2011/02/11

O ESCRITOR E O BUSTO DO EDGAR

As contas não param de chegar. Sobre a mesa acumula-se uma pilha de cobranças.

Um busto de Poe é usado como peso de papel.

Por baixo da porta entra mais um envelope, agora é conta de luz, a de água deste mês já está com o autor do Corvo.

Falta de tudo na casa.

E sentado na poltrona da sala o homem arranca os cabelos (metaforicamente falando, é claro), a mulher tenta convencê-lo a não se entregar ao desespero, debalde.

O sujeito se diz escritor, se acha escritor, ficcionista. Já enviou seus escritos para várias editoras, grandes jornais, jornais de bairro, jornais de sindicato, jornais de supermercados, e nenhuma resposta até agora.

Ela tenta consolá-lo dizendo que uma hora ele será descoberto...

Mas no desespero ele fica surdo, e entrega-se à depressão, e deprimido ele escreve ainda mais e mais e mais...

E não consegue publicar.

Ele olha para o busto de Poe e se pergunta o que fazer. Nenhuma resposta vem do torso do escritor.


- Nunca mais, nunca mais – grita feito um covo – escreverei coisa alguma pelo resto da minha vida!


Só não atirou a estátua pela janela por medo que o vento espalhasse as contas acumuladas, afinal ele usava o verso dos envelopes como rascunhos para seus contos.

O papel já estava no fim e não havia dinheiro para comprar mais. Era muita miséria para uma pessoa só. Sua vida de escritor está ficando igual a dos personagens de contos russos, só faltava nevar, sua espiral descendente de autocomiseração só foi interrompida pelo grito da mulher:


- Benhê! A geladeira queimou!

- Pronto! Minhas preocupações com neve acabaram.


Olhou com ódio para o velho Edgar.

Num último suspiro de razão que ainda lhe restava no fundo da alma, tentou pensar que ele mesmo fazia parte de um conto de Poe, sim, só poderia ser isso, ou então não restaria alternativa para ele do que... ( Oh! Deus, isso é pior que ver um gato preto emparedado)...prestar concurso e virar servidor público onde poderia ser pago para escrever, nem que fossem ofícios, memorandos, cartas sem fim...

Outra vez ele olhou para o busto do velho Edgar que por poucos segundos ganhou vida e lhe disse:


- Isso não! Serviço público, não!

Um comentário:

Clóvis Duduka da Silva Monteiro disse...

Ainda faltam 4 ou 5 páginas do Relato de Edgar, Arthur, ou sei lá o nome do Brigue.
Belo texto.