2013/07/05

E O ÍNDIO PENSA QUE SOFRE!






Há algum tempo o amigo Índio comentava, não, se queixava mesmo, sobre o funk comendo solto todas as sextas-feiras perto de sua casa. Ao primeiro (não riam, não riam) acorde o sono pulava a janela, e feito ladrão, fugia pela noite adentro para nunca mais. O negócio era rolar na cama e esperar pelo sol. Noite perdida e dia arrastado pela frente.

Mas porque cito o amigo silvícola?

Explico-lhes. Ontem à noite tive uma amostra do infortúnio dele, de uma forma canhestra, mas mesmo assim, incômoda.

Deveria ser nove horas da noite, estava largado no sofá, distendendo meu polegar direito na ânsia de encontrar em algum canal alguma coisa que se prestasse a ser assistida, quando começo a ouvir umas vozes na rua. Pensei que fosse mais alguma movimentação das “massas insatisfeitas”, mas baderna que passaria feito um vendaval, deixando latas de lixo viradas na rua, crianças chorando, velhinhas assustadas e errando o ponto do crochê. Coisa rápida?

Não!

Na rua de frente à minha sala, numa casa, das poucas que ainda resta, um grupo se reunia e aumentava a cada minuto¹.

As vozes aumentando de volume me fez compreender bem o que começava (sim, pois a coisa iria longe) e o que acontecia lá. Estavam se juntado para orar, cantar e dar loas a Deus, ao vivo, aos berros. Cantos, cânticos, louvores e orações, com bater de palmas, urros e, ai é que piora o negócio, um ou outro possuído, começa a gritar em falsete, “Senhor! Senhor!, Senhor!.²

Fechei a janela da sala, do banheiro, dos quartos, da cozinha da área de serviço, e nada. Os louvores atravessavam as paredes. Não obstante a isso, os cachorros da vizinhança começaram a latir³ . A filha do pessoal do segundo andar começou a chorar. O pai, com voz de tenor tentava acalmar a criança que chorava ainda mais.

Da rua vinha os “Ó Senhor! Leva-me contigo Senhor” – nesse momento, incréu que sou acorri à janela, esperançoso de que seriam um ou dois a menos a cantar. Debalde – o que explica essa minha fé em eterno déficit – continuavam todos lá, rigorosamente todos lá, nem um a menos.

A peroração seguiu noite adentro...

Onde entra o Índio nisso?

Lá no funk sempre há esperança que um tiroteio, uma batida da polícia ponha fim naquilo, no meu caso, tive que trancar janelas, fechar portas, colocar minha cabeça entre os travesseiros – como se fosse um cachorro quente – para me ver livre daquilo.

A noite seguiu o roteiro de pesadelo, gritos histéricos pelo “Ó Senhor!” – proferidos por uma senhora que se imaginava numa daquelas igrejas sulistas norte-americanas, pois gritava fora de compasso e juro que quase podia vê-la abanando-se, e calipigia, rebolando e virando os olhinhos a cada “Ó Senhor, leva-me”!

Se o negócio “pegar”, o que será de mim agora? Até hoje não me acostumei com o carro que passa toda noite tocando hip-hop com o Subwoofer balançando as vidraças de casa e derrubando copos na cozinha, com a vizinha do primeiro andar que ainda curte o Calipso e canta junto, da fumaça de cheiro estranho que sobe da rua...

Positivamente estou muito velho para mais uma novidade.







¹-Grupo reunido, sinal de medo, brrrrrr.

²-Esses neo-pentescotais...

³-Por pura incapacidade de reclamarem de outra forma...







2013/07/02

INSANIDADE



Desesperado liguei para o Magrão e disse, quase cochichando:

- Cara, acho que agora enlouqueci de vez!

- Calma, respire fundo, conte até dez e me diga o que houve...

- Acho que eu ouvi um pagode com gaitas de fole...

- ...

- Magrão! Magrão!




2013/07/01

MICRO NARRATIVA/O DIA COMEÇOU TRISTE



O dia começou triste, nem o bem-te-vi ajudou. Os pombos assustaram-se por poucos segundos, mas logo pousaram sobre o corpo.

2013/06/27

HOJE


Estou juntando segundos,
transformando-os em minutos,
quando viram horas,
jogo-os fora...

2013/06/26

FATO




O frio chegou antes do inverno, mais ou menos em meados de abril

a casa esvaziou

a temperatura caiu

sobrou espaço no guarda-roupa

o cachorro emagreceu

e o peixinho continua boiando naquela água verde do aquário.

2013/06/25

FOI ASSIM



Então foi assim, saímos todos à rua, chovia, mas estávamos juntos, unidos, de braços dados, marchávamos mais que andávamos. Erámos uma massa – ai começou o erro - homogênea, unida num único ideal. Derrubar o sistema.

Sistema...

Por causa da queda no sistema - naquele justo dia - ninguém conseguiu se comunicar. Os telefones não funcionavam, e juntos na rua, sob a chuva, de braços dados, apanhamos da polícia. Nosso movimento de sete pessoas acabou numa delegacia.

Por isso sempre repito, cuidado com seus sonhos, seus desejos, cuidado com a sua motivação, e mais importante, cheque sempre seus e-mails e recados na secretária eletrônica antes de ir para rua.

Cuidado com seus sonhos e cuidado com quem você pensa que pode ser um grande líder...

Já me dizia a um Grande Sábio (que não declinarei o nome aqui*): - O líder de esquerda hoje é o Tirano de Direita amanha!

Hoje não sou um velho amargo ou desiludido, não desdenho dos anseios dos jovens, nem desprezo os sonhadores e idealistas. Precisamos sim de movimentos populares, precisamos sim sair às ruas, gritar, levantar bandeiras, gritar palavras de ordem, nos posicionar enfim!

Dou meu total apoio, apoio, aliás, incondicional! Mas, eu não tenho mais idade para isso, nem mais sonhos, tenho dívidas.

Mas aqui estou, na rua, sob chuva, outra vez, fazendo a minha parte, vendendo máscara contra gás lacrimogêneo, guarda-chuvas e fogos de artifício. Mas também tiro fotos desses caras-pintadas, emolduro, e se necessário, por um precinho módico, faço curativos.

É o sistema, digo, mercado, é o mercado e eu preciso viver, cansei dos sonhos e minha família precisa de arroz com feijão.

Vai uma máscara aí?




*Mas que o Magrão sabe quem é.


2013/06/21

NAS NOSSAS RUAS





O medo grassa

Cada esquina um perigo

A cada grito, brado, ordem

Um cai

Uma bandeira

Uma ideia

Uma bomba

A massa vai em frente

A massa segue um líder

A massa é a ameaça

Sim queremos

Queremos o certo

Queremos o justo

Queremos a nossa parte

Outros querem tudo

Os tiros cortam o ar

Cortam a carne

Choramos de orgulho

De medo

Do gás lacrimogêneo

Muitos gritam viva

Uns poucos gritam morte

A massa segue com suas bandeiras

De cores tantas

Com as bandeiras de outros

De ideias e ideais tantos

Sem saber para onde vão

Mas vão sorrindo

Cantando

Repetindo palavras de ordem

Segue em que direção?

A massa?

Amassa a massa







2013/06/18

SOMENTE UM CIGARRO ME BASTA AGORA



PEQUENO DRAMA-RELÂMPAGO





Luz sobre um homem que fala.
Não se vê mais ninguém, ouve-se somente a sua voz.



- Nada, nada a declarar! – só isso tenho a dizer a cada um de vocês. Não me sinto com obrigação de falar nem uma única palavra sequer! Sim, dei o tiro, mas poderia ter sido uma facada, uma paulada, uma pedrada, uma garrafada como nos filmes de ação. Mas resolvi que deveria dar m fim naquela situação um simples e rápido tiro.

“Pum! Fração de segundo depois o corpo no chão. A mancha vermelha no chão. Minha arma ainda fumegante também no chão, e no chão deixei as marcas de meus sapato que seguiram vermelhos pela sala, para a saída do apartamento.

Não pensei em correr, em fugir, em me esconder. Era patente o meu desejo, a minha ânsia, só não viu quem não quis, quem não quis se envolver, tomar partido, meter a colher.

Aqui estou dando meu depoimento. Perguntem e responderei, sequer alegarei ser réu-primário, um cigarro nesse momento me basta.

Não, não sinto qualquer tipo de arrependimento, nem culpa, nem frio, nem nada, somente a vontade de fumar um cigarro.

Cumpra-se a Lei, sigamos a Ordem, façam a Justiça. Eu já fiz a minha. Estou em paz. E vocês?

Poupem-se de me perguntarem por que fiz o que fiz, não sou louco, logo motivos tive, e ouso dizer, tive-os muitos!

Não os enumerarei, não me justificarei, cumpram o rito e condenem-me logo. Não quero ir ao velório, nem ao funeral, por mim que joguem o corpo aos abutres ou deem de pasto às chamas.

Um cigarro, por favor”.




Silêncio.

Cai o pano

2013/06/01

DOIDINHO -

A PAZ

A paz reina no lar, a família sorri, respira aliviada, a harmonia domina o ambiente. Se não fosse já noite alta, os pássaros estariam cantando, as flores estariam abertas emanando seus perfumes e um arco-íris enfeitaria o céu...
Dona Dedé deixa seu tricozinho de lado, senta-se à mesa com os sobrinhos; jantam, bebem vinho, tomam um licor e cochicham bem baixinho. Não seria bom facilitar com o azar...
Juntos desfrutam de tudo que um verdadeiro lar pode oferecer a uma família.
Sim, a felicidade está no ar.
Mas cuidado, qualquer barulho pode acordar o Doidinho!

- Shhhhhhhhhhhhhhhhh!!!


2013/05/03

FATOS TRISTES DESSA VIDA¹



Era uma vez uma jovem muito linda, mas também na mesma medida, muito infeliz. Seu único desejo na vida era se tornar feia. Somente vinte dois anos, cinco filhos e trinta e sete quilos depois conseguiu isso.

E sim, hoje é feliz!

2013/04/03

O CAFÉ CONSTRANGIDO





Meio dia e vinte.

Acabado o almoço apressado, vou ao café. Sim, sempre o café no meio. Estou sentando à mesa com dois novos amigos.

À mesa, ao meu lado o Comandante Castro e o Seu Wanderley. Não falamos coisa com coisa, hora de descanso, nada de importâncias, nada de urgências, urge sim nos distrairmos para encarar o resto do expediente.

Fomos servidos pela mocinha que não sorri. (logo inferimos que há uma que sorri!)

Pernas esticadas sob um céu azul digno de Montevidéu (se duvidam, vão lá conferir), cigarros acesos. Sim o bom Deus deu-me companheiros que tomam café e fumam!¹

Tudo parecia seguir um bom rumo, quando um mendigo (ou devo escrever cidadão em situação de rua?) aparece. Como estava de costas para ele, de costas continuei. Há muito perdi as esperanças de salvar a humanidade e esse mundinho. Deixei que o Comandante Castro ou o Wanderley falassem com ele.

Nada. Ele tocou-me as costas, virei e antes que pronunciasse aquele lengalenga, disse-lhe que nada tinha e que os companheiros na mesa estavam pagando o café hoje.

Não adianto e para minha estupefação, ele ajoelhou-se no chão chorando. As pessoas que passavam pela calçada nos olhavam.

Uns com reprovação pelo nosso coração duro, outros, talvez irmanados no nosso constrangimento viravam o rosto para o outro lado.

A cena desenvolvia-se em câmera lenta.

Eu não sabia o que fazer, no único e esperado momento do dia em que relaxo, aquele indivíduo ali de joelhos, as lágrimas prestes a descer-lhe pela barba imunda me constrangendo, quase me obrigando a dar-lhe uma esmola, uma moeda, ou em caso de maior desespero, um tiro para acabar com aquela drama.

Situação horrível de se viver.

Virei-me e o deixei chorando ali sozinho, o café amargou-me a boca e cigarro perdeu a graça.

Passados longos segundos, por fim ele levantou-se e foi embora. (Sem não antes, sarcasticamente, nos agradecer por nada e nos recomendar ao bom Deus).

Não pudemos deixar de reparar que ele usava bermuda de surfista mais cara que a calça que usávamos, sem contar o tênis² de marca, daqueles que se matam facilmente hoje em dia para roubar.

Esse mundo não tem mais salvação.





[1] Viu Magrão, viu?
[2 ]E pensar que mantenho o anacrônico hábito de ainda engraxar meus sapatos...


2013/04/02

CURTO, GROSSO E VIOLENTO


(Teatro relâmpago)





Um sujeito anda pelo outro lado da rua. Alto, seco, olhos fundos e injetados de sangue, usa uma capa comprida, surrada e muito suja, seu aspecto não é nada melhor que sua roupa. Ginga de um lado para outro, como um barco no mar, provavelmente bêbado.

- Fala ai Bill! – Bill não ouve, se ouve finge que não e segue em frente.

O amigo que segue ao lado sussurra:

- Você fala com o Bill? Isso é loucura, ele explodiu a mulher no ano passado...

- E eu com isso? Se pudesse eu esvaziava minha assim ó, pam-pam-pam.






Cai o pano bem depressa

2013/03/28

A FUMAÇA DE MEU CIGARRO



a fumaça quente entra pela

minha garganta

passa deliciosa

e delicadamente

em meus pulmões

e saem azuis

pelas minhas narinas

repito essa ação várias

e várias vezes ao dia

vejo o céu anil

sorrio discretamente

pois sei

ah! se sei

que sou eu

e somente eu

quem o pinta assim tão azul

com a fumaça de meu fumo







Para Comandante Castro resisir à sanha de deixar de fumar!

2013/03/25

DIÁLOGOS (OUTROS)





- Não, eu não volto mais lá. De jeito nenhum, não insista, não me obrigue. Não vou!

- Covarde.

- Sim sou um covarde, medroso, maricas, galinha, o que você escolher para me ofender, mas lá eu não entro mais.

- Esse medo é irracional!

- Irracional? Irracional é ver tudo aquilo que eu vi, tudo aquilo e muito mais...

- Beba mais um copo! – gritando para o garçom. – Ivan¹ ! Mais um copo pro fracote aqui.

- Não sou fracote, mas admito que estou assustado...

O garçom traz um copo com uma mistura de vodca e tequila, que é sorvida de um gole só.

- Então? Sentindo-se melhor?

- Não. Minhas mãos ainda tremem, acho que terei pesadelos por dias a fio...

- Coisa de menininha, pesadelos, acordar suado, gritando pela mamãe... Menininha!

- Cada vez que pisco, aqueles...

- Aqueles?

- ... homens verdes, de olhos grandes, dois buracos na cara em vez de um nariz...

- Acho que você está sonhando agora, nada disso existe!

- Existe!

- Não existe!

- Não!

- Pois sim.

-Duvido!

- Então pague as bebidas que eu vou lá te mostrar, de longe, mas vou lá te mostrar!

- Ivan, a conta e um chiclete de hortelã!


***


- É aqui. Aquela casa amarela. A porta está aberta, pode entrar. Fico vigiando.

- Covarde.

- Sou mesmo. Covarde com vontade de morrer de velhice, cercado pelos seis filhos, dez netos, e quinze bisnetos.

- Melhor fazer logo uma vasectomia...

- Você vai ou não vai entrar na casa?

- Vou, sou macho o suficiente para encarar seus homenzinhos de olhos verdes...

- Eles são verdes, eles é que são verdes!

- Ok, que seja, verdes, azuis, furta-cor, arco-íris. Lá vou eu.



***



- Irado cara, irado, muito louco. Maluco!

- O que você viu lá? Eles estavam lá? Viu aquele troço enorme na parede?

- Irado. Irado!

- Você está choque...

- Irado...

- Vamos voltar ao bar, o Ivan vai te curar...

- Currar?

- Curar!


***

- Então, está melhor?

- Ivan mais um copo dessa beberagem dos infernos...

- Vamos me diga o que você viu?

- Você nunca viu um filme de ficção científica?

- Nunca. Só assisto filmes de arte!

- Nenhum em toda a sua vida?

- Não poluo minha mente com besteiras pseudocientíficas

- Sua besta arrogante!

- Alcoólatra!

- Vai partir para a ignorância?

- Vamos, me diga o que era aquilo, o que era?

- Se você abrisse a sua mente saberia que aquilo é um...

- Sem mistérios!

- É um...

- Sem dramas!

- Um...

- Ivan, formicida com quatro pedras de gelos! Já!

- ... Stargate!

- Ivan, esse copo é para mim.






¹  Garçom amigo do Vadinho!






FIM






2013/03/14

O HOMEM NA ÁRVORE



Um homem num árvore

Inspira cuidados

Pode ser louco

Pode ser uma manga madura...



Pode querer

Gritar

Pode querer

Cair

Pode querer

Voar



Se gritar

Não o ouvirei

Se cair

Não o socorrerei

Se voar

Atiro-lhe uma pedra



Um homem numa árvore

Uma arvore na cidade

Nós que passamos

E desatentos

Perdemos todo esse absurdo



2013/03/08

O VAZIO




O vazio que ele traz

Não está no bolso

Nem no oco da carteira

O vazio que ele traz

Esta nos olhos

Esta na sua alma

Que o leva por

Ruas desertas

É nas gretas do quintal

No trincado das paredes

Nas lembranças

E nas fotos

No fundo das gavetas

Vazio

E somente esse vazio

O preenche por hora...



Para o "Comandante"

2013/02/21

ELOCUBRAÇÕES



Seis horas, acordo e me deparo com o chão coalhado de baratas mortas, suas pernas finas tremendo ao vento que entra pela janela.

As cortinas dançam com a mesmo aragem.

Essa cena me faz voltar no tempo e me lembrar de frei Justino, - que Deus o tenha! - num domingo na hora da comunhão de repente quedou-se paralisado, em choque com a hóstia levantada na mão direita, olhos esbulhados olhando em direção à assistência, babando começou a murmurar para o coroinha:

- Tire esse cágado da igreja, tire esse cágado da igreja...

O mais patético era que não havia cágado nenhum na igreja, o pobre homem surtou, enlouqueceu, e foi retirado da igreja á base de muito calmante...

Volto - essas minhas idas ao passado me dão vertigem - ao presente e as baratas continuam ali no chão, mortas de barriga para cima.

Desvio-me delas, senão com nojo, com cautela...

O sol promete mais calor, a continuar esse clima assim logo, os vizinhos me encontrarão morto, duro e suado na cama, e tal e qual essas “Periplaneta americana”- eu as odeio, mas as conheço - em decúbito ventral e como o velho Justino, de olhos esbugalhados.

Nunca mais tive notícias de frei Justino!

Vou à cozinha, reviro o armário, acho o inseticida que usei à noite passada, leio as instruções.

Penso com meus botões:

- Arma de destruição em massa...

Resolvo jogar esse veneno fora. Não quero em minha consciência os fantasmas de meu passado me assombrando a cada inseto morto – e há tantos nessa cidade!

Enquanto jogo o veneno no lixo decido-me:

- Domingo vou à missa!



2013/02/15

O ELEVADOR



Ding.

A porta do elevador abriu. Décimo terceiro andar, estava escrito em letras vermelhas na placa defronte .

Décimo terceiro andar, aqui estou. Sim, aqui, agora preciso sair do elevador, respiro fundo e...

...dou um passo à frente, a porta ameaçou fechar, mas minha perna esquerda a impediu. Doeu, é possível que o joelho inche à noite.

Permaneci parado.

Indagava-me se deveria seguir em frente, sair de vez do elevador, dar o passo decisivo, seguir pelo corredor, parar em frente ao apartamento número X, tocar a campainha...

Logo vai escurecer.

As promessas são quase palpáveis, sinto que posso tocá-las, pegá-las e guarda-las em meu bolso.

O que ela deve estar vestindo a essa hora?

- Aquele tafetá verde? Quimono de seda branca com aqueles dragões vermelhos? Preparando um sushi? – rio-me amargamente dessas perguntas.

Seu perfume... Quase poderia senti-lo nas paredes, no tapete... Se estendesse a mão poderia pegá-lo e guardá-lo dentro de meu lenço...

Ding. Ding, Ding.

Alguém está chamando o elevador.

Preciso me decidir.

Ding. Ding, Ding.

Desço.

Lá fora o sol ainda brilha, mas dentro de mim uma chuva torrencial desaba sobre minha cabeça, a água chega a escorrer pelos meus sapatos.

O sax da música do elevador segue em minha cabeça fazendo a trilha sonora do meu fracasso.

- Esse maldito Kenny G e suas músicas...

Deixo pela rua, que agora escurece, marcas de pegadas úmidas pelo chão. (chuap-chuap-chuap)

Ao dobrar a esquina, antes de pegar o ônibus jogo fora o seu endereço, sei que demorará me esquecer desse dia. Se ao menos chovesse fora de mim poderia derramar essas lágrimas que agora me afogam por dentro.

- Sabia, 13 nunca me deu sorte!



2013/02/13

CARNAVAL PASSOU


O bloco passou

A música acabou

As garrafas esvaziaram

Ela se foi

E só ficaram esses confetes colados na sua pele


2013/01/29

SEM TÍTULO



Assim se ufana

O canarinho

Num estribilho:

Liberdade é um sonho

Que não troco pela

Minha ração de alpiste

CRIME



Os ruídos saem em gorgolejos

Bolhas vermelhas

Escorrem pela túnica branca


2013/01/16

JAGUNÇO




Acabo de voltar da rua, encharcado até os ossos.

Mas não quero reclamar da chuva, nem da falta dela onde mais se precisa que aqui. Para isso temos os noticiários que não nos deixam esquecer. Na rua, lembrava-me de uma conversa que tive pela manhã.

Uma amiga reclama do fim de seu casamento e de não conseguir colocar o ex-amor para fora de casa, antigo ninho de amor, promessas e agora sonhos desfeitos.

Segundo ela, há vários dias deu ao companheiro o aviso-prévio, o caia fora, rua.

Mas ele faz-se de desentendido e continua assombrando as paredes do lar.

Dizia-me ela, que já não mais se falavam, faziam as refeições em horas diferentes, dormiam em quartos separados.

Todos os dias ao sair para o trabalho recomendava (creio que esse recomendava é eufemismo) que ele não estivesse mais em casa a hora que ela voltasse à noite, mas, ó desilusão, ao chegar encontrava o mancebo largado no sofá assistindo televisão, gritando a cada gol de seu time preferido, esperando ainda que ela lhe fizesse o jantar. Se isso remete o leitor a um samba antigo é pura coincidência. ¹

Ri de sua situação. Me diga o leitor o que se pode fazer numa circunstância dessas?

Pediu-me conselhos. A mim!

Ri uma segunda vez e perguntei-lhe se falava sério? O que poderia eu dizer-lhe, como eu poderia ajudar-lhe. Esse é caso em que terceiros não ajudam em nada e podem, ou conseguem somente atrapalhar.

Indaguei se não seria uma fase, pois o casamento como a lua tem lá suas fases. Como a maré (coisa de quem mora no litoral) tem lá seus altos e baixos...

Resumindo, fui tirando meu time de campo colocando panos quentes, saindo pela tangente.

A conversa prometia ir longe, com detalhes e mais detalhes, que só servem, no futuro, para nos deixar encabulados por tê-los ditos. A palavra como flecha, depois de disparada não tem volta (eis aqui uma pérola de profunda sabedoria), assim sendo tentei fazer a velha amiga não abrir tanto assim seu coraçãozinho.

Debalde.

A horas tantas, sim horas “e” tantas (mesmo) ela visivelmente desesperada (aqui não nos cabe julgar se seria caso para tanto desespero) me pergunta:

- Você que conhece tanta gente em tantos lugares, não conheceria algum jagunço que desse uma lição, ou mesmo leve susto nele?

Veja leitor, eu conhecendo um jagunço, eu?

Não foi possível outra vez segurar o riso.

Senti uma mágoa profunda nela, pois, agora sim, era visível sua desesperança.

Tentei desviar a conversa para outro assunto.

- Olhando pela janela vejo que vai chover logo.

Pausa.

Pensei com meus botões, ela deveria estar constrangida com seu desabafo, envergonhada da sugestão de dar um fim definitivo no futuro ex-companheiro, talvez já se imaginando nos jornais da noite, horário nobre na TV. Retalhado, encontrado num terreno baldio, pedaços espalhados numa praia, sei lá o que se passa na cabeça de uma desesperada.

A cara estampada na capa de uma revista sensacionalista!

A cena desenvolvia-se em minha cabeça...

Esperei mais algum tempo e seu silêncio continuou ate minha hora de almoço. Sem mais nenhum contato desliguei o computador e saí.

Na rua pensava ainda na sua pergunta sobre eu conhecer um jagunço, e lembrei que há uns trinta anos, quando jovem e fazendo teatro amador, sai uma noite - sim aqueles casos com o Vadinho como sempre - a procura de sanfoneiro para uma peça que montávamos à época...

Ora bolas, eu lá tenho cara de quem conhece sanfoneiros e jagunços? Poderia ter me aprofundado mais no assunto, não fosse a chuva me trazer de volta à realidade.









¹Golpe Errado

Geraldo Pereira

Lá vem ele com seu terno branco engomado/trazendo outra morena a seu lado/E a nega dele na casa da branca se acabando /E ainda leva o jantar embrulhado/É... um golpe errado/todo mundo diz que é../um golpe errado/Na hora que ele sai /pra batucada/é a hora que ela chega do trabalho/e tem de fazer de madrugada/um bife malpassado prá ele /Não ficar contrariado./É...um golpe errado

2013/01/14

IDEALISTA




Pobre homem

Cheio de amor e fé

Pela humanidade.

Padece

Planeja e sonha

Transformar lágrimas em risos

Doenças em saúde

Findar com a miséria

Criar, enfim, um mundo ideal

Te aviso pobre idealista:

- Nessa máquina as engrenagens são quadradas!

Pois saibas

Na verdade serás

Mastigado

Cuspido

E esquecido

A ti nem estátua

Nem placa de rua

Nome de manicômio

Serás pó

Esquecido

Ou pior

Hás de ser modelo de mau-exemplo!



2013/01/08

O MESMO




O despertador toca às seis horas em ponto.

Mais um dia, um dia igual ao de ontem, em suas alegrias e tristezas, o mesmo sol, as mesmas nuvens no mesmo lugar, como se fossem pintadas na tela azul do céu. O canto dos pássaros como num disco de vinil arranhado. E ele que gostava do canto dos sanhaços...

A campainha da porta toca.

- Mauro, passe amanhã. – grita da cozinha sem se dar ao trabalho de ver quem é.

- Mas você disse isso ontem – responda Mauro.

- E direi o mesmo amanhã e depois de amanhã. Responde passando manteiga no pão, o mesmo pão de ontem, que será também o de amanhã.

Os passos de Mauro descendo as escadas, a porta da rua batendo, os pneus do carro derrapando na rua e quase atropelando Mauro que escapa por um triz. Antes ele corria à janela para ver o que havia acontecido...

O mesmo dia se repetindo.

Ele abre o jornal, ainda quente, o cheiro da tinta, dobrado sobre a mesa. Na manchete a mesma tragédia, o mesmo número de mortos, seu horóscopo com a mesma previsão, “cuidado com a alimentação e falsos amigos, aproveite seu dia como se fosse o último”.

- Antes fosse! – pensou alto num longo suspiro.

O mesmo dia de trabalho, aquele processo sem solução, a mesma bronca do chefe na mesma hora da tarde – 15h30 no relógio da praça, onde mostrava ainda a temperatura, 32º -, o mesmo telefonema atrás da funcionaria Madalena da Silva – Tia Dadá do café, a mesma resposta:

- Ela está de férias. – e pensou “longas férias...”

De volta à sua casa, a mesma dose de formicida, as mesmas dores nas tripas sendo dissolvidas, o desmaio, o baque no chão quadriculado e frio, o acordar na cama no dia seguinte com despertador tocando às seis horas em ponto...

O mesmo dia se repetindo.

Se ao menos ele se lembrasse de trocar a folhinha ao acordar...



2012/12/28

RÉVEILLON





Na espuma vertical

No pipocar da rolha

No champanha no chão

Nos fogos do céu

Nas sete ondas do mar

Tanto tempo se perde

E o ano velho se (es)vai...

E o outro entra

Tal e qual o que se foi...



FIM




A cada palavra lida naquela carta ele sentia-se menor, ao fim e ao cabo da leitura (leu e releu), percebeu que viveria feliz da vida morando dentro daquele envelope. A bandida nem se deu ao trabalho de perfumar ou marcar com batom a folha em que se despedia...


2012/12/19

AREIAS




Das arábias

Num tapete

Para trás ficaram

As areias

Os camelos

As mulheres

Os mistérios

Hoje olhos vagos

Perdidos no horizonte

De concreto e fios elétricos

Só param de sonhar

Quando "a breguês"

Entra “no lojinha”




2012/12/17

NATAL, OUTRO NATAL DO RANZINZA



Me enganei, me iludi, tentei cobrir o sol com peneira, ousei ter esperanças, que furada! Nada muda nesse mundo imutável, duro de pedra. As coisas são como são e tolo é aquele (eu, por exemplo) que pensa que alguma coisa pode mudar...

Bestamente achei que esse ano (crendo talvez no fim do mundo? Pode ser!) o Natal, aquela data para sempre e sempre amaldiçoada, seria diferente.

Mas não, ela (a data) provou-se ser igual às outras passadas (e pelo que vejo futuras) será igual.

Ontem, domingo, no Café, um grupo musical cantava músicas Natalinas e eu lá me embevecia ouvindo-as acompanhando algumas cantando outras assoviando.

Feliz com aquilo, sorrindo, sorvia meu cafezinho.

Até que lá pelas tantas cantaram “Boas Festas” de Assis Valente, quando chegou a vez do:

“Mas o meu Papai Noel não vem

Com certeza já morreu

Ou então felicidade

É brinquedo que não tem”


Veio-me uma pontada tão aguda no coração que quase verti lágrimas. Respirei fundo, mantive a pose, a dignidade, mas com que inveja via as famílias abraçadas cantando todos juntos e desafinados aquela música!

Deus! Anos e anos de vida, mais de meio século e nunca tive um Natal que se dignasse a ser lembrado com alguma alegria, júbilo, contentamento.

Em retrospectiva meus natais são dignos de Charles Dickens. Só faltam a fome e a neve.

Nunca fui feliz nessa data, nunca ninguém ao meu lado. Sempre só, sempre me remoendo de raiva, sempre frustrado.

Se arranjasse um “bico” nessa data juro que trabalharia com prazer, faria o turno da noite.

Após o Café fui a uma Igreja ouvir mais cânticos, me sentia como um miserável diante de uma vitrine de doces ou de brinquedos vendo o que jamais teria...

Me pergunto se em minha infância meus pais enviaram mesmo minhas inocentes cartinhas para o “bom velhinho” ou se simplesmente as jogaram no lixo!

Logo esse ano se acaba e o outro começa igualzinho, igualzinho a esse que se vai. Meu fim se aproxima cada dia mais e nada de chegar a ter um feliz de Natal. Depois me perguntam por que olho atravessado para papais noeis e tenho vontade homicida de chutar pedintes, queimar árvores, enfeites e tudo mais.

Vou me entupir de programas repetidos TV, evitarei as retrospectivas, não atender telefone (como se alguém fosse realmente ligar), comer alguma bobagem aquecida no micro-ondas e dormir cedo enfiando a cabeça sob os travesseiros para não ouvir os fogos.

Antes de morrer totalmente sozinho, amargurado e com um cachorro magro e famélico amarrado no quintal, ainda mudo meu nome para Scrooge!

- Que venham meus fantasmas!

Juro que o primeiro que me desejar um “Feliz Natal” eu mato.





2012/12/12

“AQUELA DATA” OUTRA VEZ



Feliz é o Rodrigo, longe de todos e possivelmente com neve.

Nem parece que “aquela” data está chegando!

Estou anormalmente calmo, desestressado, sem rompantes, afável, agradável. Olho as vitrines enfeitadas sem engulhos ou calafrios. Não penso em dar rasteira nas velhinhas com sacolas, até cumprimento um ou outro nas ruas.

Ando sorrindo, mas percebo que assusto aqueles à minha volta. Mas compreendo que deve ser mesmo assustador essa cena.

Ok, o calor me incomoda e me enerva, mas ainda não é culpa “daquela” data.

Já comprei até alguns presentes, besteiras, umas lembrancinhas para não deixar essa data passar batida...

Para quem não me conhece, nem imagina a evolução que é isso. Uns dirão que a minha provecta idade está me amolecendo, não os contrariarei!

Vejam só, não vou contrariá-los!

Deve ser o sinal dos tempos. Ou minha esperança no fatídico fim do mundo antes daquela data. Sei lá.

Lá fora (estou trabalhando agora) o foguetório estourou possivelmente vitória do Corinthians. Conferi n e ganhou de 1 x 0.

Isso deve alegrar a patuleia e incomodar à hora do almoço, mas seguirei fleumático e superior, nada há de me abalar até o fim do ano ou fim do mundo, o que vier primeiro.

Até agora nada de convites, fugi de todos os amigos secretos do serviço, não fui à confraternização, nada de almoçar com colegas do escritório. Não quero me arriscar.

Preservo-me de aborrecimentos. Essa luta, nesse ano, não há de ser inglória como em anos passados.

Não chutarei os velhos fantasiados gritando os eternos e indefectíveis:

- Ho ho ho ho!

Não olharei para eles com sanha assassina, mas não me pouparei de desejar-lhes uma leve desidratação (ainda há um pouco do velho EU dentro de mim).

Se estou mais light não quer dizer que entreguei os pontos, que vou me irmanar com o próximo, nada de abraços, beijos e tapinhas nas costas. Não, não vou não.

Resumindo, ainda continuo o velho amargo de sempre.

Não se iludam e nem se arrisquem.


2012/12/05

COMO É EMOCIONANTE SER EU


(fragmento de uma carta)




Voltava para casa ontem à tarde quando na rua alguém chama meu nome, olho em direção de onde veio a voz e vejo “J”, notório alcoólatra. Antes que falasse meu nome outra vez fui a ele, que sentado a uma mesa de metal enferrujado, mostrava que há muito estava já bebendo. Acho que nunca o vi sóbrio, aliás², podendo evito-o.

Perguntou-me se estava tudo bem comigo.

Medi-o de alto a baixo e olhando profundamente em seus olhos vermelhos e ejetados respondi que:

- Sim.

Nada mais lhe disse ou dei oportunidade de dizer e virando-me fui embora.

Veja como é emocionante ser eu!

2012/11/27

DE LICENÇA EM CASA*



Estou em casa, de licença.
Precisei me afastar, reavaliar meus conceitos e curtir uma dor de corno. Preciso mudar de vida, achar meu Norte, me encontrar.
Sempre quis ser detetive particular, quando moleque assistia ao Columbo, muita elucubração e pouca violência...
Sou um intelectual, meu cérebro funciona a mil por hora, aposto que seria capaz e desvendar um crime sem sair da minha mesa de trabalho. Processaria as pistas fumando um cachimbo como o Inspetor Maigret.
Prenderia os bandidos, criminosos, traficantes sem um murro, uma rasteira, de mãos limpas usando só meu velho cérebro.
Mas sei que nunca serei como meus heróis. Não nasci para ser um herói... Outro dia no bar do Alemão, celebrando minha licença com meus amigos, dois sujeitos que discutiam futebol, começaram a falar alto, gritar, quando começaram a brigar um jogou uma garrafa de cerveja em direção ao outro e a dita garrafa arrebentou em minha cabeça. Fui levado para casa semi-inconsiente, passei dois dias com enxaqueca. Nem consigo lembrar a cara dos indivíduos...
Positivamente, ser detetive está fora de meu currículo.
Olho a folhinha, logo terei de voltar ao serviço, à velha mesa, minha cor está desbotando, adeus bronzeado. Só eu mesmo, queimo no serviço e desboto em casa.
Sou um total fracassado.
Procuro o que ler, mas só encontro pilhas de D.O., hoje vejo que fiz mal em me livrar de meus livros de detetives...
Tinha uma gata chamada Agatha, mas o vizinho a levou quando se mudou do bairro.
Para minha desgraça, só mais uma na minha vida, só mais uma, a vizinha da frente colocou cortina na sala dela. Sei, no fundo me minh’alma sei que a culpa é minha. Ela deu a entender que estava a fim, mas a minha fidelidade ao meu amor platônico pôs tudo a perder, outra vez.
Computando, vejo que só perco desde que comecei a anotar os meus ganhos e perdas, só tem X na coluna de perdas...
O meu mal é ser organizado assim, até na desgraça tenho tudo descriminado, analisado, medido, assim não consigo por a culpa em ninguém, fica claro que o culpado de tudo o que me acontece sou eu.
Sobre a mesa da sala, esperando entrar dinheiro para pagar, a conta de uma quantidade absurda de borboletas azuis que comprei. Serei lembrado no futuro (a quem quero enganar?) pelas minhas idiotices...
O telefone está tocando desde que acordei.
Não o atenderei que liguem pro meu celular. Não tenho celular, hahahahahahahahaha.
Deus, estou ficando louco, me assustei com minha própria voz...
Quinze dias, quinze dias de licença-prêmio! Não aguentarei isso!
Preciso fazer alguma coisa, beber está descartado, ainda sou motivo de risos no bar, o “grande detetive abatido”...
Sou uma piada, só eu não rio dela, será autocritica, ou serei sem graça mesmo? Bosta de detetive eu seria...
Certo, fiz bem em me livrar daqueles livros! Eles estavam a envenenar a minha cabeça...
Mais tarde lerei um Diário Oficial para passar o tempo.
Seguro-me para não telefonar para a repartição.
Não ligarei de jeito nenhum!
Ligarei daqui a pouco, logo será a hora do cafezinho lá.
Não ligarei, não ligarei, não ligarei, não me entregarei a essa tentação. Sou senhor de meu destino, nenhum desejo há de me fazer sucumbir.
Pronto, estou decido, ligarei quando eu quiser, não agora, mas quando eu quiser, quem sabe daqui a uns cinco minutos?
O telefone continua tocando...
Não deveria ter jogado fora o meu cachimbo...
Preciso tomar uma decisão, logo, já, rápido, urgente, imediata, preciso dar um passo á frente, preciso sair desse marasmo.
A vizinha agora fechou a janela...
Minhas alegrias estão se reduzindo a olhos vistos, olhos que nada veem através da janela.
Quando o telefone parar de tocar, ligo pro serviço e peço prá voltar.









*Para entender, click aqui



2012/11/05

COMO ALGUNS ME VÊEM

(e sem controvérsias...)





“O” imbecil residente
“O” cretino de plantão
“O” inimigo atrás da porta




2012/10/09

DOMINGO




A primavera acabou, chegamos ao verão. O calor começa a reinar e derreter.

Recolho-me à sombra de minha casa, digo apartamento, terceiro andar, fundos. Domingo à tarde, o pior pedaço da semana, o dia que se arrasta em direção à segunda-feira. Torço para ninguém aparecer em casa, para o telefone não tocar, e se tocar não atenderei. Almoço e depois vou descansar, dormir mesmo, afinal, o resto do dia será a agonia do fim, será só estertores, aflição.

Deito, fecho as janelas, a escuridão me da a falsa impressão de frescor, o quarto torna-se minha caverna. Abraço o travesseiro e começo a adormecer.

Afundo no colchão e modorra. Lá fora, bem-te-vis e sanhaços fazem sua festa barulhenta e irresponsável...

De olhos fechados, ouço com estranha alegria essa balburdia, e vou aos pouco escutando vozes que vem do andar térreo, são crianças de seus três, quatro anos, elas brincam, gritam, correm, caem ao chão, chamam pelo pai que, calmamente, antes que elas comecem a chorar, diz que está tudo bem, não foi nada, vai passar.

Nunca fui muito fã de crianças e congêneres. Mas que coisa deliciosa de se ouvir, os sons e ruídos de uma família reunida, reunida e feliz. As vozes misturavam-se durante o que me pareceu ser um jogo de futebol entre pai e filhos.

A confiança das crianças no pai, a segurança que ele transmitia aos miúdos, como diriam os portugueses. Caíam e não choravam, marcavam gol contra e não reclamavam. Isso durou mais de meia hora, só interrompido quando a avó deles chamou para o almoço.

Antes de dormir de vez imaginei a mesa, os pratos, e a avó diligente e amorosa servindo a todos.

Pensei que isso sim era amor.

Dormi roído pela inveja.

O Domingo acabava bem para eles...

 


2012/10/08

O FIM



E tudo acabou tão rápido como uma onda batendo nas pedras, levando tudo e não deixando sequer espumas...

2012/10/03

BILHETE



Querido amigo sei que havia te prometido um Grifo aqui da Europa Oriental, mas Grifos não há mais, então te mando uma chave inglesa.
Sei que não é mesma coisa, mas em todo caso poderás consertar as torneiras que ai pingam sem parar.
Abraços fraternos desse seu eterno caçador de dragões!

2012/09/21

CÍRCULO VICIOSO




Ao limpar o velho apartamento encontrou perdido entres tantas coisas também perdidas por lá, o relógio de Higino José Dias Baptista. Ela chorou, e a saudade a levou de volta ao tempo em viviam juntos. E nessa nova chance de vida, ela tornou a cometer os mesmo erros que levaram Higino José Dias Baptista ao suicídio.


2012/09/18

CRÔNICA DE ENCOMENDA



Esvazio a segunda garrafa de rum e brinco com uma pérola fazendo-a rolar na palma da mão. Estou começando a nublar a minha mente, aos poucos as imagens daquela festa começarão a se dissipar. Logo esquecerei os rostos, as vozes, as conversas, as músicas, as risadas...
***

Na sala, cantavam o indefectível parabéns a você, nessa data querida, aí começa tudo. Data querida? Querida para quem? A velha senhora estava alheia à sua própria festa, parecia ela mais com um enfeite do que com a aniversariante. Os convidados serviam-se do bolo, dos doces, andavam pela casa da velha, mexiam em suas traquitanas, revolviam suas gavetas, quando ouvi alguém perguntar:

- Quando ela morre?

Não ouvi qualquer resposta, pois uma gargalhada preencheu o ambiente. Saí à varanda para fumar, queria ir embora, mas uma fagulha miserável de curiosidade me prendia ao lugar.
Fumei e comecei a beber.
Voltei à sala, a velha fora posta num canto onde não atrapalharia ninguém, onde pessoa alguma poderia tropeçar nela, onde não incomodaria quem quisesse circular pela sala em paz pudesse fazê-lo. Ela olha tudo à sua volta com olhos opacos, secos, olhos que olhavam, mas nada viam. Pensei que isso lhe seria benéfico. Quem suportaria testemunhar aquilo em sã consciência? Quantos anos a velha fazia? Pensei em perguntar a alguém da família, mas outra pessoa fez isso por mim e desgraçadamente ouvi a resposta:

- Mais que o necessário, ela já passou da hora.

Segurei meu copo com força e o completei com alguma coisa que saiu da primeira garrafa que vi pela frente. Continuei circulando pela casa e acabei indo ao jardim. Ar puro! Pensei erroneamente. Lá havia muito mais abutres ainda. As crianças, provavelmente bisnetas da velha, conferiam entre si o saque do seu porta-joias. Pelo visto, daquela família não escapava ninguém – pequenos abutres! Cuspi parte da bebida no chão, e como urubus sobre a carniça, elas não se abalaram com a minha presença e começaram a discutir como dividiriam o colar de pérola da bisavó. Concordaram em arrebentá-lo e dividi-lo pérola por pérola...
Pensei que no Velho Testamento, por menos que isto, a Justiça Divina já teria se manifestado.
Voltei para dentro, aquela cena me repugnara. Precisava beber e procurar a pessoa que havia me convidado para essa festa.
Fui convidado para fazer justamente o que estou fazendo, circular, recolher apontamentos e entregar depois uma crônica sobre essa reunião. Mas aposto que o amigo que me convidou, assim como eu, não tinha ideia do que iria acontecer aqui... Fui à cozinha, entrei pelos fundos, assim seria menor a chance de encontrar mais desses urubus de black-tie.
Servi-me de uns frios e uns uísques. Bebi e comi lentamente, o que eu vira e ouvira no jardim ainda me embrulhava o estômago. Após a frugal refeição voltei à sala à procura de meu amigo. Precisava encontrá-lo, desfazer o negócio e ir embora, isso não era o que eu esperava, nem estava ganhando para isso, vim para fazer-lhe um favor, seria a minha crônica seu presente para a velha senhora!

- Que presente! – pensei em voz alta.

À entrada da sala o garçom serviu-me mais bebida, não recusei. Emborquei dois ou três copos de uísque de uma vez! Precisava ser duro comigo mesmo para continuar com isso. Trôpego segui em frente.
Tropecei numa mesa com uns doces e salgadinhos que foram ao chão, as meninas que vinham do jardim correndo, pisaram neles e acabaram deixando manchas indeléveis no tapete. Ainda as vi voltando ao quarto da bisavó, imaginei que iam terminar o butim. Pequenas flibusteiras temo pela sua prole...

- O futuro corre perigo! – Gritei segurando o copo de uísque, que acabou indo de encontro ao tapete empastelado de brigadeiros e empadinhas...

Havia na sala um carrilhão de laca preta, muito antigo e consequentemente muito caro, e dois genros da velha discutiam o seu valor, quando um terceiro mais jovem chegou-se aos dois primeiros e comentou que “se essa velharia caísse em suas mãos, venderia imediatamente, pois na sua casa não entraria jamais uma porcaria velha daquelas, aquilo era um lixo anacrônico”, o que ele queria mesmo era o velho relógio de pulso, de ouro, do falecido, aquilo sim valeria uma boa grana! Riram e concordaram, nada de levar os entulhos daquela velha, o que valia mesmo eram as joias. Nesse momento as meninas passam correndo com as mãos cheias de joias em direção ao jardim.

- Outro butim. – Gritei como se fosse um brinde. Segui atrás das crianças e sentei-me num dos bancos do jardim. Continuei bebendo e por lá adormeci.

Acordei em casa, creio que meu amigo levou-me, e desde que despertei continuo bebendo para esquecer tudo isso que testemunhei.
Nada escreverei para ele, nada de crônica, continuarei a beber até que consiga esquecer tudo isso, tudo isso, tudo isso...

2012/09/17

AQUELA SEMANA SINISTRA



Dia primeiro

Uma segunda-feira clara, fresca e azul, ela entrou na sala. Todos lhe deram boas-vindas, tapinhas nas costas - tudo falsidade, tudo falsidade, eu sei, eu sinto, eu vejo, eu sinto o cheiro – mostraram-lhe a sua mesa, o serviço que faria, onde ficava o café, mas lógico que tudo isso seria para amanhã, pois hoje seria só festa. Ela nem olhou para mim, pois eu estava no canto da sala, canto direito onde batia o sol da manhã e o da tarde, as duas janelas sem persianas, o que explica o meu eterno bronzeado de janeiro a dezembro. Ignorado como estava, e sempre estive, deixei que meu coração disparasse a bater, batia um tum-tum louco e desenfreado, não fossem os colegas de sala tão ignorantes teriam a impressão de estarem a ouvir os acordes finais da Abertura 1812, onde sinos badalam e os canhões disparam e comemoram a vitória do exército russo sobre o exército de Napoleão Bonaparte... Mas guardei para mim toda essa impressão e segui batendo meus carimbos, escrevendo meus memorandos, minhas cartas, recortando trechos aleatórios do D.O. Mantive a minha eterna fleuma britânica, mas foi nesse dia que me apaixonei perdidamente por ela. Foi ai que começou meu inferno interior...



Segundo dia.

Cheguei mais cedo, tinha que ter certeza que a faxineira iria limpar bem a mesa dela, queria um serviço impecável, trouxe de casa um desinfetante importado, perfumadíssimo. Isso lhe causaria uma boa impressão da repartição. Fechei as janelas, impedi assim que o mau cheiro da rua maculasse o ambiente. Liguei meu rádio, uma música suave preencheu todos os cantos da sala, quem resiste a um Frank (ah! aqueles olhos azuis!) Sinatra cantando FLY ME TO THE MOON? Ah, mas o melhor, o melhor mesmo, o fantástico, o fabuloso, o incrível, o kafkiano em último grau, eu deixei para quando ela viesse me cumprimentar aqui no meu cantinho ensolarado. Às oito e trinta cinco – segundo dia e já se deixando levar pelo mau-exemplo dessas víboras da sala, pobre alma inocente! – ela chegou sorridente distribuindo bons-dias e tudo-bens a todos, mas no caminho em direção ao meu cantinho ensolarado ela foi pega pelo braço pela rainha das víboras – a substituta da sub-chefe - e levada à copa. Volta uma hora e quinze minutos depois, sentando-se em sua mesa somente para ligar o computador e entrar no facebook. Fiquei entre chateado com sua indiferença por mim e triste pela surpresa que eu iria fazer-lhe, aliás, mais preocupado com o bem estar da surpresa em si. Mas aguardei tomando sol que já me pegava pelas duas janelas de canto. Levantei-me para ir ao banheiro, era hora de renovar o protetor solar e falsamente displicente passei pela mesa dela e dei-lhe o meu mais falsamente seco e indiferente “bom dia”. Mas acho que interpretei tão bem que ela me ignorou. Alguma coisa em mim sempre me dizia que eu estava me perdendo no serviço público. Agora ela deve achar que sou antipático, um arrogante, uma besta ou quem sabe, deve achar que sou pior que aquele Déspota do RH, aquele monstro insensível! Esses pensamentos me acompanharam ao banheiro e diante do espelho vi lágrimas em meus olhos, deve se a poeira, só poderia ser... Apliquei o creme protetor fator 200 que espalhei pelo rosto e principalmente no pescoço que pegaria agora todo sol forte da tarde. Suspirei, lavei as mãos e voltei para o meu cantinho no fundo da minha sala. Abro a porta e sou violentado. O que ouvem meus ouvidos? Onde antes se ouvia Frank Sinatra, agora tocavam pagode, pagode, pagode! Pobrezinha, pensei, que má-impressão terá de nós. Como me preocupava com ela... Respirei fundo outra vez e fingindo indiferença entrei na sala, passei por sua mesa e perguntei irônico se estava gostando da “música” – (acho que consegui fazê-la ver as aspas) – e batucando com um lápis no copinho de café, respondeu-me que sim. Baixei minha cabeça, sentei-me à mesa e me afundei no trabalho até a hora do almoço. Não voltei à tarde.


Terceiro dia.

Entrei na repartição com renovadas esperanças. Mas eu era mesmo um estúpido. A pobrezinha estava tentando enturmar-se, como poderia ela, recém-chegada dizer àquelas víboras que gostava de boa música, que Frank Sinatra tocava fundo o seu coração? Sim ela teve que fingir (e a que preço?) que gostava de pagode. Acho agora, em retrospectiva, que ela estava batucando no copinho até bem descompassada... Paguei à faxineira para usar mais daquele meu desinfetante especial importado na sala. Anonimamente mandei entregar-lhes rosas, vermelho-sangue, vermelho-paixão, vermelho quase negro. Isso deveria causar-lhe uma muito boa impressão e despertar-lhe a curiosidade de querer saber quem enviara tais flores... As oito e cinquenta cinco ela chegou, mais tarde ainda. Ah! a má-influência, Ah! a má-influência... Jogou a bolsa sobre a mesa e foi à copa. Quando voltou, rindo muito e ajeitando os cabelos já passava das dez horas e enquanto ela entrava na sala eu saia para ir ao banheiro passar o protetor solar - em fevereiro aquelas janelas são um inferno – quando voltei as flores já haviam sido entregues, e as víboras ciciavam. Perguntavam histéricas quem era o admirador secreto, que a ela declinasse logo o nome do pretendente. Não fizesse “mistério” Nada de segredo entre elas, que contasse logo e contasse tudo. Percebi que ela sorria um sorriso de mistério, de cumplicidade, será que ela sabia que eu era o remetente? Passei como que invisível por todas elas. Desforrei minha frustração sobre o D.O. Fiz dele um saco de confetes. Telefonei ao Déspota do RH e o chamei para fumar- sou fumante passivo – e subi ao quinto andar, de lá eu jogaria minhas frustrações em forma de minúsculos fragmentos de papel... Quando volto à minha sala, ao passar pelas mesas das víboras escuto comentários sobre o mau-cheiro do meu cigarro e que é uma vergonha alguém ainda fumar nos dias de hoje. Ela olhou-me num misto de pena e nojo. Demorou muito a dar a hora do almoço. Coloquei meus fones de ouvido e me entreguei ao Frank Sinatra. Almocei e não voltei outra vez. No dia seguinte era só assinar o ponto, pois eu era realmente invisível naquela repartição.



Quarto dia.

Cheguei vinte para as oito. Adiantei-me para encontrar o Déspota do RH na rua e fumar passivamente um cigarro, estava tenso demais. Logrei encontrá-lo e desfrutei do seu cigarro. Antes de entrar na minha sala pedi à faxineira que me devolvesse o desinfetante especial importado - minha mãe dera pela falta! Que ela usasse o que o Estado compra e já estava muito bom! Sentei-me à minha mesa, abri o D.O. e com o estilete pus-me a cortar qualquer coisa com mais de dez linhas, o resto picotei com minha mãos, rasguei, piquei, eviscerei o periódico e com as mão sujas de tinta comecei a rir e jogar tudo para cima. Parei quando a faxineira entrou na sala. Dei a ela dez reais e pedi-lhe que fosse discreta e limpasse tudo direitinho. Telefonei ao Déspota do RH e fomos ao quinto andar fumar. Essa situação estava me fazendo fumar demais, daí para começar a beber era questão de tempo, de bem pouco tempo. Fumei e me acalmei. Arrependo-me do apelido que dei ao Déspota do RH! Tudo por causa desses meus nervos! Mas acho que ele não liga muito para isso, sorte minha! Antes de voltar à minha sala fui ao banheiro passar o protetor solar, fevereiro parece que não vai acabar nunca! Nove horas, nove horas ela chegou, e ainda assim antes das outras víboras, deu-me um bom dia e vendo-se sozinha na sala, dignou-se a vir conhecer meu cafofo, digo, minha mesa. Sorri com muita polidez, embora por dentro estivesse pulando, gritando agitando a bandeira do São Paulo Futebol Clube, soltando fogos e chorando de emoção. Ela chegou-se a mim e perguntou se alguém havia telefonado e avisado que chegaria tarde hoje. Suspirei e – para não despertar nela nenhum sentimento de misericórdia por mim, omiti o fato de que ninguém me liga, nunca - e respondi-lhe que não, que ninguém me ligou, e expliquei-lhe a contragosto que esse era o funcionamento normal da repartição, ninguém chegava na hora aqui. Ela riu e comentou que “se esforçava muito para cumprir horário, e já que o negócio funcionava assim...” Não entendi a reticência, mas sabia que dali não viria nada que prestasse. Senti ganas de ligar ao Déspota do RH, mas pensei comigo mesmo, que se não conseguiria um dia deixar de fumar de vez, que ao menos me controlasse um pouco. Fui à rua comprar um jornal para rasgar, hoje não tinha D.O. O resto do dia passei com o Frank Sinatra, só levantei da mesa para ir ao banheiro passar protetor solar no rosto e no pescoço. Assoviando baixinho esperei pelo fim do mundo ou do dia, o que viesse primeiro.



Quinto dia.

Sexta-feira. Metade das víboras não vieram pela manhã e seguindo o padrão, a outra metade desaparecerá à tarde. Hoje descubro o caráter dela! Dez e vinte e cinco ela chegou! Mal me cumprimentou com um bom dia ligeiro e superficial, pegou o telefone e pediu café da manhã no bar em frente – isso é sinal de noite ruim e dia pior, reconheço esses sinais de longe - e foi ao banheiro maquiar-se, e essa foi a primeira e única vez que vi a de cara limpa. Para mim ainda era linda, mesmo sendo invisível a ela, ela ainda era linda para mim, emocionado e trêmulo com essa epifania liguei para o RH:

– Estou subindo! – e fui para o quinto andar.

Na volta, a caminho de minha sala no corredor, escutei choro vindo da copa, era ela, não poderia ser coisa boa e certamente ela não chorava por mim... Intui que passaria o dia sozinho na sala entre Frank Sinatra e telefones tocando sem parar. O vigia da manhã me trouxe a pilha de D.O.s de ontem – o passado não me dá folga. Agora minha sanha homicida será saciada, procuro pela minha tesoura – onde ela está? - não quero cortar papeis com estilete, quando estou com ele na mão sinto que não respondo por mim, preciso da tesoura, e quando abro a terceira gaveta para pegá-la saem de lá as esquecidas e ainda vivas borboletas azuis, a minha surpresa kafkiana para ela que até eu mesmo tinha esquecido. Elas começaram a voar atarantadas pela sala tentando sair pelas janelas fechadas e prestes a serem trucidadas pelos ventiladores, e então os telefones começaram a tocar, os trens começaram a apitar e os caminhões a buzinar para os mesmos trens saírem de sua frente, e a faxineira que tinha entrado na sala para me devolver o desinfetante importado, começou a gritar assustada com as borboletas. Nesse momento, numa lucidez que há muito não vivenciava telefonei ao Déspota do RH:

– Tô subindo! Lá em cima entre uma tragada e outra lhe segredei - Cara, o amor não presta! Acho que vou entrar com meu pedido de licença-prêmio ainda hoje...

2012/09/06

REFEIÇÃO


No pedaço de pão duro, esmolado, tudo o que acompanhou de recheio foi o nojo, o asco, a má vontade e nada de manteiga ou, sonho distante e impossível uma fatia de mortadela. O pé descalço, duro feito casco, seguiu pela rua carregando aquele corpo andrajoso e faminto. O pão na mão poderia ser alimento, e de tão duro, uma pedra, uma arma.
No bolso, uma bituca de cigarro guardada para depois de um almoço...
Ah! Essas piadas sem graça que a vida nos faz!

MACAU


(OU NEM TODAS AS PATACAS DO MUNDO)



A princípio, para a sua alegria de eterno endividado um dia começou a receber de Macau envelopes recheados com verdes notas de dólares, muitas.
Depois, começaram a vir com instruções para investimentos, todas desconsideradas e ignoradas, afinal se não sabia quem as enviava, pouco importavam a recomendações.
Quando as cartas pararam de chegar, sua alegria e alívio foram enormes. Já havia mobiliado o apartamento, trocado de carro arrumado, uma amante, acabado com a barriga, e largado do emprego.
Mas...
Um dia, começou a receber telefonemas às altas horas – fuso horário, pois na Ásia era bem cedinho - com cobranças e sérias ameaças...
Hoje sua rotina diária começa com a mesma indagação:

- Quem em Macau me conhece, quem?

E termina seu dia tendo pesadelos com uma tal Madame Ching Yih Saoa

2012/09/05

DEPOIS É TARDE



Fumante por mais de cinquenta anos, uma noite acordou com um acesso violento de tosse, tanto tossiu que começou a vomitar sangue e enquanto agonizava, a mulher entre histérica e vingativa gritava:

- Foi o cigarro, foi o cigarro!

Na necropsia provou-se que ela estava enganada. Pena o morto não poder ter tido a última palavra!

2012/09/03

OS MENTIROSOS





As ideias dela eram tão podres que o cérebro apodreceu. Só o câncer para evoluir na mente de uma alma tão suja. Os filhos, justificando anos de vassalagem às cafajestadas da velha, contam na vizinhança que a mãezinha era boazinha, só tinha desvio de caráter porque já era doentinha, coitadinha. Os netos só passam vergonha.