2011/08/10

O COLECIONADOR DE DEUSES


A fumaça do incenso deixava o ar da câmara opaco, quase sólido. Semântico ajoelhado orava, murmurando palavras antigas de línguas mortas e já esquecidas...

Suas mãos ainda recendiam ao sangue do sacrifício, e aos pés do altar, animais mortos acumulavam-se. Somente o forte odor dos incensos impedia-o de sentir o pútrido cheiro das carnes decompostas dos animais imolados.

Levantando a cabeça ele sorri, e andando de costas, Semântico deixa a câmara, fechando-a com uma chave lavrada em osso, na verdade o fêmur de Olegário Trípoli, seu mestre e guia espiritual, desaparecido a exatos trinta e dois anos, hoje.

Semântico, tranca a porta e segue pelo escuro corredor em direção a outra câmara, seus passos ecoam, fazendo com que o curto trajeto pareça infindável. Pelas paredes vê-se uma galeria assustadora. Lá estão exposta, para gáudio e satisfação de Semântico, pinturas de Aleister Crowley em posições comprometedoras e assustadoras...

- Thelema, Thelema... – murmura baixinho Semântico, enquanto tira o pó da moldura de seu quadro favorito, quadro esse que mostra um jovem Aleister Crowley vestido em trajes rituais. Quadro esse subtraído de seu velho mentor Olegário Trípoli, que passaremos a chamar de O.T. para poupar trabalho e seguirmos em frente com essa história.

Ao fim do curto trajeto pelo sombrio corredor, Semântico retira outra chave do bolso de sua túnica, essa lavrada no osso parietal de Olegário Trípoli.

- Quantas portas e quantos pedaços de Olegário Trípoli há nessa história?! – Sim leitor, quantas portas e quantos ossos de O.T.? Creio que jamais saberemos nessa vida! Mas sigamos...

Semântico ao abrir essa outra porta, despe-se se sua negra túnica pagã e vestindo um alvo hábito ele entra no recinto. Esse, em contraste com a outra câmara é branco, é claro, é límpido, é arejado e abarrotado de flores. Flores frescas, coloridas e perfumadas, das janelas de vitral uma luz multicor colore o ambiente e remete à paz celestial.

Celebrando uma nova vida, Semântico de joelhos, reverencia outro ídolo ali esculpido. Esse deus, não lhe pede nada de sacrifícios, não lhe exige sangue, nenhuma matança, esse é um bom deus. Contenta-se com adoração, velas e umas poucas orações.

Num ofício rápido, Semântico celebra uma homilia de poucos cantos, muito gesticular de braços e bater de palmas, coisa pouca para um deus pouco exigente e pouco afeito a pedidos excêntricos...

- Um deus ordinário esse! – ri de si para si mesmo, enquanto tranca a sala e retira o alvo hábito, e arrumando os vastos cabelos, ele segue mais fundo ainda no ameaçador corredor tendo por companhia somente o eco de seus passos e o tilintar das chaves de ossos do finado O.T. que ele trazia girando no dedo indicador da mão direita.

Ao final de poucos minutos Semântico chega a mais uma porta.

Essa é feita de ébano, negra, negra como uma noite que prenuncia uma borrasca que causará morte e destruição, negra como a alma de Semântico, negra como uma mancha de sangue coagulado de uma cerimônia pagã.

Antes de pegar a terceira chave, essa esculpida no osso da escápula direita de O.T., ele olha apreensivamente para trás. Ele tem medo, um medo secreto, um medo que ele nega até a si mesmo, um medo que lhe rói por dentro, rói até mais que a aquela velha úlcera tratada por ele com carinho e caldo de galinha.

Certo de estar só no corredor, Semântico abre velozmente a porta e entra, e ao fazê-lo, bate-a com força, fazendo com que o barulho ecoe forte e longamente pelo corredor...

Ele encosta-se na escura madeira e respira fundo.

De cima dum antigo aparador ele pega uma espada não menos antiga, runas de tempos remotos cobrem o couro de sua bainha com maldições e pragas bordadas em fio de ouro.

- P.C. eu também posso fazer meus milagres e tempestades – ri, sacudindo a espada no ar, mas logo se torna sério outra vez - um frio sobe-lhe pelas costas - esse deus, ao contrário do outro, não perdoa. É cruel e os sacrifícios oferecidos a ele são os mais caros. Onerosos em todos os sentidos...

– Que deus cruel eu sirvo!- lamuria-se.

De dentro da negra escuridão um ruído, parecido com um rugido de dor, fome e parto faz tremer o chão e a alma de Semântico.

Com o susto o molho de ossos cai, e uma das chaves espatifa-se no piso, angustiado ele grita:

-Não! De duzentas e seis chaves por que justamente essa foi quebrar-se? Por quê? – ele chora, e lá do âmago da densa escuridão o pavoroso rugido faz tremer as fundações da velha casa e leva Semântico para mais perto da perdição de sua já há muito hipotecada alma.

-Não! – grita de joelhos no frio piso manchado de sangue de inocentes virgens e pobres crianças rechonchudas como anjinhos barrocos.

– Não! – banhado em amargas lágrimas, Semântico recolhe os cacos do osso do cóccix de O.T. – Não tenho mais salvação, nunca mais serei redimido de meus pecados, nunca mais abrirei a porta do anjo. Perdi para sempre a minha barganha com ele...

Desesperado, Semântico foge da sala que ruge ferozmente, como um animal de outro mundo, um mundo de trevas eternas e sem salvação. Enquanto foge de seus demônios, Semântico recita uma velha oração:

- Paz sobre vós, anjos servidores ,anjos do Altíssimo, Do supremo rei dos reis , o Santo , bendito é ele, que sua vinda seja em paz ,anjos da paz,anjos do Altíssimo, do supremo rei dos reis, o Santo, bendito é ele, abençoe-me com a paz ,anjos da paz, mensageiros do Altíssimo, do supremo rei dos reis, o Santo, bendito é ele. Que sua partida seja em paz, anjos da paz, anjos do Altíssimo, do supremo rei dos reis, o Santo, bendito é ele.

Mas Semântico não chega ao fim de sua desesperada prece, fugindo pelo corredor escuro com seu coração ateu quase a sair pela boca, tropeça numa pedra. Ele tenta equilibrar-se, e tentando apoiar-se na parede úmida e cheia de musgos, sua mão escorrega.

Seu corpo cai como um boneco de cordas, e as suas mãos desesperadas, como as mãos de um afogado que tenta agarrar-se a qualquer coisa que possa ampará-lo, mas só encontra apoio na moldura do quadro de Aleister Crowley que, como um amargo escárnio, ficava exposta em frente ao quadro com a figura eqüestre de Paulo Coelho sorrindo.

Semântico cai, e na queda é seguido pelo quadro, que se arrebenta no chão. Em doloroso choro Semântico imagina ver, entre a cortina de lágrimas que lhe banha os olhos, a imagem de O.T. que, sorrindo, recolhi os seus ossos, agora espalhados de vez pelo chão...

- Meus deuses, meus deuses – clama Semântico em vão.

O espectro de O.T. agachado apanhando o último osso de seu corpo, o ísquio, diz baixinho ao ouvido de Semântico:

- Já sabias que não deverias servir a dois senhores, mas resolvestes servir a mais de dois...

Ouvindo o rugido terrível se aproximando, O.T. desfaz-se no ar deixando seu algoz entregue à própria sorte.

2 comentários:

MIRZE disse...

Roberto!

Um conto para lá de sinistro. Ainda bem que é manhã, se eu lesse à noite, por certo não dormiria.

Mas, muito bem escrito.

Beijos

Mirze

solaris disse...

Está se especializando em contos de suspense meu car?
*Perfect!