2011/09/20

UM CONTO EM TEMPO REAL

- Pare de passar as mãos no rosto! – ordena-se duramente.

Continuando a coçar o rosto resolve que deve barbear-se, afinal ele pode até não ser um escritor, mas deve manter pelo menos uma boa aparência.
Diante do espelho do banheiro, encara-se por um longo tempo, até que começa a passar o creme de barbear. A lâmina começa a escanhoar o lado direito do rosto quando – Eureca!, ele grita- surge-lhe uma idéia. E como num filme americano, ele sai correndo com parte da barba por fazer.
Senta-se em frente ao computador e começa a digitar:

- “A casa estava vazia como um tumulo recém-construido...” – ele para de digitar e passa mão no rosto sente a espuma escorrer e vê que começa a pingar nos teclados. - Droga, droga, droga, merde. – pronuncia com raro prazer a única palavra que sabe dizer em francês – Merde!

Volta ao banheiro e começa a limpar a espuma de barbear, que agora já desce pelo pescoço. A água da torneira faz mais sujeira ainda, e ele decide tomar uma ducha, quem sabe além de limpar essa porcaria ainda ajuda a clarear as idéias.
A água quente começa a relaxá-lo.
Olhando pela janela, ele vê as pessoas que passam lá fora e uma cena ordinária chama-lhe a atenção.
Ordinária para os simples mortais, não para ele, um colunista transbordante de sensibilidade poética e consciência social. Na sua cabeça aquilo torna-se de imediato uma bela crônica mundana.
Para não perder a inspiração, corre novamente ao computador ligado sobre e mesa da sala. Vai pingando pelo caminho, já transformando a imagem palavras faladas, que com seus dedos ágeis de escriturário, há de transformá-las em letras, e essas letras em palavras, sentenças, e por fim, um história cheia de emoção, sentimentos...

- Sim, a crônica de hoje já estava pronta.

Mas ao chegar à sala, para sua consternação,lá está o notebook cheio de espuma, que lentamente começa a derreter e a penetrar entre os teclados...
Passa as mãos ainda molhadas sobre cada uma das teclas, piorando ainda mais a situação.
Desesperado pega uma meia que estava sobre o sapato debaixo da mesa. - Merde, merde, merde!
Aqui devo deixa claro aos senhores leitores a seguinte informação:

"MEIAS NÃO SE PRESTAM A TAL SERVIÇO! NÃO TENTEM ISSO EM CASA OU EM QUAQUER OUTRO LUGAR! "

Sigamos.
A meia espalha ainda mais a água e a espuma de barba, sujando agora todo o teclado. Então é tomado de um desespero duplo.

– Vou perder o computado e a história! – ele sacode o pobre aparelho, gira sobre si mesmo, pois o movimento de rotação há de expulsar todo o liquido. Gira, gira, gira até quase perder o equilíbrio. E milagrosamente o teclado seca.

Mas não nos preocupemos em saber se isso causará algum dano, afinal o computador não é o nosso personagem principal dessa história.
Sigamos.
Mais assustado que tonto e exausto ele senta-se na poltrona para retomar seu fôlego e pasmo, vê a sujeira que voou para as paredes. Ele afunda na poltrona e passa a mão no rosto. Parte da barba ainda está por fazer, dos cabelos escorre água, que num fio desce pelas costas e o faz despertar para o estrago que está fazendo na poltrona.

-Vai manchar o tecido! Merde, merde, merde.

Sem pressa, não por auto-controle, mas medo de quebrar uma perna, vai até a área de serviço procurar um pano para secar a poltrona e limpar, por mínimo que seja, as paredes.

- Minha história, minha história... – lamuria-se. Lá se foi a minha história.

Não encontrando nada, volta à sala e usa o outro pé de meia. Que como o pé anterior, que para ilustra melhor esse drama, vamos supor que tenha sido o pé direito, não só não ajuda, como anteriormente, espalha mais e deixa o cenário ainda pior.
Desolado, olha em volta, e o que vê o deixa paralisado, sem qualquer ação, e o tique nervoso o leva a passar as mãos no rosto. A barba por fazer, a poltrona por secar, as paredes por limpar, a história por escrever...

- Minha história, minha história... – segue-se o “merde”, prova cabal de sua miséria lingüística.

E para piorar, acaba bateria do notebook, deixando refletido em seus olhos o negro do monitor.

- Essa é a história da minha da vida... – diz desolado para si mesmo, com que tentando consolar-se.

E, como que empurrado por uma mola em suas pernas finas e úmidas, ele pula gritando “eurecas seguidos de merdesmerdesmerdes”.

- É isso, é isso, aqui está a história de hoje, não há nada mais triste para enternecer o corações dos leitores – o tolo acredita que leitores tem coração! – vou escrever a história da minha vida. É isso, a história da minha vida!

Louco, arrebatado, possuído, outra vez por uma história, ele põe-se a procurar por papel e caneta. Revira sua escrivaninha, mas nada de papel, nada. Nem papel de presente, papel de embrulho...
Para não perder a inspiração outra vez, ele começa escrever a história de sua vida nas paredes da sala.
Conseguiu resumir seu infortúnio nas quatro paredes manchadas de espuma de barba e água. Ao fim, quando a sua curta biografia estava toda ali, ele sente-se aliviado, aquela carga já não estava mais esmagando-o, ele estava exorcizado. O fantasma da narrativa estava fora de sua cabeça.

- Mas e agora? Como vou fazer para publicar isso? – A realidade fez-se presente, para seu desespero. Enquanto, sentado na poltrona molhada e manchada, recupera-se de seu desatino, toca o interfone.

É sua mulher chegando. Imaginando tudo o que vai acontecer, ele passa as mãos pelo rosto. A barba ainda está por terminar, o corpo ainda está molhado e cheio de sabão seco.

- Merde, merde, merde! Essas paredes do apartamento serão poucas para a segunda parte dessa história...

2 comentários:

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

Se a mulher não achar ruim ele pode usar como decoração enquanto digitaliza a estória.

MIRZE disse...

FANTÁSTICO!

Leitor tem coração e emoção. Senti cada medo como se fosse meu. Quase gritei: Pega a camisa, mas pensei que ele entrava e saia de casa pelado. Escritores tem suas manias...

Roberto, você passa cada emoção através do texto! Hilariante e dramático.

Aplausos!

Beijos

Mirze