2012/11/27

DE LICENÇA EM CASA*



Estou em casa, de licença.
Precisei me afastar, reavaliar meus conceitos e curtir uma dor de corno. Preciso mudar de vida, achar meu Norte, me encontrar.
Sempre quis ser detetive particular, quando moleque assistia ao Columbo, muita elucubração e pouca violência...
Sou um intelectual, meu cérebro funciona a mil por hora, aposto que seria capaz e desvendar um crime sem sair da minha mesa de trabalho. Processaria as pistas fumando um cachimbo como o Inspetor Maigret.
Prenderia os bandidos, criminosos, traficantes sem um murro, uma rasteira, de mãos limpas usando só meu velho cérebro.
Mas sei que nunca serei como meus heróis. Não nasci para ser um herói... Outro dia no bar do Alemão, celebrando minha licença com meus amigos, dois sujeitos que discutiam futebol, começaram a falar alto, gritar, quando começaram a brigar um jogou uma garrafa de cerveja em direção ao outro e a dita garrafa arrebentou em minha cabeça. Fui levado para casa semi-inconsiente, passei dois dias com enxaqueca. Nem consigo lembrar a cara dos indivíduos...
Positivamente, ser detetive está fora de meu currículo.
Olho a folhinha, logo terei de voltar ao serviço, à velha mesa, minha cor está desbotando, adeus bronzeado. Só eu mesmo, queimo no serviço e desboto em casa.
Sou um total fracassado.
Procuro o que ler, mas só encontro pilhas de D.O., hoje vejo que fiz mal em me livrar de meus livros de detetives...
Tinha uma gata chamada Agatha, mas o vizinho a levou quando se mudou do bairro.
Para minha desgraça, só mais uma na minha vida, só mais uma, a vizinha da frente colocou cortina na sala dela. Sei, no fundo me minh’alma sei que a culpa é minha. Ela deu a entender que estava a fim, mas a minha fidelidade ao meu amor platônico pôs tudo a perder, outra vez.
Computando, vejo que só perco desde que comecei a anotar os meus ganhos e perdas, só tem X na coluna de perdas...
O meu mal é ser organizado assim, até na desgraça tenho tudo descriminado, analisado, medido, assim não consigo por a culpa em ninguém, fica claro que o culpado de tudo o que me acontece sou eu.
Sobre a mesa da sala, esperando entrar dinheiro para pagar, a conta de uma quantidade absurda de borboletas azuis que comprei. Serei lembrado no futuro (a quem quero enganar?) pelas minhas idiotices...
O telefone está tocando desde que acordei.
Não o atenderei que liguem pro meu celular. Não tenho celular, hahahahahahahahaha.
Deus, estou ficando louco, me assustei com minha própria voz...
Quinze dias, quinze dias de licença-prêmio! Não aguentarei isso!
Preciso fazer alguma coisa, beber está descartado, ainda sou motivo de risos no bar, o “grande detetive abatido”...
Sou uma piada, só eu não rio dela, será autocritica, ou serei sem graça mesmo? Bosta de detetive eu seria...
Certo, fiz bem em me livrar daqueles livros! Eles estavam a envenenar a minha cabeça...
Mais tarde lerei um Diário Oficial para passar o tempo.
Seguro-me para não telefonar para a repartição.
Não ligarei de jeito nenhum!
Ligarei daqui a pouco, logo será a hora do cafezinho lá.
Não ligarei, não ligarei, não ligarei, não me entregarei a essa tentação. Sou senhor de meu destino, nenhum desejo há de me fazer sucumbir.
Pronto, estou decido, ligarei quando eu quiser, não agora, mas quando eu quiser, quem sabe daqui a uns cinco minutos?
O telefone continua tocando...
Não deveria ter jogado fora o meu cachimbo...
Preciso tomar uma decisão, logo, já, rápido, urgente, imediata, preciso dar um passo á frente, preciso sair desse marasmo.
A vizinha agora fechou a janela...
Minhas alegrias estão se reduzindo a olhos vistos, olhos que nada veem através da janela.
Quando o telefone parar de tocar, ligo pro serviço e peço prá voltar.









*Para entender, click aqui



2012/11/05

COMO ALGUNS ME VÊEM

(e sem controvérsias...)





“O” imbecil residente
“O” cretino de plantão
“O” inimigo atrás da porta




2012/10/09

DOMINGO




A primavera acabou, chegamos ao verão. O calor começa a reinar e derreter.

Recolho-me à sombra de minha casa, digo apartamento, terceiro andar, fundos. Domingo à tarde, o pior pedaço da semana, o dia que se arrasta em direção à segunda-feira. Torço para ninguém aparecer em casa, para o telefone não tocar, e se tocar não atenderei. Almoço e depois vou descansar, dormir mesmo, afinal, o resto do dia será a agonia do fim, será só estertores, aflição.

Deito, fecho as janelas, a escuridão me da a falsa impressão de frescor, o quarto torna-se minha caverna. Abraço o travesseiro e começo a adormecer.

Afundo no colchão e modorra. Lá fora, bem-te-vis e sanhaços fazem sua festa barulhenta e irresponsável...

De olhos fechados, ouço com estranha alegria essa balburdia, e vou aos pouco escutando vozes que vem do andar térreo, são crianças de seus três, quatro anos, elas brincam, gritam, correm, caem ao chão, chamam pelo pai que, calmamente, antes que elas comecem a chorar, diz que está tudo bem, não foi nada, vai passar.

Nunca fui muito fã de crianças e congêneres. Mas que coisa deliciosa de se ouvir, os sons e ruídos de uma família reunida, reunida e feliz. As vozes misturavam-se durante o que me pareceu ser um jogo de futebol entre pai e filhos.

A confiança das crianças no pai, a segurança que ele transmitia aos miúdos, como diriam os portugueses. Caíam e não choravam, marcavam gol contra e não reclamavam. Isso durou mais de meia hora, só interrompido quando a avó deles chamou para o almoço.

Antes de dormir de vez imaginei a mesa, os pratos, e a avó diligente e amorosa servindo a todos.

Pensei que isso sim era amor.

Dormi roído pela inveja.

O Domingo acabava bem para eles...

 


2012/10/08

O FIM



E tudo acabou tão rápido como uma onda batendo nas pedras, levando tudo e não deixando sequer espumas...

2012/10/03

BILHETE



Querido amigo sei que havia te prometido um Grifo aqui da Europa Oriental, mas Grifos não há mais, então te mando uma chave inglesa.
Sei que não é mesma coisa, mas em todo caso poderás consertar as torneiras que ai pingam sem parar.
Abraços fraternos desse seu eterno caçador de dragões!

2012/09/21

CÍRCULO VICIOSO




Ao limpar o velho apartamento encontrou perdido entres tantas coisas também perdidas por lá, o relógio de Higino José Dias Baptista. Ela chorou, e a saudade a levou de volta ao tempo em viviam juntos. E nessa nova chance de vida, ela tornou a cometer os mesmo erros que levaram Higino José Dias Baptista ao suicídio.


2012/09/18

CRÔNICA DE ENCOMENDA



Esvazio a segunda garrafa de rum e brinco com uma pérola fazendo-a rolar na palma da mão. Estou começando a nublar a minha mente, aos poucos as imagens daquela festa começarão a se dissipar. Logo esquecerei os rostos, as vozes, as conversas, as músicas, as risadas...
***

Na sala, cantavam o indefectível parabéns a você, nessa data querida, aí começa tudo. Data querida? Querida para quem? A velha senhora estava alheia à sua própria festa, parecia ela mais com um enfeite do que com a aniversariante. Os convidados serviam-se do bolo, dos doces, andavam pela casa da velha, mexiam em suas traquitanas, revolviam suas gavetas, quando ouvi alguém perguntar:

- Quando ela morre?

Não ouvi qualquer resposta, pois uma gargalhada preencheu o ambiente. Saí à varanda para fumar, queria ir embora, mas uma fagulha miserável de curiosidade me prendia ao lugar.
Fumei e comecei a beber.
Voltei à sala, a velha fora posta num canto onde não atrapalharia ninguém, onde pessoa alguma poderia tropeçar nela, onde não incomodaria quem quisesse circular pela sala em paz pudesse fazê-lo. Ela olha tudo à sua volta com olhos opacos, secos, olhos que olhavam, mas nada viam. Pensei que isso lhe seria benéfico. Quem suportaria testemunhar aquilo em sã consciência? Quantos anos a velha fazia? Pensei em perguntar a alguém da família, mas outra pessoa fez isso por mim e desgraçadamente ouvi a resposta:

- Mais que o necessário, ela já passou da hora.

Segurei meu copo com força e o completei com alguma coisa que saiu da primeira garrafa que vi pela frente. Continuei circulando pela casa e acabei indo ao jardim. Ar puro! Pensei erroneamente. Lá havia muito mais abutres ainda. As crianças, provavelmente bisnetas da velha, conferiam entre si o saque do seu porta-joias. Pelo visto, daquela família não escapava ninguém – pequenos abutres! Cuspi parte da bebida no chão, e como urubus sobre a carniça, elas não se abalaram com a minha presença e começaram a discutir como dividiriam o colar de pérola da bisavó. Concordaram em arrebentá-lo e dividi-lo pérola por pérola...
Pensei que no Velho Testamento, por menos que isto, a Justiça Divina já teria se manifestado.
Voltei para dentro, aquela cena me repugnara. Precisava beber e procurar a pessoa que havia me convidado para essa festa.
Fui convidado para fazer justamente o que estou fazendo, circular, recolher apontamentos e entregar depois uma crônica sobre essa reunião. Mas aposto que o amigo que me convidou, assim como eu, não tinha ideia do que iria acontecer aqui... Fui à cozinha, entrei pelos fundos, assim seria menor a chance de encontrar mais desses urubus de black-tie.
Servi-me de uns frios e uns uísques. Bebi e comi lentamente, o que eu vira e ouvira no jardim ainda me embrulhava o estômago. Após a frugal refeição voltei à sala à procura de meu amigo. Precisava encontrá-lo, desfazer o negócio e ir embora, isso não era o que eu esperava, nem estava ganhando para isso, vim para fazer-lhe um favor, seria a minha crônica seu presente para a velha senhora!

- Que presente! – pensei em voz alta.

À entrada da sala o garçom serviu-me mais bebida, não recusei. Emborquei dois ou três copos de uísque de uma vez! Precisava ser duro comigo mesmo para continuar com isso. Trôpego segui em frente.
Tropecei numa mesa com uns doces e salgadinhos que foram ao chão, as meninas que vinham do jardim correndo, pisaram neles e acabaram deixando manchas indeléveis no tapete. Ainda as vi voltando ao quarto da bisavó, imaginei que iam terminar o butim. Pequenas flibusteiras temo pela sua prole...

- O futuro corre perigo! – Gritei segurando o copo de uísque, que acabou indo de encontro ao tapete empastelado de brigadeiros e empadinhas...

Havia na sala um carrilhão de laca preta, muito antigo e consequentemente muito caro, e dois genros da velha discutiam o seu valor, quando um terceiro mais jovem chegou-se aos dois primeiros e comentou que “se essa velharia caísse em suas mãos, venderia imediatamente, pois na sua casa não entraria jamais uma porcaria velha daquelas, aquilo era um lixo anacrônico”, o que ele queria mesmo era o velho relógio de pulso, de ouro, do falecido, aquilo sim valeria uma boa grana! Riram e concordaram, nada de levar os entulhos daquela velha, o que valia mesmo eram as joias. Nesse momento as meninas passam correndo com as mãos cheias de joias em direção ao jardim.

- Outro butim. – Gritei como se fosse um brinde. Segui atrás das crianças e sentei-me num dos bancos do jardim. Continuei bebendo e por lá adormeci.

Acordei em casa, creio que meu amigo levou-me, e desde que despertei continuo bebendo para esquecer tudo isso que testemunhei.
Nada escreverei para ele, nada de crônica, continuarei a beber até que consiga esquecer tudo isso, tudo isso, tudo isso...

2012/09/17

AQUELA SEMANA SINISTRA



Dia primeiro

Uma segunda-feira clara, fresca e azul, ela entrou na sala. Todos lhe deram boas-vindas, tapinhas nas costas - tudo falsidade, tudo falsidade, eu sei, eu sinto, eu vejo, eu sinto o cheiro – mostraram-lhe a sua mesa, o serviço que faria, onde ficava o café, mas lógico que tudo isso seria para amanhã, pois hoje seria só festa. Ela nem olhou para mim, pois eu estava no canto da sala, canto direito onde batia o sol da manhã e o da tarde, as duas janelas sem persianas, o que explica o meu eterno bronzeado de janeiro a dezembro. Ignorado como estava, e sempre estive, deixei que meu coração disparasse a bater, batia um tum-tum louco e desenfreado, não fossem os colegas de sala tão ignorantes teriam a impressão de estarem a ouvir os acordes finais da Abertura 1812, onde sinos badalam e os canhões disparam e comemoram a vitória do exército russo sobre o exército de Napoleão Bonaparte... Mas guardei para mim toda essa impressão e segui batendo meus carimbos, escrevendo meus memorandos, minhas cartas, recortando trechos aleatórios do D.O. Mantive a minha eterna fleuma britânica, mas foi nesse dia que me apaixonei perdidamente por ela. Foi ai que começou meu inferno interior...



Segundo dia.

Cheguei mais cedo, tinha que ter certeza que a faxineira iria limpar bem a mesa dela, queria um serviço impecável, trouxe de casa um desinfetante importado, perfumadíssimo. Isso lhe causaria uma boa impressão da repartição. Fechei as janelas, impedi assim que o mau cheiro da rua maculasse o ambiente. Liguei meu rádio, uma música suave preencheu todos os cantos da sala, quem resiste a um Frank (ah! aqueles olhos azuis!) Sinatra cantando FLY ME TO THE MOON? Ah, mas o melhor, o melhor mesmo, o fantástico, o fabuloso, o incrível, o kafkiano em último grau, eu deixei para quando ela viesse me cumprimentar aqui no meu cantinho ensolarado. Às oito e trinta cinco – segundo dia e já se deixando levar pelo mau-exemplo dessas víboras da sala, pobre alma inocente! – ela chegou sorridente distribuindo bons-dias e tudo-bens a todos, mas no caminho em direção ao meu cantinho ensolarado ela foi pega pelo braço pela rainha das víboras – a substituta da sub-chefe - e levada à copa. Volta uma hora e quinze minutos depois, sentando-se em sua mesa somente para ligar o computador e entrar no facebook. Fiquei entre chateado com sua indiferença por mim e triste pela surpresa que eu iria fazer-lhe, aliás, mais preocupado com o bem estar da surpresa em si. Mas aguardei tomando sol que já me pegava pelas duas janelas de canto. Levantei-me para ir ao banheiro, era hora de renovar o protetor solar e falsamente displicente passei pela mesa dela e dei-lhe o meu mais falsamente seco e indiferente “bom dia”. Mas acho que interpretei tão bem que ela me ignorou. Alguma coisa em mim sempre me dizia que eu estava me perdendo no serviço público. Agora ela deve achar que sou antipático, um arrogante, uma besta ou quem sabe, deve achar que sou pior que aquele Déspota do RH, aquele monstro insensível! Esses pensamentos me acompanharam ao banheiro e diante do espelho vi lágrimas em meus olhos, deve se a poeira, só poderia ser... Apliquei o creme protetor fator 200 que espalhei pelo rosto e principalmente no pescoço que pegaria agora todo sol forte da tarde. Suspirei, lavei as mãos e voltei para o meu cantinho no fundo da minha sala. Abro a porta e sou violentado. O que ouvem meus ouvidos? Onde antes se ouvia Frank Sinatra, agora tocavam pagode, pagode, pagode! Pobrezinha, pensei, que má-impressão terá de nós. Como me preocupava com ela... Respirei fundo outra vez e fingindo indiferença entrei na sala, passei por sua mesa e perguntei irônico se estava gostando da “música” – (acho que consegui fazê-la ver as aspas) – e batucando com um lápis no copinho de café, respondeu-me que sim. Baixei minha cabeça, sentei-me à mesa e me afundei no trabalho até a hora do almoço. Não voltei à tarde.


Terceiro dia.

Entrei na repartição com renovadas esperanças. Mas eu era mesmo um estúpido. A pobrezinha estava tentando enturmar-se, como poderia ela, recém-chegada dizer àquelas víboras que gostava de boa música, que Frank Sinatra tocava fundo o seu coração? Sim ela teve que fingir (e a que preço?) que gostava de pagode. Acho agora, em retrospectiva, que ela estava batucando no copinho até bem descompassada... Paguei à faxineira para usar mais daquele meu desinfetante especial importado na sala. Anonimamente mandei entregar-lhes rosas, vermelho-sangue, vermelho-paixão, vermelho quase negro. Isso deveria causar-lhe uma muito boa impressão e despertar-lhe a curiosidade de querer saber quem enviara tais flores... As oito e cinquenta cinco ela chegou, mais tarde ainda. Ah! a má-influência, Ah! a má-influência... Jogou a bolsa sobre a mesa e foi à copa. Quando voltou, rindo muito e ajeitando os cabelos já passava das dez horas e enquanto ela entrava na sala eu saia para ir ao banheiro passar o protetor solar - em fevereiro aquelas janelas são um inferno – quando voltei as flores já haviam sido entregues, e as víboras ciciavam. Perguntavam histéricas quem era o admirador secreto, que a ela declinasse logo o nome do pretendente. Não fizesse “mistério” Nada de segredo entre elas, que contasse logo e contasse tudo. Percebi que ela sorria um sorriso de mistério, de cumplicidade, será que ela sabia que eu era o remetente? Passei como que invisível por todas elas. Desforrei minha frustração sobre o D.O. Fiz dele um saco de confetes. Telefonei ao Déspota do RH e o chamei para fumar- sou fumante passivo – e subi ao quinto andar, de lá eu jogaria minhas frustrações em forma de minúsculos fragmentos de papel... Quando volto à minha sala, ao passar pelas mesas das víboras escuto comentários sobre o mau-cheiro do meu cigarro e que é uma vergonha alguém ainda fumar nos dias de hoje. Ela olhou-me num misto de pena e nojo. Demorou muito a dar a hora do almoço. Coloquei meus fones de ouvido e me entreguei ao Frank Sinatra. Almocei e não voltei outra vez. No dia seguinte era só assinar o ponto, pois eu era realmente invisível naquela repartição.



Quarto dia.

Cheguei vinte para as oito. Adiantei-me para encontrar o Déspota do RH na rua e fumar passivamente um cigarro, estava tenso demais. Logrei encontrá-lo e desfrutei do seu cigarro. Antes de entrar na minha sala pedi à faxineira que me devolvesse o desinfetante especial importado - minha mãe dera pela falta! Que ela usasse o que o Estado compra e já estava muito bom! Sentei-me à minha mesa, abri o D.O. e com o estilete pus-me a cortar qualquer coisa com mais de dez linhas, o resto picotei com minha mãos, rasguei, piquei, eviscerei o periódico e com as mão sujas de tinta comecei a rir e jogar tudo para cima. Parei quando a faxineira entrou na sala. Dei a ela dez reais e pedi-lhe que fosse discreta e limpasse tudo direitinho. Telefonei ao Déspota do RH e fomos ao quinto andar fumar. Essa situação estava me fazendo fumar demais, daí para começar a beber era questão de tempo, de bem pouco tempo. Fumei e me acalmei. Arrependo-me do apelido que dei ao Déspota do RH! Tudo por causa desses meus nervos! Mas acho que ele não liga muito para isso, sorte minha! Antes de voltar à minha sala fui ao banheiro passar o protetor solar, fevereiro parece que não vai acabar nunca! Nove horas, nove horas ela chegou, e ainda assim antes das outras víboras, deu-me um bom dia e vendo-se sozinha na sala, dignou-se a vir conhecer meu cafofo, digo, minha mesa. Sorri com muita polidez, embora por dentro estivesse pulando, gritando agitando a bandeira do São Paulo Futebol Clube, soltando fogos e chorando de emoção. Ela chegou-se a mim e perguntou se alguém havia telefonado e avisado que chegaria tarde hoje. Suspirei e – para não despertar nela nenhum sentimento de misericórdia por mim, omiti o fato de que ninguém me liga, nunca - e respondi-lhe que não, que ninguém me ligou, e expliquei-lhe a contragosto que esse era o funcionamento normal da repartição, ninguém chegava na hora aqui. Ela riu e comentou que “se esforçava muito para cumprir horário, e já que o negócio funcionava assim...” Não entendi a reticência, mas sabia que dali não viria nada que prestasse. Senti ganas de ligar ao Déspota do RH, mas pensei comigo mesmo, que se não conseguiria um dia deixar de fumar de vez, que ao menos me controlasse um pouco. Fui à rua comprar um jornal para rasgar, hoje não tinha D.O. O resto do dia passei com o Frank Sinatra, só levantei da mesa para ir ao banheiro passar protetor solar no rosto e no pescoço. Assoviando baixinho esperei pelo fim do mundo ou do dia, o que viesse primeiro.



Quinto dia.

Sexta-feira. Metade das víboras não vieram pela manhã e seguindo o padrão, a outra metade desaparecerá à tarde. Hoje descubro o caráter dela! Dez e vinte e cinco ela chegou! Mal me cumprimentou com um bom dia ligeiro e superficial, pegou o telefone e pediu café da manhã no bar em frente – isso é sinal de noite ruim e dia pior, reconheço esses sinais de longe - e foi ao banheiro maquiar-se, e essa foi a primeira e única vez que vi a de cara limpa. Para mim ainda era linda, mesmo sendo invisível a ela, ela ainda era linda para mim, emocionado e trêmulo com essa epifania liguei para o RH:

– Estou subindo! – e fui para o quinto andar.

Na volta, a caminho de minha sala no corredor, escutei choro vindo da copa, era ela, não poderia ser coisa boa e certamente ela não chorava por mim... Intui que passaria o dia sozinho na sala entre Frank Sinatra e telefones tocando sem parar. O vigia da manhã me trouxe a pilha de D.O.s de ontem – o passado não me dá folga. Agora minha sanha homicida será saciada, procuro pela minha tesoura – onde ela está? - não quero cortar papeis com estilete, quando estou com ele na mão sinto que não respondo por mim, preciso da tesoura, e quando abro a terceira gaveta para pegá-la saem de lá as esquecidas e ainda vivas borboletas azuis, a minha surpresa kafkiana para ela que até eu mesmo tinha esquecido. Elas começaram a voar atarantadas pela sala tentando sair pelas janelas fechadas e prestes a serem trucidadas pelos ventiladores, e então os telefones começaram a tocar, os trens começaram a apitar e os caminhões a buzinar para os mesmos trens saírem de sua frente, e a faxineira que tinha entrado na sala para me devolver o desinfetante importado, começou a gritar assustada com as borboletas. Nesse momento, numa lucidez que há muito não vivenciava telefonei ao Déspota do RH:

– Tô subindo! Lá em cima entre uma tragada e outra lhe segredei - Cara, o amor não presta! Acho que vou entrar com meu pedido de licença-prêmio ainda hoje...

2012/09/06

REFEIÇÃO


No pedaço de pão duro, esmolado, tudo o que acompanhou de recheio foi o nojo, o asco, a má vontade e nada de manteiga ou, sonho distante e impossível uma fatia de mortadela. O pé descalço, duro feito casco, seguiu pela rua carregando aquele corpo andrajoso e faminto. O pão na mão poderia ser alimento, e de tão duro, uma pedra, uma arma.
No bolso, uma bituca de cigarro guardada para depois de um almoço...
Ah! Essas piadas sem graça que a vida nos faz!

MACAU


(OU NEM TODAS AS PATACAS DO MUNDO)



A princípio, para a sua alegria de eterno endividado um dia começou a receber de Macau envelopes recheados com verdes notas de dólares, muitas.
Depois, começaram a vir com instruções para investimentos, todas desconsideradas e ignoradas, afinal se não sabia quem as enviava, pouco importavam a recomendações.
Quando as cartas pararam de chegar, sua alegria e alívio foram enormes. Já havia mobiliado o apartamento, trocado de carro arrumado, uma amante, acabado com a barriga, e largado do emprego.
Mas...
Um dia, começou a receber telefonemas às altas horas – fuso horário, pois na Ásia era bem cedinho - com cobranças e sérias ameaças...
Hoje sua rotina diária começa com a mesma indagação:

- Quem em Macau me conhece, quem?

E termina seu dia tendo pesadelos com uma tal Madame Ching Yih Saoa

2012/09/05

DEPOIS É TARDE



Fumante por mais de cinquenta anos, uma noite acordou com um acesso violento de tosse, tanto tossiu que começou a vomitar sangue e enquanto agonizava, a mulher entre histérica e vingativa gritava:

- Foi o cigarro, foi o cigarro!

Na necropsia provou-se que ela estava enganada. Pena o morto não poder ter tido a última palavra!

2012/09/03

OS MENTIROSOS





As ideias dela eram tão podres que o cérebro apodreceu. Só o câncer para evoluir na mente de uma alma tão suja. Os filhos, justificando anos de vassalagem às cafajestadas da velha, contam na vizinhança que a mãezinha era boazinha, só tinha desvio de caráter porque já era doentinha, coitadinha. Os netos só passam vergonha.





2012/08/31

PROJETO DIÁLOGOS

PAPO DE CAFETERIA #001

Religiosamente os dois sentavam todos os dias no café, a mesma mesa, o mesmo pedido, o mesmo garçom. Só mudava mesmo era a conversa, nunca repetiam uma conversa, nunca deixavam em aberto o assunto do dia, e naquele dia o assunto era: a política das cotas do governo para jóqueis canhotos nas corridas de cavalo. E assim, Melo disparou seu comentário:

- Absurdo esse tipo de coisa, o governo devia investir em outros tipos de cotas.

- Absurdo mesmo será fabricarem as rédeas para esses cotistas. Imagine só quanto o governo vai gastar de verbas públicas com isso?!?! Aposto que tem a mão do nobre deputado metida nisso, ah, se tem!!! Esse café já esfriou!

- Não, não, não acho que isso vá resolver o problema. A coisa é muito mais política do que econômica.

- Nem uma coisa nem outra, isso é falta de respeito com a população e mais uma forma de roubar a gente. E esse café? Não vão mandar um quente??

- Sem sombra de dúvida. Mas você não acha que o Fernando Planct deveria ser o ministro nessa caso?

- Sem sombra mesmo, café frio eu não aguento! Ora esse Ministro! Esse ai é do mesmo naipe daquele outro da Pesca, que nunca pôs uma minhoca num anzol! Me empresta teu celular, acabou o crédito do meu, vou pedir um café ali na outra cafeteria...

- Hahahahah...tá de brincadeira. E como ficam as medidas provisórias que já estão em vigor?

- Acha que estou de brincadeira? Me dá daqui o celular e você vai ver!!! Como você bem o disse, são provisórias, mas aposto que mundam as regras no meio do jogo, digo, da corrida, e ainda vão botar a culpa no cavalo... Espere um pouco, está chamando. Com ou sem leite?

- Não havia pensado por este ponto de vista. Sem.

- Sim, eu sempre penso no pior. Pobre do cavalo...

- Tá, ok! Vamos dizer que isso seja verdade. E nós dois, então, o que seria de nós se não tivéssemos a nossa cota do governo para apreciadores de café preto, nascidos entre 1963 e 1972?

- Isso não é problema meu, sempre digo isso, afinal nasci em 1961. Vão entregar em quinze minutos... Vai chegar frio!!!

- Definitivamente, acho que você deveria dar a última palavra nisso! Então cancela.

- Tem razão. Me dá o celular, vou cancelar o café!

Levantaram-se, com a certeza de que mais um assunto foi exaustivamente debatido, porque o amanhã chegará com mais um cafezinho e um novo assunto!

2012/08/30

MEIA-NOITE



A meia-noite o tocou com um arrepio nas costas e doze badaladas, simples assim, mas que sustou ele levou...

2012/08/29

PEQUENA ODE AO MEU CIGARRO



Sou só
Vivo só
Ando só
E tenho só
E somente
Por companhia nessa
Solidão o meu cigarro
Ele me acompanha
Pelas ruas
Ele está comigo quando reflito
Sobre a minha condição
(ou seria minha solidão?)
Ele é o meu bom dia
E minha boa noite
Ele seca minhas lágrimas
E encobre meus soluços
Ele não me cobra nada
Nada exige
Não me confronta
Ele está aqui disponível
Bem no bolso da camisa
Sobre meu coração
Estou conformado e sei que
Minha solidão há de me matar
Antes da fumaça de meu cigarro...

2012/08/28

TENSO



O medo vinha à noite, no bater do vento nas janelas, no latido distante do cachorro, no grito anônimo na rua escura, no telefone que toca às altas horas, na insônia cheia de fantasmas e sirenes apitando loucamente...

E o amanhã como será?


2012/08/23

O MEDO ASSOLA A CIDADE



Invadiram a casa pelo telhado.
Não quebram nada, as telhas seguem inteiras, nenhum barulho, o gato que dormia no sofá, não acordou. Nada foi roubado, tudo estava na mais perfeita ordem quando os policiais - telefonema anônimo - chegaram no dia seguinte.
Os proprietários estão sumidos até hoje. Há boatos, muitos - sussurram a boca pequena - que os bandidos comeram o casal de idosos, nem osso sobrou.
O medo assola a cidade.


2012/08/22

DECISÃO ADIADA



Pôs o uísque no copo, duas pedras de gelo, umas gotas de veneno, girou com o dedo  indicador, por força do hábito lambeu-o depois.  Achou a mistura tão amarga que jogou a bebida fora, iria pensar noutra forma de por fim à própria vida.
.

FOLCLORE



Minha garrafa de vidro quebrou e o saci fugiu.

Se tivesse comprado aquela em Taubaté numa garrafa pet...

2012/08/21

LAR



A casa é humilde
As galinhas pelo quintal
O coelho a correr por todos os cantos
Crianças brincando
O sol claro
Céu azul
Pessoas rindo
E celebrando o encontro
Acho que isso é um lar de verdade