2011/11/11

UM ESTRANHO NA CIDADE

Uns diziam que ele havia chegado às seis horas da manhã, com um capotão grosso de lã, chapéu preto de abas largas – parecia até um corvo – dizia Dircinha do Feijó; botas sete léguas e cara de mau, muito mau mesmo.

Já outros – sempre tem “os outros” – diziam que ele chegou de carro – que marca? – e alguém aqui nesse fim de mundo entende de marca de carro?, basta não ter uma mula, cavalo ou burro puxando, que vira carro na língua desse povinho – vermelho, vermelho pecado - olha ai outra vez as expressões que essa gentinha usa – e passou voando pela praça levantando uma poeira danada – como se fosse preciso passar alguma coisa voando prá levantar poeira aqui...

A verdade é que ninguém entendeu o que foi que aconteceu mesmo. Sabe-se somente que um estranho passou pela cidade, se a pé, lombo de burro ou carro, sabe-se que ele passou por aqui. A poeira no ar não prova muita coisa, até galinha ciscando aqui levanta pó da rua.

O estranho, além de um estranho aqui na vila, foi o sujeito estar usando um capote daquele de lã com um calorão desses. Imagine, até as árvores estão se desfolhando por causa da canícula...
Seu Jorginho da Ceição, acha que ele estava carregando uma arma dentro da roupa, e começou a contar pela milionésima vez o único filme (que era de gângster) que ele assistiu na vida num cinema na capital, e lembra até hoje aquela comida branca e salgada que comeu lá. Apostava que era uma “vingester”, nem sabia pronuncia “winchester” e pôs-se a falar, falar e falar até que Ceição o mandou prá dentro lavar as roupas que precisavam ser entregues amanhã. – Esse homem não para de falar nesse filme há trinta e dois anos, trinta e dois anos ouvindo isso – e olhando pros lados disse:



- Vô lhe contar um segredo, tô guardando dinheiro pra levar ele no cinema da capital no Natal, tomara que ele mude o “disco” depois disso.


Na rua em frente ao Bar do Tadeu, o povinho se reunia e acrescentava mais histórias sem sentido nesse acontecimento mundano.

Houve quem dissesse que o eclipse tinha sido culpa do estranho, seu Mundinho Meloso (Raimundo pra patroa quando ele chega bêbado em casa) reclamou que o sujeito tinha roubado a sua aposentadoria quando tudo ficou escuro. Todos riram. O velho Meloso, nunca via a cor da aposentaria, que ia direto pro bolso de Dona Lindoca, e chorava essa velha história na ilusão de convencer alguém a lhe pagar outra birita.

Antes que o senhor se pergunte desse eclipse já lhe respondo. Nada entendo das vontades do “Grande Arquiteto” – li isso nas “Seleções” na barbearia do Astolfo Alemão - se Ele resolveu apagar o dia por uns minutos, Ele deveria ter lá suas razões, fosse por economia de sol, fosse prá assustar seu Mundinho Meloso, tudo que posso afirmar é que realmente houve um eclipse, mas que ninguém, eu posso jurar com a mão sobre a bíblia, que ninguém foi roubado pelo estranho, até porque, verdade seja dita, quem não estava no Bar do Tadeu, correu pra se abrigar na Igreja...

Quando o sol voltou e o céu ficou azul de novo, as galinhas acordaram pela segunda vez nesse dia e começaram a ciscar e cacarejar como se nada tivesse acontecido – como esses bichos tem coisas a nos ensinar! – Aí os sinos tocaram como se anunciassem um novo mundo, as velhas corocas, - com exceção de Dona Marciana, cada dia mais linda, que acordando àquela hora, não se apercebeu de nada e perguntou se tinha se levantado muito cedo para acordar com os sinos da Igreja – correram de volta à rua.

- Como? Acho que não entendi a pergunta de Vossa Autoridade. O que foi que aconteceu com o estranho? Sei não. Foi tanto alvoroço, tanto diz-que-me-diz, que o homem entrou e saiu da cidade sem ninguém saber quem ele era, mas na minha opinião, se é que o eu posso dar a minha opinião, eu acho que o estranho entrou na bifurcação errada, à esquerda, e veio parar nesse fim de mundo por engano...

As vezes isso acontece, até me lembro que em mil novecentos e setenta e cinco...

Um comentário:

MIRZE disse...

Legal, Roberto!

Deve ser assim em cidades do interior mesmo. Porque nas grandes cidades todos nós somos estranhos todos os dias.


Beijos

Mirze