2011/09/09

UMA QUASE EPIFANIA

Quando andamos pelas ruas, devemos estar atentos, de olhos bem abertos para os sinais que a vida nos envia. Sempre há alguma coisa no cenário urbano (ou rural, dependendo de onde mora o leitor) que destoa de modo bem sutil.
Ora é um cavalo que coça a orelha - já viram um fazendo isso? Se não, o Vadinho pode contar isso a vocês - ora uma evangélica pregando para uma puta na porta do puteiro.
A palavra puta ofendeu os ouvidos do leitor?
Desculpe.
Mas quando se ouve uma música chamada “Mulher que se disputa”, temos que estar preparados para tudo. Porém não é disso que quero falar, digo, escrever.
Sigamos, para eu não me perder em elucubrações outras...
Ontem aconteceu a segunda opção. Estava indo embora para casa e, ao passar em frente a um dos muitos puteiros que há aqui no centro da cidade, vejo uma senhora de coque, saia preta sobre os tornozelos, com uma cara resignada de “Ó Senhor! O que faço em teu nome e por um terreno no paraíso”, entregando um folheto de sua igreja e tentando, creio eu, convencer a moça, (hahahahahaha, sim, divago) a largar aquela vida de pecado e devassidão.
Olhei para a cara da profissional do amor e balancei a cabeça com um riso sardônico na cara, que me foi retribuído no mesmo tom jocoso.
Segui em frente e atravessei a avenida ainda com o riso na cara, quando, do nada, me surge um senhor, baixinho, gordo, careca, quase uma réplica de Buda, não fossem os óculos quadrados na cara e uma pastinha 007 na mão esquerda.

- Eu também era um pavio-curto, briguento e encrenqueiro até o dia que me disseram que eu não era um sujeito belicoso, era só por demais orgulhoso. Isso mudou a minha vida.

Olhei para o lado, pensando que ele estivesse falando com outra pessoa que não eu, afinal não sou de conversar com estranhos na rua ou em qualquer outro lugar. Quem me conhece sabe bem disso.
Ele continuou com a arenga, até que resolvi cortar o assunto com minha peculiar delicadeza:

- Pois saiba o senhor que não sou belicoso nem orgulhoso, sou apenas muito, muito nervoso!

Pois não é que o sujeito sumiu. Não posso afirmar que ele sumiu no ar, haja vista ele não ter demonstrado, à primeira vista, ter a capacidade de voar, mas sumiu tão rápido que pensei ter sido uma alucinação.
Seria um aviso?
Se for, aviso de quê?



3 comentários:

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

Põe o Buda para bater carimbo, põe que eu quero ver se ele não fica belicoso rapidinho.

Entenda direitinho, não é para por a bunda para bater carimbo.

MIRZE disse...

Excelente, Roberto!

Aliás e por falar em "putas", são essas as mulheres que mais respeito. Elas não tem outra opção e muitas trabalham assim para alimentar filhos, mãe doente etc...O mercado de trabalho está cada vez menor. Aqui na Lapa, tem uma avó que entrou nessa vida porque a filha morreu e deixou três pequenos filhos. Sem nunca ter trabalhado, e já com idade, resolveu fazer isto.

Não é bonito e honroso?

Beijos

Mirze

Ranzinza disse...

Esse mundão de meu Deus nunca deixa de me espantar...