velho amigo possa recuperar o folego).

Espero que junto com o folego tenha ao seu lado sua velha xícara de café, lembrança da sempre saudosa Dona Maria Amália.

Pois é, depois de muito estudo, muita pesquisa, queimar muita pestana em velhas bibliotecas e antigos alfarrábios, descobri como sair disso aqui (estenda bem seus braços e olhe para o horizonte, respire bem fundo, e entenda o que significa o “tudo isso aqui!”).

Percebi, enfim, que vivi num mundo de ilusões, fantasias, pesadelos, quimeras e miragens... – imagino-o balançando a cabeça e pensando que o absinto acabou comigo – mas engana-se, só a sobriedade me enlouquece.

Despeço-me aqui. Logo hei de dar-lhe noticias, quer por escrito, quer em seus sonhos – mas tome cuidado com os súcubos, muito cuidado!!

Até mais Velho Homem.

P.S. Duvido que do “outro lado” eu possa enviar-lhe alguma lembrança ou peças para sua coleção de maravilhas.



2017/08/03

TENDÊNCIAS...




Prezado, bom dia.

Responda-me, urgentemente (atente à quantidade de selos que lhe envio para pronta resposta), para onde esse nosso montinho de barro e água salgada está indo?

Ontem ao andar sem rumo pelas ruas fui acometido por uma vontade imperativa de tomar um café. Sabe o velho amigo que depois (ok, bemmmm depois mesmo) do absinto, o café é a minha segunda fraqueza.

Pois me pus a procurar uma cafeteria para saciar tão premente necessidade quando, de chofre, surgiu à minha frente uma velha construção de madeira, na verdade uma serraria, das antigas. Lá, à mostra, exposta ao sol uma placa com os seguintes dizeres: “CAFETERIA”!

Peço desculpas se o levei, sem querer é claro, a uma promessa de clímax! Entrei, atravessei o umbral daquele que, parecia-me, prometer uma revelação sobre a arte de tomar café.

O chão era coberto de serragem, o espaço entre os caibros que formavam a armação do telhado, sem forro, era preenchido por anos e anos de teias de aranhas, brrrrr, que por sua vez estavam com outras tantas eras de pó de serragem...

Imagine meu mal estar.

O interior era decorado por máquinas, antigas todas. Serras, plainas e muitas mesas feitas com restos de madeiras, os garçons vestiam-se com velhos aventais dos empregados da velha casa, e, dado curioso, todos eles tinham uma coisa em comum: Em cada um faltava ou um dedo ou faltava um pedaço de um dedo...

Encostei-me na primeira mesa que vi.

Ela era manca!

Não havia cadeiras.

Aguardei que me atendessem.

Esquecia-me de descrever a iluminação da cafeteria. A luz que vinha era de pequenas telhas de vidro no teto. Luz parca era “filtrada” pela poeira e teias de aranha. Agradeci ao Criador que lá não houvesse pombos. Como sabe sou grato por qualquer coisa, sempre. Após tirar do bolso de meu paletó um exemplar do Diário Oficial da União para calçar a perna da mesa, um garçom por fim apareceu.

Faltava-lhe a metade do dedo indicador!

Velho Barista, aquilo que me foi servido era qualquer coisa, menos o “divino líquido”. Naquele momento agradeci (veja, sempre agradecendo, sempre) o chão coberto de serragem, e de pronto cuspi aquele veneno marrom!

Amigo Velho esse negócio de tendências já está enveredando pela pantanosa senda do ridículo.

Imagine que tive que pagar pela beberagem e por trezentos e cinquenta gramas de serragem que “estraguei” com a minha cuspida! Sai de lá furibundo e ao chegar à rua - fiquei ofuscado por uns segundos, o sol lá fora estava fortíssimo - um pombo...

Prezado, só o absinto me remite, só com ele saio desse mundo e adentro a os outros universos, outras dimensões.

São essas frustrações me levaram a tornar-me um caçador!

P.S. Comprei uma espingarda de chumbinho. Prevejo uma carnificina de columbinos, um genocídio dessas pragas.

P.S². Envio-lhe umas penas na próxima missiva.


FALHA TÉCNICA


preparado para o frio
agasalhos à mão
a previsão falhou


2017/07/26

RÁPIDO!


em breve
em curto prazo...
ué?! tudo acabou?

ANTI-PEDRO

quantas vezes cante o galo
em nenhuma sinto medo
ou remorsos – regozijo


QUASE ZEN, QUASE


     um carcará no céu
pombos em minha janela
o telefone toca sem parar

JANTAR

o hashi sobre
o prato vazio
fome? saciada

CAIS


caminhões e trens
fumaça e ruído
pombos e seus grãos


...E TOCA O DESPERTADOR


do silênci’onírico
ao caótico despertar
para a realidade


2017/07/24

PARANAPIACABA


na serra a névoa
densa, na grama,
o galinho vermelho

nos bares
sorveterias lá
reina o cambuci

da cidade alta
à cidade baixa
a névoa cobre a ponte

os trilhos de ferro
a história enferrujada
a decadência reina

cenário terrível
um doce pavor
já passa das duas.

um big-bem de fantasma
gente nas névoas
cidade doutros tempos

o trem já não passa
passa o tempo de devagar
e devagar rói tudo

sem sol
sem lua
sempre a névoa

APÓS O PASSEIO


sim companheiro minh’alma é
jovem ainda mas meus ossos ...
depois de ontem tudo me dói hoje


2017/07/17

BOBAGENS - GEOPOLÍTICA & TURISMO DO ONDESSESTÃO




Ondessestão – encravado em algum lugar da Ásia menor, mas bem menor mesmo, Capital – “Hmigrandoh” Principal produto de exportação: mão de obra barata.

População: 7:53 às seis horas da manhã de hoje. Até o fechamento dessa edição atualizaremos esses números.

Moeda; Tapah. 200 mil tapahs compram 1,99 real. (câmbio de 2010)

Curiosidades:

1. No Ondessestão por imposição imperial, o dia tem somente 15 horas, pois o soberano local o Marajá Abdul Ulla Vuga Amabibih Lexothanib Uvanish Uba Tuga Vulla Inaka, vulgo “Seu Nenê”, acha que vinte e quatro é muito tempo para um país tão pequeno. E que mais horas no dia só o deixariam mais cansado. A população não se rebela contra isso, pois acham que um dia com mais horas se serviria para o Imperador ser mais déspota ainda (embora ninguém  admita ou mesmo cogite em dizer isso!).  Assim sendo Ondessestão é uma nação satisfeita e pacífica, pois todos concordam com seu sábio Imperador.

2. Ainda por imposição imperial, nenhum habitante do Ondessestão pode abandonar o território nacional sem deixar pelo menos três filhos ou cinco sobrinhos – excluem-se afilhados – em idade reprodutiva, para que possam manter um número mínimo de habitantes no país. E àquele que oferece um cunhado e condenado à morte por lapidação.

3. Lá, nada é mais bonito que o por do sol, razão pela qual os habitantes do país constroem suas casas com janelas e portas viradas somente para o ocidente. Se paga ao imperador 150 tapahs para admirar o sol poente. Sem desconto em dias nublados ou chuvosos. Reclamações ou pedido de abatimento nos impostos e passível de lapidação.

4. Em Odessestão, país de tradição patriarcal, a população ainda cultiva o hábito de comunicarem-se através de pombos-correios, dispensando-se assim o uso de telefones, internet e telégrafos (por conta da regulação do CO² é proibido o uso de sinais de fumaça), ou qualquer outro método de comunicação digital. E, veja como roda o mundo, o Grupo Terrorista-Separatista-Ultra Nacionalista os “Filhos do Grande Tigre Branco”, usam gatos selvagens treinados (a humanidade é contraditória em todo lugar) para caçar os pombos, o que dificulta terrivelmente a comunicação em toda o região...

5. O imperador tem direito a possuir 696 esposas, e por imposição imperial, ele pode ainda, vender as sogras como mão-de-obra escrava para os países vizinhos. Mas o Mercado anda em baixa, em virtude de as ditas sogras serem postas à venda já muito velhas e mutiladas, o que as tornam pouco produtivas e/ou atraentes.  Há trinta anos o Congresso de Ondessestão – todos da situação! - está tentando criar coragem de notificar isso ao Imperador. Nutre-se esperança que o façam antes do fim da década.

6. Não visite o Ondessestão entre 01 de janeiro às 23:56h e 01 de novembro às 23:58h, este é o período sagrado em que todos os habitantes se voltam para o oriente e rezam em homenagem ao galo azul das colinas daquele país. Há algumas matérias publicadas sobre essa cerimônia na Revista National Geografic que descreve com uma verdadeira carnificina o ritual de despenhamento do pobre animal, o que os levará a extinção em uma geração. Mas por conta dessa reportagem esse número só encontrado em alguns sebos, pois é proibida a veiculação matérias, quaisquer que sejam sobre manifestações culturais, sociais e ou políticas sobre Ondessestão dentro e fora de Ondessestão. Nação fechada ao Oriente, Ocidente, Norte, Sul e qualquer outro ponto da Galáxia. A quem diga que o imperador já convocou uma reunião ecumênica para proibir Deus Todo Poderoso de olhar para Ondessestão sem a prévia aprovação do Imperador.

7. Pratos típicos – não há, mas você pode pedir alguma coisa pra comer no país vizinho. Bastando para isso ter a sorte de um telefone que funcione nas redondezas. Vide quarto item.

8. Música típica – todas as músicas cerimoniais de casamento, outras são proibidas. Assim como são proibida a gravação, reprodução e/ou mesmo assovio na rua. Pena: Lapidação, desmembramento, salgamento dos membros e pagamento de altos tributos, taxas e impostos.

9. Se você caro viajante intrépido e irresponsável decidir ir ao Ondessestão, faça por sua conta e risco, e importante lembrar: lá é vedado aos visitantes chorar sob pena de lapidação.

Em tempo, Ondessestão anda arrecadando muito com venda de pedras para lapidação.


Correndo o risco de perdermos leitores segue aqui uma infamidade para fechar a matéria: “Em Ondessestão, que atire a pedra primeira pedra aquele que...!








Texto com a colaboração do Sr. Alexandre Costa

DIA DE FESTA E DE ROJÕES



Caríssimo.

Ontem, domingo fui fazer meu passeio na praça, esticar as pernas, tomar um ar fresco, ver passarinhos, pisar na grama verde e tomar um sol.

Não sabia que haveria uma comemoração qualquer por lá. Essa minha vida peregrina, não me deixar guardar datas festivas, dias nacionais, estaduais e municipais... Havia barracas brancas espalhadas pela praça e arredores. A Matriz dava badaladas e mais badaladas, barracas de doce e barracas de tiro ao alvo, onde, modéstia às favas, arrebato o coração das mocinhas, gritos das criancinhas e bufadas de despeito dos marmanjos adonzelados.

O dia estava claro de romper retinas.

Postei-me à sombra de uma árvore e pus-me atentamente a ver a montagem dos fogos de artifícios feitos por uns ciganos de chapéus de abas larguíssimas, vastos bigodes e grandes adagas na cintura. Há muito tempo não vislumbrava essa gente. Por um átimo senti um misto de medo e louca apreensão, que logo passou. Afinal não sou homem de medo, loucuras ou apreensões. Procurei em meu bolso um cigarro.

Soltando fumaça pelas ventas voltei a caminhar. Chateava-me a ideia de esperar até a noite para ver os fogos...

Fui a um bar, tomei um café, comprei uma caixa de fósforos e um maço de cigarros. Ainda no balcão ouvi que os fogos seriam disparados ao meio-dia, pouco faltava para isso. Paguei e fui-me à rua.

De volta na praça lá estavam os ciganos reunidos. Não se ouvia uma palavra proferida por eles. Falavam-se por olhares, grunhidos e posição das mãos nas adagas. Tipos raros e perigosos, pensei.
Meio-dia em ponto.

Os ciganos estendendo as mãos deixavam claro que era para as pessoas se afastarem, e indo em direção a elas com olhares furiosos, elas iam  andando para trás.

Formado um círculo os ciganos dirigiram-se ao pequeno palco para começarem a queima. Caro amigo nunca em minha longa e cansativa vida já me deparei com tamanha maravilha. Nem o mar verde me espantou como esses nômades romani.

O mais velho deles, de calças largas, botas longas que lhe chegavam aos joelhos, olhos negros e fundos, feito duas cavernas, olhos para o público, puxou do bolso um isqueiro e sem mais delongas, sem qualquer outro ato dramático, acendeu o pavio dos morteiros e saiu correndo...

Lembre-se, o dia estava claro, sol a pino e era meio-dia quando o primeiro morteiro subiu aos céus como um foguete e, que espanto!, que maravilha!, coisa extraordinária!, em vez do bummmmmm a que estamos acostumados a ouvir, temer, tapar os ouvidos, o que ele fez foi – como escrever isso? – foi puxar todo o barulho da praça, puxar todas as vozes, todo o alarido para dentro de si e deixar por segundos – longos e que ecoavam dentro de nossas cabeças – um silêncio assustador. E não foi só a falta do barulho da explosão que nos deixou pasmo – veja bem não minto, nem exagero – foi que em vez do clarão, o rojão abria escuridão no céu. Escuridão que nos permitia ver a noite, as estrelas, os planetas. Houve até os que sentiram frio por alguns segundos. O sol sumia dando lugar a uma noite fora de hora, rojões que provocavam eclipses!

Após isso a praça esvaziou-se, as pessoas foram embora para suas casas, calados, ouvia-se o som de passos, quase se ouvia a grama crescer. A festa que deveria ir até a noite finou-se por ai mesmo. Acho que esses ciganos não voltam mais por aqui com esses fogos.

Fui para casa pensando nisso. Quando cheguei abri minha garrafa de absinto e pus-me a matutar sobre o mundo esse mundo...

P.S. Ouvi naquele bar um sujeito comentando sobre uma anta de trezentos quilos com enormes dentes de javali, um belíssimo horror da natureza. Imagino que o bom amigo gostaria de tê-la empalhada em sua sala...

Abraços desse escravo das maravilhas!



2017/06/29

AMARELO


       acácia   
      florida
sombra amarela


POMBOS...


manhã, cedinho
do carro vi
na calçada
meia-dúzia de pombos
todos juntinhos
uns olhando
pro céu
outros
pro chão
-juro,  achei que rezavam:
que o grão nosso
de cada dia
nos caia hoje..”.
mas acho que delirava
de sono
e assim, mesmo
dirigindo, viajava....


2017/06/22

AH!


céu azul
cheiro de café
ah! se fosse feriado...

CARTA ONDE SURGE UM MISTERIOSO TEXTO

  
Bom dia caríssimo seria muito otimismo achar que essa carta chegou pela manhã em sua casa? Está a lê-a à mesa enquanto sorves uma xícara do divino líquido (cada um com seu divino líquido, o seu preto e o meu verde...)?

Brilha o astro-rei?

Sem nuvens no céu?

Cantam os canários e sabiás? Estão por ai estão os meus sanhaços?

Andorinhas voam loucas e desvairadas à volta de sua casa?

Quero crer que sim!

Resolvi, só por hoje, exercitar meu otimismo.

Juro que queria chegar ao fim do dia assim (por via das dúvidas – sou antes de tudo-um homem prevenido – tenho uma garrafa do verde & divino líquido!), mas o Destino (sim, escrito em caixa alta-mesmo) quis outra coisa.

Acordei com o toc-toc pedras sendo atiradas na janela de meu quarto – sim bom amigo, ainda não me mudei dessa pensão que é um ímã para coisas ruins – desci à rua para ver quem era e encontrei somente um envelope pardo com umas folhas dentro.

Levei-as de pronto ao meu quarto para ler enquanto tomava meu break-fest.  Não sei o que pensar. Será o texto um conto policial, uma carta-desabafo, um aviso, ameaça de morte?

Caríssimo, conto com vosso bom julgamento para melhor entender essa confusão em que me meti.

Antes tivesse seguido em frente com a caçada.

Encaminho-lhe uma cópia, no bilhete preso por um clipe somente um pedido de desculpas por envolver-me nessa suja mesquinharia familiar e pedia-me que apos ler tudo poderia queimar os papeis ou, se achar que tinha futuro como cronista, que lhe deixasse o pacote na porta da igreja no próximo domingo, após a missa das oito.

Veja o risco!

Ter que ir a uma igreja outra vez... Temos que os anjos não me sejam mais simpáticos como já foram um dia. Tenho pavor daquelas gárgulas que vomitam água quando chove... Juro que elas tentam cuspir em mim, juro-lhe!

Bem, segue o texto.

Escreva-me a respeito, quero sua opinião. Queimo ou devolvo? Aviso a polícia? Devo envolver-me mais indo nessa esparrela?

Aguardo:


UM CRIME   
           
Hoje sei e afirmo – sem provas infelizmente – mas sei que houve um crime. Um crime dos mais hediondos.
Motivo?
O de sempre, dinheiro.
Matar os pais por dinheiro, por uma herança...
O caso passou despercebido, até hoje ninguém se deu conta dele, eu mesmo levei anos para perceber.
Não fosse meu eterno mau-humor, de viver sendo um  eterno macambúzio, sem falar com quase ninguém, perdido e afundado em elucubrações, esse crime teria sido o crime perfeito. Mas crime perfeito não existe. Ele pode nunca ser descoberto, pode nunca ser feito justiça, mas perfeito? Não, não há e farei de tudo para provar!
Morro tentando (ou serei morto por aqueles canalhas!), se for esse o preço da Justiça! Afinal, graças a eles, nada tenho a perder.
Sou perigoso. Eu penso, eu vejo, observo, eu reconheço os padrões, eu sinto o fedor do mau-caratismo. Eu olho, digo, olhava nos olhos deles, eu via a alma imunda e negra de cada um dele, filhos de Lilith!
Malditos corruptores!
Viverão a eternidade no quaro círculo do inferno! Por esses miseráveis abro mão de minha fé na Apocatástase!
Vampiros!
Miseráveis, corromperam até a minha fé...

Como devo entender isso?

P.S. Enquanto relia a carta abri a garrafa e estou perto de achar que isso é muito mais que um conto. Atente que não há um fim, mas sim uma parada brusca...

Preocupo-me se haverá uma continuação. Se não houver, será porque a dita família o matou? O corromperam afinal todos tem seu preço?


P.S. Estou começando a pegar certa antipatia por reticência!