2011/11/16

SOBRE A CULPA E OUTRAS BESTEIRAS


Culpa.
Discutia isso com o Rodrigo hoje. Culpas de haveres e culpas de quereres.
Por que nos culpamos? Por que nos pegaram? Por que nos viram? Por que nossos olhos nos acusam diante do espelho?
Culpa.
Pecamos por pensamentos, atos e palavras.
Ah! Essa minha cultura judaico-cristã. Mas que atire a primeira pedra quem nunca pecou.
(Fico sossegado nessas horas por não possuir ações de pedreiras. Pelo visto ninguém atirou nenhuma pedra, certo?).
Quero crer que a minha meia-dúzia de leitores é honesta, pelo menos consigo mesma.
Culpa.
Nos culpamos por tantas coisas bestas, e nos escusamos de outras realmente condenáveis.
Mas discutíamos outra forma de culpa.
O pensamento, esse monstro indomável que trazemos dentro de nós, e que, por inexplicável que seja, é muito maior que nós.
Quantas vezes nos pegamos pensando em algo inominável, algo que conscientemente nunca faríamos, que condenaríamos veementemente no próximo?
Um exemplo besta, mas um exemplo: vivo fazendo regime, mas não posso ver um doce que chego a babar.

- Pecadilho! - dirão vocês.

Concordo plenamente. Mas, e se vemos uma mulher bonita, uma jovem atraente. E se porventura ela dá com o nosso olhar, sorri, mexe o cabelo daquele jeito, sorri um sorriso de fazer covinhas...? Uma torrente de pensamentos libidinosos nos assola. Por um segundo vivemos uma vida de venturas mil, imaginamos as maiores besteiras. Largar a família, deixar o emprego, começar vida nova na Argentina, quem sabe vendendo pulseiras e outras quinquilharias, ir para a Bahia e morar na praia vivendo de amor eterno...
Um segundo, um mísero e desgraçado segundo, destruímos toda uma vida. Largamos a mulher com quem vivemos os tempos duros, os filhos que às duras penas tentamos educar dentro dos valores (ai, ai, ai) cristãos/ocidentais, e afundamos na lama da maledicência um bom nome construído com muito suor, muita lágrima e sangue.
Culpa = Arrependimento.
Tivemos toda a juventude para errar. E erramos até na hora de errar. Agora o mal já está feito. Não adianta chorar sobre o leite derramado.
Para terminar a conversa, o Rodrigo me enviou esse poema do Olavo Bilac:


Remorso
Às vezes uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando,
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.
Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!
Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude.
Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!

A propósito, aquela mocinha não sorriu para você, foi para aquele rapaz musculoso e cheio de tatuagens que estava encostado no balcão do bar bebendo cerveja...
Positivamente, a vida não presta.

2 comentários:

Bárbara disse...

Uma das coisas mais lindas (?) que já li sobre comportamento.
Linda e real!
Meu escritor favorito!!!

CONCORDO FIELMENTE CONTIGO!

PARABÉNS!

MIRZE disse...

MUITO LINDO!

Nessa cultura já nascemos culpados, até por nascer.

Você descreveu de forma bela o que a tantos incomoda.

Parabéns!

Beijos

Mirze