2017/08/11

CARTA ONDE ENSAIA UMA DESPEDIDA DESSE NOSSO MUNDO





Caríssimo, afasto-me.

Tomei enfim a definitiva e final decisão. Carrego minhas malas, baús, embornais e duas ou três sacolinhas com pão de queijo e mandioca. Vou-me afinal. Sopesei muito, pesei, medi bem e às favas com as consequências. Cansei-me, enfadei-me, enjoei mesmo de tudo nessa vila e arredores.

Sou um homem velho, sou caçador de feras e outras maravilhas. Não sou homem de arrumar encrenca, brigas, desaforos e desafetos!

Ah! Bom amigo tenho passado por poucas e boas ultimamente. Essa velha pensão cada dia mais mal assombrada/frequentada. Meus nervos já não são mais os mesmos, eu já não sou mais o mesmo, que o digam os meus espelhos... Mal penteio os cabelos, já não faço mais a barba, branca, que já me chega ao peito...

Sai da pensão de madrugada, feito um ladrão, aliás, como costumo sair de todos os lugares onde já morei. Saio como fugido. Mas sossegue, a senhoria há de encontrar meu aluguel num envelopinho sob a sua porta pela manhã ao despertar. Sou estranho, mais ainda continuo honesto como meu velho pai. Lembrei-me dele dia desses, depois lhe conto.

Ao sair da velha pensão recomendei que os anjos continuassem por lá por mais uns dias e que me mantenham informado de tudo que por lá se passe e dos que  passem por lá também.

Ando impressionável.  Ouço vozes, vejo vultos, imagino complôs, intuo traições, nada de bom passa por esse velho e calvo crânio.

Por isso se você ficar muito tempo sem notícias minhas tente não se preocupar. Vou afastar-me de tudo e de todos. Descobri um jeito de escapar dessa realidade de três dimensões...
(abro esse parêntese para que você velho amigo possa recuperar o folego).

Espero que junto com o folego tenha ao seu lado sua velha xícara de café, lembrança da sempre saudosa Dona Maria Amália.

Pois é, depois de muito estudo, muita pesquisa, queimar muita pestana em velhas bibliotecas e antigos alfarrábios, descobri como sair disso aqui (estenda bem seus braços e olhe para o horizonte, respire bem fundo, e entenda o que significa o “tudo isso aqui!”).

Percebi, enfim, que vivi num mundo de ilusões, fantasias, pesadelos, quimeras e miragens... – imagino-o balançando a cabeça e pensando que o absinto acabou comigo – mas engana-se, só a sobriedade me enlouquece.

Despeço-me aqui. Logo hei de dar-lhe noticias, quer por escrito, quer em seus sonhos – mas tome cuidado com os súcubos, muito cuidado!!

Até mais Velho Homem.

P.S. Duvido que do “outro lado” eu possa enviar-lhe alguma lembrança ou peças para sua coleção de maravilhas.



2017/08/03

TENDÊNCIAS...




Prezado, bom dia.

Responda-me, urgentemente (atente à quantidade de selos que lhe envio para pronta resposta), para onde esse nosso montinho de barro e água salgada está indo?

Ontem ao andar sem rumo pelas ruas fui acometido por uma vontade imperativa de tomar um café. Sabe o velho amigo que depois (ok, bemmmm depois mesmo) do absinto, o café é a minha segunda fraqueza.

Pois me pus a procurar uma cafeteria para saciar tão premente necessidade quando, de chofre, surgiu à minha frente uma velha construção de madeira, na verdade uma serraria, das antigas. Lá, à mostra, exposta ao sol uma placa com os seguintes dizeres: “CAFETERIA”!

Peço desculpas se o levei, sem querer é claro, a uma promessa de clímax! Entrei, atravessei o umbral daquele que, parecia-me, prometer uma revelação sobre a arte de tomar café.

O chão era coberto de serragem, o espaço entre os caibros que formavam a armação do telhado, sem forro, era preenchido por anos e anos de teias de aranhas, brrrrr, que por sua vez estavam com outras tantas eras de pó de serragem...

Imagine meu mal estar.

O interior era decorado por máquinas, antigas todas. Serras, plainas e muitas mesas feitas com restos de madeiras, os garçons vestiam-se com velhos aventais dos empregados da velha casa, e, dado curioso, todos eles tinham uma coisa em comum: Em cada um faltava ou um dedo ou faltava um pedaço de um dedo...

Encostei-me na primeira mesa que vi.

Ela era manca!

Não havia cadeiras.

Aguardei que me atendessem.

Esquecia-me de descrever a iluminação da cafeteria. A luz que vinha era de pequenas telhas de vidro no teto. Luz parca era “filtrada” pela poeira e teias de aranha. Agradeci ao Criador que lá não houvesse pombos. Como sabe sou grato por qualquer coisa, sempre. Após tirar do bolso de meu paletó um exemplar do Diário Oficial da União para calçar a perna da mesa, um garçom por fim apareceu.

Faltava-lhe a metade do dedo indicador!

Velho Barista, aquilo que me foi servido era qualquer coisa, menos o “divino líquido”. Naquele momento agradeci (veja, sempre agradecendo, sempre) o chão coberto de serragem, e de pronto cuspi aquele veneno marrom!

Amigo Velho esse negócio de tendências já está enveredando pela pantanosa senda do ridículo.

Imagine que tive que pagar pela beberagem e por trezentos e cinquenta gramas de serragem que “estraguei” com a minha cuspida! Sai de lá furibundo e ao chegar à rua - fiquei ofuscado por uns segundos, o sol lá fora estava fortíssimo - um pombo...

Prezado, só o absinto me remite, só com ele saio desse mundo e adentro a os outros universos, outras dimensões.

São essas frustrações me levaram a tornar-me um caçador!

P.S. Comprei uma espingarda de chumbinho. Prevejo uma carnificina de columbinos, um genocídio dessas pragas.

P.S². Envio-lhe umas penas na próxima missiva.


FALHA TÉCNICA


preparado para o frio
agasalhos à mão
a previsão falhou


2017/07/26

RÁPIDO!


em breve
em curto prazo...
ué?! tudo acabou?

ANTI-PEDRO

quantas vezes cante o galo
em nenhuma sinto medo
ou remorsos – regozijo


QUASE ZEN, QUASE


     um carcará no céu
pombos em minha janela
o telefone toca sem parar

JANTAR

o hashi sobre
o prato vazio
fome? saciada

CAIS


caminhões e trens
fumaça e ruído
pombos e seus grãos


...E TOCA O DESPERTADOR


do silênci’onírico
ao caótico despertar
para a realidade


2017/07/24

PARANAPIACABA


na serra a névoa
densa, na grama,
o galinho vermelho

nos bares
sorveterias lá
reina o cambuci

da cidade alta
à cidade baixa
a névoa cobre a ponte

os trilhos de ferro
a história enferrujada
a decadência reina

cenário terrível
um doce pavor
já passa das duas.

um big-bem de fantasma
gente nas névoas
cidade doutros tempos

o trem já não passa
passa o tempo de devagar
e devagar rói tudo

sem sol
sem lua
sempre a névoa

APÓS O PASSEIO


sim companheiro minh’alma é
jovem ainda mas meus ossos ...
depois de ontem tudo me dói hoje


2017/07/17

BOBAGENS - GEOPOLÍTICA & TURISMO DO ONDESSESTÃO




Ondessestão – encravado em algum lugar da Ásia menor, mas bem menor mesmo, Capital – “Hmigrandoh” Principal produto de exportação: mão de obra barata.

População: 7:53 às seis horas da manhã de hoje. Até o fechamento dessa edição atualizaremos esses números.

Moeda; Tapah. 200 mil tapahs compram 1,99 real. (câmbio de 2010)

Curiosidades:

1. No Ondessestão por imposição imperial, o dia tem somente 15 horas, pois o soberano local o Marajá Abdul Ulla Vuga Amabibih Lexothanib Uvanish Uba Tuga Vulla Inaka, vulgo “Seu Nenê”, acha que vinte e quatro é muito tempo para um país tão pequeno. E que mais horas no dia só o deixariam mais cansado. A população não se rebela contra isso, pois acham que um dia com mais horas se serviria para o Imperador ser mais déspota ainda (embora ninguém  admita ou mesmo cogite em dizer isso!).  Assim sendo Ondessestão é uma nação satisfeita e pacífica, pois todos concordam com seu sábio Imperador.

2. Ainda por imposição imperial, nenhum habitante do Ondessestão pode abandonar o território nacional sem deixar pelo menos três filhos ou cinco sobrinhos – excluem-se afilhados – em idade reprodutiva, para que possam manter um número mínimo de habitantes no país. E àquele que oferece um cunhado e condenado à morte por lapidação.

3. Lá, nada é mais bonito que o por do sol, razão pela qual os habitantes do país constroem suas casas com janelas e portas viradas somente para o ocidente. Se paga ao imperador 150 tapahs para admirar o sol poente. Sem desconto em dias nublados ou chuvosos. Reclamações ou pedido de abatimento nos impostos e passível de lapidação.

4. Em Odessestão, país de tradição patriarcal, a população ainda cultiva o hábito de comunicarem-se através de pombos-correios, dispensando-se assim o uso de telefones, internet e telégrafos (por conta da regulação do CO² é proibido o uso de sinais de fumaça), ou qualquer outro método de comunicação digital. E, veja como roda o mundo, o Grupo Terrorista-Separatista-Ultra Nacionalista os “Filhos do Grande Tigre Branco”, usam gatos selvagens treinados (a humanidade é contraditória em todo lugar) para caçar os pombos, o que dificulta terrivelmente a comunicação em toda o região...

5. O imperador tem direito a possuir 696 esposas, e por imposição imperial, ele pode ainda, vender as sogras como mão-de-obra escrava para os países vizinhos. Mas o Mercado anda em baixa, em virtude de as ditas sogras serem postas à venda já muito velhas e mutiladas, o que as tornam pouco produtivas e/ou atraentes.  Há trinta anos o Congresso de Ondessestão – todos da situação! - está tentando criar coragem de notificar isso ao Imperador. Nutre-se esperança que o façam antes do fim da década.

6. Não visite o Ondessestão entre 01 de janeiro às 23:56h e 01 de novembro às 23:58h, este é o período sagrado em que todos os habitantes se voltam para o oriente e rezam em homenagem ao galo azul das colinas daquele país. Há algumas matérias publicadas sobre essa cerimônia na Revista National Geografic que descreve com uma verdadeira carnificina o ritual de despenhamento do pobre animal, o que os levará a extinção em uma geração. Mas por conta dessa reportagem esse número só encontrado em alguns sebos, pois é proibida a veiculação matérias, quaisquer que sejam sobre manifestações culturais, sociais e ou políticas sobre Ondessestão dentro e fora de Ondessestão. Nação fechada ao Oriente, Ocidente, Norte, Sul e qualquer outro ponto da Galáxia. A quem diga que o imperador já convocou uma reunião ecumênica para proibir Deus Todo Poderoso de olhar para Ondessestão sem a prévia aprovação do Imperador.

7. Pratos típicos – não há, mas você pode pedir alguma coisa pra comer no país vizinho. Bastando para isso ter a sorte de um telefone que funcione nas redondezas. Vide quarto item.

8. Música típica – todas as músicas cerimoniais de casamento, outras são proibidas. Assim como são proibida a gravação, reprodução e/ou mesmo assovio na rua. Pena: Lapidação, desmembramento, salgamento dos membros e pagamento de altos tributos, taxas e impostos.

9. Se você caro viajante intrépido e irresponsável decidir ir ao Ondessestão, faça por sua conta e risco, e importante lembrar: lá é vedado aos visitantes chorar sob pena de lapidação.

Em tempo, Ondessestão anda arrecadando muito com venda de pedras para lapidação.


Correndo o risco de perdermos leitores segue aqui uma infamidade para fechar a matéria: “Em Ondessestão, que atire a pedra primeira pedra aquele que...!








Texto com a colaboração do Sr. Alexandre Costa

DIA DE FESTA E DE ROJÕES



Caríssimo.

Ontem, domingo fui fazer meu passeio na praça, esticar as pernas, tomar um ar fresco, ver passarinhos, pisar na grama verde e tomar um sol.

Não sabia que haveria uma comemoração qualquer por lá. Essa minha vida peregrina, não me deixar guardar datas festivas, dias nacionais, estaduais e municipais... Havia barracas brancas espalhadas pela praça e arredores. A Matriz dava badaladas e mais badaladas, barracas de doce e barracas de tiro ao alvo, onde, modéstia às favas, arrebato o coração das mocinhas, gritos das criancinhas e bufadas de despeito dos marmanjos adonzelados.

O dia estava claro de romper retinas.

Postei-me à sombra de uma árvore e pus-me atentamente a ver a montagem dos fogos de artifícios feitos por uns ciganos de chapéus de abas larguíssimas, vastos bigodes e grandes adagas na cintura. Há muito tempo não vislumbrava essa gente. Por um átimo senti um misto de medo e louca apreensão, que logo passou. Afinal não sou homem de medo, loucuras ou apreensões. Procurei em meu bolso um cigarro.

Soltando fumaça pelas ventas voltei a caminhar. Chateava-me a ideia de esperar até a noite para ver os fogos...

Fui a um bar, tomei um café, comprei uma caixa de fósforos e um maço de cigarros. Ainda no balcão ouvi que os fogos seriam disparados ao meio-dia, pouco faltava para isso. Paguei e fui-me à rua.

De volta na praça lá estavam os ciganos reunidos. Não se ouvia uma palavra proferida por eles. Falavam-se por olhares, grunhidos e posição das mãos nas adagas. Tipos raros e perigosos, pensei.
Meio-dia em ponto.

Os ciganos estendendo as mãos deixavam claro que era para as pessoas se afastarem, e indo em direção a elas com olhares furiosos, elas iam  andando para trás.

Formado um círculo os ciganos dirigiram-se ao pequeno palco para começarem a queima. Caro amigo nunca em minha longa e cansativa vida já me deparei com tamanha maravilha. Nem o mar verde me espantou como esses nômades romani.

O mais velho deles, de calças largas, botas longas que lhe chegavam aos joelhos, olhos negros e fundos, feito duas cavernas, olhos para o público, puxou do bolso um isqueiro e sem mais delongas, sem qualquer outro ato dramático, acendeu o pavio dos morteiros e saiu correndo...

Lembre-se, o dia estava claro, sol a pino e era meio-dia quando o primeiro morteiro subiu aos céus como um foguete e, que espanto!, que maravilha!, coisa extraordinária!, em vez do bummmmmm a que estamos acostumados a ouvir, temer, tapar os ouvidos, o que ele fez foi – como escrever isso? – foi puxar todo o barulho da praça, puxar todas as vozes, todo o alarido para dentro de si e deixar por segundos – longos e que ecoavam dentro de nossas cabeças – um silêncio assustador. E não foi só a falta do barulho da explosão que nos deixou pasmo – veja bem não minto, nem exagero – foi que em vez do clarão, o rojão abria escuridão no céu. Escuridão que nos permitia ver a noite, as estrelas, os planetas. Houve até os que sentiram frio por alguns segundos. O sol sumia dando lugar a uma noite fora de hora, rojões que provocavam eclipses!

Após isso a praça esvaziou-se, as pessoas foram embora para suas casas, calados, ouvia-se o som de passos, quase se ouvia a grama crescer. A festa que deveria ir até a noite finou-se por ai mesmo. Acho que esses ciganos não voltam mais por aqui com esses fogos.

Fui para casa pensando nisso. Quando cheguei abri minha garrafa de absinto e pus-me a matutar sobre o mundo esse mundo...

P.S. Ouvi naquele bar um sujeito comentando sobre uma anta de trezentos quilos com enormes dentes de javali, um belíssimo horror da natureza. Imagino que o bom amigo gostaria de tê-la empalhada em sua sala...

Abraços desse escravo das maravilhas!



2017/06/29

AMARELO


       acácia   
      florida
sombra amarela


POMBOS...


manhã, cedinho
do carro vi
na calçada
meia-dúzia de pombos
todos juntinhos
uns olhando
pro céu
outros
pro chão
-juro,  achei que rezavam:
que o grão nosso
de cada dia
nos caia hoje..”.
mas acho que delirava
de sono
e assim, mesmo
dirigindo, viajava....


2017/06/22

AH!


céu azul
cheiro de café
ah! se fosse feriado...

CARTA ONDE SURGE UM MISTERIOSO TEXTO

  
Bom dia caríssimo seria muito otimismo achar que essa carta chegou pela manhã em sua casa? Está a lê-a à mesa enquanto sorves uma xícara do divino líquido (cada um com seu divino líquido, o seu preto e o meu verde...)?

Brilha o astro-rei?

Sem nuvens no céu?

Cantam os canários e sabiás? Estão por ai estão os meus sanhaços?

Andorinhas voam loucas e desvairadas à volta de sua casa?

Quero crer que sim!

Resolvi, só por hoje, exercitar meu otimismo.

Juro que queria chegar ao fim do dia assim (por via das dúvidas – sou antes de tudo-um homem prevenido – tenho uma garrafa do verde & divino líquido!), mas o Destino (sim, escrito em caixa alta-mesmo) quis outra coisa.

Acordei com o toc-toc pedras sendo atiradas na janela de meu quarto – sim bom amigo, ainda não me mudei dessa pensão que é um ímã para coisas ruins – desci à rua para ver quem era e encontrei somente um envelope pardo com umas folhas dentro.

Levei-as de pronto ao meu quarto para ler enquanto tomava meu break-fest.  Não sei o que pensar. Será o texto um conto policial, uma carta-desabafo, um aviso, ameaça de morte?

Caríssimo, conto com vosso bom julgamento para melhor entender essa confusão em que me meti.

Antes tivesse seguido em frente com a caçada.

Encaminho-lhe uma cópia, no bilhete preso por um clipe somente um pedido de desculpas por envolver-me nessa suja mesquinharia familiar e pedia-me que apos ler tudo poderia queimar os papeis ou, se achar que tinha futuro como cronista, que lhe deixasse o pacote na porta da igreja no próximo domingo, após a missa das oito.

Veja o risco!

Ter que ir a uma igreja outra vez... Temos que os anjos não me sejam mais simpáticos como já foram um dia. Tenho pavor daquelas gárgulas que vomitam água quando chove... Juro que elas tentam cuspir em mim, juro-lhe!

Bem, segue o texto.

Escreva-me a respeito, quero sua opinião. Queimo ou devolvo? Aviso a polícia? Devo envolver-me mais indo nessa esparrela?

Aguardo:


UM CRIME   
           
Hoje sei e afirmo – sem provas infelizmente – mas sei que houve um crime. Um crime dos mais hediondos.
Motivo?
O de sempre, dinheiro.
Matar os pais por dinheiro, por uma herança...
O caso passou despercebido, até hoje ninguém se deu conta dele, eu mesmo levei anos para perceber.
Não fosse meu eterno mau-humor, de viver sendo um  eterno macambúzio, sem falar com quase ninguém, perdido e afundado em elucubrações, esse crime teria sido o crime perfeito. Mas crime perfeito não existe. Ele pode nunca ser descoberto, pode nunca ser feito justiça, mas perfeito? Não, não há e farei de tudo para provar!
Morro tentando (ou serei morto por aqueles canalhas!), se for esse o preço da Justiça! Afinal, graças a eles, nada tenho a perder.
Sou perigoso. Eu penso, eu vejo, observo, eu reconheço os padrões, eu sinto o fedor do mau-caratismo. Eu olho, digo, olhava nos olhos deles, eu via a alma imunda e negra de cada um dele, filhos de Lilith!
Malditos corruptores!
Viverão a eternidade no quaro círculo do inferno! Por esses miseráveis abro mão de minha fé na Apocatástase!
Vampiros!
Miseráveis, corromperam até a minha fé...

Como devo entender isso?

P.S. Enquanto relia a carta abri a garrafa e estou perto de achar que isso é muito mais que um conto. Atente que não há um fim, mas sim uma parada brusca...

Preocupo-me se haverá uma continuação. Se não houver, será porque a dita família o matou? O corromperam afinal todos tem seu preço?


P.S. Estou começando a pegar certa antipatia por reticência!


2017/06/19

UMA CARTA SOBRE UM DIA TOTALMENTE NORMAL, OU QUASE




 Caríssimo, bom dia.

Cá estou a incomodá-lo com minhas epístolas, mas acredito que estais tão viciado em recebê-las como estou eu a escrevê-las. Escrever e fumar meus cigarrinhos, ah, isso é quase como viver bem!

Dessa vez pouco o quase nada tenho a relatar.

Ainda estou nessa pesão mal assombrada, mas já cogito em mudar-me. Com o tempo, tudo nos enfada, até o extraordinário. Cansei-me daqui. Meus velhos olhos precisam de descanso, já  vi muita coisa nessa vida (e de outras, e de outras...), já tomei muito sol na cabeça, uma lua cheia por semana já é mais que o suficiente para mim (ou qualquer outro cristão!). Percebi que desde que me hospedei aqui todas as noites são de lua cheia, mesmo que chova fora das paredes dessa casa, no claustro SEMPRE é lua cheia. Fartei-me dessa maravilha noturna! Os fantamas? Nada de mais depois de um tempo, já não me aterrorizam, só fazem me aborrecer com suas lamúrias, resmungo e choradeira...

Preciso fechar as janelas, as cortinas, colocar uma máscara sobre os olhos e sobre a cabeça um travesseiro! Muito trabalho para poder descansar tão pouco à noite!

Sou um homem velho e enjoado, ou somente velho?

Responda-me! (lembre-se, não faço perguntas retóricas!)

Acordo todas as manhãs mais cansado que na noite anterior... Perco o viço e a vontade de viver, de fazer o que quer seja. Temo acabar fazendo parte dos ossos dessas paredes...

 Velho amigo estava esquecendo minha missão. Computo isso à essa casa, essa eterna lua cheia. Sinto-me sugado por essas paredes.

Ontem, esperando o sono chegar, revirei o velho baú. Lá estão todas as armas para minhas caçadas. Reparei que não tenho nada para caça submarina. Preciso comprar, pelo menos uns dois arbaletes, uma balestra 50 libras, pés de pato, uma máscara e um respirador. Passei a levar o mar muito a sério de uns tempos para cá... Acho que terei que fazer uns escambos para adquirir esses equipamentos.

Amanhã mesmo compro uma dessas gazetas que entopem esse vilarejo esquecido por Deus, e procuro outro lugar para morar. Não me vejo com forças para sair desse projeto de cidade, mas ainda me resta energia para mover-me para fora dessa gaiola enluarada.

Sei que há muito não pergunto por esses itens, mas agora vai:

1.      Nada daquele empréstimo? Minha aposentadoria ainda não chegou e os poucos cobres que me restam...
2.          Nada de Françoise?

Jurei a mim nunca mais perguntar por ela, ainda mais depois de tudo que tenho passado, vivido & vivenciado... Mas certas dores criam calo, e sempre nos acostumamos com os calos, por mais que eles doam, não é?

Conte-me algo do mundo normal em que você se refugiou e se acostumou a viver.

Como bem disse acima, nada de espetacular nessas linhas.

Abraços fraternos e desamparados.




2017/06/14

CARTA EM QUE CONTA SOBRE A PENSÃO NOVA



Caríssimo, boas novas sobre a casa nova.

Alvíssaras!

Depois de bem pouco tempo encontrei outra pensão. Fica longe, nunca o suficiente, bem sei, da outra casa. Mas essa tem as vantagens de ser longe do mar e ser bem mais antiga e possuir um claustro que bem me servirá para fumar e beber em paz, fora das paredes claustrofóbicas de meu quarto, ou seria catre? Sei tão pouco... A cada amanhecer percebo que sei um pouco menos que no dia anterior, por isso essa minha sanha de aventuras, de conhecimentos. Preciso manter cheia a dispensa de saber na minha cabeça. Que, diga-se de passagem, esta cada com menos cabelo...

A cada amanhecer uma série de perdas. Acordar para quê? Pergunto-me, mas não espero ou procuro resposta, não gosto de perguntas retóricas, nem que seja minhas.  

Mas falemos da casa.

Antiga, muito antiga, antiquíssima (sei o quanto lhe agradam os superlativos, então ai vai um). Creio que a pintura ainda é a mesma da época da construção... Acho que as paredes foram feitas com ossos de baleia (e de seres humanos), mas preciso averiguar com mais calma.

Deito-me cedo (quando não estou em algum bar), mas não durmo logo (o que explica minhas idas aos bares), pois a casa que durante o dia é calma, sossegada como um mosteiro, mas à noite transforma-se, torna-se algo totalmente diverso, vira-se do avesso. Ouço passos (os primeiro sons de que tomei ciência) agora são vozes, choros, gritos discussões... O que me leva a acreditar que nessas vetustas paredes há algo mais que ossos de baleias...

Não perco o sono por medo, pois como é sabido & comprovado, NADA temo nesse mundo ou em qualquer outro que por ventura haja por ai. Sou caçador renomado, briguento de primeira, lutador sem igual, mas, você sabe velho amigo, tenho sono leve.

Na parede, de frente à porta de entrada, há um quadro de uma dama muito, mas muito, absurdamente muito gorda sentada no dorso de um elefante, que pelo pequeno tamanho das orelhas de ser indiano, essa impressão me é reforçada pelo estranho turbante que a mulher usa... Sim um quadro muito feio, desinteressante que na sua estranheza, bizarrice e mediocridade nos prende a atenção. Grande artista esse que concebe tal pintura... Sem pensar duas vezes eu o jogaria no lixo.

O café nos servido entre sete horas e sete e meia da manhã. Sim, nunca serei envenenado por tal beberagem, pois nunca acordo à essa hora...

Nunca vi a dona da casa, sou atendido pela governanta, senhora circunspecta, nunca lhe ouvi a voz, parece dar ordens com o olhar duro de pedra, ou, recuso-me a aceitar tal hipótese, por telepatia (lembre-se, nós NÃO cremos nessas tolices supersticiosa dessa gentinha ignorante e limitada que nos cerca).

Quero segredar-lhe uma coisa, na primeira ou segunda noite aqui estava fumando meu cigarrinho no claustro sob uma lua cheia cinematográfica (de filme de terror, de filme de terror!) quando senti uma presença ao meu lado. Bravo que sou, não pensei duas vezes, ofereci-lhe um de meus cigarros, e numa lufada de vento frio, uma voz respondeu-me:

- Parei de fumar quando morri e nunca mais quero saber disso! – Outro que não eu em meu lugar teria caído duro em choque para trás, mas eu? Guardei o cigarro e lentamente, pé ante pé, voltei ao meu quarto. Ainda vou ver de que é feita essa casa...

Caríssimo, resumindo, sinto, como há muito não sinto, que agora estou em casa.

Por hora só tenho isso para contar-lhe.

P.S. O taxidermista fez um ótimo trabalho. Depois lhe mando umas propagandas dele.

P.S². Sei o quanto lhe agrada a arte pictórica, assim que receber minha aposentadoria, vou pedir que reproduzam uma cópia do quadro e enviarei, (sem custos, sem custos!) para você.

Abraços fraternos.

2017/06/13

CARTA ONDE DESCREVE UM DIA COMUM E NORMAL




                   Prezado, bom dia (ou seja, lá a hora que você abrir essa missiva).

Ontem resolvi tirar o dia para mim, sem pensar em nada (bah, fosse assim tão fácil desligar esse velho e maltratado cérebro...) e fui pescar, num rio, pois lhe juro!  nunca mais chego perto do mar! Não o suporto mais e tenho calafrio, quando sinto cheiro de salmoura... Acho que por causa da ojeriza que me causa o sal, minha pressão arterial tem estado bem baixa, 12x7, um menino, um menino!

Sentei-me numa pedra com o velho cérebro em ponto-morto e uma pequena garrafa de absinto para me garantir, pus-me a jogar a linha n’água.

Pesquei sacos plásticos de várias e diversas cores, um sapato - pé esquerdo - número 41, folhas de jornais das cidades rio acima (que não resisti, e tentei ler algumas manchetes, bem coisa desse meu velho e birrento cérebro...), um lambari morto de fome, haja vista ter mordido um anzol sem isca e um velho mapa desenhado em couro de burro...

...que imediatamente joguei de volta à agua e certifiquei-me que a correnteza o arrastou para longe de meus cansados olhos. Ando farto de aventuras!

Que dia maravilhoso!

Cercado de lixo e distante de qualquer tipo de pensamentos, inquietações, dilemas morais, sociais e/ou financeiros e a garrafa vazia resolvi dar a pescaria por encerrada e voltar para a pensão, sim estou em outra, mas isso é assunto para outra carta.

Lembra-se da francesa, pois, veja só, não tenho pensado nela nem uma única vez nas últimas semanas e se a cito aqui foi porque vi uma foto dela no fundo da gaveta onde guardo os papeis de cartas e o fumo de rolo para meus cigarrinhos. Voltei tão leve da pescaria que meus pés mal tocavam o chão e nessa experiência - nessa epifania? - acabei sendo carregado por uma lufada de vento que me fez ir para muito, muito longe de casa
.
Seria essa a tal da insustentável leveza do ser?

Espero não ter deixado você, velho amigo, aflito com o urgente escrito em vermelho no envelope. Precisava sim, urgente, compartilhar com alguém, esse dia tão ditoso, venturoso e glorioso – salve salve! Penso ouvir um coro de querubins enquanto traços essas emocionadas linha...

P.S. Do alto, enquanto ascendia com o ar quente, achei ter visto pegadas de gigantes, mas sabemos (não sabemos?) que gigantes não existem, certo? Aguardo confirmação. Nesse meio tempo levarei o lambari ao taxidermista.

P.S². Amanhã descerei o rio atrás do daquele mapa, mal dormi essa noite pensando nele.

P.S³. Preciso dar um jeito de livrar-me de meu cérebro. Estou aberto a sugestões.

NOITES JUNINAS


 mais que estrelas  no céu
hoje, maravilha, temos
balões pra são joão

2017/06/09

ROTINAS MATINAIS



na falta de lobos e montanhas
tem um cachorro no pé do morro
que late e uiva a noite inteira...
ah! mas tem também um galo
(que imagino vermelho)
que me acorda maravilhosamente
todas as manhãs!
e um gato em eterno cio
que reclama e chora  mais que pastor
pregando o fim do mundo
no ar chega o cheiro do café...
bom dia a todos