2011/09/19

RUYZINHO


How a little baby boy bring the people so much joy
“Christmas Must Be Tonight”
By The Band




Dulce, espero que você não tenha rasgado esta antes de ler.
Sei que jurei nunca mais entrar em contato depois da separação, mas nesses últimos dias tenho sido assombrado com imagens do Ruyzinho.
Me diga como está, ele já está na escola? Espero que não – não rasgue a carta, não rasgue!
Sei que no fundo de sua alma você sabe que tenho razão.
Como está o menino, posso perguntar dele?
Não sei por que insisto em perguntar, sabendo desde já que você não irá me responder...
Dulce, não te peço desculpas, perdão, nem me passa pela cabeça tentar uma reconciliação, já arrumei minha vida aqui, trabalho como zelador de uma capelinha aqui na cidade, e espero que você tenha acomodado a sua por ai (desculpe, disse isso só por delicadeza, não me passa pela cabeça te magoar de forma alguma).
Sei que pode te passar pela cabeça que te escrevo por causa de alguma necessidade, mas não te escrevo esta por nenhum outro motivo que saber do Ruy, meu pequeno e único filho (depois dele fiz vasectomia, decidi nunca mais ter filhos) quero tê-lo como único em minha vida.
Minha doce Dulce (espero que isso não te de ganas de rasgar o papel) tento imaginar como você está, as marcas que a vida e as preocupações deixaram em seu rosto...
Em mim as marcas são as olheiras profundas que trago, fruto das noites insones, dos pesadelos que me fazem acordar aos gritos e molhado de suor...
A pobre da Rute, coitada, ainda não se acostumou com isso, mesmo passado tantos anos.
A foto do Ruy, que trago na carteira, está tão amarrotada, cheia de vincos, manchada, que a criança está quase irreconhecível.
Dulce, se você ainda não rasgou essa carta, deve estar se perguntado por que estou dando tantas voltas e não dizendo nada, afinal, a última pessoa de quem você quer noticias é de mim e da Rute, aliás, me desculpe dizer o nome dela tantas vezes.
Dulce o que quero saber é se você está mesmo decidida a mandar o Ruy para escola. (juro que espero uma resposta sua, mesmo na forma de um telegrama, só com a palavra “não”, mas alguma coisa no fundo do meu peito...)
Você sabe que não deve fazer, e não digo isso por causa da pensão e do acordo de pagar pela assistência médica e educação do menino (que eu sonhava em ser doutor, doutor de qualquer coisa, mesmo que fosse doutor advogado), mas veja bem (estou sendo vítima dessa “força de expressão), não será bom para ele, não será bom para você, nem para ninguém, sem contar que se você fizer realmente isso, eu nunca mais dormirei, e a Rute (juro que essa será última vez que escreverei o nome dela) não suportará mais ser acordada aos gritos pelo resto de suas noites.
Pobre criatura...
Dulce abra os olhos, e ponha na sua cabeça de uma vez por todas, o Ruyzinho não é uma criança normal, embora seja fisicamente um Apolo tropical e hirsuto, o Ruyzinho, meu único filhinho querido, é um lobisomem...

Com carinho,
O sempre preocupado pai
Amaro.

Um comentário:

MIRZE disse...

Como sempre um suspense do início ao fim. Só duas coisas: pensei em tratar-se de uma criança. Sendo criança, a mãe deve saber há muito....

Não sei qual o perigo, mas confesso que quase caí da cadeira.

Beijos

Mirze