2011/05/06

NO ÔNIBUS

Quase fim da tarde, o sol ainda está forte no céu, a canícula torra as pessoas nas ruas e dentro do ônibus as cozinha lentamente.

O coletivo está cheio, não há lugar nem em pé. Mas o motorista vai parando de ponto em ponto, mais gente vai subindo e empurrando os demais.

A cada solavanco a “carga” se ajeita.

Nos bancos de trás um casal conversa:

- Já está na hora? - pergunta a mulher.

- Não! Ainda falta, quando chegar a hora eu te aviso - diz o homem.

A avenida a essa hora está cheia e o trânsito engarrafado, não adianta abrir as janelas, não entra ar e quando entra está quente, aumentando ainda mais o calor lá dentro. As pessoas se abanam com o que podem, uns com carteiras, pacotes, até com talões de cheque. Para piorar ainda mais, o fluxo começa a diminuir até que por fim pára de vez.

Os passageiros começam a reclamar, as velhinhas fingem que vão desmaiar, os jovens que se encontram sentados encostam a cabeça nas janelas e simulam dormir, e as crianças nos colos das mães choram.

- E então, está na hora? - torna a perguntar a mulher lá atrás.

- Não, meu bem, ainda não. Fica calma, quando for a hora eu te aviso - responde calmamente o marido dela.

A avenida está coalhada de veículos parados. Somente motos e bicicletas passam por ali. Não muito longe ouve-se a sirene de uma ambulância. Agora os passageiros se agitam, afinal eles querem saber como é que vai ficar essa situação, já que não há espaço para ninguém mais ali. O som aproxima-se, carros tentam mover-se para algum lugar, mas para onde? Aumenta o som da sirene, os passageiros colocam a cabeça para fora, tanto no ônibus, onde aproveitam para respirar um ar mais fresco, como nos carros. A ambulância chega quase voando, passa sobre o canteiro central e segue em frente. Uma velhinha desesperada começa a gritar que vai enfim morrer, pensando assim conseguir uma carona no resgate, mas em vão, todos viram que era charlatanice dela e começaram a vaiá-la.

E vindo lá de trás aquela voz já nossa conhecida:

- Agora já é a hora? Aqui está muito quente, ainda falta muito?

- Não, “môzinho”, já tá quase lá. Güenta mais um pouco só - diz o marido com voz tranqüilizadora.

No banco na frente do casal, um senhor suado e asmático fica tão irritado com as constantes perguntas da mulher querendo saber quanto falta para chegar ao seu ponto, que começa a morder o bigode, torcer os dedos e repetir baixinho a pergunta dela:

- Faltamuitofaltamuitofaltamuito...?

De repente um estrondo seco, e todos os que conseguem ter um mínimo de mobilidade colocam a cabeça para fora do ônibus e vêem que um carro tentando desesperadamente fugir do engarrafamento seguindo a ambulância, atropelou um cavalo que estava pastando no canteiro central, protegendo-se do sol sob a sombra da única árvore que havia ali.

Gritos de indignação contra o cavalo que, onde já se viu?, estava amarrado na sombra, enquanto “nós humanos”, cozinhamos feito sardinhas em lata dentro daquele ônibus.

O motorista fugiu a pé, deixando o automóvel no local, sobre a carcaça da miserável besta que ainda trazia na boca um punhado de grama verde.

A revolta, a inveja domina as pessoas, que vêem o motorista locomover-se em meio àquela “calmaria” em que todos os outros estão presos.

... e vindo lá de trás:

- Benhê ,tá muito quente aqui, ainda falta muito?

Nisso o velhinho, nervoso e sem o lado direito do bigode, explode:

- Mas é claro que falta muito, minha senhora, é claro que falta muito, afinal nós não andamos nem um metro até agora, será que a senhora não pode sofrer em paz como resto de nós sem ficar perguntando a cada cinco minutos se falta muito?

Gritaria outra vez, uns dão razão ao velho, outros acham que foi muita grosseria da parte dele, afinal se ele estava cansado de ouvir a voz da pobre mulher, que descesse e fosse a pé.

Diante do olhar furibundo do marido, o velhinho resolveu mesmo descer e sumir na multidão. A turba aplaudiu e começou a gritar que quem não estivesse satisfeito que seguisse o velho. O marido levantou as mãos e pediu calma, que não se deixassem levar pela fúria, que pensassem bem, afinal o calor estava muito forte e não valia a pena se aborrecer dessa forma, afinal ele mesmo já havia “esquecido” o episódio. E olhando para a mulher, diz:

- Espere mais um pouquinho, que já vai chegar a hora, tá certo? - Disse coçando o bolso.

A mulher balançou a cabeça anuindo mansamente. E então um tranco leve e o movimento começou, à frente os automóveis começavam a movimentar-se, uns transeuntes cristãos de bom coração retiraram o corpo do cavalo para a outra pista, que agora por seu turno começava a engarrafar o trânsito...

Hurras e vivas, as velhinhas começavam a agradecer a Santo Expedito pela graça alcançada, nenês paravam de chorar, os jovens “despertavam” de seu sono providencial, uns ainda aflitos, abanavam-se com mais força, o motorista, relaxado, assoviava um sambinha dos antigos e engatava a quarta marcha.

Agora a coisa ia.

E lá de trás aquela voz nossa conhecida pergunta:

- E agora, benhê, falta muito?

- Não, meu bem, agora é hora - responde com firmeza.

Então ambos levantam-se, as pessoas à sua frente dão passagem para que eles desçam, quando eles falam juntos:

- Todo mundo quieto, isso é um assalto!





Essa é para a Bárbara que curte muito andar de ônibus.

4 comentários:

MIRZE disse...

PO......XA!

Meu avô Hitler diria: SACAN HAGEN!

Pensei tudo, menos... assalto, aparição de santo. reencarnação do Buda, o casamento real.

Mas prendeu!

Um excelente conto!

Beijos

Mirze

Ranzinza disse...

Obrigado, é por conta de comentários como o seu que eu e outros blogueiros continuamos escrevendo.

Babi Doux' disse...

Curto andar de onibus?
hahahahah
Curtia quando era pequena e nunca havia andado isso sim. Curto porque ainda nao tenho um Equipamento automotivo de quatro rodas.
Curto pq la conheco muito gente com funks culturais.
Ou seja curto pq sou obrigada! hahahaha
Mas a melhor e quando vc esta em uma lotacao chapada de gente sem nem conseguir respirar dai eles param num ponto e gritam que esta vazia! hahahaha
Adorei este post e estou muito feliz por ter sido para mim! rs

Ranzinza disse...

HAhahahahahahahaha