2012/04/04

CASINHA


1º Dia, café da manhã



- Mulher, que sonho estranho tive essa noite...

Coça a cabeça e sem jeito pergunta à mulher:

- Por acaso nós já moramos numa casa? Com árvores? Quintal gramado? Galinhas soltas no quintal? A casinha era de madeira, branca, janelas grandes, cachorro ruço amarrado na árvore - um limoeiro - porque latia muito... Você não acha estranho esse sonho? Parecia verdade, eu andava desenvolto pela casa, conhecia os quartos, corredores, cada gaveta, o macete para abrir uma janela problemática...

- Acho que você anda chateado demais com esse apartamento – responde a mulher sem dar muita atenção á angustia do marido - e anda louco prá se mudar para um lugar mais sossegado... É só isso, agora toma o café senão vai se atrasar.



5º Dia, consertos e machucados



- Ontem precisei trocar a torneira lá dos fundos – diz enquanto passa manteiga no pão. Olhe só, acabei machucando minha mão – estica o braço direito e mostrar uma mancha roxa no peito da mão. Essa casa me dá muito trabalho, - e batendo a mão sobre a mesa diz - mas não vendo ela não!

- Do que você está falando homem? Você deve ter batido a mão na cabeceira da cama, nunca vi sono mais agitado na minha vida, fala, resmunga, reclama, xinga...

- Que cabeceira nada, foi a chave inglesa que machucou minha mão! – Esfrega a mancha e reclama da dor.

- Deixe de bobagens, você está ficando é obcecado com esses sonhos. Vá trabalhar e depois para num bar e vá beber com seus amigos. Você precisa relaxar e parar de se preocupar com essas bobagens... Vá logo antes que se atrase perca o emprego esse apartamento e – e escarnecendo do marido - a sua casinha dos sonhos.



8º Dia, um domingo



- Achei que não fosse acordar mais, veja as horas! Quase hora do almoço. Não vou requentar café prá ninguém, se vire...

- Já tomei meu café lendo jornal na varanda da casa. Depois de pintada de branco está uma maravilha, você precisava ver, cadeira de balanço sem nhéc-nhécs, passarinhos, e o cachorro agora parou de latir feito bobo e está correndo pelo quintal todo feliz. Não precisa se preocupar com o almoço eu vou comer lá em casa mesmo, afinal tenho que aproveitar o meu domingo para terminar uns servicinhos que foram ficando, ficando e hoje vou terminar tudo.

- Sabe, - suspira profundamente - agora estou realmente preocupada com esse seu sonho, loucura, paranóia ou que nome se dê a isso. Amanhã vamos ao médico, vamos ver o que ele tem a dizer sobre isso... Isso não é normal... Vá tomar um banho enquanto troco os lençóis da cama.

Do quarto a mulher grita:

- Oswaldo! Que manchas são essas no lençol?

- Deve ser do Toby... – responde distraído remexendo sua caixa de ferramentas.

-Que Toby homem? Que Toby? – Oswaldo não ouve a mulher chorar baixinho num misto de profunda preocupação e um horror que começar a crescer em seu peito.



12º Dia, a sogra fica sabendo de algumas coisas...



- Agora ando com medo dele, - falando ao telefone com a mãe - medo dele morrer dormindo, dele acordar louco por estar no apartamento e não na “sua casinha dos sonhos” – fala entre afetada e assustada – tenho muito medo de ficar sozinha com ele em casa. Já nem tomamos café juntos, saio antes dele, tomo café na rua, pois ele já acorda de “café tomado, jornal lido, e andado com o Toby, o cachorro que latia muito. Aliás, outro dia o Oswaldo e disse que o Toby pega o jornal na rua e leva a te a cama. Onde já se viu isso, onde essa história vai parar? Quarta-feira foi dormir mais cedo para assistir o futebol “em casa”, lá tem parabólica e os vizinhos não são barulhentos... Mãe, estou com medo!



18º Dia, Toby aprendeu a pegar a coleira e saber a hora de passear na rua!



- Que progressos estou fazendo com esse cachorro. – Diz Oswaldo esfregando as mãos exultante. Ele me trás o jornal na cama, pega a coleira quando quer sair, sabe abrir a porta da cozinha nos fundo sem arranhar a madeira, fica com o pote de comida na boca abanando o rabo quando está com fome e parou de fazer escândalo, até os vizinhos estão admirados... Você precisa ver o pelo dele como está brilhante depois que mudei a marca da ração, embora aquele safado não resista à tentação de roubar meu franguinho assado de cima do fogão, pilantrinha...

A mulher ouve tudo isso trancada no banheiro, chorando e roendo as unhas em frente do espelho.



19º Dia, uma surpresa para mulher



Oswaldo entra na cozinha gritando:

- Ester, os primeiros ovos, os primeiros ovos!

- Que ovos? – pergunta a mulher guardando dentro da gaveta a faca com que descascava batatas - que ovos, eu não pedi ovos nenhum prá você Oswaldo! – suas mãos agora tremem sem parar, não penteia mais os cabelos e evita sair de casa e segurar facas quando o marido está por perto.

- As galinhas começaram a botar, agora teremos ovos caipiras frescos todos os dias – diz Oswaldo exultante. Ovos frescos, gemas vermelhas, legítimos ovos caipiras do meu galinheiro! Batendo as mãos nos peitos, grita:

- Orgulhe-se de nossas galinhas mulher!

A mulher recorre à solidão do banheiro, chora baixinho repetindo assustada:

- Nossas galinhas, nossas galinhas, nossas galinhas...

Liga o chuveiro e chora convulsivamente, tudo está perdido mesmo, perdido de vez.



23º Dia. Chega de omeletes!



- Oswaldo – a mulher chora, torce o avental entre os dedos, seus cabelos parecem irremediavelmente despenteados, suas unhas encontram-se no sabugo, seu queixo bate sem parar, pouco lhe falta para o colapso nervoso – não agüento mais essa história da sua casa, esses ovos caipiras, as marcas de cachorro nos lençóis, não quero mais ouvir das obras que você está fazendo, dos canais que pegam na parabólica da televisão da sua casa. Oswaldo você precisa de ajuda psiquiátrica, você precisa passar um creme nessas queimaduras de sol... Oswaldo, não sei mais o que fazer, acho que vou prá casa da minha mãe – aqui Oswaldo bem que tentou explicar que aquilo onde a sua sogra morava poderia ser chamado de tudo, menos de uma casa, mas Estela não o deixou manifestar-se. – Oswaldo vou sair daqui e vou sair agora, se não sair pela porta da frente saio pela janela, mas saio agora. Não tente me impedir.

Oswaldo não tenta impedi-la, sorri, abre a geladeira e pega quatros ovos de suas galinhas.



1º Dia. Casa nova. O galo canta, nasce o novo dia!



- Ester, tive um sonho terrível essa noite... – a xícara de café treme em sua mão.

- O que você sonhou Oswaldo, você está pálido e suando frio, o que você sonhou, me conte.

- Sonhei que morávamos num apartamento e eu te contava que sonhava que morávamos numa casa, e você achava que eu estava ficando louco por sonhar coisas assim... – Oswaldo é interrompido por Toby que trás a coleira batendo em todos os móveis pelo caminho.

- Mas você sonha com cada bobagem Oswaldo - ela ri - vá passear com o Toby, depois passe no galinheiro e me traga ovos, hoje estou com vontade de fazer um bolo.




2012/03/27

DUAS AMIGAS NO BAR

Estava sentado na mesa de um bar outro dia, e sem querer comecei a ouvir uma conversa entre duas mulheres. Devo confessar que esse é um hábito que cultivo, pois costumo usar esses dramas da vida real em meus contos, afinal a realidade é muito mais interessante que a ficção. Vamos lá.



- Você sabe que dia é hoje?

- Ai meu Deus!, outra de suas datas...

- Não começa.

- Não começa você. Olha aí. Já começou a chorar. O dia de hoje te lembra o quê?

- O quê?, não! Quem! Me lembra quem!

- Tá certo, tá certo. Te lembra quem?

- O Célio, me lembra o Célio. Se estivéssemos juntos hoje comemoraríamos quinze anos de casados Quinze anos...

- Mas ontem você estava falando do Jorginho...

- Ah! O Jorginho seria - se estivéssemos juntos ontem - treze anos de namoro, treze anos.

- Mas como você consegue guardar tantas datas?

- Sou uma romântica incurável...

- Só por isso você vive relembrando todos os seus relacionamentos?

- É muito amor nesse coraçãozinho...

- Você tem que beber mais. – Estala o dedo, chama o garçom e pede mais dois martinis e outra porção de pistache.

- Quinze anos, quinze anos e tudo o que me resta são bolachas dos chopes que bebemos...

- Como você pode pensar ainda num cara que te levou tudo?

- Tudo não!

- Certo. Tudo não! Ele te deixou as bolachas dos chopes que vocês bebiam... Como você consegue achar esses mondrongas?

- Eles não são mondrongas. São pessoas que não foram bem-amadas, que não tiveram o carinho necessário...

- E o Márcio, aquele cafajeste?

- Ah! O Marcinho..., ele sabia fazer uns ovos mexidos...

- Ovos mexidos? Como alguém pode se apaixonar por um homem que sabe fazer ovos mexidos?

- Sábado passado faríamos doze anos de casados se...

- Ele não tivesse te largado na José Paulino...

- Não foi na José Paulino, foi na Ladeira Porto Geral, e não fique envenenando o Marcinho desse jeito.

- José Paulino, Porto geral, o que interessa é que você foi a-ban-do-na-da. Abre os olhos mulher! Procure alguém que preste, que te dê alguma coisa concreta, qualquer coisa, menos lembranças e mais lembranças e marcas nas folhinhas- Você não me entende mesmo! – Esvazia o copo de Martini e fica jogando o caroço da azeitona de um lado para o outro na boca.

- E pare com esse cacoete nervoso!

- Que cacoete?

- Esse de ficar chupando caroço de azeitona. Admita, você não sabe escolher homem! Você é incapaz de reconhecer um homem decente e honesto. Olhe à sua volta.

Ela olha e dá com o olhar do garçom que lhe sorri. Ela sorri de volta e dá-lhe uma piscadela.

- Não adianta mesmo. Você nunca vai aprender nada.

- Agora você vai implicar com o garçom só porque ele é um humilde trabalhador? Ele não pode merecer nosso respeito, nosso amor, um pouco de carinho?

- Sua burra! Tudo o que ele quer é que você beba mais. Ele só quer te encher de martinis. Esse humilde trabalhar carente de “seu amor, seu respeito e um pouco do seu carinho”, vive dos dez por cento do que vender aos clientes, ou seja, ele é quase um cafetão!

- Mas, mas...

- Engole esse choro que o garçom está vindo aí, engole esse choro.

O garçom chega e anota mais um pedido de Martini e pistaches. Antes de ir embora olha para a moça de olhos vermelhos e percebendo que ela está chorando, oferece-lhe um lenço.

- Obrigada. – Sorri e devolve-lhe o lenço.

- Você viu que cavalheiro ele é? Você viu?

- Vi, e vi como você é burra sua tonta. Olhe embaixo da mesa.

- O quê tem embaixo da mesa?

- Só te matando. É nessa hora que agradeço a Deus minha mãe ter me dado uma educação religiosa.

- O que tem a ver uma coisa com outra?

- Na minha fé creio na reencarnação! Assim eu te mato, espero você voltar e te mato outra vez. Quem sabe renascendo uma terceira vez, você volte menos burra! Sua tonta, quando ele te passou o lenço, junto veio um bilhetinho, que caiu debaixo da mesa enquanto você assuava o nariz. Estou começando a achar que você tem muita sorte de acabar seus relacionamentos sem ficar só com a roupa do corpo!

- Você me ofende falando assim...

- Ora, como você pode dizer que eu te ofendo? Olha só que você faz consigo mesma, olhe! – Diz apontando para o garçom que vem trazendo outra rodada de martini.

– Olhe só o sorriso de sátiro no cio, olhe.

A amiga olha, sorri, pisca e fala:

- E pensar que logo-logo esse aí vai estar marcado na folhinha...

- Ah! Quer saber? Você não tem jeito mesmo! – Toma o martini num só gole, levanta-se e vai embora do bar.

Eu que já havia acabado o quinto chopinho, paguei a conta e fui embora também. Não queria ver como ia começar aquele novo drama.





2012/03/12

AMOR DIGITAL

Reclama a moça
No frio da noite
No escuro do quarto
Na imensidão da cama:


Aqueles que eu quero
Quando me querem
É à distância


Nossas únicas carícias
São pelas teclas
Do computador...

2012/03/02

QUEDA/CHÃO

o grito
é sinal último
(de vida)
antes do chão



o derradeiro encontro
é entre o corpo
e sua sombra
no chão



na queda não passa
filme de nenhum da nossa vida
o que se vê
- rapidamente -
é o cenário na vertical

MEDICAMENTO

Sonhos são
Pesadelos medicados
Com os comprimidos os certos

2012/03/01

Dragão

Quando implicam com meu cigarro
Respondo convicto:
- É o dragão dentro mim
Que solta fumaça pelo meu nariz

2012/02/29

LOUCURA

vejo as janelas abertas
e uma vontade irrefreável de bater os braços
e voar me inundou
não fosse a camisa de força...

as paredes
as paredes de carvalho
as paredes sólidas
firmes, retas
o teto branco
alto
a luz clara do dia
o sol
e o azul do céu clamam por mim
mas essa camisa de força...

os passos na rua
a buzina dos carros
o barulho das motos
as vozes dessas pessoas à minha volta
sirene dessa ambulância...

as paredes brancas
as cortinas brancas
as moças de branco
os homens de branco
os lençóis brancos
o travesseiro branco
os comprimidos bancos em copinhos
igualmente tão brancos
e baba grossa
– que espuma em minha boca –
é também branca...

A QUEDA DE GERMANO


Vagarosamente, devagar, quase em camera lenta Germano cai. Como se estivesse numa gravidade lunar, sua cabeça aproxima-se vagarosamente do chão de pedras.

Numa vagarosidade vertiginosa Germano vê o chão vir em sua direção. Seus braços pesados como chumbo estão imóveis, não, não imóveis, mais parecem braços feitos de panos, balançando-se feito bandeirinhas ao vento, eles não mais obedecem a sua vontade. Germano não consegue faze-los amparar a sua queda.

O chão aproxima-se mais e mais.

As pernas, como arames, estão enroscadas uma a outra, os seus pés, parece, trocaram de lugar, onde deveria estar o direito, o esquerdo, e vice-versa.

O chão aproxima-se ainda mais.

O rosto de Germano estampa o desespero, a perplexidade, a impotência. O chão sujo está ainda mais próximo. Sua respiração está suspensa, seu coração bate tão rápido que parece que parou.

A paisagem á sua volta tornou-se um borrão multicolorido, enquanto cai Germano espanta-se com o repentino silêncio, tudo parece parado, estático, congelado.

O chão mais perto.

Germano voa, desliza pelo espaço qual um super-homem de história em quadrinhos, verticalmente flutua, cai...

O chão duro recebe o corpo de Germano.

Encabulado Germano levanta-se, amarra o cadarço de seus sapatos e segue em frente, embaraçado, envergonhado, com vontade morrer de vergonha.


2012/02/28

"TODAS AS 'PUTAS' VÃO PARA O CÉU"



Não me lembro onde foi que eu ouvi uma vez essa frase assaz interessante, "Todas as putas vão para o céu", aquilo ficou encasquetado na minha cabeça. Raramente se ouve falar bem de putas, deve ser, eu acho, por causa dos filhos delas, coitadas, afinal elas não têm tempo suficiente para educá-los, e eles acabam indo para Brasília, ou virando juízes de futebol, motoristas de taxi, caminhoneiros, funcionários públicos e outras pragas sociais...
Mas não vamos tergiversar, sigamos com as putas, digo o assunto.
Acho que ouvi essa frase num bar, num dos muito brindes¹ que se fazem a torto e a direito, quando os vapores do álcool sobe às cabeças. Brindamos a tantas coisas sem sentido... Que atire a primeira pedra aquele que em sua juventude, não freqüentou a zona de prostituição² . Que aprendeu o B-A-BÁ do amor carnal (de onde tirei isso meu Deus?). Que atire a primeira pedra, aquele que não saiu em matilha
Caçando feito um cão faminto, farejando de porta em porta, de puteiro³ em puteiro, entrando naqueles hoteizinhos de quinta categoria, todos tendo como fundo musical aquelas pérolas da música brega (recuso-me terminantemente a dar exemplos, até porque eu não freqüentava esses antros de perdição), segurando uma cerveja até ela esquentar, por falta de dinheiro para consumir outra.
È...
Essa era vida antes da internet. Eu tinha um colega, que era chamado de "O Pai da Zona*", aonde chegava era uma festa, as putas iam abraçá-lo, e ele pagava cerveja para elas (e ele sorria feito um coronelzinho de terreno baldio), parecia uma cena de livro de Jorge Amado. E olha que devíamos ter à época mais ou menos uns dezoito anos, nas loucuras da recém chegada maioridade. Lembro que tínhamos dois medos que nos perseguiam (e que temperava a aventura), a saber:

1. Que algum conhecido de nossos pais nos visse,

2. Gonorréia4

Vejam como as coisas pioraram de lá prá cá!...
Fazendo um tim-tim proponho um brinde às putas, afinal: "Todas vão para o céu".
Sei que vocês meus contemporâneos se lembram dessa época5 !










*Criatura citada forma pejorativa, patética e ridícula no conto O VELHO BILL, AS FLORES E EU pulicado nesse blog.

[1] Tim-tim
[2] A BOCA pros íntimos
[3] Espero não ofender o leitor com tais palavras.

[4] Blenorragia para os mais sensíveis
[5] Silvio, Memorioso, Besta-Cinzenta e outros tantos...



2012/02/27

O ZEN-BUDISMO RESOLVE?



Oito e cinqüenta e cinco.

O tempo passa e logo ela chegará.

Estou aperfeiçoando minha técnica zen-budista de concentração e de desligamento da realidade à minha volta. O meu mestre é severo e cobra caro, mas parece que sou um bom aprendiz, pois às vezes consigo realmente me desligar do mundo, só voltando quando sufoco. Essa é a parte ruim do negócio, me desligo tanto que me esqueço de respirar. Mas logo vou superar essa fase.

Nove horas.

A qualquer momento ela entrará...

Chegou.

“Ozérobertovaimorrerelevaimorrerjáestouatévendoquandochegaremcasaànoitevouencontrareleestiradonochãodacozinhaqueueacabeidetrocaropisoeaindaestoupagandoelevaiestarmortomortomasnãopenseelequeporcausadamortedelevoudeixardefazerminhaviagemhanãovoumesmovocêbemsabequejáestoupagandoaviagemfazseismeseseeuaviseiqueseelenãosecuidasseemorresseeulargavaelemortonochãodacozinhamesmoeuatéjáfaleiparaaminhafilhaqueseelemorrernochãodacozinhaeeulargoelelámesmoevouviajar...

Ela pega o telefone, começa discar e continua falando :

“...vouviajareelequesedanenãosouempregadadeleeusouaesposaesposaalôfilhaestouteligandoparadizerqueozérobertoquermorrerevaimorrerestouvendoahoraquevouchegaremcasaeencontarelemortonochãodacozinhaagoraqueueacabeidetrocaropisosimaquelepisoclaroquevocêgostoutantolembrapoiséelevaimorrereeuvouviajardequalquerformaestouteavisandoparadepoisnãodizeremqueeusouissoeaquiloelevaimorrerelenãoquertomarremédionãoquersetratarnãoquercaminharcomigonapraiaelevaimorrereeunãovoudeixardeviajarporcausadeleporfalarnissoprecisoligarparaacostureiraevercomoestáomeuvestidodenoitequeuemandeelafazerparaobaileànoitenonavioeleévermelhocomdetalhesemamarelorosalindolindoigualzinhoovesitodaeduardinhaelaestáaí?euquerodarumapalavrinhacomelaafinalelaprecisasaberqueoavôdelavaimorrervaimorrerlánacozinhaqueeutroqueiospioporessesdiashaporqueelefazissocomigomedigaafinalvocêconseguiuaqueleempregoquemestáfalandoorameninaeuestavafalandocomasuamãedizendoqueseuavovaimorrerparedechoraremechameasuamãeentãoestavafalandodovestidovermelhoentãomeninavocêprecisaverquelindoeleémeudeuseuaquiperdendomeutempocomvocêeassimacaboesquecendodeligarparaacostureira...”

Não sei como acabou a história. Lembram-se daquele meu problema com a concentração zen-budista?

Desmaiei e fui retirado da sala, voltando a mim lá na cozinha sob abanos dos colegas, que preocupados teciam comentários sobre minha pressão arterial, taxa de glicose, se teria ou não tomado café antes de sair de casa, se não seria aquele maldito cigarro que eu nunca tirava da boca...

Tudo isso me aconteceu às nove e quinze da manhã e o meu expediente termina às dezessete horas. Então, munidos de uma calculadora, vejam quantas vezes ainda desmaiarei hoje?

2012/02/23

Assim sou

Assim sou
Sou o que falo
O que não falo
O que quero dizer
Que nego o que disse
Que disse sem dizer
Sem querer
Sim, assim sou
Quem me conhece
Sabe
Ou pensa que sabe
Ou sabe e nem percebe
Assim sou
Assim pareço
Transpareço
E desapareço
Não explico
Não confundo
Mas sou profundo
Quando explico
Se explico
Sou claro
Nunca hermético
Nunca raso
Mas
Se assim sou
Nada espere
Nada cobre
Nunca chore
Pois se assim sou
E sou assim
Logo faço rir
Esquecer
Seguir em frente
Pois assim sou
Basta?
Não basta?
Não me importa
Pois sigo assim
Sempre assim
Pois só sei ser assim

AGORA É CINZA

A poeira já baixou
O batuque já parou
O bonde já estacionou
O silêncio
(ouçam)
baixou sobe todos nós
há confetes nos vãos das ruas
na raiz dos cabelos
nos bolsos
nas bolsas
o cansaço reina
onde antes reinava Momo
o carnaval já se foi
as fantasias também
(todas elas, todas elas)
Agora é cinza
Tudo é cinza!
Voltamos à rotina
Com vontade de dizer:

- Feliz Ano Novo!

Agora é cinza
Bato meu ponto
E volto ao trabalho
E tudo é igual
Sempre igual
Sem ilusões ou fantasias
Agora tudo é cinza

2012/02/17

FADO

fado
destino triste o meu
ter uma portuguesa
ainda mais triste e
infeliz
que eu
a cantar suas dores
(tantas)
do raiar ao entardecer
a mesma música
(que canta errado)
a me enlouquecer

2012/02/13

ILHA AMALDIÇOADA

(os corvos, crocitam)

ilha amaldiçoada
mentes tua nascença
e propagandeias essa falácia
(até no exterior)
humilhas teu povo
que paga os impostos em dia
ilha amaldiçoada
que o mar não te engole
que a terra não te devora
ilha amaldiçoada
poluis o mar que te cerca
cagas a água bebe
(e pagas por ela)
sujas a terra que pisa
tratas teus cidadãos
como se crustáceos fossem
deixa-os em mangues
doentes e sub-humanos
ilha amaldiçoada
pois sois sim, a bem da verdade,
o portal do tártaro
onde a cada quatro anos
elegemos um caronte novo
(isso quando não o reelegemos!)
para nos manter no rumo certo
direto ao inferno
ilha amaldiçoada
tens tuas vias expressas
com buracos, lombadas
crimes e mortes
ilha amaldiçoada
terra de mosquitos
doenças e vereadores demais
mentes em ser a primeira
quando na verdade sois a última
ilha amaldiçoada
das grandiosidades vazias
do farol inútil
(alguém me diga a que se presta aquilo?)
das ruas sem luzes
sem asfalto
sem higiene
ilha amaldiçoada
onde as crianças
são loiras por anemia
barrigudas por vermes
doentes do nascimento à morte
das jovens mães de tantos filhos
(de tantos pais diferentes)
ilha amaldiçoada
das palafitas
dos pés na lama
do horizonte tão curto
dos urubus em cada esquina
ilha mil vezes amaldiçoada
que o português após fundá-la
deixou-a para a esposa administrar
e foi ser capitão-mor do mar das índias
deixando cá seus silvícolas
ilha amaldiçoada
cujo o único bem
de real valor desconheces

- oh! memorioso...

bem que tentastes me mostrar
algo de valoroso por essa terra
mas hás de concordar
ainda não lograstes tal intento!
ilha amaldiçoada
te tantos hospitais e tão poucos médicos
ilha de obras grandes, vazias e inúteis
onde nem teu padroeiro dá remédio

- bebam pois em teu santo nome, em vão!

ilha amaldiçoada que já foi das vinhas
e hoje és de minha ira
ilha, que bem te fez assim o criador,
pois se fosses um continente...

(e os corvos, crocitam)

2012/02/08

O ÚLTIMO CAFÉ DO DIA

Sentando-se à mesa o velho poeta, pediu um café e acendeu um cigarro*, folheou erraticamente a revista à sua frente, seus olhos corriam as página mas nada liam, seus pensamentos voam longe deixando lá o corpo sonâmbulo, o café frio, o cigarro queimado e uma revista desfolhada e amassada.
O garçom olhava par o relógio de cinco em cinco minutos esperando a hora de fechar o bar, o chão já estava varrido, todos os copos e xícaras lavados, lixo recolhido e o velho ali sentado esperando sabe Deus o quê. No céu as primeiras estrelas começava a piscar suas luzes, os ônibus lotados levavam as pessoas de voltas para suas casas e ele ali esperando o sujeito ir embora.

- Hoje perco a hora, o ônibus e a minha novela. – resmunga para o velho na mesa ouvir, mas na da aconteceu, pois o velho agora começou a mexer o café frio com a colherzinha e acendeu outro cigarro.

O garçom olha para a placa na parede onde se lê “Só fechamos quando sai o último freguês”.

- “O último freguês pagante”! – completa rangendo os dentes.

O tempo passa, o chão é todo varrido, na rua o caminhão do lixeiro recolhe os sacos e latas de lixo, os ônibus agora passam mais vazios e esparsamente, as ruas esvaziam, e o velho continua sentado.

- Pelo menos agora ele fumou um cigarro inteiro! Fala o garçom para seu reflexo na prateleira do bar.

Ele já não tem mais o que fazer, e olha para o relógio; mais o que limpar, e olha para o relógio; mais o que arrumar, e olha para o relógio; coloca as cadeira sobre as mesas e põe-se a apagar as luzes – olhando para o relógio - pois assim, quem sabe, o velho levante-se e vá embora...
Uma a uma ele começa a apagar as luzes até que somente uma sobre a mesa com o velho agora frio, duro e com os dedos médio e indicador queimados pela brasa do cigarro...

- Meu São Jorge, mas era só o que me faltava hoje! – grita o garçom jogando a vassoura contra a parede.






* Lembrem-se, isso é ficção!

2012/02/07

PENSANDO NO ESTRANGEIRO

Com o calor de hoje, simpatizei um pouco mais com o “Estrangeiro” de Camus.
O Sol reverberava nas ruas deixando o ar dançando uma dança homicida/suicida, me deu medo!
Procurei uma sombra, não tinha...
Uma saída?
A mais temerária.
No escritório me esperava o ar-condicionado.
Quem é mais condicionado, eu o ar?
O termômetro sobe, o crime me espera.
Penso numa praia, e vejo as areias escaldantes.
Essa imagem me remete, outra vez ao Estrangeiro...
Isso vai mal...
Quando tudo der errado, direi somente isso:

- Foi o sol, o calor estava muito forte!

2012/02/03

O Meio e o Fim

(necessariamente nessa ordem)


Será que só eu desse lado do universo acho que o trabalho É o MEIO e não o FIM das coisas?
Cada dia mais que passo nesse plano de existência, mais me desespero com os bípedes-mamíferos que cruzam o meu caminho, trabalham comigo, que sou obrigado a dizer “bomdiacomovai?” no elevador.
Esse onívoros com quem sou obrigado a conviver estão me levando à loucura, antes vivia conformado que essas bestas bípedes não tinham mais salvação, mas agora cheguei à conclusão que elas querem que eu perca o (muito) pouco que resta de consciência e desça ao nível de animalidade em que elas chafurdam diuturnamente.
Elas perderam todas as características que as tornavam humanas, se é que por serem bípedes e mamíferas, já foram humanas um dia.
Não me cabe julgar! E tão pouco quero.
A doida com que tenho o (des)prazer de trabalhar é uma solteirona, que nada mais faz na vida além de trabalhar. Nada faz fora do horário de expediente. Não tem amigos, hobbie, passa-tempo, tara, mania, um cachorrinho para esperá-la abanando o rabo...
Vive única e exclusivamente para trabalhar.
Nada mais sabe da vida, que está toda encerrada entre as paredes dessa maldita repartição.
Hoje ela se excedeu, extrapolou, foi além, superou-se a ponto de conseguir tirar-me do sério, não que ela mereça uma medalha por isso, perco a cabeça por pouca coisa, mas por alguma razão, eu tinha por essa criatura, um misto de compreensão/piedade, (fruto de uma formação cristã, hoje de toda abandonada!) aquele sentimento nobre que temos por um animal largado na rua em dia de chuva, sabem como é?
Pois hoje perdi as estribeiras.
Falei o que tinha a falar, nem mais e nem menos. Não “lavei a alma”, mas disse o trazia há tempos no peito e engasgado na garganta.
A barra pesou. Mas serviu para eu ouvir, algum tempo depois um: “Por favor Roberto”- parece pouco, mas é uma vitória.
Logo ela voltará do almoço estressada, e alguma coisa me diz, que tudo voltará à estaca zero.
O que me dá uma certa pena, é que, quando ela morrer, não pararemos de trabalhar para irmos ao seu velório (eu por exemplo, não irei), embora o seu trabalho (de viver entre nós) tenha terminado, a (nossa) vida continuará, e um outro continuará o seu “tão importante” trabalho, que a afastou do mundo.

“Afinal a vida segue e os papeis procriam-se feitos ratos e baratas”.

Sempre tive para mim que o trabalho é o meio, e viver bem essa vidinha (às vezes de merda), o fim.
Posso estar errado, mas, e daí?


2012/02/02

JEREMIAS


Dezenove horas, está escuro e Jeremias, encostado no muro de sua casa mira o mar, que por já estar perto do inverno, está bravo. O barulho das ondas enche o ar, e gosto do sal chega à sua boca. Jeremias fuma, e solta uma longa baforada azul, deixando uma névoa bem particular à sua volta.
Estrelas brilham no céu azul e frio, alguns vaga-lumes renitentes ainda voam tontamente, talvez despedindo-se uns dos outros e comprometendo-se a se verem no próximo verão, ri e pensa Jeremias envolto em uma nova baforada.
De repente Jeremias fixa o olhar lá longe no mar (o que vê Jeremias?).
Ele coça a cabeça, pigarreia, dá outra baforada e força ainda mais o olhar, tentando ver a forma ainda sem definição no mar.
Ele pensa ser uma gaivota perdida de seu bando, - o som não é de gaivota – diz para si mesmo Jeremias.
Enquanto pensa nisso, Jeremias dá mais uma baforada, longa, bem longa e solta a fumaça lentamente, e outra névoa levemente azulada se forma ao seu lado.
Uma mancha branca aproxima-se dele voando, e como um raio, raspa-lhe a cabeça e quase arranca-lhe as tranças rastafari e grita:

- Abunda-me de ti, ó Senhor!

Jeremias, assustado sente a terra tremer sob seus pés descalços, ao olhar para cima procurando pela gaivota ele vê as estrelas tremeluzirem e começarem a se apagar, os vaga-lumes como num arco-íris em espiral sobem para o breu celeste e desaparecem também, aterrorizado com toda essa escuridão, Jeremias expira toda a fumaça de seu peito, joga fora o seu cigarro e pensa enquanto é envolvido pela azulada névoa:

- Preciso parar de fumar essa droga! - jogando o cigarrinho fora ele corre para a praia.

Entra n’água até a altura dos joelhos, olha para trás assustado procurando pela ave e mergulha. Enquanto o corpo afundava n’água ainda ouve a gaivota gritar outra vez:

- Abunda-me de ti, ó Senhor! – e dava outra rasante desenhando um risco n’água à procura de Jeremias.

Jeremias ficou no mar até o amanhecer quando o bando de gaivotas voltou com seus gritos anárquicos e estridentes, mergulhando no mar a procura de peixes, abafando assim os gritos da gaivota catequista que voando em círculos, ainda gritava:

- Abunda-me de ti, ó Senhor!