2011/05/10

ENCONTRO NO CENTRO DA CIDADE

Encontram-se no centro da cidade por puro acaso, trabalhavam juntos no mesmo edifício, eram colegas de profissão, um trabalha no térreo do edifício, o outro no quarto andar. Raramente se vêem, desencontram-se diariamente a dezesseis anos.

Sabe-se o que acontece um com o outro via conversas e fofocas.

Na semana passada morreu a esposa de um deles.

Climão!

O que dizer para ele? Como consolá-lo? Há que se fazer algo, dizer algo, mas o quê?

Passa o tempo, os dias, e dá-se por esquecido o acontecimento. Ele, viúvo, curte o nojo por sete dias (assim diz a Lei).

De volta ao trabalho, tudo segue como antes. Alguns o abraçam sem palavras, outros de cabeça baixa, apertam-lhe o braço, outros ainda, dão-lhe um tapinha nas costa, e a vida segue em frente.

Carimbos, arquivos, papeis, papeis e mais papeis, e a dor, senão esquecida, é carimbada e arquivada.

Esquecida num armário ou gaveta qualquer...

Mas eis que passado isso, como dizia no primeiro parágrafo, eles se encontram no centro da cidade. O primeiro vem andando pela rua olhando para o céu, talvez procurando no azul celeste a imagem da falecida, o segundo, procurando um meio de “desencontrá-lo”, mas o inevitável acontece, e eles se trombam.

- Olá. Como você está reagindo... - sem graça - eu soube o que aconteceu. Você me desculpe, mas eu não presto para nada nessas horas. Sou um arrematado inútil, e acabo falando o que não devo...

- Que é isso? - diz sorrindo sinceramente - Estou superando, e o que mais você poderia dizer que não o óbvio? Nada nos consola numa hora dessas... Prefiro assim. Não se preocupe.

- Já almoçou - arrependeu-se na hora da pergunta, se ele ainda não tivesse almoçado, iria convidá-lo, e isso é última coisa que ele desejaria nessa hora, preferiria abrir um canal no dente a ter que te-lo por companhia numa hora dessas.

- Não obrigado, já comi alguma coisinha ali - e aponta para o indefinido, haja vista a quantidade de restaurantes, bares e lanchonetes que há ali nas redondezas. - E você, já voltando para o prédio?

- Sim. Aproveitei para dar um pulo nas lojas, mas já estou voltando.

Os dois ficaram se olhando, sem mais assunto. As pessoas passavam com pressa em volta deles, o céu escurecia.

- Vai chover.

- É capaz.

O segundo dá um pigarro, revira a sacola cheia de compras, e de lá puxa um pacote com charutos, recém-comprados, abre e tira um.

Meio sem graça, oferece-lhe.

Emocionado, o primeiro, sem palavras abraça-o fortemente, e dá-lhe sinceros tapinhas nas costas. Com os olhos brilhando, talvez de emoção, talvez de gratidão, diz-lhe:

- Obrigado, obrigado... - sorrindo - Será que posso fumar no banco?

- Não, acho que não...

- Então vou guardar e fumar em casa no Natal. Obrigado, muito obrigado mesmo.

Sorrindo foi embora, olhando para o charuto, que girava nos dedos, levando-o de vez em quando ao nariz.

Já não olhava mais para o céu.

4 comentários:

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

Se o pai dá charuto quando nasce um filho, o viúvo voltou a condição de filho, logo, terá que se preocupar em arrumar outra mulher para com ela ter um filho e distribuir charutos também. Quem deu o charuto mudou o foco, o viúvo não precisa olhar para o céu para ver se via a falecida e sim começou a procurar outra aqui. Procede?

Ranzinza disse...

SIM!

solaris disse...

Gostei..

Ranzinza disse...

Que bom