2011/05/11

O (QUASE) MEMORIALISTA


O carpete está coalhado de garrafas de conhaque e cerveja, a mesa coberta de folhas e lenços de papel, os olhos injetados de sangue, os cabelos desalinhados, o cinzeiro transbordante de bitucas de cigarro. Blocos de anotações espalhados pela sala testemunham seu esforço em pesquisar fatos, datas, nomes, endereços...
Maldita hora em que encasquetou que seria um memorialista. Jurou que iria passar a limpo sua vida pregressa, daria nome aos bois, tudo o que lembrasse – pouco até agora – seria impresso. Suas memórias dariam – segundo ele:

– Pelo menos oito volumes de aproximadamente oitocentas páginas...

Boquirroto, espalhou aos quatro ventos seu projeto. Ameaçou pessoas, chantageou cunhados e primos; advertiu antigas namoradas que não pouparia detalhes por mínimos que fossem. Recebeu telefonemas ameaçadores, cartas anônimas – embora reconhecesse a caligrafia do missivista...

- Nada nem ninguém me impedira de escrever tudo T U D O !

O prazo de entrega dos originais está terminando e até agora isso:

I

...e nós três subíamos o morro de madrugada, uma hora, duas da manhã, e nada acontecia, não tinha perigo, além, é claro, de tropeçar numa pedra ou num degrau e se machucar. Vinho vagabundo na cabeça, girando, girando.
Chegávamos lá em cima, na casa, bem de mansinho, sem fazer barulho, com os sapatos nas mãos para não acordar a mãe dela, e forrando o chão com qualquer trapo, caímos mortos e só acordando com o sol brilhando sobre as águas do cais do porto, que sempre nos remetia a um samba antigo:

- ”Alvorada, lá no morro, que beleza, ninguém chora não há tristeza, ninguém sente dissabor, sol colorindo, é tão lindo, é tão lindo... ’ – que cantávamos com ressaca e desafinados.

Aquela luz arrebentando as nossas retinas...!
Então, acordados, ou quase, descíamos e íamos trabalhar, com um café ralo no estômago e gosto de corrimão de bordel de terceira categoria na boca pastosa.
A vida era boa, éramos jovens e nada parecia ter prazo de validade, tudo parecia ser para sempre, mas como hoje sabemos:

- ”O pra sempre, sempre acaba...”

A vida nos levou por outros descaminhos; ela, sofrendo um desencanto amoroso entregou-se à fé, tornou-se religiosa, sumiu no mundo como missionária, o outro, por suas opções, morreu na flor da juventude e eu envelheci com as memórias e as lembranças desse um tempo.
Ultimamente tenho revisto as pessoas daquela época, nos reunimos, bebemos bons vinhos, e conversamos com calma, pausadamente, hoje já não temos aquela urgência de antes, queremos até, que o tempo comece a ficar um pouco mais lento, e nos recordamos desses amigos perdidos pelo mundo.
De certa forma, estamos naquele ponto em que, inconscientemente começamos a fazer um balanço de vida, contabilizamos as perdas e ganhos, olhamos para trás e nos sentimos vitoriosos, afinal ainda estamos realmente vivos!

II

Éramos jovens e por seguinte, vítimas de leituras, mais precisamente “O Encontro Marcado”, do Fernando Sabino, então um dia, com a cabeça cheia de vapores de vinhos vagabundos, combinamos nos encontrar dali a quinze anos, no mesmo lugar, às 19h00 min dali há quinze anos, no mesmo lugar, às 19hquela época...), assinamos até uma ata para sacralizar o acordo, e fizemos tim-tim com mais vinho vagabundo (NOTA: pesquisar a marca).
Mas pelos motivos acima descritos, nunca voltamos a nos ver.
Pergunto-me, hoje, como teria sido o encontro?
Sinceramente não faço a menor idéia, mas pelo andar da carruagem à época, creio que não teria sido um grande encontro, duro de admitir, mas com o tempo nosso ego teria sido um grande empecilho à nossa amizade. Olhando em perspectiva, acho que foi muito bem assim, guardo boas lembranças e quase nenhuma mágoa.
Sinto pelas mortes, tantos as físicas como as espirituais, pelas encruzilhadas, pelas trilhas pedregosas que escolhemos, mas a vida é assim mesmo, muitas perdas e ganhos me vieram depois disso!



Ontem pela manhã o síndico do prédio junto com bombeiros e uma ex-namorada apavorada arrombaram a porta de seu apartamento e o encontraram em profundo coma alcoólico, junto ao notebook esfacelado esse bilhete manuscrito:



O projeto – que seria longo - pára por aqui, pois as memórias foram-se assim como se foram aqueles dias...



Suspiros de alívio foram ouvidos em muitos lares e bares.



11 comentários:

Nanda Assis disse...

as memorias são importante pra quem as viveu, mas muitos preferem deixa-las lá onde ficaram. escrever memorias, é uma forma de desistir da vida.

amei seu conto.

bjos...

Ranzinza disse...

Ou sacanear o próximo...

Agamenon disse...

Gostei muito deste conto...muito mesmo!!!!

solaris disse...

Adorei o texto escritor, ”O pra sempre, sempre acaba...”
Saudades da minha adolescência..Das pessoas que ficaram imortalizadas na minha memória! Mas não seriam as mesmas hj, o nosso EGO com certeza nos mataria.

Ranzinza disse...

O Ego eu não sei, mas a realidade certamente destruiria tudas essas "boas" lembranças...

Ranzinza disse...

Agamenon, responda-me:
- Onde eu errei?

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

Só leio biografias de extintos. Diários são para a posteridade.

Ranzinza disse...

Mas morrer, ele há de!

vladéfoda disse...

melhor você dar os créditos das músicas citadas

Ranzinza disse...

Vadinho...

MIRZE disse...

MUITO BOM!

Realmente no final ninguém iria ter tanto apreço como nas primeiras reuniões. O destino de cada um é inabalável. Mas valeu tanto, que se transformou nesse conto-maravilha!

Beijos

Mirze