2017/06/22

AH!


céu azul
cheiro de café
ah! se fosse feriado...

CARTA ONDE SURGE UM MISTERIOSO TEXTO

  
Bom dia caríssimo seria muito otimismo achar que essa carta chegou pela manhã em sua casa? Está a lê-a à mesa enquanto sorves uma xícara do divino líquido (cada um com seu divino líquido, o seu preto e o meu verde...)?

Brilha o astro-rei?

Sem nuvens no céu?

Cantam os canários e sabiás? Estão por ai estão os meus sanhaços?

Andorinhas voam loucas e desvairadas à volta de sua casa?

Quero crer que sim!

Resolvi, só por hoje, exercitar meu otimismo.

Juro que queria chegar ao fim do dia assim (por via das dúvidas – sou antes de tudo-um homem prevenido – tenho uma garrafa do verde & divino líquido!), mas o Destino (sim, escrito em caixa alta-mesmo) quis outra coisa.

Acordei com o toc-toc pedras sendo atiradas na janela de meu quarto – sim bom amigo, ainda não me mudei dessa pensão que é um ímã para coisas ruins – desci à rua para ver quem era e encontrei somente um envelope pardo com umas folhas dentro.

Levei-as de pronto ao meu quarto para ler enquanto tomava meu break-fest.  Não sei o que pensar. Será o texto um conto policial, uma carta-desabafo, um aviso, ameaça de morte?

Caríssimo, conto com vosso bom julgamento para melhor entender essa confusão em que me meti.

Antes tivesse seguido em frente com a caçada.

Encaminho-lhe uma cópia, no bilhete preso por um clipe somente um pedido de desculpas por envolver-me nessa suja mesquinharia familiar e pedia-me que apos ler tudo poderia queimar os papeis ou, se achar que tinha futuro como cronista, que lhe deixasse o pacote na porta da igreja no próximo domingo, após a missa das oito.

Veja o risco!

Ter que ir a uma igreja outra vez... Temos que os anjos não me sejam mais simpáticos como já foram um dia. Tenho pavor daquelas gárgulas que vomitam água quando chove... Juro que elas tentam cuspir em mim, juro-lhe!

Bem, segue o texto.

Escreva-me a respeito, quero sua opinião. Queimo ou devolvo? Aviso a polícia? Devo envolver-me mais indo nessa esparrela?

Aguardo:


UM CRIME   
           
Hoje sei e afirmo – sem provas infelizmente – mas sei que houve um crime. Um crime dos mais hediondos.
Motivo?
O de sempre, dinheiro.
Matar os pais por dinheiro, por uma herança...
O caso passou despercebido, até hoje ninguém se deu conta dele, eu mesmo levei anos para perceber.
Não fosse meu eterno mau-humor, de viver sendo um  eterno macambúzio, sem falar com quase ninguém, perdido e afundado em elucubrações, esse crime teria sido o crime perfeito. Mas crime perfeito não existe. Ele pode nunca ser descoberto, pode nunca ser feito justiça, mas perfeito? Não, não há e farei de tudo para provar!
Morro tentando (ou serei morto por aqueles canalhas!), se for esse o preço da Justiça! Afinal, graças a eles, nada tenho a perder.
Sou perigoso. Eu penso, eu vejo, observo, eu reconheço os padrões, eu sinto o fedor do mau-caratismo. Eu olho, digo, olhava nos olhos deles, eu via a alma imunda e negra de cada um dele, filhos de Lilith!
Malditos corruptores!
Viverão a eternidade no quaro círculo do inferno! Por esses miseráveis abro mão de minha fé na Apocatástase!
Vampiros!
Miseráveis, corromperam até a minha fé...

Como devo entender isso?

P.S. Enquanto relia a carta abri a garrafa e estou perto de achar que isso é muito mais que um conto. Atente que não há um fim, mas sim uma parada brusca...

Preocupo-me se haverá uma continuação. Se não houver, será porque a dita família o matou? O corromperam afinal todos tem seu preço?


P.S. Estou começando a pegar certa antipatia por reticência!


2017/06/19

UMA CARTA SOBRE UM DIA TOTALMENTE NORMAL, OU QUASE




 Caríssimo, bom dia.

Cá estou a incomodá-lo com minhas epístolas, mas acredito que estais tão viciado em recebê-las como estou eu a escrevê-las. Escrever e fumar meus cigarrinhos, ah, isso é quase como viver bem!

Dessa vez pouco o quase nada tenho a relatar.

Ainda estou nessa pesão mal assombrada, mas já cogito em mudar-me. Com o tempo, tudo nos enfada, até o extraordinário. Cansei-me daqui. Meus velhos olhos precisam de descanso, já  vi muita coisa nessa vida (e de outras, e de outras...), já tomei muito sol na cabeça, uma lua cheia por semana já é mais que o suficiente para mim (ou qualquer outro cristão!). Percebi que desde que me hospedei aqui todas as noites são de lua cheia, mesmo que chova fora das paredes dessa casa, no claustro SEMPRE é lua cheia. Fartei-me dessa maravilha noturna! Os fantamas? Nada de mais depois de um tempo, já não me aterrorizam, só fazem me aborrecer com suas lamúrias, resmungo e choradeira...

Preciso fechar as janelas, as cortinas, colocar uma máscara sobre os olhos e sobre a cabeça um travesseiro! Muito trabalho para poder descansar tão pouco à noite!

Sou um homem velho e enjoado, ou somente velho?

Responda-me! (lembre-se, não faço perguntas retóricas!)

Acordo todas as manhãs mais cansado que na noite anterior... Perco o viço e a vontade de viver, de fazer o que quer seja. Temo acabar fazendo parte dos ossos dessas paredes...

 Velho amigo estava esquecendo minha missão. Computo isso à essa casa, essa eterna lua cheia. Sinto-me sugado por essas paredes.

Ontem, esperando o sono chegar, revirei o velho baú. Lá estão todas as armas para minhas caçadas. Reparei que não tenho nada para caça submarina. Preciso comprar, pelo menos uns dois arbaletes, uma balestra 50 libras, pés de pato, uma máscara e um respirador. Passei a levar o mar muito a sério de uns tempos para cá... Acho que terei que fazer uns escambos para adquirir esses equipamentos.

Amanhã mesmo compro uma dessas gazetas que entopem esse vilarejo esquecido por Deus, e procuro outro lugar para morar. Não me vejo com forças para sair desse projeto de cidade, mas ainda me resta energia para mover-me para fora dessa gaiola enluarada.

Sei que há muito não pergunto por esses itens, mas agora vai:

1.      Nada daquele empréstimo? Minha aposentadoria ainda não chegou e os poucos cobres que me restam...
2.          Nada de Françoise?

Jurei a mim nunca mais perguntar por ela, ainda mais depois de tudo que tenho passado, vivido & vivenciado... Mas certas dores criam calo, e sempre nos acostumamos com os calos, por mais que eles doam, não é?

Conte-me algo do mundo normal em que você se refugiou e se acostumou a viver.

Como bem disse acima, nada de espetacular nessas linhas.

Abraços fraternos e desamparados.




2017/06/14

CARTA EM QUE CONTA SOBRE A PENSÃO NOVA



Caríssimo, boas novas sobre a casa nova.

Alvíssaras!

Depois de bem pouco tempo encontrei outra pensão. Fica longe, nunca o suficiente, bem sei, da outra casa. Mas essa tem as vantagens de ser longe do mar e ser bem mais antiga e possuir um claustro que bem me servirá para fumar e beber em paz, fora das paredes claustrofóbicas de meu quarto, ou seria catre? Sei tão pouco... A cada amanhecer percebo que sei um pouco menos que no dia anterior, por isso essa minha sanha de aventuras, de conhecimentos. Preciso manter cheia a dispensa de saber na minha cabeça. Que, diga-se de passagem, esta cada com menos cabelo...

A cada amanhecer uma série de perdas. Acordar para quê? Pergunto-me, mas não espero ou procuro resposta, não gosto de perguntas retóricas, nem que seja minhas.  

Mas falemos da casa.

Antiga, muito antiga, antiquíssima (sei o quanto lhe agradam os superlativos, então ai vai um). Creio que a pintura ainda é a mesma da época da construção... Acho que as paredes foram feitas com ossos de baleia (e de seres humanos), mas preciso averiguar com mais calma.

Deito-me cedo (quando não estou em algum bar), mas não durmo logo (o que explica minhas idas aos bares), pois a casa que durante o dia é calma, sossegada como um mosteiro, mas à noite transforma-se, torna-se algo totalmente diverso, vira-se do avesso. Ouço passos (os primeiro sons de que tomei ciência) agora são vozes, choros, gritos discussões... O que me leva a acreditar que nessas vetustas paredes há algo mais que ossos de baleias...

Não perco o sono por medo, pois como é sabido & comprovado, NADA temo nesse mundo ou em qualquer outro que por ventura haja por ai. Sou caçador renomado, briguento de primeira, lutador sem igual, mas, você sabe velho amigo, tenho sono leve.

Na parede, de frente à porta de entrada, há um quadro de uma dama muito, mas muito, absurdamente muito gorda sentada no dorso de um elefante, que pelo pequeno tamanho das orelhas de ser indiano, essa impressão me é reforçada pelo estranho turbante que a mulher usa... Sim um quadro muito feio, desinteressante que na sua estranheza, bizarrice e mediocridade nos prende a atenção. Grande artista esse que concebe tal pintura... Sem pensar duas vezes eu o jogaria no lixo.

O café nos servido entre sete horas e sete e meia da manhã. Sim, nunca serei envenenado por tal beberagem, pois nunca acordo à essa hora...

Nunca vi a dona da casa, sou atendido pela governanta, senhora circunspecta, nunca lhe ouvi a voz, parece dar ordens com o olhar duro de pedra, ou, recuso-me a aceitar tal hipótese, por telepatia (lembre-se, nós NÃO cremos nessas tolices supersticiosa dessa gentinha ignorante e limitada que nos cerca).

Quero segredar-lhe uma coisa, na primeira ou segunda noite aqui estava fumando meu cigarrinho no claustro sob uma lua cheia cinematográfica (de filme de terror, de filme de terror!) quando senti uma presença ao meu lado. Bravo que sou, não pensei duas vezes, ofereci-lhe um de meus cigarros, e numa lufada de vento frio, uma voz respondeu-me:

- Parei de fumar quando morri e nunca mais quero saber disso! – Outro que não eu em meu lugar teria caído duro em choque para trás, mas eu? Guardei o cigarro e lentamente, pé ante pé, voltei ao meu quarto. Ainda vou ver de que é feita essa casa...

Caríssimo, resumindo, sinto, como há muito não sinto, que agora estou em casa.

Por hora só tenho isso para contar-lhe.

P.S. O taxidermista fez um ótimo trabalho. Depois lhe mando umas propagandas dele.

P.S². Sei o quanto lhe agrada a arte pictórica, assim que receber minha aposentadoria, vou pedir que reproduzam uma cópia do quadro e enviarei, (sem custos, sem custos!) para você.

Abraços fraternos.

2017/06/13

CARTA ONDE DESCREVE UM DIA COMUM E NORMAL




                   Prezado, bom dia (ou seja, lá a hora que você abrir essa missiva).

Ontem resolvi tirar o dia para mim, sem pensar em nada (bah, fosse assim tão fácil desligar esse velho e maltratado cérebro...) e fui pescar, num rio, pois lhe juro!  nunca mais chego perto do mar! Não o suporto mais e tenho calafrio, quando sinto cheiro de salmoura... Acho que por causa da ojeriza que me causa o sal, minha pressão arterial tem estado bem baixa, 12x7, um menino, um menino!

Sentei-me numa pedra com o velho cérebro em ponto-morto e uma pequena garrafa de absinto para me garantir, pus-me a jogar a linha n’água.

Pesquei sacos plásticos de várias e diversas cores, um sapato - pé esquerdo - número 41, folhas de jornais das cidades rio acima (que não resisti, e tentei ler algumas manchetes, bem coisa desse meu velho e birrento cérebro...), um lambari morto de fome, haja vista ter mordido um anzol sem isca e um velho mapa desenhado em couro de burro...

...que imediatamente joguei de volta à agua e certifiquei-me que a correnteza o arrastou para longe de meus cansados olhos. Ando farto de aventuras!

Que dia maravilhoso!

Cercado de lixo e distante de qualquer tipo de pensamentos, inquietações, dilemas morais, sociais e/ou financeiros e a garrafa vazia resolvi dar a pescaria por encerrada e voltar para a pensão, sim estou em outra, mas isso é assunto para outra carta.

Lembra-se da francesa, pois, veja só, não tenho pensado nela nem uma única vez nas últimas semanas e se a cito aqui foi porque vi uma foto dela no fundo da gaveta onde guardo os papeis de cartas e o fumo de rolo para meus cigarrinhos. Voltei tão leve da pescaria que meus pés mal tocavam o chão e nessa experiência - nessa epifania? - acabei sendo carregado por uma lufada de vento que me fez ir para muito, muito longe de casa
.
Seria essa a tal da insustentável leveza do ser?

Espero não ter deixado você, velho amigo, aflito com o urgente escrito em vermelho no envelope. Precisava sim, urgente, compartilhar com alguém, esse dia tão ditoso, venturoso e glorioso – salve salve! Penso ouvir um coro de querubins enquanto traços essas emocionadas linha...

P.S. Do alto, enquanto ascendia com o ar quente, achei ter visto pegadas de gigantes, mas sabemos (não sabemos?) que gigantes não existem, certo? Aguardo confirmação. Nesse meio tempo levarei o lambari ao taxidermista.

P.S². Amanhã descerei o rio atrás do daquele mapa, mal dormi essa noite pensando nele.

P.S³. Preciso dar um jeito de livrar-me de meu cérebro. Estou aberto a sugestões.

NOITES JUNINAS


 mais que estrelas  no céu
hoje, maravilha, temos
balões pra são joão

2017/06/09

ROTINAS MATINAIS



na falta de lobos e montanhas
tem um cachorro no pé do morro
que late e uiva a noite inteira...
ah! mas tem também um galo
(que imagino vermelho)
que me acorda maravilhosamente
todas as manhãs!
e um gato em eterno cio
que reclama e chora  mais que pastor
pregando o fim do mundo
no ar chega o cheiro do café...
bom dia a todos


2017/05/26

UMA QUESTÃO DE ORDEM


Aos amigos Kafica-Claricianos




você barganha com a barata
ou passa logo o inseticida* ?
chinelo nela ou conversa fiada?
usa aquele jornal enrolado feito
um porrete e a imprime na parede feito uma serigrafia
ou abre a porta  e pede muy
gentilmente que ela saia?
dá um olhar de enfado, de fim de caso
ou usa a  vassoura arrebentando tudo pela frente?
eis a questão...














*(me segurei para não escrever bombda de flit!)



2017/05/23

LIGEIA



Caríssimo, desculpe-me a ausência, mas essa missiva traz-lhe boas novas.

Conheci acidentalmente uma moça muita linda. Encontrei-a numa inesperada ida minha à praia. Sabe bem o bom amigo o que penso de passeios à beira-mar, sobre o sol na cabeça, a luz nos olhos como sabe, isso me remete à desgraça de Mersault, mas o Destino, sim com “D” maiúsculo sempre nos prega peças...  Sim estava a andar a esmo, pensando na falta de sentido da vida, quando – Louvado seja Deus! - a vi dentro d’água (quase ouso dizer que eu a ouvi antes de vê-la)!

Sem pensar e sem dar por mim, me vi pulando ondas, mergulhando, nadando como se tivesse feito isso toda a minha vida. Não sei por quanto tempo dei braçada e mais braçadas até que me aproximei dela – e ela cheirava a sal...

Faltam-me palavras, verbos, substantivos, adjetivos, falta-me toda uma gramática, um alfabeto para descrevê-la (dominasse eu o grego!), e por isso não o farei aqui e nem em meu último suspiro, por isso peço-lhe: SIMPLESMENTE CREIA EM MIM!

Ficamos horas a conversar boiando nas ondas, mas meus olhos, minha alma, todo meu eu afundava-se naqueles olhos verdes...

Nesse mister passou-se todo o meu dia, somente ao por do sol, despedi-me dela.

Perguntei onde ela morava, como poderia encontra-la outra vez, e ela, olhando para o horizonte sem fim, respondia com doces negativas e um sorriso que levaria qualquer outro homem à loucura. Qualquer outro homem que não esse seu amigo versado em ciências do absurdo e do oculto à vista de todos...

Arrisquei-me a inquirir seu nome, e num sorriso lindo, sua resposta:

- Ligeia.

O sol já começava a se pôr, seu reflexo na água me ofuscava, e quando cheguei perto para abraça-la, num pirueta, mergulhou e desapareceu... As gaivotas grasnavam em coro, elas riam de minha angustia, de minha dor, lembrei-me nesse instante a razão de minha antipatia pelo mar.
Caríssimo, esse tempo sumido se deve à minha insensata busca por ela. Ando de praia em praia:
 - Ora gritando:

 - Ligeia!

Ora murmurando:

 - Ligeia!

Assim passo meus dias n’água, ando mais enrugado do que deveria nessa minha provecta idade. Acho que já estou ficando com meus cabelos verdes... Meu bronzeado já está transformando minha pele em papiro, há vezes em que, chegando em casa após o dia inteiro na praia, não me reconheço em frente ao espelho.

Caríssimo, o amor na nossa idade é realmente um risco fatal!

Minha vida mudou, estou irreconhecível, sem perceber, alterei drasticamente meu modo de viver e me alimentar, duvida?

Veja a receita que lhe envio:

SALADA DE ALGAS E PEPINO

Ingredientes:


– 25 g de mistura de algas secas
– 1 pepino pequeno
– 75 ml de mirin
– 75 ml de vinagre de vinho de arroz
– 2 colheres de sopa de açúcar amarelo
– 2 colheres de sopa de sumo de limão



Faça assim:

1.                                         Ponha as algas de molho numa taça com água fria e deixe repousar 15-20 minutos para amolecerem;
2.                                         Corte o pepino ao meio no sentido do comprimento e depois às meias-luas muito finas Ponha as algas, grosseiramente picadas, e o pepino numa tigela;
3.                                         Misture o mirin com o vinagre de vinho de arroz e o açúcar num tacho pequeno e leve a lume brando até o açúcar dissolver. Retire do lume e deixe arrefecer. Junte-lhe o sumo de limão;
4.                                         Deite o molho de vinagre sobre as algas e o pepino e envolva cuidadosamente. Sirva em taças pequenas ou pratos individuais.

A princípio você deve estranhar, mas com o tempo e uma paixão avassaladora, logo se adaptará.

Caríssimo, estou um homem muito velho para tais emoções, enquanto traços essas linhas, uma voz doce canta em meus ouvidos, a dúvida me rói. Será Ligeia?, será a loucura que já me come pelas beiradas?

Aguardo resposta.

P.S. Envio-lhe essas conchinhas. Uma de cada praia a que vou.

P.S². Espero que goste da salada.

Abraços salgados.






2017/05/19

CHEFE NEY SOFRE

(Drama Relâmpago!)



Local: Arquivo Geral de uma repartição pública.

PERSONAGENS:

Chefe Ney – Tido e havido por avis-rara, um abnegado e primeiro mártir do serviço público. Não tem nem dá sorte com seus subordinados.

Agente Mostarda - Típico funcionário público, com agravante de não tomar banho, não trocar de roupas por meses e meses a fio. Ladrão de comida, flibusteiro covarde que ataca a cozinha e rouba comida da geladeira e das mesas dos colegas trabalho, vagabundo, chorão e endividado em todas as praças. Quando, na falta de que fazer, liga para as ex-mulheres e as xinga, sempre usando o telefone da repartição(para economizar!). Sua única fraqueza?, o gerente do Banco do Brasil.

O “Almirante Inglês*” – Outro funcionário da mesma cepa. Um herói que enfrenta qualquer empreitada no intuito de fazer nada. Foge do trabalho com um vampiro foge da luz, o talvez explique e justifique sua cor pálida. Sonha em ser um novo Agente Mostarda, seu ídolo confesso.

Adinilza** - A Viuvinha ProfissionalEspecializou-se na sagrada arte de segurar mãos de moribundos. (e depois tentar receber uma polpuda pensão), um dia há de conseguir. Ela se esforça!

Josyanderson - Outro tipinho, típico incompetente que sonha ser chefe de alguma coisa em algum lugar. (E sim, ele chegará.).

 Tia do Café – Pessoa mais importante de qualquer repartição pública (vide a piada do leão que fugiu do zoológico) – entra muda e sai calada.

 Telefone – O eterno preterido.







PRIMEIRO E ÚNICO ATO




Telefone toca.

O Agente Mostarda tem a mesma estratégia do “Almirante Inglês*” - velho funcionário, com uma longa lista de desserviço ao serviço público - para não fazer nada, questiona tudo suavemente, interrompe qualquer argumento e desgasta o sujeito que quer fazer alguma coisa.

Chefe Ney, passado poucos segundos após sua explanação, por fim, desiste. Sai, vai tomar café, tentar acalmar-se. Ele veio de uma cidade grande no intuito de moralizar o serviço nessa repartição, mas sua missão não será fácil.


(alguns tic tacs depois...)

Chefe Ney volta.  

Agora Adinilza - A Viuvinha Profissional – também está fazendo e seu número para contra o discurso do Chefe Ney com o uso majestoso de mímica & pantomima. Ela começa com uma falsa tosse - (não consegue chamar atenção), pigarreia (o mesmo efeito), deixa a caneta cair ao chão (nada), lentamente começa a choramingar, Chefe Ney dá-lhe seu lenço e pede-lhe que se dirija ao banheiro para se recompor. Agora ela começa a chorar de verdade (percebe que seu número, tão ensaiado, falhou) e sai da sala.

Telefone continua tocando...

Chefe Ney, tenso, sai à rua. Resolveu voltar a fumar.

(passam-se alguns minutos)

Chefe Ney volta.

Telefone continua tocando...

A conversa é reiniciada e o tempo vai passando...

Agente Mostarda olha fixamente (ah! aqueles olhos baços azuis...), como se estivesse preocupado, balança cabeça de cima para baixo, da direita para a esquerda negativamente e afirmativamente, levanta o dedo indicador e já começa a tartamudear, balbuciar e emitir estranhos grunhidos emulando sugerir, aludir ou citar algo no intuito de confundir, dispara o inexorável:

 “- Veja bem!”
...e acaba por ganhar mais tempo para não fazer nada.
Consegue a atenção de todos à sua volta.  

     (mais tempo perdido!)

Sagra-se vencedor!

(a claque aplaude histérica!)

Chefe Ney, de volta ao arquivo encara o Agente Mostarda.

Chefe Ney pensa:

­- Terei dor de cabeça hoje.

Chefe Ney percebe que hoje não será resolvido mais nada e coçando a cabeça, pede licença e sai para tomar outro café, fumar outro cigarro e ir à loja de caça e pesca praticar uns tiros. 

Chefe Ney retira-se da repartição tocando seus snujs e murmurando seu mantra:

- “Ainda irei ao Ganges implorar a Ganga para que minh’alma imortal não ressuscite outra vez, vivo muito cansado de sofrer.” - Chefe Ney é fã ardoroso de George Harrison.

Telefone continua tocando...

À distância e nas sombras, o subchefe, e eterno chefe-substituto Josyanderson - O Sub-humano! - naturalmente, olha como que com sono para tudo isso e não diz nada, pois em seu intimo pensa:

- Quando o Chefe Ney cair reinarei soberano e porei essa canalha na linha! – Josyanderson, o subchefe, saliva!

O tempo passa e:

Agente Mostarda voltou para sua pocilga leve como uma libélula soprada pelo vento. Abre a gaveta e joga migalhas, tiradas do bolso de sua jaqueta, de pão velho para as moscas que cultiva em cima de folhas de alface.
Ele está satisfeito, embaralhou tudo e não fez coisa alguma, venceu mais uma vez. Em seu íntimo ele se vê como o toureiro que matou o miúra, o gladiador que matou leões, um semi-césar, ele sente-se o Grande Deus do Nada...

Amanhã será outro dia...

Outra luta.

Telefone continua tocando...

Agora Agente Mostarda está sentado em seu trono, olha para o relógio de pulso, com ar falsamente parvo comenta enquanto puxa do funda de sua gaveta um sanduiche de mortadela:

- Chefe Ney é um incompetente, fala e fala e não explica nada. - Perdigotos são disparados em todos os pontos cardeais e colaterais.

Telefone continua tocando...

A Viuvinha, decana das viuvinhas de repartição com os olhos mais fundos ainda (muita maquiagem, tá na cara!), voltando do banheiro onde estivera chorando até agora, comenta com a tia do café, de passagem no momento:

- Esse cara é envolvente, sempre sério, parece que está engajado em não produzir nada – seus olhinhos fundos de viuvinha profissional brilham lúgubres – um vagabundo fantástico... – Não a toa está galgando uma chefia aqui.

Pegando a tia do café pelo braço, indaga:

- Ele se locupleta? É solteiro?

15h23, os demais funcionários fogem.


(Som de gongo!)

Telefone continua tocando...

(Cai o pano)




*Aqui a modéstia e o medo de um processo nas costas me impedem de declinar-lhe o nome real

.** Novamente o medo e a prudência me impedem, outra vez, de declinar-lhe o nome recebido na pia batismal.




2017/03/08

UMA BELEZA DE COMENTÁRIO!

Nene Pirajui:

Borboleta
O noroeste sopra
a borboleta, azul,
de volta

Soube que noroeste é um fenômeno daí
os transtornos, mal estar, inquietação
só vivenciando...

Talvez por isso a borboleta volta.

no aroma do café
uma ideia uma
Inspiração- papel
se  eu fosse traduzir em imagem seria esta:


                      Isqueiro

a mão em concha
um sol particular
meu céu azul
Esse  foi meu preferido !!!!
Ele é cênico, tem plasticidade é muito envolvente!
As últimas folhas em branco ,
faz materializar um propósito
somos  todos poetas também
Se não pela arte da escrita ,
talvez pelo modo de olhar,
de sentir .....de viver!!!
        Parabéns
           sua sempre leitora
                                Nenê