2013/08/21

ESQUINA



Dois pares de olhos numa esquina
Um a olhar à direita
Outro à esquerda
O sinal abre
Nem se cruzam
Nem se encontram
E assim acaba uma possível
História de amor...


2013/08/02

FRAUDE

                                                                                    

Seu grande sonho, desde a mais tenra idade, era ser caçador.

- Maldito Jim das Selvas! – ele sempre repetia isso quando ficava de mal humor.

Ele tem em sua sala de estar trinta e três baratas empalhadas em três potinhos de maionese light, cento e dois tipos de borboletas, sendo que nenhuma é azul, em molduras espalhadas pelas paredes – ele nunca se apaixonou de verdade; quatro ratazanas albinas, duas lagartixas - uma malhada; dois gatos, sendo um siamês, um cavalo – que ele não conta a ninguém, mas já o achou morto numa rua, todos empalhados também, e na parede uma foto de Ernest Hemingway. Na mesa de carvalho um cinzeiro nunca usado e uma caixa de charutos nunca aberta.
Todo o dia ao acordar abre as janelas do quarto suspira fundo e reclama baixinho:

-Sou uma fraude!

Veste seu roupão e desce para o café...

***

Então um dia, entre uma taça de conhaque e outra, desabafou:

-Sempre, sempre odiei o Alberto, sempre. Ele sempre foi o mais bonito da classe, o mais elegante, o mais bem vestido, mais bem penteado, sempre com aquele porte de Apolo de subúrbio, sempre sorrindo, sendo o primeiro da classe, sempre o primeiro a responder, sempre simpático comigo e com todos, sempre pagando a primeira rodada de café, aposto que quando ele peidava, soltava perfume de rosas... Mas agora estou feliz, soube que ele está com problema de próstata! E pensar que devo meu diploma a ele...

Esvaziou mais três taças de conhaque, amarrando o roupão foi ao terraço, de lá olhando para seu jardim resmungou:

- Morro velho e não conhecerei os prazeres de se caçar na África...

Voltando-se para dentro da casa gritou com o primeiro serviçal que passou pela sua frente.

***

Numa madrugada dessas, encharcado de suor ele acorda aos gritos de:

- Coelhos não miam, coelhos não miam, coelhos brancos não miam, coelhos pretos não miam, coelhos malhados ou albinos não miam!

De manhã não tomou café e trancou-se na sala de troféus.
Gervino, o serviçal, receoso do humor do patrão, nem lhe entregou o exemplar do Diário Oficial da União, recém-entregue, e da porta da sala eu ouvi o patrão arengar:

- Coelhos não miam, coelhos não miam, coelhos brancos não miam, coelhos pretos não miam, coelhos malhados ou albinos não miam!

O dia prometia ser horrível...

***

10 na cabeça!