2014/07/03

CASO DE FAMÍLIA





Sobrinha querida, perdemos a chance de nos ver no último aniversário de “seu sobrinho”, aquele que é filho - por hora unigênito e que não venha a se tornar “o mais velho”, oremos! - daquela sua irmã primogênita... (como estamos ficando velhos, e nossa árvore genealógica, torna-se cada vez mais um cipó genealógico!)

Por hábito, que só me causa problemas, chegamos à hora aprazada. Qual não foi o meu espanto (ainda não entendo porque me espanto com isso! Será a senilidade manifestando-se? Confira para mim mais tarde.) erámos os primeiros. Primeiros adultos permita-me frisar, primeiros adultos! Pois por lá já estava “seu sobrinho” e mais um dois fedelhos tão mal-educados quanto ele. Havia um que estava imbuído da firme pretensão derrubar os portões da casa com seu (de “seu sobrinho”) skate. Rosnei para ele, mas parece que o pequeno animal não percebeu a ameaça e tentou passar com o dito skate sobe meu pé direito. Chamei a atenção de sua (minha irmãzinha) mãe para isso, mas ela impotente, levantou os ombros, fez beicinho (charme infantil inútil nessa idade) olhou para cima e perguntou o poderia fazer.

Respondi, mas ela me explicou que isso daria uma cadeia brava.

Inconformado, acendi um cigarro e fui em direção ao portão que o pequeno vândalo tentava com todas as suas forças por abaixo. Segurei a vontade de queimar-lhe um olho.

Aposto que você se pergunta se havia algo de positivo na festinha.

Sim, havia.

Uma mesa de doces e salgados que estava uma maravilha. (viu?, sei elogiar)

Distingui lá, para minha eterna felicidade umas empadinhas (sou humano e tenho lá minhas fraquezas). Não pude me furtar a minha velha obsessão, e contei uma velha piada:

- * “Quando for me servir delas será um ato de canibalismo!”

Não causou-me espécie não ter sido entendido. Ainda bem que, para dar maior dramaticidade à piada, não mandei tirarem as crianças de perto.

Mas estou divagando e ainda não lhe respondi a pergunta primordial. Indagava você minha sobrinha número dois - por ordem de nascimento, só isso, não se ofenda – porque fui embora tão cedo, haja vista que parecia que eu estava me divertindo muito no natalício de “seu sobrinho”.

Não obstante as crianças – e não declinarei uma palavra sequer sobre o gosto musical da mulher de seu pai, minha prezada irmã e sua amantíssima mãe! (Hemodiálise me livraria desses genes que carrego? Pesquise para mim mais tarde) - encosta-se a mim enquanto fumava (sim essa cigarrilha longa que fumo às vezes me causa certos dissabores) sua Tia Célia.

Houvesse aqui uma trilha sonora, seria o momento do:

- **Tchantchanraram!

Ela achegou-se a mim, como um tsunami, sem sutileza, derrubando, destruindo tudo à sua frente, mas vamos ao resumo da ópera:

1.                  Primeiro reclamou que a minha mãe, sua adorada avó, enviou-lhe bolinhos. Bolinhos esses que deveriam de bacalhau, mas de bacalhau não era, e sim presunto e queijo. Que eu acho o ideal para uma pessoa de tão fino paladar...  E em vez dessa infeliz ficar calada, ligou para  minha mãe (sua adorada avó, lembre-se disso, pois um dia ela pode vir a faltar...) e pôs-se a falar mais que o normal dela (dela sua tia Célia);

2.                   Sua adorada avó (você é feliz que ainda tem uma) por sua (dela) vez reclamou com o seu tio (meu irmão Mandinho lembra-se ainda dele? Sei que a há muito vocês não se veem...)

3.                  Ele (o seu tio Mandinho) chega em casa e quase (uma pena esse quase, uma pena) dá na cara dela (sua querida tia Célia).

4.                  Ela (a dita tia) quase ligou para a mãe de seu tio (sua avó)

5.          Depois disso minha mãe, (sogra da supracitada Célia) para limpar a barra (Santa Inocência. Precisamos acender velas e queimar incenso a essa entidade!) deu de presente à mãe da Suelizinha (sua prima, filha de seu tio Mandinho, imã daquele outro lá) um micro-ondas. - Prá quê eu quero um micro-ondas? Minha vontade foi de responder a ela: - “Para você enfiar a cabeça dentro e...” Ainda bem que eu fumo ainda bem que eu fumo...

6.                  Ainda por cima essa filhadaputadocaralho (veja, perdi a linha, minha esmerada educação, eu que poderia ter me tornado um diplomata, perdendo as estribeiras dessa forma!) foi encher o meu saco, dizendo na frente da sua outra tia (Rutinha) que ela (Célia) nunca: (a) quis, (b) pediu, (c) sonhou ou (d) sequer desejou um micro-ondas.  Pobre de meu irmão caçula... (acho que ele ainda acaba como primeira página de jornal um dia).

7.                  E, não obstante, ainda veio fazer fofoca, desonrando o nome de mamãe dizendo que a velha agora deu para fumar escondido.

Nesse momento, antes que eu traumatizasse as crianças (embora cada uma delas merecessem chicotadas e mais chicotadas e mais uns tantos anos numa masmorra a pão e água) cometendo algum ato tresloucado que levasse a mim e não o Mandinho à primeira página de jornal resolvi comer (às escondidas, não que eu tente me enganar, nunca, mas tento enganar a diabetes) um olho de sogra e fui-me embora.

Uma vez em casa, pleno sábado à noite, pedi uma pizza e mais um fim de semana jogado fora. Sua tia (mulher daquele seu outro tio - o caçula, o caçula! - não esse tio bom & legal você tem e tanto te mima desde a mais tenra idade, “ah os verdes anos que não voltam mais...”) acaba com qualquer clima ou reunião de família. Isso me faz sempre recordar porque nunca fui ao casamento deles.

Cheguei em casa com vontade de rasgar as fotos do nosso álbum de família que minha mãezinha (sua doce avó de cabelinhos tão branquinhos...) que amo com extremoso amor filial me deixou de herança antecipada.






*Uma empada comendo outra empada, entenderam?
** onomatopeia não é o meu forte.




MÁQUINA



Sentado em frente a máquina
Cada dia mais me  sinto
Uma engrenagem
Quadrada


2014/07/02

TEMPOS IMPERFEITOS


amanhã não tem ninguém
hoje? já estamos de saída
ontem... casa cheia
e nós para sempre
nunca mais...



MSM



  
MSM 1 - Eu te amo!       
MSM 2 - (resposta) Não te conheço, mas obrigado mesmo assim.
MSM 1 – “Eu te amo” para a pessoa errada, desculpe.


NÃO ENTENDENDO DITOS POPULARES...




Magrinhos, fraquinhos e famintos os meninos correm pela rua abaixo, com aquelas perninhas finas, feito gravetos, aos gritos de:

- A vaca foi pro brejo, a vaca foi pro brejo...

Ignorantes e famintos...



2014/06/30

MAIS UM COPO


as ruas escuras
a fumaça do meu cigarro
som de tom waits
sim a fumaça do meu cigarro
marlowe pode estar
numa esquina
tudo pode ser
(ou não ser)
neblina e sombras
e a fumaça do meu cigarro
os passos
surdo e invisíveis
os mistérios
que mistérios?
quê?
meu deus
                                             mais um copo e verei discos voadores...




SEMPRE O MESMO





a tristeza
amargura
vazio
o bater cartão diário
                      o dia
o dia a dia
sempre igual ao anterior
ao ontem a ontem
a mesma mesa
as mesmas conversas
o mesmo telefone
as mesmas perguntas
o mesmo mesmo de sempre
até quando?
quando chega o quando final?
Lá fora/pela janela
o mesmo céu
mesmo azul
mesmo nublado
mesmo chuvoso
o mesmo mesmo
eterno mesmo
o tempo que não passa
e passa sempre o mesmo
mesmo mesmo imutável
estático
diferente e sempre o mesmo
igual
folhinha
o calendário
é luxo
um desperdício
números sem sentido
mostrando o mesmo
o mesmo com nomes dias
diferente e mesmo assim
os mesmo dias
os mesmos
sempre o mesmo
                      dia



2014/06/18

PALCO ABSURDO


Ah! Como sofrem os amadores



a atriz
no centro do palco
sob a luz do spot
declama:

- o gato atravessou a rua
mas poderia ter sido pior!

silêncio
(nem uma mísera tosse)
longo e escuro silêncio
a vaia demorou
mas não tardou






(pro Vadinho & L.B.)


2014/06/16

CAFÉ



a xícara de café
a taça de conhaque
(promete um friozinho lá fora)
o cigarro prestes a ser aceso
o jornal jogado de lado
não fossem essas pessoas correndo...
se espremendo
indo ao trabalho
eu colocaria menos açúcar no café...



2014/06/11

PESADOS PESADELOS




Alta madrugada Joanilson acorda aos gritos:

- Fechem as janelas os elefantes estão chegando!

Dona Cida, vizinha do décimo terceiro andar, abaixo do dele, não entendeu nada, até ser tarde demais...



SÃJÃO


Tantas estrelas
Azuis no céu
E miro a luz
Vermelha flutuante
Do balão de São João

2014/06/09

VIDA VIOLENTA


Num primeiro grito
Foi concebido
No segundo
Nasceu
De lá para cá
Nunca mais parou de chorar


HOJE ESSA SALA É MINHA





 Hoje estou praticamente sozinho em minha sala. O outro sujeito está do outro, ouvindo músicas italianas e me deixando em paz. (Quando ele surta, o que não é difícil aqui, passa cantar e a reger uma orquestra imaginária...)
Agora posso pensar e refletir, fazer um pequeno apanhado de meus últimos dias - enquanto escrevo esse texto converso por e-mail com um amigo de Londres, explico-lhe e rio disso, que nosso correio não pode enviar-lhe a prometida garrafa de cachaça Pitú que tanto deu-lhe água na boca. Assim é a vida, “uma ilusão e uma rasteira”.
Semana passada fui a um barzinho (e que barzinho!) assistir a um show da banda de um colega de trabalho. Uma viagem no tempo (graça a Deus uma viagem para trás!!!) muito Beatles e outras tranqueiras sessentistas e umas outras setentistas...
Uma época perdida, pela cara para todo o para sempre, de boas músicas.
Mesa bem colocada, de frente à bateria e ao baixista, cerveja e nem senti o tempo passar. Catso deu até vontade de ser feliz!
Mas o que me interessa é que hoje estou “praticamente” sozinho em minha sala, sem a chefe que ouve pagode o dia inteiro, que canta axé e acha os pagodeiros “as coisinhas mais lindas desse mundo”!
Aqui estou a escrever, ouvindo minhas tranqueiras dos anos setenta* em paz.
Tento, mas sem conseguir bem, escrever uma crônica. Mas como já disse, estou sozinho, quem sabe até o fim do dia não rola algo que preste?
Uma dádiva, segunda-feira fria, chuvosa, sozinho e a certeza (essa realmente é certa) de um cafezinho em boa companhia após o almoço...
Hoje essa sala é só minha.





*Leon Russell Blue eyes and a black heart

2014/06/03

POR AMOR E DINHEIRO, POR AMOR AO DINHEIRO

(ou como diria o Vandeco...)




na porta
a falsa loira
sorri
seminua
a morena de chapinha
sorri um sorriso
borrado
outra sorri
sentada nos degraus
as pernas tatuadas à mostra
fumando cigarro
de cravo
sorri
para qualquer um
sorri
e canino dourado
brilha ao sol
sorri e faz
- psiu!!!
- psiu, vem cá!
sussurra ofidiamente
- por dinheiro
fazemos amor
- psiu!
- vem!
é...
como diz o vandeco
do alto deu calva sabedoria:
- puta burra e preguiçosa, se estudasse e lesse um livro seria ao menos uma garota de programa...
e sumindo na distância
o derradeiro:
- ei psiu!!!







2014/05/29

PRO MAGNO E A DATA DE HOJE



(Ah! Esse antitabagismo...)



Hoje a minha tragada
tem um prazer maior
que o normal
não só incomodo
aos que não fumam
como irrito ao papagaios
antitabagista
minha fumaça sobe
azul clarinha
dos caminhões
a fumaça preta
escurece o dia
mas essa a ninguém
incomoda
manda a mídia
seguem as ovelhinhas
balindo
         balindo
                      balindo...
que o matadouro
não lhes seja distante
amém!


2014/05/26

BIZARRO



 - Mamãe meu amiguinho falou que eu sou estranho... Eu sou?
- Não é não Arturzinho, não é não. Agora fique calmo senão suas anteninhas ficam muito agitadas.


2014/05/20

DESENCONTROS



Não bastassem as distâncias
temos as encruzilhadas
as pedras dos caminhos
e por fim os desencontros...


2014/05/15

2014/05/13

DOCES ROTINAS




Apanhava
Apanhava muito
Muito e tanto e tanto
Vivia roxa, vermelha, marrom...
Hematomas
Curativo
Bandagens e band-aids
Mas da sua boca só saia isso:
- Ele me bate porque me ama!
Na cozinha, a mesa posta.
No quarto a cama pronta.
No rosto um sorriso oblíquo
Nos olhos uma lágrima prestes a rolar...


NA MESA, FOLHAS EM BRANCO






O café
O papel em branco
O olhar vazio
Os olhos vermelhos
Os dedos calejados
E o papel ainda em branco
O café que esfria na xícara
Os grãos de açúcar espalhados na mesa
O cigarro esquecido e queimado no cinzeiro
É Magrão:
- “a coisa não rola” mesmo
(ou não rola mais?)
Cadê a inspiração?
Para onde foi a poesia?
O mísero e envergonhado poeminha?
Aquele poeminha besta, miúdo, quase sem graça?
Mas ainda um poema...
Que vento a levou?
Em que buraco ela se meteu?
Cadê a tal inspiração?
Acabou tudo, sim, acabou
Findou
Secou 
Só me restaram
O café e
O cigarro
Triste
Muito triste
Na mesa agora
Juntam-se as cinzas com o açúcar
Somam-se as xícaras
E as folhas
Sim as folhas
Continuam em branco...




2014/03/31

ALIMENTOS



Uns dão migalhas aos pombos
Outros bananas aos macacos
Já eu, bwahahahahaha
Dou atenção aos loucos!


2014/03/28

UM DIA DESSES ISSO IRIA ACONTECER, ESTAVA ESCRITO


(Um caso patético e i-real)




(A tv está ligada no bar, ninguém assiste nada pois português quer ver novela, os clientes futebol).
O gordo tentando puxar conversa chega pro Sílvio e diz:
-Hã então!
Nesse momento, há muito ansiado e ensaiado, Sílvio* derruba o copo de cerveja na mesa, levanta-se furibundo e sai do bar sem dizer nenhuma palavra.
Fim¹.
O Gordo treme os gordos beiços e chora  bem baixinho.
O garçom que tudo acompanha de longe vem com um pano sujo limpar a toalha de plástico da mesa.
O Gordo tenta entabular uma conversa  enquanto começar a limpar da camisa as migalhas do salgadinho nojento que estava comendo:
- Hã então...
O garçom larga a limpeza da mesa e volta para trás do balcão.
Fim²
Moral da história?
Hã então” não serve para começar nada, sim para terminar.
Fim³





*Nome fictício, é claro!


RESPONDA-ME VADINHO




Lembra daqueles dias
De glória?
Quando o mundo era pequeno e nosso?
Fala sério Vadinho!
Você imaginaria que chagaríamos ao fim
Como funcionários públicos?



2014/03/21

O VIAJANTE





O viajante desaparece no horizonte
Na curva da estrada
Na descida da montanha
Numa vaga, numa onda
Numa boleia de um caminhão
Que envia, de vez em quando, um cartão
(de lugar incerto e não-sabido)
Um bilhete
Um recado por um estranho
(barbudo e muito mal encarado)
Que some sem dar notícias
Que é visto numa foto de jornal, bem lá atrás,
(- parece com ele, será ele?)
Em meio aos anônimos
Que some aos poucos das conversas
Começa a se tornar sussurro, murmúrio
Tabu
Uma lenda
E que anos depois...



É HOJE!





Vou contar tudo, e vou contar agora mesmo, não me interrompa, só vou atender ao telefone e já volto.

2014/03/19

CONCLUSÕES BARATAS



 Nem sempre só simples palavras machucam
Às vezes elas são acompanhadas de paus e pedras
Ferro de passar e frigideiras
Positivamente
A comunicação é foda


2014/03/17

VENDO ATRAVÉS DO VIDRO



Sim
Através do vidro olhava
Mirava
Apertava bem os olhinhos míopes e medrosos
Tremia
Olhava com tanta atenção
Que se pensava estar dormindo
(sonhava?)
E do nada
De repente ela gritou:

- É ele, é ele!

Com que paixão apontou o bandido
Através do vidro.


2014/03/13

POESIA BARATA E SEM VALOR NENHUM





A lua
O miado de um gato
O avião que corta o céu
As estrelas cintilantes
O lixo espalhado
O farol do carro que faz a curva
E espanta as baratas na sujeira
As poças de água na rua
Os passos que se vão
As luzes nas casas que se apagam
Mais um dia que termina, e
Logo o despertador vai acabar com toda essa poesia ordinária



2014/03/12

ALTAS TEMPERATURAS, BAIXAS REFLEXÕES



Uma vez escrevi:
O outono já chegou
E eu ainda não fui a Paris
Hoje:

O verão não passa
E eu não passo desse verão...


- Que calor dos infernos meu Deus!


UMA VIDA MUITO INÚTIL


Passar o dia a dar de comer aos pombos
Passar os dias a dar de comer ao tempo
Passar o resto da existência física
A dar de comer aos vermes


ESSE ROCK ANTIGO, ESSE PIANINHO, COMO DÓI!




 Essa música que toca agora
Ressoa mais em meu coração
Que em meus ouvidos
Quanto mais velho fico...


2014/03/06

2014/02/28

GUARDE A ÚLTIMA MÚSICA PARA MIM


Dançou aquela música com toda a sua alma
E o corpo...
O corpo ficou largado na pista
Pela manhã a faxineira há de varrê-lo para a rua


2014/02/26

MEÇA BEM SUAS PALAVRAS, ALGUÉM LÁ EM CIMA PODE OUVIR...



Suas cinzas
Misturadas à areia da praia
Era prova cabal
Que sua blasfêmia foi ouvida



PORQUÊ MEU DEUS, PORQUÊ INSISTO?




E então na enésima música Wandeco, nervoso, sai com essa:
- Se eu gostasse de ouvir as letras de uma música eu leria um livro, o que eu quero é um solo de guitarra!
Guardei meus discos da Nana e fui-me embora.



2014/02/21

MEU MAL



O que, dizem, me matará
Não é a amargura que rói e destrói tantas pessoas
Meu mal é doce
Meu mal é o doce
Nem amargurado fico...


- E agora? Quem apagará as velinhas?



Na sala os convidados
O bolo, presentes e docinhos
No quarto balança o corpo



2014/02/17

DESABAFO

Ontem ensaiamos pela ducentésima milésima vez nossa separação. Depois de uma longa sequência de bilhetes na porta da geladeira, mensagens escritas com batom no espelho do banheiro e papeiznhos passados sob as portas do apartamento.


Quando chegou em casa às oito e trinta e sete da noite, eu já havia levado o Toby para passear na rua, chovia, estava na TPM, torcido o pé num buraco cheio d’água e dolorida, ele me pegou arrumando as suas (na verdade minhas, minhas!!) malas dele. Tirei tudo dos armários que joguei sem nenhum cuidado nas ditas malas.

Confesso que chorava...

Com os olhos embaçados vejo o miserável sair do banho totalmente careca.

Antes que ele proferisse qualquer palavra eu o desarmei dizendo que não acreditaria em mais uma mentira sobre sua revelação espiritual. – Sim, a cada briga e separação ele se descobria numa nova fé, e prometia que tudo seria diferente, numa dessas ele “doou” meu carro a uma igreja dessas neopentecostal...

Mas sabe qual foi a resposta ele? Qual?

- "Vamos jantar fora?".

Por um segundo, um mísero segundo eu perdi as estribeira e gritei:

- Toby! – nosso (ele arrumou e logo se tornou “nosso”) poodle aparece balançando o toquinho de rabo. Eu o peguei pelo pescoço, e numa calma assassina, levei-o à janela e perguntei se nessa nova religião, ele levaria o cachorro para passear na rua, pois nas outras quem fazia isso era, assim como era eu quem enchia a geladeira, assim como era eu quem comprava malas, trazia dinheiro e tudo mais (entenda como quiser esse tudo mais).

Ele, coçando a cabeça recém-raspada me olhava atônito. Ele olhava para mim, e olhava para o Toby quando fiz menção de soltar o pobre animal ele correu para as malas, colocou-as sob o braço e disparou para fora do MEU apartamento.

Sabe, eu sempre soube que sofro de uma tendência, um radar interno totalmente involuntário, de atrair os loucos - especialmente aqueles que ainda não sabem que são loucos. Mas isso foi muito além do esperado, talvez ele esteja querendo amalucar-me...

Mas...

...se esse era o seu desejo, ah!, ele foi realizado, pois por poucos segundos ele não foi atingido pelo vaso que joguei pela janela no lugar do pobre Toby, que agora, assustado comigo, não há quem o tire debaixo da cama, ainda por cima, do lado dele!

Mundo injusto esse em que vivo...

Minha vingança, se é que se pode configurar com tal, é a lembrança de uma conversa muito esquisita que tivemos no começo de nosso relacionamento, juro que ainda escrevo a respeito um dia...

Estávamos sentados juntinhos (no começo tudo são flores mesmo) comendo pipoquinha, cobertos com uma mantinha quando ele faz o seguinte comentário:

- Sabe querida (no começo era querida, queridinha, minha flor etc, etc, mas isso não durou seis meses) sempre que vejo musicais, me lembro de uma implicância de meu pai. Ele me proibiu na minha juventude de ser dançarino de axé, ele achava que eu viraria homossexual... Não posso deixar de pensar que se não fosse por ele hoje eu poderia estar com um homão desses ai do filme...

Até hoje essa conversa me deixa inquieta.

O telefone toca.

Atendo.

Chamada a cobrar.

Desligo

Hoje volto ao crochê!

2014/01/30

FUMAÇAS - OU UM DIÁLOGO IMPOSSÍVEL

- Não estou fumando não mãe, é um dragão debaixo da cama!
- Não minta menino, teu avô matou o último deles a chineladas quando eu tinha a sua idade.

PALAVRAS

Semeei palavras
Papagaios as comeram
Hoje falam sem parar

2014/01/29

2014/01/21

SILÊNCIO


No silêncio
De seus olhares
Naquela sequência
De reticências
Palavras amargas
Envenenavam seus fígados.



2013/10/07

NO ANTIQUÁRIO À HORA DO ALMOÇO


Caminhando sob a chuva
Fina
O velho  Comandante reclama
Queixa-se de aflições
Tantas, ele as enumera
Conta e suspira seus ais
Rezinga e maldiz seus dias finais
(que se arrastam e demoram a chegar ao dia derradeiro)
A barriga grande
Os cabelos já brancos
Os pés chatos
(até mais chatos que ele mesmo, confessa-me)
Ao passar por um velho antiquário
Entra para refugiar-se da pluviosidade
E uma vez lá dentro
Viaja a um passado alheio
Ignoto, que não é seu
Vislumbra móveis e quinquilharias pretéritas
Respira fundo o cheiro de tempos outros
Toca com cuidado religioso as relíquias à venda
Seus olhos rasos de lágrimas
Vasculham preços e datas
E então
Num relâmpago
Como que sob uma iluminação
Quase religiosa
Ele vê
Ele se encanta
Ele é tomado pelos fantasmas do passado
E senta-se a uma vetusta cadeira
Vermelha
E em transe
Fecha os olhos
Entrega-se a uma viagem espiritual
Desce aos infernos do velho antiquário
Imóvel deixa sua alma vaguear pelo éter...
Passando alguns minutos
O velho Caronte o devolve
E impulsionado como por uma mola
Invisível
Ele arrebatado grita:
- Vou comprar.
(paga com cartão – débito)
E tornando à rua ainda
Chuvosa
Ele segue com a encarnada cadeira
Sobre a vetusta cabeça encanecida
E aos passantes ele, de olhos arregalados clama:
- Ela é o meu remédio!
Da porta da loja
Velhos fantasmas lhe acenam adeus...



2013/09/27

ABSURDO, MAS ÚTIL




Fevereiro, meio-dia, sol  a pino, sem uma sombra nas ruas, Josélio fechou as cortinas e declarou:
- Boa noite! - ele abriu o gás.
O silêncio caiu, e todos dormiram felizes para sempre...


2013/09/23

ANDORINHAS



Já conheço os segredos das andorinhas
Eu as ouço chilrear todas as manhãs
Na caixa do ar-condicionado de meu quarto


2013/09/04

Cigarros


A quantidade de bitucas no cinzeiro testemunhavam a sua insônia, as manchas amarelas nos dedos, seu vício.

2013/08/21

ESQUINA



Dois pares de olhos numa esquina
Um a olhar à direita
Outro à esquerda
O sinal abre
Nem se cruzam
Nem se encontram
E assim acaba uma possível
História de amor...


2013/07/05

E O ÍNDIO PENSA QUE SOFRE!






Há algum tempo o amigo Índio comentava, não, se queixava mesmo, sobre o funk comendo solto todas as sextas-feiras perto de sua casa. Ao primeiro (não riam, não riam) acorde o sono pulava a janela, e feito ladrão, fugia pela noite adentro para nunca mais. O negócio era rolar na cama e esperar pelo sol. Noite perdida e dia arrastado pela frente.

Mas porque cito o amigo silvícola?

Explico-lhes. Ontem à noite tive uma amostra do infortúnio dele, de uma forma canhestra, mas mesmo assim, incômoda.

Deveria ser nove horas da noite, estava largado no sofá, distendendo meu polegar direito na ânsia de encontrar em algum canal alguma coisa que se prestasse a ser assistida, quando começo a ouvir umas vozes na rua. Pensei que fosse mais alguma movimentação das “massas insatisfeitas”, mas baderna que passaria feito um vendaval, deixando latas de lixo viradas na rua, crianças chorando, velhinhas assustadas e errando o ponto do crochê. Coisa rápida?

Não!

Na rua de frente à minha sala, numa casa, das poucas que ainda resta, um grupo se reunia e aumentava a cada minuto¹.

As vozes aumentando de volume me fez compreender bem o que começava (sim, pois a coisa iria longe) e o que acontecia lá. Estavam se juntado para orar, cantar e dar loas a Deus, ao vivo, aos berros. Cantos, cânticos, louvores e orações, com bater de palmas, urros e, ai é que piora o negócio, um ou outro possuído, começa a gritar em falsete, “Senhor! Senhor!, Senhor!.²

Fechei a janela da sala, do banheiro, dos quartos, da cozinha da área de serviço, e nada. Os louvores atravessavam as paredes. Não obstante a isso, os cachorros da vizinhança começaram a latir³ . A filha do pessoal do segundo andar começou a chorar. O pai, com voz de tenor tentava acalmar a criança que chorava ainda mais.

Da rua vinha os “Ó Senhor! Leva-me contigo Senhor” – nesse momento, incréu que sou acorri à janela, esperançoso de que seriam um ou dois a menos a cantar. Debalde – o que explica essa minha fé em eterno déficit – continuavam todos lá, rigorosamente todos lá, nem um a menos.

A peroração seguiu noite adentro...

Onde entra o Índio nisso?

Lá no funk sempre há esperança que um tiroteio, uma batida da polícia ponha fim naquilo, no meu caso, tive que trancar janelas, fechar portas, colocar minha cabeça entre os travesseiros – como se fosse um cachorro quente – para me ver livre daquilo.

A noite seguiu o roteiro de pesadelo, gritos histéricos pelo “Ó Senhor!” – proferidos por uma senhora que se imaginava numa daquelas igrejas sulistas norte-americanas, pois gritava fora de compasso e juro que quase podia vê-la abanando-se, e calipigia, rebolando e virando os olhinhos a cada “Ó Senhor, leva-me”!

Se o negócio “pegar”, o que será de mim agora? Até hoje não me acostumei com o carro que passa toda noite tocando hip-hop com o Subwoofer balançando as vidraças de casa e derrubando copos na cozinha, com a vizinha do primeiro andar que ainda curte o Calipso e canta junto, da fumaça de cheiro estranho que sobe da rua...

Positivamente estou muito velho para mais uma novidade.







¹-Grupo reunido, sinal de medo, brrrrrr.

²-Esses neo-pentescotais...

³-Por pura incapacidade de reclamarem de outra forma...







2013/07/02

INSANIDADE



Desesperado liguei para o Magrão e disse, quase cochichando:

- Cara, acho que agora enlouqueci de vez!

- Calma, respire fundo, conte até dez e me diga o que houve...

- Acho que eu ouvi um pagode com gaitas de fole...

- ...

- Magrão! Magrão!




2013/07/01

MICRO NARRATIVA/O DIA COMEÇOU TRISTE



O dia começou triste, nem o bem-te-vi ajudou. Os pombos assustaram-se por poucos segundos, mas logo pousaram sobre o corpo.

2013/06/27

HOJE


Estou juntando segundos,
transformando-os em minutos,
quando viram horas,
jogo-os fora...

2013/06/26

FATO




O frio chegou antes do inverno, mais ou menos em meados de abril

a casa esvaziou

a temperatura caiu

sobrou espaço no guarda-roupa

o cachorro emagreceu

e o peixinho continua boiando naquela água verde do aquário.

2013/06/25

FOI ASSIM



Então foi assim, saímos todos à rua, chovia, mas estávamos juntos, unidos, de braços dados, marchávamos mais que andávamos. Erámos uma massa – ai começou o erro - homogênea, unida num único ideal. Derrubar o sistema.

Sistema...

Por causa da queda no sistema - naquele justo dia - ninguém conseguiu se comunicar. Os telefones não funcionavam, e juntos na rua, sob a chuva, de braços dados, apanhamos da polícia. Nosso movimento de sete pessoas acabou numa delegacia.

Por isso sempre repito, cuidado com seus sonhos, seus desejos, cuidado com a sua motivação, e mais importante, cheque sempre seus e-mails e recados na secretária eletrônica antes de ir para rua.

Cuidado com seus sonhos e cuidado com quem você pensa que pode ser um grande líder...

Já me dizia a um Grande Sábio (que não declinarei o nome aqui*): - O líder de esquerda hoje é o Tirano de Direita amanha!

Hoje não sou um velho amargo ou desiludido, não desdenho dos anseios dos jovens, nem desprezo os sonhadores e idealistas. Precisamos sim de movimentos populares, precisamos sim sair às ruas, gritar, levantar bandeiras, gritar palavras de ordem, nos posicionar enfim!

Dou meu total apoio, apoio, aliás, incondicional! Mas, eu não tenho mais idade para isso, nem mais sonhos, tenho dívidas.

Mas aqui estou, na rua, sob chuva, outra vez, fazendo a minha parte, vendendo máscara contra gás lacrimogêneo, guarda-chuvas e fogos de artifício. Mas também tiro fotos desses caras-pintadas, emolduro, e se necessário, por um precinho módico, faço curativos.

É o sistema, digo, mercado, é o mercado e eu preciso viver, cansei dos sonhos e minha família precisa de arroz com feijão.

Vai uma máscara aí?




*Mas que o Magrão sabe quem é.


2013/06/21

NAS NOSSAS RUAS





O medo grassa

Cada esquina um perigo

A cada grito, brado, ordem

Um cai

Uma bandeira

Uma ideia

Uma bomba

A massa vai em frente

A massa segue um líder

A massa é a ameaça

Sim queremos

Queremos o certo

Queremos o justo

Queremos a nossa parte

Outros querem tudo

Os tiros cortam o ar

Cortam a carne

Choramos de orgulho

De medo

Do gás lacrimogêneo

Muitos gritam viva

Uns poucos gritam morte

A massa segue com suas bandeiras

De cores tantas

Com as bandeiras de outros

De ideias e ideais tantos

Sem saber para onde vão

Mas vão sorrindo

Cantando

Repetindo palavras de ordem

Segue em que direção?

A massa?

Amassa a massa







2013/06/18

SOMENTE UM CIGARRO ME BASTA AGORA



PEQUENO DRAMA-RELÂMPAGO





Luz sobre um homem que fala.
Não se vê mais ninguém, ouve-se somente a sua voz.



- Nada, nada a declarar! – só isso tenho a dizer a cada um de vocês. Não me sinto com obrigação de falar nem uma única palavra sequer! Sim, dei o tiro, mas poderia ter sido uma facada, uma paulada, uma pedrada, uma garrafada como nos filmes de ação. Mas resolvi que deveria dar m fim naquela situação um simples e rápido tiro.

“Pum! Fração de segundo depois o corpo no chão. A mancha vermelha no chão. Minha arma ainda fumegante também no chão, e no chão deixei as marcas de meus sapato que seguiram vermelhos pela sala, para a saída do apartamento.

Não pensei em correr, em fugir, em me esconder. Era patente o meu desejo, a minha ânsia, só não viu quem não quis, quem não quis se envolver, tomar partido, meter a colher.

Aqui estou dando meu depoimento. Perguntem e responderei, sequer alegarei ser réu-primário, um cigarro nesse momento me basta.

Não, não sinto qualquer tipo de arrependimento, nem culpa, nem frio, nem nada, somente a vontade de fumar um cigarro.

Cumpra-se a Lei, sigamos a Ordem, façam a Justiça. Eu já fiz a minha. Estou em paz. E vocês?

Poupem-se de me perguntarem por que fiz o que fiz, não sou louco, logo motivos tive, e ouso dizer, tive-os muitos!

Não os enumerarei, não me justificarei, cumpram o rito e condenem-me logo. Não quero ir ao velório, nem ao funeral, por mim que joguem o corpo aos abutres ou deem de pasto às chamas.

Um cigarro, por favor”.




Silêncio.

Cai o pano

2013/06/01

DOIDINHO -

A PAZ

A paz reina no lar, a família sorri, respira aliviada, a harmonia domina o ambiente. Se não fosse já noite alta, os pássaros estariam cantando, as flores estariam abertas emanando seus perfumes e um arco-íris enfeitaria o céu...
Dona Dedé deixa seu tricozinho de lado, senta-se à mesa com os sobrinhos; jantam, bebem vinho, tomam um licor e cochicham bem baixinho. Não seria bom facilitar com o azar...
Juntos desfrutam de tudo que um verdadeiro lar pode oferecer a uma família.
Sim, a felicidade está no ar.
Mas cuidado, qualquer barulho pode acordar o Doidinho!

- Shhhhhhhhhhhhhhhhh!!!


2013/05/03

FATOS TRISTES DESSA VIDA¹



Era uma vez uma jovem muito linda, mas também na mesma medida, muito infeliz. Seu único desejo na vida era se tornar feia. Somente vinte dois anos, cinco filhos e trinta e sete quilos depois conseguiu isso.

E sim, hoje é feliz!