2011/10/07

CAOS

“All I need's a Holocaust
To make my day complete”
Alice Cooper in My Stars




Em forma de impostos extorsivos, cobranças abusivas, falta de garantias e crimes mil, a população há muito tempo era penalizada. Para cada imposto, uma explicação descarada e sem sentido, a justiça ausente e venal, o crime presente e a descrença crescente.
As pessoas, por fim, chegaram ao seu limite de humanidade e regrediram à mais baixa e violenta barbárie, cortando todo e qualquer vínculo com a civilidade.
Passaram a viver no mais pétreo egoísmo e insensibilidade.
Matavam e se matavam.
Saíam às ruas como cães raivosos, atacando e destruindo tudo o que lhes aparecesse pela frente.
Nas ruas imundas pululavam as mais terríveis doenças, a peste arrebanhava multidões para a morte.
Mortes e mais mortes a cada dia tornavam as pessoas menos humanas e expunham suas mais torpes características animais.
O sinal de que tudo estava perdido foi sentido pelos banqueiros. Eles foram os primeiros a abandonar as cidades na calada da noite. Fecharam suas agências e, como ladrões, fugiram com os depósitos dos clientes. Grandes redes e distribuidoras de alimentos, que por anos e anos haviam explorado a população, sumiram como que por encanto, deixando prédios vazios ou quase, pois os ratos continuaram por lá, recolhendo cada farelo, cada grão, cada pedaço de comida que tivesse sobrado durante a fuga.
Nada sobrou para os humanos.
Sem dinheiro, sem comida e sem segurança, pois sem bancos e grandes empresas para protegê-los, a justiça foi-se também, largando todos à própria sorte e, largados à própria sorte, regrediram ao estado mais animalesco.
Inimigos de si mesmos, inimigos de seus vizinhos, vomitando a verde bílis da raiva há muito fermentada no coração, declararam guerra ao que restou de civilidade.
Na sanha cega, estúpida, atracavam-se mutuamente. Desrespeitavam com júbilo e prazer baboso tudo o que pudesse ser Lei ou Ordem.
Começaram com as leis de trânsito, parando em qualquer lugar, de preferência vagas de idosos e deficientes, depois em cima das calçadas, passando em seguida a atropelar os transeuntes que corriam pelas ruas carregando os saques feitos nas lojas e supermercados abandonados. E assim descobriram por acidente uma forma de descarregar seus ódios e frustrações e ainda arrumarem um pouco mais de alimento.
Pura matemática: menos pessoas vivas igual a mais comida.
Nas ruas, ouvia-se uma cacofonia de gritos e choros.
Passados os dias, o estado das coisas degringolava ainda mais e a insanidade alcançava novos patamares.
Depois de massacrarem-se a torto e a direito, passaram a matar-se. Matavam-se com requintes de cruel e desumana perversidade. Imaginavam formas de matarem-se, levando consigo o maior número possível de pessoas.
Roubavam caminhões e com eles arrojavam-se sobre as multidões que brigavam por um pedaço de pão, por um resto de comida, por um rato gordo. Tomavam velocidade e iam em frente, imaginavam-se bolas de boliche tentando fazer um strike.
A loucura grassava.
Em meio a toda essa demência, vê-se sobre a murada de um canal de esgoto um homem velho e sujo de barba branca, com o corpo magro envolvido em um cartaz de propaganda política arrancada de um poste de luz que, como que saído do Velho Testamento, clamava aos céus.
Feito um eremita possesso, gesticulava os braços arengando aos girinos seu sermão apocalíptico. Essa confrangedora peroração só foi interrompida quando um automóvel cantando pneu entrou na contramão, estatelando-se contra um velho galpão abandonado.
A patuléia ignara e famélica acorreu desesperada e sedenta para cima do infeliz motorista e de seus acompanhantes feridos que agonizavam nos escombros.
A pregação apocalíptica do senil profeta tomou um aspecto ainda maior diante de tão dantesca imagem. E rindo seu riso sem dentes descrevia, alucinado, os detalhes da escabrosa cena aos girinos:

- Vejam, meus filhos, quando vocês voltarem a essa terra, voltem melhor que isso! Por favor, voltem melhor que isso! – e de braços abertos em cruz, rindo, ofereceu-se em holocausto à multidão, pela qual foi consumido no violento torvelinho...

Um chão manchado de encarnado foi o que sobrou dele.
O caos, num crescendo, oprimia a cidade decadente...
Desesperançadas, as pessoas pulavam das janelas, jogavam-se sob trens desgovernados; carros batiam e se chocavam propositalmente com outros carros, como num demoníaco parque de diversões; corpos mutilados espalhavam-se pelas ruas e os urubus cobriam os céus como negras nuvens de tempestade.
A abóbada celeste já era um negrume só de tantos abutres e o ar pestilento disputava com os homicida-suicidas quem matava mais.



- Empate técnico! – comentavam entre si os primeiros girinos ao saírem da água...



4 comentários:

MIRZE disse...

EXCELENTE!

Já estamos quase chegando ao CAOS. Se é que não percebemos que já chegamos

Beijos!

Mirze

Ranzinza disse...

Alô, alô, Ranzinza respondendo do caos...

solaris disse...

Imagino qual o caos..ahahahaha

Folhetim Cultural disse...

pior do que tá fica... logo logo poderemos dizer que o Ranzinza é profeta, pois se continuar assim, isso acontecerá breve.