2011/10/18

Dona Denaide e Seu Abelardo


(Outro Drama Relâmpago)



Cenário: Uma repartição pública caindo aos pedaços.

Personagens: Dois velhíssimos funcionários, os únicos que sobraram, e que esperam pela aposentadoria, Abelardo e Dona Denaide.

Tempo: Um futuro, infelizmente, muito próximo.

O relógio quebrado há mais de vinte anos, na parede, indica que são 13h30minhs.

Abelardo fala::

- Oi mocinha, ô mocinha, vira pra cá, ô mocinha...

A mocinha vira-se, lentamente para ele, começando pelo pescoço, enrugado, alguns segundos depois, o tronco rijo feito um jatobá centenário, e finalmente a bacia, que já possui uma prótese de platina, o único bem que ela possui nessa vida.

Dona Denaide:

- O que é que você quer? Já esqueceu o meu nome de novo?

Abelardo:

- É que sem poder ver o crachá, não dá para lembrar o seu nome...

Dona Denaide:

- Denaide! Meu nome é Denaide, há quarenta anos que trabalhamos juntos, como você pôde esquecer o meu nome? O que é que você quer afinal?

Tosse, tosse muito, abre a bolsa, e tira de lá uma bombinha para bronquite.

Abelardo, muito nervoso, segurando um carimbo, que está de cabeça para baixo, resmunga:

Abelardo:

- O que é que eu quero? Foi você quem me chamou...

Passa o tempo.

Mais ou menos uns quinze minutos.

Abelardo:

- Mocinha, ô mocinha, será que você poderia me fazer um favor?

Dona Denaide, nervosa, procurando o óculos, que está sobre a sua cabeça, larga a revista que estava lendo, também de cabeça para baixo:

Dona Denaide:

- Abelardo, já te falei, meu nome é Denaide, Denaide, olhe aqui o meu crachá. - e falando para si mesma - Quarenta anos, quarenta anos e nada de sair a minha aposentadoria...

Vai até a mesa de Abelardo, com a bombinha na boca e aspirando feito uma resgatada de afogamento, e esfrega o crachá na cara dele, cheia de rugas.

Dona Denaide:

- Olha aqui Abelardo, lê o que está escrito aqui, lê!

Abelardo:

- Denaide! Mas que nome bonito a senhora tem, Denaide! Denaide...

Fica olhando para o crachá e esquece da vida. Os olhos fitam o vazio, o carimbo cai-lhe da mão.

Dona Denaide gritando:

- Abelardo! Você trabalha comigo a quarenta anos, pare de ficar olhando essa foto, eu tinha vinte anos aí. Acorda Abelardo!

Abelardo acorda de um sono de olhos abertos, e pergunta a Denaide o que ela está fazendo em sua mesa, gritando daquele jeito.

Dona Denaide:

- Abelardo você não tem mais remédio! Tá um velho gagá. Foi você que me chamou aqui duas vezes...

Abelardo, ainda com o crachá de Denaide nas mãos, os olhinhos brilhando, talvez de paixão, pergunta:

Abelardo:

- É filha, ou neta sua, essa mocinha tão bonita?

Dona Denaide, surta!

- Essa na foto sou Abelardo, sou eu!

Levantando as mãos aos céus, Dona Denaide grita:

- Meu Deus, se não podemos aposentar, por favor, me leve. Me tire daqui...

Vira-se e começa a voltar à sua mesa, tossindo, quando Abelardo a chama de novo.

Abelardo:

- Mocinha, ô mocinha, se você ver a dona Denaide por aí, por favor, peça a ela que me traga uma frauda geriátrica. Acho que me urinei de novo...

Dona Denaide, enquanto dirige-se ao banheiro, chora e aspira convulsivamente a bombinha para a bronquite.
Abelardo, molhado, sonha com a mocinha da foto.





(que)

FIM

Um comentário:

MIRZE disse...

Maravilhoso!

É assim mesmo. Eles passam o tempo todo, mesmo e, casa pensando como irritar o outro.

AH AH AH!

Tadinha da dona Denaide!

Show, Roberto!

Beijos

Mirze