2013/04/03

O CAFÉ CONSTRANGIDO





Meio dia e vinte.

Acabado o almoço apressado, vou ao café. Sim, sempre o café no meio. Estou sentando à mesa com dois novos amigos.

À mesa, ao meu lado o Comandante Castro e o Seu Wanderley. Não falamos coisa com coisa, hora de descanso, nada de importâncias, nada de urgências, urge sim nos distrairmos para encarar o resto do expediente.

Fomos servidos pela mocinha que não sorri. (logo inferimos que há uma que sorri!)

Pernas esticadas sob um céu azul digno de Montevidéu (se duvidam, vão lá conferir), cigarros acesos. Sim o bom Deus deu-me companheiros que tomam café e fumam!¹

Tudo parecia seguir um bom rumo, quando um mendigo (ou devo escrever cidadão em situação de rua?) aparece. Como estava de costas para ele, de costas continuei. Há muito perdi as esperanças de salvar a humanidade e esse mundinho. Deixei que o Comandante Castro ou o Wanderley falassem com ele.

Nada. Ele tocou-me as costas, virei e antes que pronunciasse aquele lengalenga, disse-lhe que nada tinha e que os companheiros na mesa estavam pagando o café hoje.

Não adianto e para minha estupefação, ele ajoelhou-se no chão chorando. As pessoas que passavam pela calçada nos olhavam.

Uns com reprovação pelo nosso coração duro, outros, talvez irmanados no nosso constrangimento viravam o rosto para o outro lado.

A cena desenvolvia-se em câmera lenta.

Eu não sabia o que fazer, no único e esperado momento do dia em que relaxo, aquele indivíduo ali de joelhos, as lágrimas prestes a descer-lhe pela barba imunda me constrangendo, quase me obrigando a dar-lhe uma esmola, uma moeda, ou em caso de maior desespero, um tiro para acabar com aquela drama.

Situação horrível de se viver.

Virei-me e o deixei chorando ali sozinho, o café amargou-me a boca e cigarro perdeu a graça.

Passados longos segundos, por fim ele levantou-se e foi embora. (Sem não antes, sarcasticamente, nos agradecer por nada e nos recomendar ao bom Deus).

Não pudemos deixar de reparar que ele usava bermuda de surfista mais cara que a calça que usávamos, sem contar o tênis² de marca, daqueles que se matam facilmente hoje em dia para roubar.

Esse mundo não tem mais salvação.





[1] Viu Magrão, viu?
[2 ]E pensar que mantenho o anacrônico hábito de ainda engraxar meus sapatos...


10 comentários:

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

O senhor não percebeu que no dia seguinte ele passou reto?

Ranzinza disse...

Miserável ingrato!

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

Nem para agradecer nossos sábios ensinamentos de moral e cívica...

Ranzinza disse...

Por isso há de continuar a mendigar pelas ruas...

magrão disse...

QUER DIZER QUE COMPANHEIRO É SÓ QUEM FUMA????... aaaahhhhhh

Ranzinza disse...

Bwahahahaah... "menas, menas"

alexandre, também cohecido como magrão disse...

Ainda bem que não foram amaldiçoados...

Barbarela Magrela Cravo & Canela disse...

Você tem sérios problemas com cidadãos em situação de rua heim? Não é o primeiro caso que leio!

Ranzinza disse...

Magrão, acho que do jeito que ele falou pareceu-me uma maldição sim...

Magrela, o centroda cidade está coalhado deles...


Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

São muitas as marquises na Cidade, pena que a última que caiu foi num trabalhador.