2011/10/24

FININHO


Fininho já não era muito robusto mesmo, daí o apelido. Mas estava muito magro agora, Chupado, triste, meio corcunda, olhos fundos, cabelos oleosos, mais empurrados para trás que penteados, os ombros caídos, não andava, arrastava-se sempre três ou quatro passos atrás da gente. Não falava mais, pouco interagia.
Era o primeiro a sentar-se à mesa e o último dela a sair. Não comia, via a refeição esfriar no prato, o arroz secar e amarelar-se.
Roubavam-lhe as misturas, bebiam seu vinho, falavam dele como se ele já não estivesse presente – e creia-me senhor, ele já não estava mais mesmo.
Com o tempo fomos nos acostumando com sua presença ausente.
Já não mais o esperávamos para as refeições, não percebíamos se estava à mesa conosco ou não.
Tornou-se, embora ali em corpo e alma, invisível para nós. Somente a garçonete o via, afinal via-o e a nós como fregueses, sem qualquer distinção, mas mesmo assim ele era o último a ser atendido.
Seu prato era trazido e posto à frente de seus olhos mortiços que ficavam fitando a comida, já a esse tempo não fazíamos mas chacotas ou qualquer brincadeira, pois já atinávamos que a coisa era séria mesmo.
O que poderia ser feito?
Perguntar-lhe o que sentia no peito, o que estava lhe acontecendo era bobagem, pois ele já demonstrava ser incapaz de falar ou de articular qualquer palavra, por mais simples que ela fosse tanto tempo estava sem conversar.
Sua pele - poderia ser impressão nossa - estava de branco-pálido, passando a transparente. Suas veias à mostra se expunham coloridas e pulsantes. Seus braços estavam que era duas varas finas, das suas pernas intuíamos somente os joelhos. Suas roupas sobravam sobre aquele esquálido corpo, que uma brisa, dessas de fim de tarde, poderia partir ao meio.
Tomávamos agora, muito cuidado para não esquecê-lo em algum lugar, pois houve uma sexta-feira que o deixamos encostado no balcão dum bar, e só demos pela sua falta horas mais tarde no bilhar, já do outro lado da vila. Não fosse a boa-vontade dum taxista primo dele, só buscaríamos na segunda-feira...
Depois desse susto passamos a prendê-lo numa espécie de coleira, presa a seu pulso e no pulso do “sorteado” do dia.
Mas mesmo com tanto cuidado, desvelo, um dia sumiu...
Procuramos em todos os lugares que freqüentávamos, fomos aos bares, botequins, bilhares, zona, até na peixaria, onde uma vez, para testar se “a ausência” era doença mesmo ou safadeza nós deixamos um sábado inteiro, da manhã à noite encarando um atum congelado. E nem mesmo lá ele estava.
Onde ele teria ido?
Ninguém tinha a menor idéia de seu paradeiro.

- Sumiu! – era essa a única resposta que ouvíamos.

Somente muitos meses depois, quando Fininho já havia se tornado uma lenda urbana, viemos a saber de seu paradeiro e de seu triste fim e mesmo assim a notícia veio do jeito mais bisonho possível.
Bebíamos como bebíamos todas as noites e todos os dias e fins de semana e dias de semana, para comemorar ou para chorar alguma besteira, quando ouvíamos por puro acaso - pois sempre fazíamos muito barulho nos bares – a também triste história de uma moça que havia se enforcado por conta de uma história de amor não correspondido.
A moça apaixonara-se um rapaz, mas esse tímido ou covarde nunca lhe correspondeu o sentimento limitava-se a vê-la à distância, enviando-lhe, de quando em quando breves bilhetes, onde prometia que um dia se aproximaria dela, e que nesse dia pediria sua mão em casamento.
O tempo foi passando e nada do dia dele se apresentar à sua frente, nada de ouvir-lhe a voz, abraçá-lo, enfim!
Contaram por fim que numa manhã dessas, uns meses atrás, a moça abriu a janela de seu quarto, e na calçada, ela viu um monte de pó e restos de roupas, onde ela reconheceu as roupas do Fininho, dele que nunca foi homem de achegar-se a ela, homem de dirigir-lhe a palavra...
Desesperada, varreu aquele monturo para dentro de um balde e o carregou para dentro de casa...
Agora, somente agora, sabíamos que fim ele tinha levado. Desfez-se de amor, de covardia, de impotência...
Então bebemos, bebemos como se todas as cervejas do mundo fossem se acabar nessa noite, bebemos aliviados, bebemos resolvidos a esquecermos de vez Fininho e sua história.

Um comentário:

MIRZE disse...

Triste, mas existe muita gente assim, ignorada e entra em depressão.

Ótimo conto!

Beijos

Mirze