2011/08/08

TRAGÉDIA EM TRÊS ATOS


I

...e num ímpeto louco ele saltou da janela de sua sala interrompendo de forma radical a reunião de diretoria, a primeira do semestre, onde era discutida a participação nos lucros dos acionistas.

Os colegas levaram segundos para entenderem o que havia acontecido. Foi preciso que os últimos cacos de vidro da janela pousassem no chão para que se ouvisse o primeiro grito.

Foi de Dona Silmara, secretária executiva bilíngüe a primazia do primeiro grito, um: -“aimeudeus” – agudo, histérico e levemente afrancesado, que fez com que os colegas conseguissem sair do transe.

Seguindo os gritos de Dona Silmara vieram soluços e desmaios, mas a maioria ainda seguia pregada ao chão, pois não seria um grito que os despertariam para a realidade que os abatia, não seria o vento que vinha da janela arrebentada desmanchando cabelos e espalhando papeis, gráficos e estatísticas que os fariam entender tamanha tragédia.

Eles só se deram conta mesmo do suicídio do colega quando o alarme do carro lá embaixo disparou com o baque do corpo. Ai sim, todos acorreram à janela, e espantados viram o corpo inerme, flácido, destroçado sobre o capô do carro azul.

Dona Silmara, tampando a mão com a boca esquerda, soluçava e balançava a cabeça negativamente e baixinho murmurava – não, não, não...

Ninguém entendeu nada, nenhuma pessoa teve a curiosidade de perguntar-lhe nada, aliás, pouca gente notou ou percebeu a agonia de Dona Silmara, que lentamente dirigia-se em direção à janela. Como um fantasma, vagarosamente, foi se aproximando e quando chegou ao buraco onde deveria estar a janela, reclinou-se para fora e gritou:

- Altemar, é brincadeira, eu não estou grávida!

O alarme do carro azul abafou o suspiro do cadáver. Lá de cima ninguém percebeu o alívio do morto.

Altemar usava uma gravata de listras, também azul, presente de Dona Silmara...

II

Ou

O Diretor espalha papéis sobre a mesa, olha nos olhos de cada um e pausadamente diz:

- Estamos quebrados, falidos, não temos dinheiro para pagar os fornecedores, não temos um tostão para os funcionários, e o pior, meu cunhado, acionista majoritário, jura vir me matar aqui hoje.

Alvoroço, ninguém arruma posição nas poltronas, e o mal-estar instala-se na sala de reuniões.

Dona Silmara, esposa do dito cunhado que jurou matá-lo entra na sala. Assustada, trêmula e gaguejando diz:

- O Ernesto, digo, Dr. Ernesto chegou. Olha para o Diretor e para Altemar – Ele está armado.

E como no começo dessa tragédia, Altemar corre em pânico, tenta fugir a todo custo junto com os outros subdiretores. O Diretor executivo, o cunhado do Ernesto empurra todos à sua frente, e no efeito dominó, Altemar é empurrado contra a janela, que quebra e ele cai, só parando sobre o carro de capô azul, que dispara o alarme, etc, etc, etc...

III

Ou

Altemar está sentado à mesa de reuniões. Espera pelo resultado da pesquisa que dirá o que o público está achando do novo produto posto no mercado.

Que produto? Não interessa, aliás, nem o próprio Altemar lembra qual é. Hoje seu problema é outro, é pessoal, ele está passando por um inferno pessoal de proporções cósmicas, colossais, ele pressente seu próprio apocalipse, ele sente que o fim se aproxima.

Mas como será o seu fim, como será? – ele se pergunta olhando para o teto com o olhar vago e perdido.

Some-se a isso uma insônia de três dias e a mais completa falta de interesse de Dona Silmara por ele.

Um caso começado na sala do café, estendido até o almoxarifado, consumado no motel onde o porteiro do prédio fazia o papel de gerente à noite.

Agora ele se pergunta o que está havendo, olha para o relógio e constata que a reunião está demorando muito para começar, pelo telefone pede um cafezinho para Dona Silmara e volta a divagar.

Divaga tão profundamente que dorme.

Quando chega o cafezinho, Dona Silmara pega Altemar pendurado ao batente da janela.

Antes de gritar a bandeja de café cai, o barulho desperta Altemar do sonho já recorrente, e enquanto o negro líquido mancha o carpete, ele olha para Dona Silmara e vê uma mulher de cinqüenta e três anos, gorda, com seios tamanho cinqüenta e quatro, pernas cambaias e cheias de varizes, um canino de ouro, lenço colorido segurando os cabelos crespos e brancos, que de boca aberta pergunta-lhe o que ele está tentando fazer.

Altemar olha para Dona Silmara, e ainda tonto, tentando entender o que lhe passa pergunta-lhe o nome.

- Ô Seu Altemar, o senhor voltou a tomar aquele remédio de novo, né? Meu nome é Nívea, Dona Nívea do café, tá “alembrado” de mim agora?

Altemar, olhando em volta, encarando Dona Nívea, ou seria Dona Silmara, olha para a janela e salta para o espaço.

-Se for um sonho eu acordo, se não for, não perco nada.

Lá embaixo, um carro azul acaba de estacionar.



2 comentários:

MIRZE disse...

Roberto!

Adorei o primeiro e o segundo. Mas porque que HOJE, você decidiu matar o Altemar?

Beijos

Mirze

Ranzinza disse...

Sou um DEUS cruel com minhas crias!