2011/05/10

EDUCAÇÃO, PARA QUÊ?


Triste o nosso trópico, triste.

Tento não ser pessimista, mas vejam essa experiência com crianças.

Estava esses dias na Feira da Cidadania, em São Vicente, num stand, não interessa qual, conversando com crianças.

Entre as muitas que lá estavam, uma me chamou mais a atenção.

Ela, não declinarei o nome, com treze anos, falava, com certo orgulho, que não gostava de ler.

Não lia nada, absolutamente nada. Nem quando o professor assim mandava, para fazer algum trabalho. Se muito, passava os olhos num livro ou outro em dias de prova. E mesmo assim, copiaria o que pudesse dos colegas.

Fiquei besta com isso.

Perguntei-lhe se nunca nenhum livro lhe havia chamado a atenção, um livro de histórias, mesmo história da carochinha...

Em certo momento, perguntei-lhe:

- Você já leu Drummond?

- Leudrummond? Não, nunca ouvi falar nesse cara. - Disse olhando-me nos olhos, como se eu tivesse lhe indagado se já havia visto um marciano.

Expliquei-lhe, entre as gargalhadas dos presentes, (sim, há testemunhas) que não era “Leudrummond”, mas Drummond, Carlos Drummond de Andrade.

Mas debalde.

Ela não entendia nada. Nada de leitura, nada das gargalhadas. Mudei o rumo da “prosa”.

Quis saber o que ela planejava para o seu futuro (pra quê?).

Respondeu, outra vez, toda orgulhosa (pobre, pobre criatura!):

- Faxineira de shopping ou diarista!

A princípio engasguei.

- Como alguém em sã consciência quereria ser faxineira de shopping?

- Para ver gente bonita por perto toda hora! - Respondeu horrorizada com a minha ignorância.

Como fazê-la ver que isso não era sonho? (quando não um pesadelo?) Que ser faxineira de shopping era mais uma triste conseqüência que uma opção?

Expliquei-lhe, já nervoso e desiludido, que se ela não estudasse, se empenhasse em ser melhor, em se destacar dos seus colegas, ela não seria nada na vida. Que sem estudo, sem um pouco que fosse de cultura, educação, sua vida não seria nada gloriosa...

Que em última instância, o conhecimento era o único bem que ninguém poderia tirar, que o saber não era um relógio, um tênis de marca que poderia ser roubado, que diferente da sua juventude, ele não se perderia ou acabaria...

Quando ela me interrompe com sua displicente arrogância:

- Então vou para Miami casar com um homem bonito e rico!

Mais gargalhadas!

Passei as mãos no rosto, cocei os cabelos, respirei fundo, e tornei à minha arenga. Tentei, já a essa altura dos acontecimentos, inutilmente, fazer-lhe ver que nenhum homem “bonito & rico” se interessaria por uma mulher feia e burra, sem um mínimo de conhecimento, modos e educação.

Pondo as mãos na cintura, ajustou a mini-saia, suja e surrada, e jogando os cabelos para trás, falou cheia de soberba estupidez:


- Hiii tio, que papo! Se nada der certo, então viro mulher de traficante.

Virou-se e saiu, rebolando e arrastando as chinelas.

Que fiz eu?

Acendi o meu charuto, velho amigo e companheiro dessas desditas.







Texto antigo que encontrei aqui no computador

8 comentários:

Fabiana disse...

Estou a me perguntar... o que faria você na "Feira da Cidadania" e em " São Vicente"??? Como se não bastasse, o que o levaria a puxar assunto com um ser nativo, de lá???
Você esta carente?? Vou te dar um abraço!!!

solaris disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
solaris disse...

Mas un charuto é sempre bem vindo, nessas horas..malditas, ou em qq outra..

Ranzinza disse...

Fabiana, fui a serviço, a serviço, vida de cão a minha...

Solaris, o charuto é o meu cachorro fazendo fumaça...

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

Ela crescerá, não sofra por antecipação. O pior está por vir.

Ranzinza disse...

Tenho certeza disso...

Gaby Anny disse...

É ... infelizmente é a nossa realidade... o que a Televisão, atual educadora de nossa juventude não faz!!! aafffff
Realmente ... ela vai sofrer bastante. Sou brasileira, mas afirmo : "Ohhhh povinho sem cultura!"
Arrggh

Ranzinza disse...

Arrrgh²!