2011/09/10

A PROMESSA DE CARMEM


Com os olhos inchados de tanto chorar - sim ele chorou sem que ninguém percebesse, mas ele chorou - Oswaldo olha o relógio de pulso, entre as renitentes lágrimas tenta ver as horas. Ainda falta muito para a meia-noite.
Oswaldo ainda veste o terno preto, que ainda recende à coroa de flores, fumaça das velas, aos perfumes das velhas parentas que o abraçaram, fumaça dos cigarros que fumaram durante o velório de Carmem. A boca estava amarga de tanto tomar café, as costas doíam de tanto tapinhas de consolo, o corpo estava moído de tanto cansaço, mas a mente não desligava.
Olhou outra vez para o velho relógio que dançava em seu pulso magro e cheio de veias azuis, e viu que o tempo avançara bem pouco.
Resolveu tomar um banho, longo e quente que, quem sabe, lhe traria um sono breve, porém repousante?
Subiu as escadas lentamente, quase como que conferindo os números de degraus que ele conhecia a trinta e cinco anos, olhou as ranhuras das paredes, as teias de aranhas que se formavam no alto do teto, ouvia sem prestar atenção nos ruídos dos velhos degraus de madeira. A porta do banheiro rangiu, mas ele também fez que não percebeu. Tirou as roupas e abriu o chuveiro.
As lágrimas deram lugar à água quente e ao vapor, lentamente os músculos foram relaxando e alguma coisa parecida com paz foi se apossando de seu esquálido e torturado corpo.
Mal se enxugou e largou-se na cama, aconchegando-se na depressão no meio do colchão, aninhando-se, dormiu. Dormiu sem sonhar. Acordou pouco depois das dez, percebeu mais do que sentiu que estava com fome, e olhando o que havia na geladeira resolveu que ficaria ainda mais um pouco sem comer.
Mais tarde isso seria solucionado, resolvido, e amanheceria o dia seguinte feliz, realizado e de barriga cheia.

- A morte não é fim. – ele leu essa frase escrita num bilhete colado com um imã na porta do frízer. Sorriu.

Olhou o relógio, eram onze horas, mais sessenta minutos...
Tornou a subir as escadas, agora mais rápido, tão rápido quanto a idade o permitia, entrou no quarto e vestiu-se.
Pôs uma camisa florida, comprada especialmente para essa ocasião, uma calça de linho branca, passou gel nos cabelos grisalhos, loção pós barba nos rosto e saiu.
Sorria enquanto se dirigia até o cemitério, onde a mulher cumprindo a sua promessa de voltar após a morte, já deveria estar lhe aguardando.
Promessas, promessas, são tantas as promessas que faziam um ao outro, -“Nunca vamos nos separar’ – diziam amiúde, - “quem for primeiro volta para o outro”.
Por isso a morte da esposa não o abalou.
A família, os amigos, até mesmo os funcionários da funerária, comentavam como o homem estava frio diante do corpo da mulher morta no caixão, não demonstrava qualquer sinal de dor ou abatimento. Pior ainda, parecia feliz, sorria, evidenciando até certa irritação quando abraçado e levando tapinhas nas costas.
Mas isso acontecera de manhã, quase ontem. Olha para o relógio, meia-noite em ponto. Ele estranha a ausência da mulher. Ela não está no portão esperando por ele como o combinado. Onde estaria? Teriam roubado o relógio com qual tinha sido enterrada?

- Malditos coveiros! – esbravejou baixinho para não ser escutado e confundido com ladrão de sepulturas. – Mas talvez o meu esteja alguns minutos adiantado. – tentou confortar-se com essa idéia.

Não demorou muito e logo ouviu a inconfundível voz da mulher que o chamava:

 - Oswaldo, Oswaldo você está aí?

Oswaldo emocionou-se, no seu íntimo achava que a mulher não voltaria do mundo dos mortos, ele jamais acreditara mesmo em reencarnação, não acreditava em nada, somente nas promessas da mulher. E ela cumprira mais essa.
Corre ao seu encontro, sorrindo, chorando, rindo, tremendo, arrumou forças não sabe onde para não gritar seu nome.
Lá estava ela.

Viva! - ainda com flores grudadas na roupa, e viu aliviado que o relógio ainda estava em seu pulso.

- Carmem você voltou para mim como havia prometido. Vamos recomeçar a nossa vida em outro lugar. Já pus até aplaca de vende-se na porta de casa...

Carmem olhava para Oswaldo com um sorriso plácido, calmo, um lago sem vento sob o luar. Ela esticava-lhe o braço, mas não se movia do lugar.
Oswaldo achegou-se a ela e a abraçou em seus braços com tamanha ânsia que quase a partiu ao meio.

- Vamos Carmem. Vamos embora antes que aparece alguém por aqui e nos veja. Vamos embora, vãos embora. Você cumpriu sua promessa e voltou para mim.

Carmem sorriu, pigarreou, girou a ponta do pé direito no chão fazendo uma pequena depressão no solo arenoso, e olhando para cima, como que procurando alguma estrela no céu, declarou.

- Sim Oswaldo, eu voltei. Sim estou aqui como o prometido, mas não para ficar com você, mas para te buscar, para você ficar comigo. Chega de traições com a Vânia do escritório, com a minha prima Alicinha, com Dona Francisca da farmácia. Nunca mais você vai me trair Oswaldo.

E puxando um apalermado Oswaldo pelo colarinho, pulou de volta para a sua cova.
...e no escuro um gato miou, espantando uma coruja que estava prestes a dar o bote num rato.

2 comentários:

MIRZE disse...

Roberto!

Quase acreditei! Ótimo conto para o dia de hoje. Pena que ela não levou o desgraçado!

Beijos

Mirze

Ranzinza disse...

Explique-me "esse dia de hoje"!