2013/10/07

NO ANTIQUÁRIO À HORA DO ALMOÇO


Caminhando sob a chuva
Fina
O velho  Comandante reclama
Queixa-se de aflições
Tantas, ele as enumera
Conta e suspira seus ais
Rezinga e maldiz seus dias finais
(que se arrastam e demoram a chegar ao dia derradeiro)
A barriga grande
Os cabelos já brancos
Os pés chatos
(até mais chatos que ele mesmo, confessa-me)
Ao passar por um velho antiquário
Entra para refugiar-se da pluviosidade
E uma vez lá dentro
Viaja a um passado alheio
Ignoto, que não é seu
Vislumbra móveis e quinquilharias pretéritas
Respira fundo o cheiro de tempos outros
Toca com cuidado religioso as relíquias à venda
Seus olhos rasos de lágrimas
Vasculham preços e datas
E então
Num relâmpago
Como que sob uma iluminação
Quase religiosa
Ele vê
Ele se encanta
Ele é tomado pelos fantasmas do passado
E senta-se a uma vetusta cadeira
Vermelha
E em transe
Fecha os olhos
Entrega-se a uma viagem espiritual
Desce aos infernos do velho antiquário
Imóvel deixa sua alma vaguear pelo éter...
Passando alguns minutos
O velho Caronte o devolve
E impulsionado como por uma mola
Invisível
Ele arrebatado grita:
- Vou comprar.
(paga com cartão – débito)
E tornando à rua ainda
Chuvosa
Ele segue com a encarnada cadeira
Sobre a vetusta cabeça encanecida
E aos passantes ele, de olhos arregalados clama:
- Ela é o meu remédio!
Da porta da loja
Velhos fantasmas lhe acenam adeus...



2013/09/27

ABSURDO, MAS ÚTIL




Fevereiro, meio-dia, sol  a pino, sem uma sombra nas ruas, Josélio fechou as cortinas e declarou:
- Boa noite!
O silêncio caiu, e todos dormiram felizes para sempre...


2013/09/23

ANDORINHAS



Já conheço os segredos das andorinhas
Eu as ouço chilrear todas as manhãs
Na caixa do ar-condicionado de meu quarto


2013/09/04

Cigarros


A quantidade de bitucas no cinzeiro testemunhavam a sua insônia, as manchas amarelas nos dedos, seu vício.

2013/08/21

ESQUINA



Dois pares de olhos numa esquina
Um a olhar à direita
Outro à esquerda
O sinal abre
Nem se cruzam
Nem se encontram
E assim acaba uma possível
História de amor...


2013/08/02

FRAUDE

                                                                                    

Seu grande sonho, desde a mais tenra idade, era ser caçador.

- Maldito Jim das Selvas! – ele sempre repetia isso quando ficava de mal humor.

Ele tem em sua sala de estar trinta e três baratas empalhadas em três potinhos de maionese light, cento e dois tipos de borboletas, sendo que nenhuma é azul, em molduras espalhadas pelas paredes – ele nunca se apaixonou de verdade; quatro ratazanas albinas, duas lagartixas - uma malhada; dois gatos, sendo um siamês, um cavalo – que ele não conta a ninguém, mas já o achou morto numa rua, todos empalhados também, e na parede uma foto de Ernest Hemingway. Na mesa de carvalho um cinzeiro nunca usado e uma caixa de charutos nunca aberta.
Todo o dia ao acordar abre as janelas do quarto suspira fundo e reclama baixinho:

-Sou uma fraude!

Veste seu roupão e desce para o café...

***

Então um dia, entre uma taça de conhaque e outra, desabafou:

-Sempre, sempre odiei o Alberto, sempre. Ele sempre foi o mais bonito da classe, o mais elegante, o mais bem vestido, mais bem penteado, sempre com aquele porte de Apolo de subúrbio, sempre sorrindo, sendo o primeiro da classe, sempre o primeiro a responder, sempre simpático comigo e com todos, sempre pagando a primeira rodada de café, aposto que quando ele peidava, soltava perfume de rosas... Mas agora estou feliz, soube que ele está com problema de próstata! E pensar que devo meu diploma a ele...

Esvaziou mais três taças de conhaque, amarrando o roupão foi ao terraço, de lá olhando para seu jardim resmungou:

- Morro velho e não conhecerei os prazeres de se caçar na África...

Voltando-se para dentro da casa gritou com o primeiro serviçal que passou pela sua frente.

***

Numa madrugada dessas, encharcado de suor ele acorda aos gritos de:

- Coelhos não miam, coelhos não miam, coelhos brancos não miam, coelhos pretos não miam, coelhos malhados ou albinos não miam!

De manhã não tomou café e trancou-se na sala de troféus.
Gervino, o serviçal, receoso do humor do patrão, nem lhe entregou o exemplar do Diário Oficial da União, recém-entregue, e da porta da sala eu ouvi o patrão arengar:

- Coelhos não miam, coelhos não miam, coelhos brancos não miam, coelhos pretos não miam, coelhos malhados ou albinos não miam!

O dia prometia ser horrível...

***

10 na cabeça!


2013/07/05

E O ÍNDIO PENSA QUE SOFRE!






Há algum tempo o amigo Índio comentava, não, se queixava mesmo, sobre o funk comendo solto todas as sextas-feiras perto de sua casa. Ao primeiro (não riam, não riam) acorde o sono pulava a janela, e feito ladrão, fugia pela noite adentro para nunca mais. O negócio era rolar na cama e esperar pelo sol. Noite perdida e dia arrastado pela frente.

Mas porque cito o amigo silvícola?

Explico-lhes. Ontem à noite tive uma amostra do infortúnio dele, de uma forma canhestra, mas mesmo assim, incômoda.

Deveria ser nove horas da noite, estava largado no sofá, distendendo meu polegar direito na ânsia de encontrar em algum canal alguma coisa que se prestasse a ser assistida, quando começo a ouvir umas vozes na rua. Pensei que fosse mais alguma movimentação das “massas insatisfeitas”, mas baderna que passaria feito um vendaval, deixando latas de lixo viradas na rua, crianças chorando, velhinhas assustadas e errando o ponto do crochê. Coisa rápida?

Não!

Na rua de frente à minha sala, numa casa, das poucas que ainda resta, um grupo se reunia e aumentava a cada minuto¹.

As vozes aumentando de volume me fez compreender bem o que começava (sim, pois a coisa iria longe) e o que acontecia lá. Estavam se juntado para orar, cantar e dar loas a Deus, ao vivo, aos berros. Cantos, cânticos, louvores e orações, com bater de palmas, urros e, ai é que piora o negócio, um ou outro possuído, começa a gritar em falsete, “Senhor! Senhor!, Senhor!.²

Fechei a janela da sala, do banheiro, dos quartos, da cozinha da área de serviço, e nada. Os louvores atravessavam as paredes. Não obstante a isso, os cachorros da vizinhança começaram a latir³ . A filha do pessoal do segundo andar começou a chorar. O pai, com voz de tenor tentava acalmar a criança que chorava ainda mais.

Da rua vinha os “Ó Senhor! Leva-me contigo Senhor” – nesse momento, incréu que sou acorri à janela, esperançoso de que seriam um ou dois a menos a cantar. Debalde – o que explica essa minha fé em eterno déficit – continuavam todos lá, rigorosamente todos lá, nem um a menos.

A peroração seguiu noite adentro...

Onde entra o Índio nisso?

Lá no funk sempre há esperança que um tiroteio, uma batida da polícia ponha fim naquilo, no meu caso, tive que trancar janelas, fechar portas, colocar minha cabeça entre os travesseiros – como se fosse um cachorro quente – para me ver livre daquilo.

A noite seguiu o roteiro de pesadelo, gritos histéricos pelo “Ó Senhor!” – proferidos por uma senhora que se imaginava numa daquelas igrejas sulistas norte-americanas, pois gritava fora de compasso e juro que quase podia vê-la abanando-se, e calipigia, rebolando e virando os olhinhos a cada “Ó Senhor, leva-me”!

Se o negócio “pegar”, o que será de mim agora? Até hoje não me acostumei com o carro que passa toda noite tocando hip-hop com o Subwoofer balançando as vidraças de casa e derrubando copos na cozinha, com a vizinha do primeiro andar que ainda curte o Calipso e canta junto, da fumaça de cheiro estranho que sobe da rua...

Positivamente estou muito velho para mais uma novidade.







¹-Grupo reunido, sinal de medo, brrrrrr.

²-Esses neo-pentescotais...

³-Por pura incapacidade de reclamarem de outra forma...







2013/07/02

INSANIDADE



Desesperado liguei para o Magrão e disse, quase cochichando:

- Cara, acho que agora enlouqueci de vez!

- Calma, respire fundo, conte até dez e me diga o que houve...

- Acho que eu ouvi um pagode com gaitas de fole...

- ...

- Magrão! Magrão!




2013/07/01

MICRO NARRATIVA/O DIA COMEÇOU TRISTE



O dia começou triste, nem o bem-te-vi ajudou. Os pombos assustaram-se por poucos segundos, mas logo pousaram sobre o corpo.

2013/06/27

2013/06/26

FATO




O frio chegou antes do inverno, mais ou menos em meados de abril

a casa esvaziou

a temperatura caiu

sobrou espaço no guarda-roupa

o cachorro emagreceu

e o peixinho continua boiando naquela água verde do aquário.

2013/06/25

FOI ASSIM



Então foi assim, saímos todos à rua, chovia, mas estávamos juntos, unidos, de braços dados, marchávamos mais que andávamos. Erámos uma massa – ai começou o erro - homogênea, unida num único ideal. Derrubar o sistema.

Sistema...

Por causa da queda no sistema - naquele justo dia - ninguém conseguiu se comunicar. Os telefones não funcionavam, e juntos na rua, sob a chuva, de braços dados, apanhamos da polícia. Nosso movimento de sete pessoas acabou numa delegacia.

Por isso sempre repito, cuidado com seus sonhos, seus desejos, cuidado com a sua motivação, e mais importante, cheque sempre seus e-mails e recados na secretária eletrônica antes de ir para rua.

Cuidado com seus sonhos e cuidado com quem você pensa que pode ser um grande líder...

Já me dizia a um Grande Sábio (que não declinarei o nome aqui*): - O líder de esquerda hoje é o Tirano de Direita amanha!

Hoje não sou um velho amargo ou desiludido, não desdenho dos anseios dos jovens, nem desprezo os sonhadores e idealistas. Precisamos sim de movimentos populares, precisamos sim sair às ruas, gritar, levantar bandeiras, gritar palavras de ordem, nos posicionar enfim!

Dou meu total apoio, apoio, aliás, incondicional! Mas, eu não tenho mais idade para isso, nem mais sonhos, tenho dívidas.

Mas aqui estou, na rua, sob chuva, outra vez, fazendo a minha parte, vendendo máscara contra gás lacrimogêneo, guarda-chuvas e fogos de artifício. Mas também tiro fotos desses caras-pintadas, emolduro, e se necessário, por um precinho módico, faço curativos.

É o sistema, digo, mercado, é o mercado e eu preciso viver, cansei dos sonhos e minha família precisa de arroz com feijão.

Vai uma máscara aí?




*Mas que o Magrão sabe quem é.


2013/06/21

NAS NOSSAS RUAS





O medo grassa

Cada esquina um perigo

A cada grito, brado, ordem

Um cai

Uma bandeira

Uma ideia

Uma bomba

A massa vai em frente

A massa segue um líder

A massa é a ameaça

Sim queremos

Queremos o certo

Queremos o justo

Queremos a nossa parte

Outros querem tudo

Os tiros cortam o ar

Cortam a carne

Choramos de orgulho

De medo

Do gás lacrimogêneo

Muitos gritam viva

Uns poucos gritam morte

A massa segue com suas bandeiras

De cores tantas

Com as bandeiras de outros

De ideias e ideais tantos

Sem saber para onde vão

Mas vão sorrindo

Cantando

Repetindo palavras de ordem

Segue em que direção?

A massa?

Amassa a massa







2013/06/18

SOMENTE UM CIGARRO ME BASTA AGORA



PEQUENO DRAMA-RELÂMPAGO





Luz sobre um homem que fala.
Não se vê mais ninguém, ouve-se somente a sua voz.



- Nada, nada a declarar! – só isso tenho a dizer a cada um de vocês. Não me sinto com obrigação de falar nem uma única palavra sequer! Sim, dei o tiro, mas poderia ter sido uma facada, uma paulada, uma pedrada, uma garrafada como nos filmes de ação. Mas resolvi que deveria dar m fim naquela situação um simples e rápido tiro.

“Pum! Fração de segundo depois o corpo no chão. A mancha vermelha no chão. Minha arma ainda fumegante também no chão, e no chão deixei as marcas de meus sapato que seguiram vermelhos pela sala, para a saída do apartamento.

Não pensei em correr, em fugir, em me esconder. Era patente o meu desejo, a minha ânsia, só não viu quem não quis, quem não quis se envolver, tomar partido, meter a colher.

Aqui estou dando meu depoimento. Perguntem e responderei, sequer alegarei ser réu-primário, um cigarro nesse momento me basta.

Não, não sinto qualquer tipo de arrependimento, nem culpa, nem frio, nem nada, somente a vontade de fumar um cigarro.

Cumpra-se a Lei, sigamos a Ordem, façam a Justiça. Eu já fiz a minha. Estou em paz. E vocês?

Poupem-se de me perguntarem por que fiz o que fiz, não sou louco, logo motivos tive, e ouso dizer, tive-os muitos!

Não os enumerarei, não me justificarei, cumpram o rito e condenem-me logo. Não quero ir ao velório, nem ao funeral, por mim que joguem o corpo aos abutres ou deem de pasto às chamas.

Um cigarro, por favor”.




Silêncio.

Cai o pano

2013/06/01

DOIDINHO -

A PAZ

A paz reina no lar, a família sorri, respira aliviada, a harmonia domina o ambiente. Se não fosse já noite alta, os pássaros estariam cantando, as flores estariam abertas emanando seus perfumes e um arco-íris enfeitaria o céu...
Dona Dedé deixa seu tricozinho de lado, senta-se à mesa com os sobrinhos; jantam, bebem vinho, tomam um licor e cochicham bem baixinho. Não seria bom facilitar com o azar...
Juntos desfrutam de tudo que um verdadeiro lar pode oferecer a uma família.
Sim, a felicidade está no ar.
Mas cuidado, qualquer barulho pode acordar o Doidinho!

- Shhhhhhhhhhhhhhhhh!!!


2013/05/03

FATOS TRISTES DESSA VIDA¹



Era uma vez uma jovem muito linda, mas também na mesma medida, muito infeliz. Seu único desejo na vida era se tornar feia. Somente vinte dois anos, cinco filhos e trinta e sete quilos depois conseguiu isso.

E sim, hoje é feliz!

2013/04/03

O CAFÉ CONSTRANGIDO





Meio dia e vinte.

Acabado o almoço apressado, vou ao café. Sim, sempre o café no meio. Estou sentando à mesa com dois novos amigos.

À mesa, ao meu lado o Comandante Castro e o Seu Wanderley. Não falamos coisa com coisa, hora de descanso, nada de importâncias, nada de urgências, urge sim nos distrairmos para encarar o resto do expediente.

Fomos servidos pela mocinha que não sorri. (logo inferimos que há uma que sorri!)

Pernas esticadas sob um céu azul digno de Montevidéu (se duvidam, vão lá conferir), cigarros acesos. Sim o bom Deus deu-me companheiros que tomam café e fumam!¹

Tudo parecia seguir um bom rumo, quando um mendigo (ou devo escrever cidadão em situação de rua?) aparece. Como estava de costas para ele, de costas continuei. Há muito perdi as esperanças de salvar a humanidade e esse mundinho. Deixei que o Comandante Castro ou o Wanderley falassem com ele.

Nada. Ele tocou-me as costas, virei e antes que pronunciasse aquele lengalenga, disse-lhe que nada tinha e que os companheiros na mesa estavam pagando o café hoje.

Não adianto e para minha estupefação, ele ajoelhou-se no chão chorando. As pessoas que passavam pela calçada nos olhavam.

Uns com reprovação pelo nosso coração duro, outros, talvez irmanados no nosso constrangimento viravam o rosto para o outro lado.

A cena desenvolvia-se em câmera lenta.

Eu não sabia o que fazer, no único e esperado momento do dia em que relaxo, aquele indivíduo ali de joelhos, as lágrimas prestes a descer-lhe pela barba imunda me constrangendo, quase me obrigando a dar-lhe uma esmola, uma moeda, ou em caso de maior desespero, um tiro para acabar com aquela drama.

Situação horrível de se viver.

Virei-me e o deixei chorando ali sozinho, o café amargou-me a boca e cigarro perdeu a graça.

Passados longos segundos, por fim ele levantou-se e foi embora. (Sem não antes, sarcasticamente, nos agradecer por nada e nos recomendar ao bom Deus).

Não pudemos deixar de reparar que ele usava bermuda de surfista mais cara que a calça que usávamos, sem contar o tênis² de marca, daqueles que se matam facilmente hoje em dia para roubar.

Esse mundo não tem mais salvação.





[1] Viu Magrão, viu?
[2 ]E pensar que mantenho o anacrônico hábito de ainda engraxar meus sapatos...


2013/04/02

CURTO, GROSSO E VIOLENTO


(Teatro relâmpago)





Um sujeito anda pelo outro lado da rua. Alto, seco, olhos fundos e injetados de sangue, usa uma capa comprida, surrada e muito suja, seu aspecto não é nada melhor que sua roupa. Ginga de um lado para outro, como um barco no mar, provavelmente bêbado.

- Fala ai Bill! – Bill não ouve, se ouve finge que não e segue em frente.

O amigo que segue ao lado sussurra:

- Você fala com o Bill? Isso é loucura, ele explodiu a mulher no ano passado...

- E eu com isso? Se pudesse eu esvaziava minha assim ó, pam-pam-pam.






Cai o pano bem depressa

2013/03/28

A FUMAÇA DE MEU CIGARRO



a fumaça quente entra pela

minha garganta

passa deliciosa

e delicadamente

em meus pulmões

e saem azuis

pelas minhas narinas

repito essa ação várias

e várias vezes ao dia

vejo o céu anil

sorrio discretamente

pois sei

ah! se sei

que sou eu

e somente eu

quem o pinta assim tão azul

com a fumaça de meu fumo







Para Comandante Castro resisir à sanha de deixar de fumar!

2013/03/25

DIÁLOGOS (OUTROS)





- Não, eu não volto mais lá. De jeito nenhum, não insista, não me obrigue. Não vou!

- Covarde.

- Sim sou um covarde, medroso, maricas, galinha, o que você escolher para me ofender, mas lá eu não entro mais.

- Esse medo é irracional!

- Irracional? Irracional é ver tudo aquilo que eu vi, tudo aquilo e muito mais...

- Beba mais um copo! – gritando para o garçom. – Ivan¹ ! Mais um copo pro fracote aqui.

- Não sou fracote, mas admito que estou assustado...

O garçom traz um copo com uma mistura de vodca e tequila, que é sorvida de um gole só.

- Então? Sentindo-se melhor?

- Não. Minhas mãos ainda tremem, acho que terei pesadelos por dias a fio...

- Coisa de menininha, pesadelos, acordar suado, gritando pela mamãe... Menininha!

- Cada vez que pisco, aqueles...

- Aqueles?

- ... homens verdes, de olhos grandes, dois buracos na cara em vez de um nariz...

- Acho que você está sonhando agora, nada disso existe!

- Existe!

- Não existe!

- Não!

- Pois sim.

-Duvido!

- Então pague as bebidas que eu vou lá te mostrar, de longe, mas vou lá te mostrar!

- Ivan, a conta e um chiclete de hortelã!


***


- É aqui. Aquela casa amarela. A porta está aberta, pode entrar. Fico vigiando.

- Covarde.

- Sou mesmo. Covarde com vontade de morrer de velhice, cercado pelos seis filhos, dez netos, e quinze bisnetos.

- Melhor fazer logo uma vasectomia...

- Você vai ou não vai entrar na casa?

- Vou, sou macho o suficiente para encarar seus homenzinhos de olhos verdes...

- Eles são verdes, eles é que são verdes!

- Ok, que seja, verdes, azuis, furta-cor, arco-íris. Lá vou eu.



***



- Irado cara, irado, muito louco. Maluco!

- O que você viu lá? Eles estavam lá? Viu aquele troço enorme na parede?

- Irado. Irado!

- Você está choque...

- Irado...

- Vamos voltar ao bar, o Ivan vai te curar...

- Currar?

- Curar!


***

- Então, está melhor?

- Ivan mais um copo dessa beberagem dos infernos...

- Vamos me diga o que você viu?

- Você nunca viu um filme de ficção científica?

- Nunca. Só assisto filmes de arte!

- Nenhum em toda a sua vida?

- Não poluo minha mente com besteiras pseudocientíficas

- Sua besta arrogante!

- Alcoólatra!

- Vai partir para a ignorância?

- Vamos, me diga o que era aquilo, o que era?

- Se você abrisse a sua mente saberia que aquilo é um...

- Sem mistérios!

- É um...

- Sem dramas!

- Um...

- Ivan, formicida com quatro pedras de gelos! Já!

- ... Stargate!

- Ivan, esse copo é para mim.






¹  Garçom amigo do Vadinho!






FIM






2013/03/14

O HOMEM NA ÁRVORE



Um homem num árvore

Inspira cuidados

Pode ser louco

Pode ser uma manga madura...



Pode querer

Gritar

Pode querer

Cair

Pode querer

Voar



Se gritar

Não o ouvirei

Se cair

Não o socorrerei

Se voar

Atiro-lhe uma pedra



Um homem numa árvore

Uma arvore na cidade

Nós que passamos

E desatentos

Perdemos todo esse absurdo



2013/03/08

O VAZIO




O vazio que ele traz

Não está no bolso

Nem no oco da carteira

O vazio que ele traz

Esta nos olhos

Esta na sua alma

Que o leva por

Ruas desertas

É nas gretas do quintal

No trincado das paredes

Nas lembranças

E nas fotos

No fundo das gavetas

Vazio

E somente esse vazio

O preenche por hora...



Para o "Comandante"

2013/02/21

ELOCUBRAÇÕES



Seis horas, acordo e me deparo com o chão coalhado de baratas mortas, suas pernas finas tremendo ao vento que entra pela janela.

As cortinas dançam com a mesmo aragem.

Essa cena me faz voltar no tempo e me lembrar de frei Justino, - que Deus o tenha! - num domingo na hora da comunhão de repente quedou-se paralisado, em choque com a hóstia levantada na mão direita, olhos esbulhados olhando em direção à assistência, babando começou a murmurar para o coroinha:

- Tire esse cágado da igreja, tire esse cágado da igreja...

O mais patético era que não havia cágado nenhum na igreja, o pobre homem surtou, enlouqueceu, e foi retirado da igreja á base de muito calmante...

Volto - essas minhas idas ao passado me dão vertigem - ao presente e as baratas continuam ali no chão, mortas de barriga para cima.

Desvio-me delas, senão com nojo, com cautela...

O sol promete mais calor, a continuar esse clima assim logo, os vizinhos me encontrarão morto, duro e suado na cama, e tal e qual essas “Periplaneta americana”- eu as odeio, mas as conheço - em decúbito ventral e como o velho Justino, de olhos esbugalhados.

Nunca mais tive notícias de frei Justino!

Vou à cozinha, reviro o armário, acho o inseticida que usei à noite passada, leio as instruções.

Penso com meus botões:

- Arma de destruição em massa...

Resolvo jogar esse veneno fora. Não quero em minha consciência os fantasmas de meu passado me assombrando a cada inseto morto – e há tantos nessa cidade!

Enquanto jogo o veneno no lixo decido-me:

- Domingo vou à missa!



2013/02/15

O ELEVADOR



Ding.

A porta do elevador abriu. Décimo terceiro andar, estava escrito em letras vermelhas na placa defronte .

Décimo terceiro andar, aqui estou. Sim, aqui, agora preciso sair do elevador, respiro fundo e...

...dou um passo à frente, a porta ameaçou fechar, mas minha perna esquerda a impediu. Doeu, é possível que o joelho inche à noite.

Permaneci parado.

Indagava-me se deveria seguir em frente, sair de vez do elevador, dar o passo decisivo, seguir pelo corredor, parar em frente ao apartamento número X, tocar a campainha...

Logo vai escurecer.

As promessas são quase palpáveis, sinto que posso tocá-las, pegá-las e guarda-las em meu bolso.

O que ela deve estar vestindo a essa hora?

- Aquele tafetá verde? Quimono de seda branca com aqueles dragões vermelhos? Preparando um sushi? – rio-me amargamente dessas perguntas.

Seu perfume... Quase poderia senti-lo nas paredes, no tapete... Se estendesse a mão poderia pegá-lo e guardá-lo dentro de meu lenço...

Ding. Ding, Ding.

Alguém está chamando o elevador.

Preciso me decidir.

Ding. Ding, Ding.

Desço.

Lá fora o sol ainda brilha, mas dentro de mim uma chuva torrencial desaba sobre minha cabeça, a água chega a escorrer pelos meus sapatos.

O sax da música do elevador segue em minha cabeça fazendo a trilha sonora do meu fracasso.

- Esse maldito Kenny G e suas músicas...

Deixo pela rua, que agora escurece, marcas de pegadas úmidas pelo chão. (chuap-chuap-chuap)

Ao dobrar a esquina, antes de pegar o ônibus jogo fora o seu endereço, sei que demorará me esquecer desse dia. Se ao menos chovesse fora de mim poderia derramar essas lágrimas que agora me afogam por dentro.

- Sabia, 13 nunca me deu sorte!



2013/02/13

CARNAVAL PASSOU


O bloco passou

A música acabou

As garrafas esvaziaram

Ela se foi

E só ficaram esses confetes colados na sua pele


2013/01/16

JAGUNÇO




Acabo de voltar da rua, encharcado até os ossos.

Mas não quero reclamar da chuva, nem da falta dela onde mais se precisa que aqui. Para isso temos os noticiários que não nos deixam esquecer. Na rua, lembrava-me de uma conversa que tive pela manhã.

Uma amiga reclama do fim de seu casamento e de não conseguir colocar o ex-amor para fora de casa, antigo ninho de amor, promessas e agora sonhos desfeitos.

Segundo ela, há vários dias deu ao companheiro o aviso-prévio, o caia fora, rua.

Mas ele faz-se de desentendido e continua assombrando as paredes do lar.

Dizia-me ela, que já não mais se falavam, faziam as refeições em horas diferentes, dormiam em quartos separados.

Todos os dias ao sair para o trabalho recomendava (creio que esse recomendava é eufemismo) que ele não estivesse mais em casa a hora que ela voltasse à noite, mas, ó desilusão, ao chegar encontrava o mancebo largado no sofá assistindo televisão, gritando a cada gol de seu time preferido, esperando ainda que ela lhe fizesse o jantar. Se isso remete o leitor a um samba antigo é pura coincidência. ¹

Ri de sua situação. Me diga o leitor o que se pode fazer numa circunstância dessas?

Pediu-me conselhos. A mim!

Ri uma segunda vez e perguntei-lhe se falava sério? O que poderia eu dizer-lhe, como eu poderia ajudar-lhe. Esse é caso em que terceiros não ajudam em nada e podem, ou conseguem somente atrapalhar.

Indaguei se não seria uma fase, pois o casamento como a lua tem lá suas fases. Como a maré (coisa de quem mora no litoral) tem lá seus altos e baixos...

Resumindo, fui tirando meu time de campo colocando panos quentes, saindo pela tangente.

A conversa prometia ir longe, com detalhes e mais detalhes, que só servem, no futuro, para nos deixar encabulados por tê-los ditos. A palavra como flecha, depois de disparada não tem volta (eis aqui uma pérola de profunda sabedoria), assim sendo tentei fazer a velha amiga não abrir tanto assim seu coraçãozinho.

Debalde.

A horas tantas, sim horas “e” tantas (mesmo) ela visivelmente desesperada (aqui não nos cabe julgar se seria caso para tanto desespero) me pergunta:

- Você que conhece tanta gente em tantos lugares, não conheceria algum jagunço que desse uma lição, ou mesmo leve susto nele?

Veja leitor, eu conhecendo um jagunço, eu?

Não foi possível outra vez segurar o riso.

Senti uma mágoa profunda nela, pois, agora sim, era visível sua desesperança.

Tentei desviar a conversa para outro assunto.

- Olhando pela janela vejo que vai chover logo.

Pausa.

Pensei com meus botões, ela deveria estar constrangida com seu desabafo, envergonhada da sugestão de dar um fim definitivo no futuro ex-companheiro, talvez já se imaginando nos jornais da noite, horário nobre na TV. Retalhado, encontrado num terreno baldio, pedaços espalhados numa praia, sei lá o que se passa na cabeça de uma desesperada.

A cara estampada na capa de uma revista sensacionalista!

A cena desenvolvia-se em minha cabeça...

Esperei mais algum tempo e seu silêncio continuou ate minha hora de almoço. Sem mais nenhum contato desliguei o computador e saí.

Na rua pensava ainda na sua pergunta sobre eu conhecer um jagunço, e lembrei que há uns trinta anos, quando jovem e fazendo teatro amador, sai uma noite - sim aqueles casos com o Vadinho como sempre - a procura de sanfoneiro para uma peça que montávamos à época...

Ora bolas, eu lá tenho cara de quem conhece sanfoneiros e jagunços? Poderia ter me aprofundado mais no assunto, não fosse a chuva me trazer de volta à realidade.









¹Golpe Errado

Geraldo Pereira

Lá vem ele com seu terno branco engomado/trazendo outra morena a seu lado/E a nega dele na casa da branca se acabando /E ainda leva o jantar embrulhado/É... um golpe errado/todo mundo diz que é../um golpe errado/Na hora que ele sai /pra batucada/é a hora que ela chega do trabalho/e tem de fazer de madrugada/um bife malpassado prá ele /Não ficar contrariado./É...um golpe errado

2013/01/14

IDEALISTA




Pobre homem

Cheio de amor e fé

Pela humanidade.

Padece

Planeja e sonha

Transformar lágrimas em risos

Doenças em saúde

Findar com a miséria

Criar, enfim, um mundo ideal

Te aviso pobre idealista:

- Nessa máquina as engrenagens são quadradas!

Pois saibas

Na verdade serás

Mastigado

Cuspido

E esquecido

A ti nem estátua

Nem placa de rua

Nome de manicômio

Serás pó

Esquecido

Ou pior

Hás de ser modelo de mau-exemplo!



2013/01/08

O MESMO




O despertador toca às seis horas em ponto.

Mais um dia, um dia igual ao de ontem, em suas alegrias e tristezas, o mesmo sol, as mesmas nuvens no mesmo lugar, como se fossem pintadas na tela azul do céu. O canto dos pássaros como num disco de vinil arranhado. E ele que gostava do canto dos sanhaços...

A campainha da porta toca.

- Mauro, passe amanhã. – grita da cozinha sem se dar ao trabalho de ver quem é.

- Mas você disse isso ontem – responda Mauro.

- E direi o mesmo amanhã e depois de amanhã. Responde passando manteiga no pão, o mesmo pão de ontem, que será também o de amanhã.

Os passos de Mauro descendo as escadas, a porta da rua batendo, os pneus do carro derrapando na rua e quase atropelando Mauro que escapa por um triz. Antes ele corria à janela para ver o que havia acontecido...

O mesmo dia se repetindo.

Ele abre o jornal, ainda quente, o cheiro da tinta, dobrado sobre a mesa. Na manchete a mesma tragédia, o mesmo número de mortos, seu horóscopo com a mesma previsão, “cuidado com a alimentação e falsos amigos, aproveite seu dia como se fosse o último”.

- Antes fosse! – pensou alto num longo suspiro.

O mesmo dia de trabalho, aquele processo sem solução, a mesma bronca do chefe na mesma hora da tarde – 15h30 no relógio da praça, onde mostrava ainda a temperatura, 32º -, o mesmo telefonema atrás da funcionaria Madalena da Silva – Tia Dadá do café, a mesma resposta:

- Ela está de férias. – e pensou “longas férias...”

De volta à sua casa, a mesma dose de formicida, as mesmas dores nas tripas sendo dissolvidas, o desmaio, o baque no chão quadriculado e frio, o acordar na cama no dia seguinte com despertador tocando às seis horas em ponto...

O mesmo dia se repetindo.

Se ao menos ele se lembrasse de trocar a folhinha ao acordar...