2018/04/06

JAGUNÇO





Acabo de voltar da rua, encharcado até os ossos.

Mas não quero reclamar da chuva, nem da falta dela onde mais se precisa que aqui. Para isso temos os noticiários que não nos deixam esquecer. Na rua, lembrava-me de uma conversa que tive pela manhã.

Uma amiga reclama do fim de seu casamento e de não conseguir colocar o ex-amor para fora de casa, antigo ninho de amor, promessas e agora sonhos desfeitos e cuecas sujas.

Segundo ela, há vários dias deu ao companheiro o aviso-prévio, o caia fora, rua.

Mas ele faz-se de desentendido e continua assombrando as paredes do lar.

Dizia-me ela, que já não mais se falavam, faziam as refeições em horas diferentes, dormiam em quartos separados.

Todos os dias ao sair para o trabalho recomendava (creio que esse recomendava é eufemismo) que ele não estivesse mais em casa à hora que ela voltasse, mas, ó desilusão!, ao chegar encontrava o mancebo largado no sofá assistindo futebol televisão, gritando a cada gol de seu time, esperando ainda que ela lhe fizesse o jantar ou pipoca. Se isso remete o leitor a um samba antigo é pura coincidência.[i]

Ri de sua situação. Diga-me o leitor o que se pode fazer numa circunstância dessas?

Pediu-me conselhos. A mim, logo a mim!

Ri uma segunda vez e perguntei-lhe se falava sério? O que poderia eu dizer-lhe, como eu poderia ajudar-lhe. Esse é caso em que terceiros não ajudam em nada e podem (e) conseguem somente atrapalhar.

Indaguei se não seria uma fase, pois o casamento como a lua tem lá suas fases. Como a maré (coisa de quem mora no litoral) tem lá seus altos e baixos...

Resumindo, fui tirando meu time de campo colocando panos quentes, saindo pela tangente.

A conversa prometia ir longe, com detalhes e mais detalhes, não ninguém pela minha sala, nem um estagiário com papeis para arquivar, ninguém vendendo uma rifa de qualquer coisa, não tocava o alerde de incêndio para assim eu poder sumir dali. A palavra como flecha, depois de disparada não tem volta (eis aqui uma pérola de profunda sabedoria!), assim sendo tentei fazer a velha amiga não abrir tanto assim seu coraçãozinho.

Debalde.

As horas tantas, sim horas “e” tantas (mesmo) ela visivelmente desesperada (aqui não nos cabe julgar se seria caso para tanto desespero) me pergunta:

- Você que conhece tanta gente em tantos lugares, não conheceria algum jagunço que desse uma lição, ou mesmo leve susto nele?

Veja leitor, eu conhecendo um jagunço, eu?

Não foi possível outra vez segurar o riso.

Senti uma mágoa profunda nela, pois, agora sim, era visível sua desesperança.

Tentei desviar a prosa para outro tema menos denso.

- Olhando pela janela vejo que vai chover logo. E comentei displicente:

- Acho eu vai chover...

Pausa.

Pensei com meus botões, ela deveria estar constrangida com seu desabafo, envergonhada da sugestão de dar um fim definitivo no futuro ex-companheiro, talvez já se imaginando nos jornais da noite, horário nobre na TV. Cadáver retalhado encontrado num terreno baldio, ou pedaços de um homem e encontrado espalhados numa praia, sei lá o que se passa na cabeça de uma desesperada... Nunca coisa boa!

A cara estampada na capa de uma revista sensacionalista!

A cena desenvolvia-se em minha cabeça...

Esperei mais algum tempo e seu silêncio continuou ate minha hora de almoço. Sem mais nenhuma palavra, desliguei o computador e saí, deixei-a a contar os urubus que voam, talvez adivinhando o uma futura carcaça, sei lá...

Na rua pensava ainda na sua pergunta sobre eu conhecer um jagunço, e lembrei que há uns trinta anos, quando jovem e fazendo teatro amador, sai uma noite - sim aqueles casos com o Vadinho como sempre - a procura de sanfoneiro para uma peça que montávamos à época...

Ora bolas, eu lá tenho cara de quem conhece sanfoneiros e jagunços? Poderia ter me aprofundado mais no assunto, não fosse a água fria de a chuva me trazer de volta à realidade.






[1] Golpe Errado
Geraldo Pereira

Lá vem ele com seu terno branco engomado/trazendo outra morena a seu lado/E a nega dele na casa da branca se acabando /E ainda leva o jantar embrulhado/É... um golpe errado/todo mundo diz que é../um golpe errado/Na hora que ele sai /pra batucada/é a hora que ela chega do trabalho/e tem de fazer de madrugada/um bife malpassado prá ele /Não ficar contrariado./É...um golpe errado








SOMENTE UM CIGARRO ME BASTA AGORA



OUTRO PEQUENO DRAMA-RELÂMPAGO



Luz sobre um homem que fala.
Não se vê mais ninguém, ouve-se somente a sua voz.

- Nada, nada a declarar! – só isso tenho a dizer a cada um de vocês. Não me sinto com obrigação de falar nem uma única palavra sequer! Sim, dei o tiro, mas poderia ter sido uma facada, uma paulada, uma pedrada, uma garrafada como nos filmes de ação. Mas resolvi que deveria dar um fim naquela situação um simples e rápido tiro. - “Pum! Fração de segundo depois o corpo no chão. A mancha vermelha no assoalho. Minha arma ainda fumegante também ali caída, e no piso deixei as marcas de meus sapatos que seguiram vermelhos pela sala, para a saída do apartamento. Não pensei em correr, em fugir, em me esconder. Era patente o meu desejo, a minha ânsia, só não viu quem não quis, quem não quis se envolver, tomar partido, meter a colher.  Aqui estou dando meu depoimento. Perguntem e responderei, sequer alegarei ser réu-primário, um cigarro nesse momento me basta. Não, não sinto qualquer tipo de arrependimento, nem culpa, nem frio, nem nada, somente a vontade de fumar um cigarro. Cumpra-se a Lei, sigamos a Ordem, façam a Justiça. Eu já fiz a minha. Estou em paz. E vocês? Poupem-se de me perguntarem por que fiz o que fiz, não sou louco, logo motivos tive, e ouso dizer, tive-os e muitos! Não os enumerarei, não me justificarei, cumpram o rito e condenem-me logo. Não quero ir ao velório, nem ao funeral, por mim que joguem o corpo aos abutres ou deem de pasto às chamas. Minhas última palavras?

- Um cigarro, por favor.



Luz apaga lentamente

Silêncio.

Cai o pano




2018/04/04


MENINAS



F
oi um sentimento agudo no peito, uma pontada, fisgada –angina? -, coisa rápida, de segundos. Logo passou, mas para Fialho, Antonio Fialho da Silva, era o aviso. Voltou para dentro de casa e dirigiu-se a seu escritório, lá ele sentou-se em sua poltrona de couro e ficou fitando o telefone. Ligaria? Esperaria que o aparelho tocasse? Olhou para a garrafa de uísque, pegou o copo de cristal, mas resolveu que não beberia dessa vez. Fizesse o que tivesse que fazer, o faria sóbrio. Passados minutos, poucos minutos, resolveu ligar.

- Alô? – atendeu uma voz feminina do outro lado.

- Sou eu... – falou reticente –, você também sentiu? Coisa de meia hora atrás?

- Sim, mas dessa vez esperei que você me ligasse. Por mais que isso me aconteça, não vou me acostumar jamais – disse num misto de tristeza e certa mágoa resignada. – Minha situação aqui está insuportável... – queixou-se chorosa.

 - Mas o que você espera que eu possa fazer? Acha que eu tenho algum controle sobre isso? Pensa que faço isso de propósito? Que quero de alguma forma me vingar ou te prejudicar? Entenda, não quero nada...

(silêncio ensurdecedor...)

- Como faremos? – ela perguntou friamente, como se essa fosse uma mera transação comercial. Acha que será primeiro comigo ou com você?

- Não sei, não sei o que acontecerá... – desculpou-se em vez de responder. Vamos esperar.

(silêncio escandaloso...)

- Está certo – disse ela. - Vou preparar um quarto e meu espírito para ter que explicar tudo isso outra vez. Não sei como isso pode acontecer a alguém, muito menos quatro vezes, quatro vezes seguidas... – suspirou.

Desligou o telefone sem dar outra chance de ouvir as desculpas de Fialho, o velho, desde sempre o velho Fialho.

Uma hora e meia depois um toque de campainha fez Mariana lembrar-se do “compromisso” forçado para o dia de hoje. Desde o telefonema de Fialho passara o resto da tarde preparando um bolo e biscoitos, pois seria uma tarde muito longa para conversar de estômago vazio e garganta seca. Por via das dúvidas, caso a conversa se prolongasse muito, sempre haveria uma garrafa de Porto para socorrê-la. Deixando os pensamentos de lado foi atender a porta.

Respirou fundo e preparou-se para o “choque anunciado”.

Arrumou os cabelos precocemente – segundo ela - brancos num coque, beliscou as bochechas e abriu, por fim, a porta. E lá estava uma mulher de seus trinta anos, magra alta, longos cabelos negros e – surpresa entre as surpresas – trazia no colo uma criança de uns três ou quatro meses...

- Meu Deus, seus delírios não têm limites Fialho? – quase gritou em direção aos céus num sobressalto.

À mesa.

Sentadas, xícara de chá às mãos, as duas mulheres se encaram, e esperavam o tempo correr para quebrar o gelo e começarem a entabular uma conversa com um mínimo se sentido e nexo.

Várias xícaras foram servidas e sorvidas...

(o silêncio pesava, quase envergando os caibros da casa)

Foi preciso que a criança acordasse com fome para que enfim começassem a falar.

- Qual o nome dele? – perguntou a Velha Mariana sem jeito e sem interesse e nenhum ânimo.

- Antonio Fialho da Silva Neto – e completou – como o avô! – e riu bobamente.

- Sem dúvida ele se superou, ele foi além do imaginável, do bom-senso, ele enlouqueceu de vez. – Mariana falava e deixava a xícara de chá partir-se no piso frio da sala.

Com o grito de susto da Velha a criança voltou a chorar.

- Mãe, você poderia me explicar o que está acontecendo?

Ao ser chamada de mãe, Mariana teve um calafrio e começou socorreu-se com um cálice de Porto. Serviu-se generosamente sem oferecer à outra, e tomando as rédeas da situação começou a contar a sua história.

- Antes de começarmos a conversar permita-me somente dar um telefonema.

Sem esperar qualquer anuência da parte da outra ela começou a discar, errou três vezes o número, quando por fim começou a chamar, pareceu uma eternidade até que atendessem do outro lado.

- Mariana? – a voz denotava apreensão.

- A...? Como é seu nome mesmo? – lembrou-se então de perguntar à visita.

- Elisabeth – respondeu secamente a mulher que nervosamente chacoalhava o nenê.

- A Elisabeth chegou, é melhor você vir aqui. Desligou bruscamente, como costumava fazer quando falava com Fialho.

Cruzando as mãos Mariana começou a falar.

- Elisabeth..., pelo menos esse nome foi bem escolhido dessa vez. Essa história, minha história quero dizer, começou a mais de quarenta anos, e como estou tão farta dela, serei o mais breve, sucinta, concisa possível. Poupe-se de me pedir detalhes ouça em silêncio e faz a criança não chorar! Eu era muito jovem quando conheci o homem que hoje você conhecerá como seu pai. Foi uma paixão dessas de mocidade que não deveria ter maiores conseqüências, não fosse eu ter conhecido o Fialho e ele ter se apaixonado por mim de uma forma que o mundo nunca viu, e espero que nunca mais venha a ver, pois isso poderia abalar as estruturas da sociedade e do espaço-tempo e da realidade como a conhecemos. Mas acho estou indo longe de mais em minhas divagações, esqueça o que eu disse sobre abalar as estruturas da sociedade, à vezes esse assunto somado às doses de cavalares de Porto me deixaram assim. Em outros tempos, no começo de tudo isso, eu me emocionava e chorava, agora teço teorias calamitosas...

Elisabeth pigarreia e Mariana volta ao assunto, a criança, ressona, voltou a dormir depois de mamar.

- “Pois bem”, me apaixonei pelo Fialho, na época um poeta parnasiano-tardio – que mais tarde enveredaria pelo concretismo sem sucesso também - mas nosso romance não tinha futuro, até porque eu não tinha pretensões de nada mais sério, minha inclinação sempre foi religiosa e por fim, pouco tempo depois ingressei numa ordem religiosa e esperava que minha história se acabasse por lá, longe de tudo, do mundo e assim terminar minha vida em contemplação sem complicações. Até que um dia, quinze anos atrás, apareceu a sua primeira irmã, na verdade a caçula...

Elisabeth engasgou-se com o biscoitinho.

-”Não me faça perder tempo com tapinhas nas costas” – rosna. Preste bem atenção, pois não consigo mais contar essa história sem-pé-nem-cabeça sem acabar o dia com uma enxaqueca.

- “Um dia batem à porta do Convento procurando por mim, era uma moça, bem mais nova que você – afinal ela nasceu caçula, coisas de seu pai – contou-me que simplesmente havia dado por si ali, em frente àquela porta, sabendo que eu era a sua mãe e que precisava falar comigo. Imagine a minha surpresa, eu virgem velha – bem menos àquele tempo, claro – e com uma filha que eu desconhecia me procurando. Imagine o escândalo, e como foi minha expulsão.

“Não me peça detalhes, aliás, nada me peça. Depois de Clara, sim, Clara é o nome de sua irmã caçula, veio a Laura, a segunda, ela vem logo depois de você e a terceira é a Leonora. Mas para eu conseguir entender tudo isso foi preciso passar muito tempo, até que eu conseguisse encontrar e entrar em contato com Fialho. Resumindo, antes que eu esvazie meu Porto, seu pai me contou que nunca me esqueceu e sempre imaginou como teria sido a nossa vida, como teria sido a nossa família, e de tanto imaginar, ele estragou a minha vida, digo, criou vocês, fora de ordem, pois ele nunca foi organizado em nenhum ponto de sua vida...

“Hoje vivo da pensão alimentícia que ele me paga e só agüento mesmo essa situação graças às garrafas de Porto que ele me envia semanalmente. Não é nada pessoal, mas espero que você seja a nossa “última” filha, pois não nasci para a maternidade – olhando agudamente para a criança que agora dorme no canto do sofá –, tampouco para ser avó”.

Mariana emborca o resto do Porto, agora direto da garrafa, olha para o relógio, e diz:

- Logo seu pai chegará – suspira com forte hálito de vinho – junto com as suas irmãs. Por favor, segure o choro, senão começo a chorar junto, e não, não se engane, pois minhas lágrimas serão de desgosto, pois tudo o que eu queria era acabar meus dias no meu convento em meditação e preces.

A campainha toca e um cachorro late do outro lado da porta.

- Ah! Não! Cachorro, não Fialho!

REPUBLICANDO


NÃO CORTE OS PULSOS HOJE



não corte os pulsos
desligue a billie
não ajudará em nada essa dor
ponha o copo no chão
lentamente feche  a janela
não corte os pulsos
guarde a faca de volta na gaveta
ponha o disco de volta na capa
a billie não pode ajudá-lo nesse momento
a bebida só anestesia
mas não o faz esquecer
repita e repita
(a si mesmo)
não corte os pulsos
aquelas cartas
aquelas linhas tortas de paixão
aquelas folhas amassadas
rasgadas
rabiscadas
esqueça tudo isso
esqueça
e lembre-se
não corte os pulsos
tente amanhã
tente outra vez amanhã
mas para haver um amanhã
é preciso muito que você
não corte os pulsos




2018/04/02

O CÉU É MAIS AZUL NO OUTONO



chacais velhos encarnados
em ovelhas gordas
todos sem presas,
uns sem dentes e a maioria sem cabelos
pastam em verdes campos de
memórias, lembranças (lambanças...) e delírios
riem babentos
e quase senis
esperando pelo abate
ou pela morte natural
(o que vier primeiro está bom...)
lembram de triunfos de antanho
velhos planos de conquistar o mundo
(aquele “mundo, mundo vasto mundo”!)
das revoluções (há!)
das dinamites (bah!)
das explosões (que não houveram!!!)
e dos palcos...
agora
apagam-se as luzes
e
baixam
as
cortinas




- Aplausos, aplausos, aplausos!



(- ouço ao longe um BRAVO!?)




2018/03/29

ARTE NO BAR “MOSCA FRITA”




Vejam isso, tem coisas que só acontecem naquele bar – conhecido como “Mosca Frita”, tido e havido como o melhor pé-sujo da região.

Depois da proibição de fumar dentro do bar ou mesmo sob sua marquise, cuspir no chão, pendurar a conta, trazer uísque de casa e usar o gelo do bar os fregueses passaram a reclamar das músicas que o galego tocava lá. Era breganejo, pagode, forró, dor-de-cotovelo, dor-de-corno, dores-de-amores, sofrência, boleros e guarânias e outras tantas misérias musicais que rara era a noite que um ou outro não tentava cortar os pulsos com um caco de garrafa de cerveja, beber aguarrás ou pular debaixo de algum ônibus.

 Pois cansado dos protestos, ele resolveu inovar, e resolveu colocar cultura no boteco e vejam só a encrenca que ele criou.

Noite de sexta-feira.

Entra um casalzinho, desses moderninhos, descolados, do tipo que colocam no C.V.: “uma aventura num barzinho de subúrbio” - procuram uma mesa bem discreta nos fundos, perto da cozinha e ao lado dos banheiros, dão-se as mãos, olham-se nos olhos, pedem uma coca-cola diet com gelo de água mineral e limão siciliano e dois copos – no bar do Galego não tem canudinhos, por questão de higiene, a vigilância sanitária descobriu que o galego os reaproveitava, mais uma Vistoria Vitoriosa do Fiscal Dr. Vadinho, O Implacável...

Ela, segurando a mão do rapaz começa a falar-lhe bobagens aos ouvidos, quando de chofre a luz se apaga, surge o galego trepado uma pipa de chope e começa a declamar:

(silêncio de perplexidade)


- Galego - Atenas. O pa­lá­cio de Teseu. Entram Teseu, Hipólita, Filóstrato.

E saem dos banheiros, um homem e uma mulher com os corpos cobertos por toalha de mesas de mesa e começam a falar:

- TESEU - Depressa, bela Hipólita, aproxima-se a hora de nossas núpcias. Quatro dias felizes nos trarão outra lua. Mas, para mim, como esta lua velha se extingue len­ta­men­te! Ela retarda meus anelos, tal como o faz madrasta ou viúva que retém os bens do herdeiro.


(silêncio de perplexidade mais intenso ainda)

- HIPÓLITA - Mergulharão depressa quatro dias na negra noite; quatro noites, presto, farão escoar o tempo como em sonhos. E então a lua que, como arco argênteo no céu ora se encurva, verá a noite solene do esposório.


- TESEU - Vai, Filóstrato, concita os atenienses para a festa, desperta o alegre e buliçoso espírito da alegria, despacha para os ritos fúnebres a tristeza, que essa pálida hóspede não vai bem a nossas pompas. (Sai Filóstrato em direção ao banheiro de onde saíra.) De espada em mão (na verdade um salame ainda envolto em parafina) te fiz a corte, Hipólita; o coração te conquistei à custa de violência; mas quero desposar-te com música de tom mais auspicioso, com pompas, com triunfos, com festejos.

O galego, com uma toalha de mesa xadrez verde e vermelha enrolada à volta da cintura, torcendo os bastos bigodes, diz emocionado:

Galego - Entram Egeu, Hérmia, Lisandro e Demétrio!


(silêncio, silêncio assustador)


O rapaz que segundos antes interpretava Teseu muda de toalha de mesa que antes era amarela, para uma toalha de mesa branca.

- EGEU -­ Salve Teseu, nosso famoso duque! - E mudando a toalha de mesa amarela para branco novamente,

- TESEU - Bom Egeu, obrigado. Que há de novo? – e mudando outra vez a cor da toalha de mesa.

- EGEU - Cheio de dor, venho fazer-te queixa de minha própria filha, Hérmia querida. Vem para cá, Demétrio. Nobre lorde tem este homem o meu con­sen­ti­men­to para casar com ela. Agora avança. Lisandro. E este, meu príncipe gracioso, o peito de Hérmia traz enfeitiçado. Sim, Lisandro, tu mesmo, com tuas rimas! Prendas de amor com ela tu trocaste; sob a sua janela, à luz da lua, cantaste-lhe canções com voz fingida, versos de amor fingido, e cativaste as impressões de sua fantasia com cachos de cabelo, anéis, brinquedos, ramalhetes, docinhos, ni­nha­rias, men­sa­gei­ros de e­fei­to de­ci­si­vo nas jovens ainda brandas...

Um copo é jogado contra o chão, todos se assustam. Começa o burburinho o encanto foi quebrado, acabou-se a magia.

Nesse momento crucial, eles são abruptamente interrompidos, pois a mocinha que tudo via sem nada entender, assustada começa a chorar e pede para ir embora.

- Você me prometeu uma noite romântica e me trás num antro de loucos? Cadê as músicas de amor, cadê os músicos seus amigos? Você me trás para ver essa indecência? Homens e mulheres seminuas vestida em toalha de mesas...
(as vaias dos bêbados enchem o ambiente)


O rapaz intelectual de esquerda, barbudo, cabelos cacheados, cachecol em volta do pescoço - eterno refém da ideia de uma revolução, quer cultural, quer social – que achando que impressionava a namorada, fica sem graça, olha envergonhado para os atores - esses sim seus amigos de Diretório Acadêmico, não os músicos citados pela namorada – chama o galego, e embaraçado, pede a conta.

Sua sorte, a única pelo resto da noite, era que o dinheiro que trazia no bolso deu certinho para pagar a coca-cola e o copo quebrado...

Levanta-se e segue em direção à saída, sob apupos dos bêbados que desde que despertaram do encanto esperavam uma briga, desce para a rua e grita pro galego:

- Eu falei que essa droga de William Shakespeare, não ia dar certo, da próxima vez tem de ser Plínio Marcos, Plínio Marcos, seu elitista idiota, burguês de subúrbio, o povão não quer arte, quer palavrão.

- Olha para a namorada que continua sem entender nada, afinal ela só queria um pagode para rebolar.

E assim mais um capítulo anônimo da Historia passa sem testemunhas e registro.

No dia seguinte o Galego escreve com giz na tabuinha na porta do estabelecimento:

Prato do dia: “Buchada de Bode com lentilhas, batatas ao murro e à noite ”Navalha na Carne”.

Ainda assim em seu íntimo pedia a Deus que a “distinta freguesia não imaginasse que navalha na carne não fosse um convite a brigas...”.

- Ai qu’um dia “bolto” a Portugal e às minhas “bacas”... – suspira enquanto seca o suor da testa com sua boina de lã.

2018/03/15

MENOS UM NESSA NOITE


sobre a mesa - o jornal
decalcado nele – morto
o autor do zum-zum


MAIS UM DIA DEPOIS DE OUTRA NOITE DE CHUVA...




pela janela
a realidade,
pelo rádio
o prefeito e suas estatísticas
águas sujas
números vazios
no segundo mandato
não há mais horizontes
nem necessidade de promessas
a realidade invade
as ruas
as calçadas
as portas
sobe pelas janelas
depois dos ratos
fogem as pessoas
no rádio o prefeito regurgita
números
números
números
números
não se engasga
não tosse
não fica vermelho
 não lhe cresce o nariz
e enquanto desvio de buracos
e lixo espalhado
a sua verborreia desce pelos falantes do carro
e como nas ruas da cidade
inunda de imundície os meus ouvidos...
olho o céu e vejo a (mesma) chuva para essa noite
outra vez
outra vez
outra vez
outra vez
outra vez












(como não me ufanar de meu torrão natal? Como?)


2018/01/25

FIM DE TARDE


              fim de tarde
              o sol de põe
o verão, continua noite a dentro

2018/01/23

2017/11/08

DONA FUINHA, QUEM DIRIA, FEZ CENTO E DEZ ANOS MESMO!



- Dona Fuinha fez cento e dez anos mesmo!

- Você vai cumprimenta-la?

- Por nada-nada-nada-nada nesse mundo de Deus. Alias, já chamaram a Saúde Pública, Defesa Civil, bombeiros? Para entrar na edícula?

- Pois é... Pela lenda hoje é o dia de seu passamento...

- Velha dos infernos, vai enfim encontrar o “Pai”.

- Deus? Ela?

- Que Deus! O pai dela é o demo, príncipe das trevas, o tinhoso, o coisa-ruim, o maligno, o diabo.

- Será que lá nos infernos ela se dará bem?

- Capaz... O fogo e o enxofre há de limpar o mau cheiro daquele corpo...

- Corpo? Que corpo?

- Humm... O receptáculo da alma, quiçá?

- Dona Fuinha e alma na mesma sentença? Não dá liga, não orna não.

- Tem razão...

- Minha avó, quando era pequeno, me contou a história dela. Nunca acreditei até me casar – o que nunca pensei também...  – e vir morar aqui no bairro.

- Sim, coisa de gente encantada, amaldiçoada, gente com o batismo vencido. Desde os sessenta anos amaldiçoada desse jeito... Mas nunca soube os detalhes. O que tua avó contava?

- A velha contava que Dona Fuinha, aliás, Dona Maria Amália Fiúza era uma velha, já na época, muito má. Morta-de-fome que só, gananciosa, ambiciosa do alheio, gananciosa madrasta de uma da pior espécie. Trancafiava o sobrinho do marido no quarto, só deixando a criança sair para comer e beber, longe dos olhos dela, bem longe. Não deixava a criança sentar-se no sofá, pois o lugar dele era no chão, onde os cães não ficavam, pois esses ficavam deitados no sofá.  No trabalho vivia a falar mal dos colegas. A roubar comida das marmitas na geladeira. Humilhava o marido, flertava descaradamente com os motoristas, ou qualquer outro funcionário subalterno, sempre falando: - Isso é que é homem, não esse traste que mora na minha casa, ênfase no “minha casa, minha comida, minha cama, minha geladeira”. Era desprovida de qualquer graça, beleza ou simpatia, baixinha, tinha gorda e enorme que era - como explicar isso? - dois pares de joelhos! Pernas tortas. Cabelos tingidos com uma cor criada exclusivamente para ela, só pode ser essa a explicação! Uma coisa entre palha ressecada e bosta seca. Dentes encavalados, sempre com comida presa entre eles, voz agudíssima, quase um grasnar. Bajuladora de chefes, de diretores, de gerentes de bancos, de qualquer um que ela julgasse que lhe fosse superior. Sempre com uma palavra ruim, cruel, desabonadora, venenosa na ponta da língua. Eternamente desagradável. Ate que um dia, num desses dias que em nada promete fazer alguma diferença na biografia do cristão sobreveio. Aconteceu nesse determinado dia de ela estar falando mal do “negrinho”, que se dependesse dela, comeria uma única vez por dia, dentro do quarto dele, poupando-a assim de olhar para aquela fuça preta que lhe causava nojo e repugnância, quando um senhor, à grande custo segurando sua raiva ouvindo tanta desgabo chegou-lhe de chofre e olhando em seus olhos de roedor preferiu-lhe essa praga:

- “A senhora é a pessoa mais desagradável que já vi e ouvi em toda a minha vida. E a senhora não faz ideia de quanto eu já vivi... Pois saiba que eu desejo, e assim será, que a senhora viva, a partir de hoje, mais cinquenta anos. Quero que a senhora viva com dores, viva sofrendo, quero que a senhora viva e veja todos ao seu lado morrendo, quero que a senhora sofra dores, quero que a senhora chore lágrimas de sangue, que a senhora se arrependa, e somente um dia depois dos cinquenta anos que agora lhe dou a senhora morra, não que descanse, mas que morra. Mas não pense que há de desfrutar desses anos, não, não há de. Seus dias serão de agonia. Fome, terás tanta fome, que usaras focinheira para não se auto devorar, pois, há de, quando ninguém estiver por perto, arrancar pedaços da própria carne para se saciar.   Quando então chegar perto do fim de seus dias, toda a podridão de seu corpo alma tornar-se-ão  podridão. Todos à suas volta afastar-se-ão de nojo. Terás por companhia nesses últimos dias somente os abutres e os comedores de carniça, pois é isso que és por dentro hoje, é assim que sairás desse mundo quando sua hora chegar.“

- Cinquenta anos sofrendo essa maldição e mesmo assim continuou má até o fim...

- Quantos gatinhos e cachorrinhos intoxicados com chumbinho, pardais, sanhaços, andorinhas, todas envenenadas naquele chafarizinho. Velha infeliz dos infernos vivia se arrastando feito assombração apoiada nas paredes. Meu pai dizia que sempre a via revirando latas de lixo em busca de restos comida. Roubava roupas dos varais. Mas o pior era quando ela começava a gritar...

- Estava esquecendo essa parte. Ela gritava por conta das dores de dente. Na praga ainda estava que ela sofreria de fome eterna e dores em todos eles. Mas quem a viu há uns anos atrás disse que já estava completamente careca e banguela. Cega, surda e cada dia pior de caráter. Essa morreu tão má como no dia em que nasceu... E não sobrou ninguém da família para chorar sobre a sua carcaça. Nem filhos, nem netos, bisnetos. Que a terra lhe seja muito pesada.

- Essa desgraçada vai ser enterrada mesmo é como indigente, mas o que me preocupa mesmo é o maldito cheiro de carniça que ficará no bairro por muitas e muitas gerações... Isso vai continuar desvalorizando os imóveis.

- Que Belzebu[i] e leve com todas as moscas do bairro!








[i] Belzebuth ou Belzebub ou Beelzebuth, príncipe dos demônios, segundo as Escrituras; o primeiro em poder em e crime depois de Satanás, de acordo com Milton; chefe supremo do império infernal, de acordo com a maioria dos demonógrafos entre eles o nosso demonólogo plantonista Doutor Vadinho Madeira.

2017/10/26

BAR, À NOITE


na toalha azul da mesa
um pires, vazio, de amendoim
depois de tanta cerveja, uma lua à mão


BLEM-BLEM-BLEM...


missa noturna, badalam
os sinos e enxotam
os morcegos ateus...

RALO



todos os dia as mesmas coisas
as mesmas coisas todos os dias,
a vida
          é
            mesmo
                         uma 
                                 espiral 
                                              descendente...


MANHÃ CEDO


da chuva ontem
um sabiá, molhado
reclama em minha janela