2010/09/13

ALTEMAR


- Altemar, afaste-se! Não vou falar outra vez, afaste-se. Não vou escrever a história da sua vida, desista! E para com essa fumaça, você sabe o quanto ela me incomoda. E não bata a porta quando sair da sala.

Altemar sai e bate a porta. Desce as escadas fazendo barulho, derruba o vaso que estava num console, e pelo estrondo, tropeçou outra vez no tapete da sala. Pela janela ele vê as galinhas fugindo apavoradas pelo quintal, seguidas pelo cachorro que late aterrorizado.

- Altemar ainda vai me deixar louco! – murmura rindo de si mesmo.

Voltando o silêncio, Rigoberto retorna ao computador, pousa os dedos – os dois de cada mão, pois o resto mais atrapalha que ajuda – e tenta escrever. Onde estava mesmo? Relê o texto pela terceira vez.

Volta à janela, olha o maço de cigarros sobre a escrivaninha, ele está ali há cinco anos, desde que conhecera Altemar ele largou o vício pois os dois juntos era fumaça demais. Mas tinha vezes que o cigarro era uma ajuda bem-vinda. Rigoberto pegou um, mas logo se arrependeu e o jogou pela janela.

- Não fumarei hoje e nem nunca mais!

Desolado volta ao computador e recomeça a digitar a sua história encalhada a tantos dias. Escrever e deletar, escrever e deletar, escrever e deletar, realmente a história não avança uma sílaba sequer. O suor brota em sua testa, as folhas de papel grudam em suas mãos, os latidos do cachorro e o cacarejar histérico das galinhas não o ajudam a relaxar nem escrever. Rigoberto bate com as mãos na mesa e espalha sua coleção de lápis pelo chão.

- Ele não vai me convencer a pô-lo nessa história, não vai! Para seu espanto, uma galinha voa até a janela de seu escritório que fica localizado no sótão da velha casa. A galinácea está em pânico.

– Essa vai ficar sem botar uma semana, eu ainda vou acabar matando o Altemar... E acho que deveria ter continuado com o cigarro...

– Toby!, pára de latir desse jeito! Não deixe o Altemar te perturbar desse jeito! – grita com o cão.

Positivamente esse conto não sai mais. Outra história que vai, ou para o fundo da gaveta ou para a lata de lixo. Mais brinquedinho para o Altemar...

Rigoberto pensa em descer até a cozinha, tomar um café, comer alguma coisa, ler um jornal, uma revista, qualquer coisa que o faça esquecer por uns instantes essa porcaria de história inacabável, mas logo ouve o barulho de panelas caindo no piso da cozinha, e resolve que comer os amendoins ao lado do computador dá menos aborrecimentos.

Rigoberto encara o monitor, olha com desânimo para as cento e duas teclas do computador, mas a galinha catatônica no vidro da janela não o deixa concentrar-se em nada. Lá fora o céu começa a escurecer.
- Lá vem chuva – pensa – o que vai acontecer com essa galinha ai?

Outro barulho vindo agora da sala faz Rigoberto deixar suas preocupações com a galinha de lado. Altemar ligou a televisão.

Programa de entrevistas, perguntas vazias, respostas pomposas e sem sentido, risadas programadas, intervalos com propagandas imbecis, Altemar absorvia tudo isso como uma esponja absorve água, e depois entornava esses disparates pela casa. Rigoberto mais que tudo, detestava esse hábito medonho de Altemar repetir tudo o que ouvia, principalmente se fosse bobagens.

O tempo passava, e ele passava inutilmente sem produzir nada, sem escrever nada, esgotando o prazo de entrega do texto, as horas correndo como se fossem minutos, os minutos como segundos, Altemar firmemente decidido a por a casa abaixo, o barulho, as galinhas correndo no quintal, Toby ficando rouco de tanto latir, a carijó paralisada de pânico na janela...

Rigoberto então grita:

- Altemar, pode subir.

As escadas rangem com o peso de Altemar, a porta quase cai quando ele a abre, e soltando fumaça pelas fuças, pergunta, enquanto a galinha desmaia e cai para o quintal:

- Então, resolveu escrever histórias de dragão?

Um comentário:

MIRZE disse...

CÔMICO!

Ninguém consegue escrever assim; Tão tenso que contou as teclas do computador. Toby latindo, galinha cacarejando e a estória era de dragão.

NUNCA ia ser possível.

Ótimo, Roberto!

Tinha que ser seu.

Beijos

Mirze