2012/05/11

A ESTANTE DE MINHA MÃE


e na sala, sobre a estante as fotos chamavam a atenção. Lá estava eu vinte anos mais jovem, meu pai, na foto de seu casamento e a sua última, aquela que estava em seu túmulo, havia também as fotos de meus irmãos, pequenos, crescidos, casando, casados, com seus filhos recém-nascidos, adolescentes e alguns casando, lá também estava a minha filha quando pequena, fotografada fazendo beicinho e sorrindo com a inocência das crianças dessa idade.

Via esses retratos enquanto levava a minha neta para que, no colo de minha mãe, fosse também fotografada, seguindo a tradição de ser imortalizada naquela estante da sala.

Enquanto a velha segurava a sua bisneta, eu disfarçadamente contabilizava a minha vida através da sua coleção.

Lá entre tantas imagens estava eu, magro, sem barba (que hoje está branca), com orelhas de abano; meu irmão ainda com cabelos pretos, ri de mim pra mim, pensando que lá estava eu aumentando a coleção/patrimônio da velha, ela que era, e só agora percebia a guardiã pictórica da história de minha família.

Gerações, ali expostas naquela estante, à mostra para quem tivesse a curiosidade de vê-las, de perguntar sobre cada indivíduo, saber da história de cada um deles.

Um tesouro revelado!

Quem herdará tudo isso?

Sempre achei que fossemos pobres, senão pobres de “marré-marré”, pelo menos pobres de tirar o sono de gerentes de banco, mas não!, lá estava a nossa fortuna, ali naquela velha estante com um ou dois livros - nunca lidos - e uma antiga bíblia (de enfeite, com letras douradas), ali entre os seus bibelôs de velha, ali sim, bem ali na cara, na entrada da sala, ali, bem ali, está a nossa fortuna, minha família para sempre imortalizada nas fotos que a minha mãe coleciona.

Ao sair de sua casa ao fim da tarde, depois de muito fotografar minha mãe com minha filha e neta, saí satisfeito, feliz da vida comigo mesmo, pois eu havia depositado mais um tostão da poupança pictórica da história da minha linhagem e assim, algum dia, algum descendente, quer meu, quer de meus irmãos, filha, sobrinhos ou neta, irá também se deliciar em ver seus antepassados ali, imortalizados em papel, sorrindo ou chorando suas tristezas e alegrias, casando e morrendo, mas vivendo para sempre nas fotografias que minha mãe coleciona em sua estante.



4 comentários:

Folhetim Cultural disse...

O que vai ficar na fotografia
São os laços invisíveis que havia

Fotografia: Léo Jaime

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

DEZ, NOTA DEZ.

Conheci uma velha asquerosa que chama todo mundo de bem, falsa que só, basta falar de alguma conquista que ela cresce o olho, ou seja, gosta mesmo é dos bens dos outros. Uma vagabunda dessas não é mãe nem num puteiro, só procriou para enlamear o mundo de animais imundos com o sangue dela. Uma desgraça dessas não faz questão de foto dos netinhos, quer mais é que os netinhos se fodam, quer é o dinheiro de quem quer que ela julgue ter.

Mirze Souza disse...

Que BELEZA!

Realmente, uma postagem e tanto. Educação ninguém nos tira, nem cultura. A família é eterna na memória, mesmo que ao longo da vida viva na fotografia .

BELO!

Parabéns, Meu amigo!

Beijos

Mirze

Ranzinza disse...

Obrigado Mirze.