2011/05/23

CIDADE DE TRÊS PRAÇAS


- Já estou andando há horas e horas e não consigo encontrar meu carro.

Esta deve ser a qüinquagésima vez que ele repete isso.

– Estou andando por essa cidade, mas não consigo encontrar a droga do meu carro. Como é possível que numa cidadezinha deste tamanho com apenas três praças, um sujeito possa perder seu próprio carro?

Da primeira vez que ele falou “cidadezinha desse tamanho com apenas três praças”, os velhinhos sentados à mesa do bar onde ele pedia informação, não gostaram nem um pouco e sua reação não foi das mais simpáticas.

- Eu me lembro que deixei o carro numa curva onde três ruas e uma ferrovia faziam uma curva para a direita, não deve ser difícil para vocês me informarem onde fica localizada essa curva! – exasperava-se.

Como não conseguia nenhuma informação seguiu andando a esmo. Passou pelo prédio do correio, pela delegacia onde não ousava entrar para pedir mais informações, pois ao indagar dois policiais a respeito das ruas e do carro, pediram-lhe seus documentos e o do carro, mais disposto a prendê-lo do que a auxiliá-lo.
A tarde já estava no meio e o sol castigava-o de forma inclemente, o calor fazia sua camisa grudar no corpo, deixando uma má impressão que o tornava mais antipático à vista do moradores locais.
Entrou em um bar, pediu uma garrafa de água, aproximou-se de outros velhos – ele havia reparado que nessa cidadezinha só havia idosos, não vira um jovem sequer, aliás, nem escolas havia por ali – que ali estavam matando tempo e sem mais delongas foi perguntando se alguém havia visto seu carro.
Nada lhe responderam, pois achavam impossível alguém perder um carro, ou qualquer outra coisa naquela cidade.

- O que poderia esperar de uma cidade que só possui três praças e ninguém trabalha? – Vociferou enquanto saía do bar sob os olhares belicosos dos fregueses.

- Não posso perder tempo aqui, preciso ir embora, tenho que encontrar meu carro e sair daqui o quanto antes.

Seguiu pela avenida principal, ou assim pensou que fosse, já que aquela era a rua mais larga que havia ali. Seguiu até perceber que ela tornava-se uma ladeira.

- Lá do alto vou poder me localizar, de lá vou achar as três ruas que fazem uma curva para a direita junto com a ferrovia.

Uma vez lá no alto, tudo o que conseguiu ver foram as onipresentes três praças.

-Mas não é possível... – Murmurou coçando a cabeça. Olhou para céu, mais para ver a posição do sol do que para clamar por ajuda divina. A subida da ladeira o deixou mais suado e mal ajambrado que antes.

- Maldita cidade! Onde você escondeu o meu carro, onde? Preciso sair daqui, quero voltar para a minha casa, para minha mulher, para os meus filhos, cidade dos infernos deixe-me ir embora.
O que começara com uma explosão de frustração, terminara com um choro fraco e impotente...
Voltou pela mesma ladeira até chegar à avenida e por ela foi andando até chegar à praça central, feia, com poucas árvores raquíticas e sem folhas. Nela não havia igreja, nem bancos, nem pombos. Uma praça feia e sem sentido, tendo à sua direita e esquerda outras praças tão feias e tristes quanto ela, e que o sol só ajudava a piorar...
Cansado, suado e sujo, tudo o que ele queria era ir embora para a sua casa, tomar um banho e esquecer aquele pesadelo.

- Maldita cidade! – gritou outra vez com os punhos cerrados em direção ao céu – maldita, mil vezes maldita cidade.

O vendedor de pipoca que ouviu isso não gostou e xingou-o de alguma coisa que ele não entendeu e seguiu para o bar onde os velhos viam toda essa cena patética.
O pipoqueiro entrou, sentou numa mesa e começou a confabular com os presentes, entre uma conversa e outra olhavam para o sujeito que agora não parava mais de falar sozinho.

- Precisamos dar um jeito nisso. – Disse um.

- E tem que ser logo. – Emendou outro com um copo de café.

- Não precisamos ouvir isso o dia inteiro. – Falou o português dono do estabelecimento.

- Essa história de carro perdido no estacionamento? – Disse o mais velho deles enquanto cuspia um cuspe preto de mascador de tabaco. – Já não me impressiono com mais nada que ouço por aqui.

- Onde nessa cidade tem três ruas que fazem uma curva para a direita com uma linha de ferro? – Perguntou a galega esposa do dono do bar.

- Cala a boca mulher e volta lá prá trás do balcão.

Enquanto isso lá na praça central sob o sol escaldante, o sujeito andava de um lado para outro gesticulando os braços e xingando quem passasse por perto.

- Preciso lembrar onde estacionei meu carro, preciso sair daqui, essa cidade vai me enlouquecer – e olhando para o bar, gritou:

– O que vocês estão olhando? Devolvam meu carro que eu vou me embora daqui e juro nunca mais voltar, devolvam meu carro, me digam onde ele está e eu vou embora daqui –, e ajoelhando-se começa a chorar.

No bar os velhos voltam a falar.

- O que vocês acham...? – Pergunta o galego.

- Por que você pergunta isso? – Cuspiu o mascador de tabaco

- Não cuspa no chão – Gritou a galega de trás do balcão

- Não grita com os fregueses – Berrou o marido português.

- Parem de gritar um com o outro e vamos nos ater a situação daquele infeliz lá fora cozinhando os miolos no sol. – Manifestou-se o pipoqueiro.

- Vou telefonar para o Vadinho então. – Contemporizou o homem que ainda tomava café. – Mas ele não vai gostar e vai chegar enfezado aqui...

- Quando que o Vadinho não chega ou vive enfezado? – Retrucou o bebedor de café.

- Coitado do Seu Vadinho, com a vida que ele leva...- Comentou a mulher detrás do balcão arrumando as garrafas de cachaça na prateleira.

- Ifigênia, o que já lhe falei sobre se meter na conversa dos fregueses? – Vociferou o marido coçando os cabelos do peito.

- Tá certo, eu telefono pro Vadinho, mas telefono e vou me embora, não quero estar aqui prá ver a desgraça que vai dar. – Falou baixinho o mascador de tabaco.

Cuspindo um cuspe preto de tabaco, o velho mais se arrastou do que caminhou até o telefone sobre o balcão. Discou lentamente os números, como se eles fluíssem à sua memória um a um. Ouviu-se um breve murmúrio e logo desligou.
Tornou a sentar-se e disse:

- Ele falou que vai buscar o carro e já vem, é só o tempo de eu tomar uma saideira. Não tenho mais idade para ver essas coisas... – emborcou o copinho de cachaça que estava sobre a mesa, levantou-se e foi embora, da porta do bar deu uma olhada para o infeliz na praça, balançou a cabeça e foi-se sem se despedir de ninguém.
 
 
 

4 comentários:

Babi Doux' disse...

Essa cidade deve ser "parente" da Ilha Diana né??? haha

Ranzinza disse...

Na época em que escrevi esse continho eu ainda não conhecia esse lugar.
Mas não afasto a hipótese de premonição...

solaris disse...

...Que vc acredita? em premonição?
Fica aqui uma hipótese.

Ranzinza disse...

Às vezes acredito até em DEUS!!!