2011/03/21

CASA DE CHÁ “A GUEIXA E O SAMURAI”

- “Acho que esse negócio não vai dar certo, esse povo aqui não tem sensibilidade (na verdade quis inteligência, mas achei melhor usar outra palavra) e perfil para isso.” - falei, mas ai já era tarde demais, como vocês perceberão. Antes de mais nada, outra caneca de saquê. Sigamos.

1. O Severiano demorou muito tempo para entender qual o papel dele naquele drama. Aquela roupa, penteado, tamancas de madeiras, aquele chapéu de bambu que mais parecia um funil era demais para aquele pobre e minúsculo cérebro desidratado e anêmico. Vivia reclamando pelos cantos, demonstrando seu descontentamento, tantos às meninas, ao patrão e pior, aos fregueses... Não poderia dar certo mesmo... Toda hora ruminando: - O que mãinha vai pensar se me vir assim? Cadê meu facão? Homem macho de verdade não se submete a essa vergonha... – Resumindo, demorou até que demais para isso tudo dar errado.

2. As meninas então. As quatro que o patrão convenceu a entrar nessa empreitada, Susaninha, a Yuriko; Das Dores, a Yushiko; Tiana (Sebastiana) a Tashiko e a Mariinha, a mais nova, chamada de Flor de Lótus, não tinham o menor perfil para a empresa. Elas nem sabiam o que estavam fazendo lá. Foi um inferno até o fim. Será que era assim tão difícil assim entender a diferença entre chá e prostituição?

3. A casa. Balancei a cabeça até ela quase cair do pescoço quando a vi. Não sabia qual pergunta gritar primeiro. Onde o patrão arrumou uma casa de bambu e paredes de papel ou quem foi o louco que construiu aquela obscenidade para ele? Detesto a miséria, não porque ela nos priva de muitas coisas, mas porque ela nos submete a muitas outras coisas piores... Via aquele sobradão, bandeirinhas na entrada, portas de correr – que tinha certeza seriam chutadas para frente quando entrasse o primeiro freguês. E aquelas paredes feitas de papel de seda com motivos orientais, aquelas borboletas, Monte Fuji, japonêsas de sombrinhas... Tudo ali cheirava a erro e prejuízo... Me consolava repetindo o mantra (aprendi isso com um velho careca vestido com uns panos cor de laranja que o patrão trouxe para conhecer a casa): “Isso não problema meu, esse não é meu dinheiro, meu salário está depositado no banco.” Aquilo tinha tudo para dar errado, mas por que só eu percebia isso?

4. Vistoriando a dispensa chamei a atenção do patrão para o detalhe das bebidas: - Saquê e chás!? Explicou-me o douto empresário que ele formaria uma comunidade, educaria uma geração, prepararia aqueles miseráveis para o mundo! – Arrogância! – sibilei. Nenhuma cachaça patrão? Nada de carne de sol? Neca de farinha? Sem sanfoneiro?

5. Música! Toshinori-San! Nosso tocador de berimbau¹ de arco ou coisa parecida com isso! Fracasso esperado e cumprido. Onde que, na nossa cidade, alguém ia sair de casa à noite, depois de um trabalho nesse calor dos infernos para ouvir um sujeito tocando berimbau e ainda por cima com arco, um óin-óin-óin de furar os ouvidos de qualquer cristão! Não ia dar certo, não ia dar certo, mas eu repetia: “Isso não é problema meu, esse não é meu dinheiro, meu salário está depositado no banco.”

6. Primeiro dia, quinta-feira: As pessoas passavam de outro lado da calçada com medo de serem visto diante daquela casa esquisita, tinham medo que com um vento noroeste mais forte ela viesse abaixo. Segundo dia, a mesma coisa. O cheiro do prejuízo começava a atrair moscas.

7. Sábado. O grande dia. Toshinori-San no cantinho dele tocando aquele instrumento amaldiçoado dos infernos espantava as moscas, Yuriko, Yushiko, Tashiko e Flor de Lótus, todas vestidas de quimonos com motivos florais, sentadas no chão de tatame em volta de uma mesinha esperavam pelos fregueses.

8. Severiano, travestido de Samurai, kataná à cintura, cajal reforçando seus falsos traços asiáticos e com cara de bravo (motivado pela briga na hora de maquiar os olhos; - Se mãinha passa aqui e me vê maquiado feito quenga?) não ajudava muito a atrair fregueses... Aquele cheiro me perseguia. Reclamando ao patrão sobre isso, tudo o que ele fez foi mandar queimar uns incensos...

9. Por fim, às 23:00 (precisei chamar as “gueixas que já haviam se recolhido com os quimonos, pois não havia modo de colocar naquelas cabecinhas que quimono não é roupa de dormir) entraram uns estudantes de Direito. – O cheiro de prejuízo nesse momento tornou-se insuportável, mas: -“Isso não é problema meu, esse não é meu dinheiro, meu salário está depositado no banco.”

10. Os estudantes sentaram-se à volta da mesinha de laca preta com motivos iguais às cortinhas e dá-lhes Monte Fuji coberto de neve (um estranho conceitos pra essas bandas que nem inverno tem), borboletas e as japonesas com sombrinhas (segundo estranho conceito, pois aqui não chove e nunca passou pela cabeça de ninguém por aqui fugir de sol), pediram cerveja; - Cerveja não servimos senhores, respondeu Yuriko sorrindo um sorriso de dentes amarelos e tortos causando a segunda má impressão.

11. - Uísque! Pediu o segundo. – Uísque também não servimos senhor, respondeu Yushiko solícita e medrosa – não sorrindo para não piorar ainda mais situação (o pivô do canino estava perdido desde ontem).

12. Toshinori-San entusiasmando-se com a presença de fregueses – alguém haveria de reconhecer seu fabuloso talento, segundo ele – e furiosamente começa a executar uma peça clássica do Japão Feudal, e o óin-óin-óin come solto!

13. Positivamente a música não acrescentou nada de positivo ao ambiente. Por via das dúvidas pedi a Severiano, o Samurai da tabuleta na porta, que vigiasse os fregueses enquanto ia lá escritório buscar mais incensos.

14. Nos fundos, lá no escritório comecei a ouvir uns risinhos, sorri junto e comecei a abanar o cheiro de prejuízo das minhas narinas, abri a gaveta da escrivaninha para guardar as varetas de incensos e voltei lá prá frente...

15. Esse é o momento em que tudo fica confuso, nebuloso, turvo, pois onde eu deveria ouvir risos e selvagens óin-óin-óin-óins reinou por longos e intermináveis segundos o mais profundo e negro dos silêncios. Mal tive de recorrer aos incensos, fui apanhado pelo cheiro do prejuízo e tudo começou a se acabar.

16. Yuriko, Yushiko, Tashiko e Flor de Lótus corriam descalças em direção à rua aos gritos, os cabelos soltos (que trabalho tivemos para alisar aqueles fios crespos e rebeldes), os estudantes de direito atrás delas e de facão na mão, esquecido de sua kataná de bambu, Severino com os olhos manchado de cajal. As paredes de papel de seda destruídas estavam espalhadas pelo tatame, pedaços de borboletas, de japonesas com sombrinha, restos do Monte Fuji por aqui e por ali...

17. Dizem que me encontraram andando pelas ruas murmurando palavras que ninguém entendia² e segurando uns pauzinhos que soltavam fumaça...




[1] Possivelmente uma Ekatara tenor, cordofone indiano, é constituído por uma caixa de ressonância redonda e um longo braço sobre o qual se pressionam as duas cordas obtendo diferentes sons. O que prova que tanto o narrado quanto Toshinori-San nada entendem de músicas tradicionais japonesa...
[²] Provavelmente: -“Isso não é problema meu, esse não é meu dinheiro, meu salário está depositado no banco.”

7 comentários:

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

Cara, pesada. Soltar fumaça pelos pauzinhos deve ser pior que tsunnami.

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

Suja e com fumaça ficarão os pauzinhos se algum vulcão resolver acordar agora para secar a água do tsunami.

Ranzinza disse...

Caríssimo Silvio:
- Tais pauzinhos são singelamente chamados de "insensos"...
Ô mente suja!

alexandre costa disse...

Gostei bastante do conto. Isso me lembra que perdi completamente o jeito!

Folhetim Cultural disse...

Insensos ou pauzinhos isso depende da visão de cada um. Nós somos tão iguais e tão diferentes.

Ranzinza disse...

Magrão, vc não perdeu o jeito, somente deixou de ser fiel à sua arte.
Repense.

MIRZE disse...

Adoro incensos! Não gosto da cultura japonesa, só do povo.

A música é diferente, mas não enlouquece ninguém.

Os rituais assim, são traiçoeiros, embora pareçam "maneiros".

Gostei, Roberto!

Beijos

Mirze