2011/02/11

MARISKA VOIVODINA PORUMBESCU, SUA NETA E O FANTASMA


Festas nas ruas, fogos no céu, bandeiras nas janelas e risos no ar. É primeiro de dezembro e celebra-se a união da Transilvânia com o Reino da Romênia, ocorrido em 1928 e ato fundador da Romênia moderna, mas na casa de Mariska Voivodina Porumbescu, nascida no Condado de Ilfov, cigana, taróloga, parteira e punguista, as coisas não pareciam assim tão bem.

Senão, vejamos...

Mariska Voivodina Porumbescu estava polindo sua bola de cristal (na verdade feita de vidro reciclável dos mais ordinários), quando um arrepio subiu-lhe pelas pernas, atravessou todo o robusto e hirsuto tronco e foi terminar no alto da cabeça, arrepiando-lhe todos os fios de cabelo.

- Nu înţeleg, nu înţeleg – (não entendo). – Nu, nu (não, não) - e balançando a cabeça para arrumar os cabelos desgrenhados, Mariska Voivodina Porumbescu olha para a bola de cristal para entender o que está lhe acontecendo.

Mariska Voivodina Porumbescu senta-se à sua mesa coberta de veludo vermelho e amarelo, fecha os olhos, começa a recitar uma ladainha e por fim entra em transe.

- Salut - (olá) - diz a voz que sai da bola de cristal.

- Salutare - (olá) - responde Mariska Voivodina Porumbescu, tremendo de medo, afinal essa era primeira vez em sua vida que ela falava com algum espírito de verdade.

- Vorbiţi portugheza? - (você fala português?) - pergunta o espírito com forte sotaque.

- Nu! - (não) - responde Mariska Voivodina Porumbescu, sentindo seus cabelos rejeitarem os cinqüenta e cinco anos de tinturas e começando a embranquecer de pânico... - De unde sunteţi? (de onde você é?) – indaga, gaguejando e já prestes a desmaiar.

- Unde e toaleta? - (onde é o banheiro?) - pergunta a voz com um tom fortemente angustiado.

Mariska Voivodina Porumbescu, antes de desmaiar após bater a já agora encanecida cabeça na quina da mesa (e acordar trinta e sete dias depois, vesga e gagá), aponta para um canto da casa.
- Mulţumesc - (obrigado) e Pa!- (tchau).

Silêncio, e então...

...um vento forte abre a porta da frente do casebre, joga a bola de cristal no chão, faz trinta e sete embaixadas, e jogando-a contra a parede, à guisa de gol, estilhaça-a em milhares de fragmentos, vindo a cortar o pezinho de sua neta Constantina Eminescu Vlahuţă, que, infeccionando, fará com ela manqueje para o resto de sua miserável vida.

Numa cela fétida, cheia de baratas, Constantina Eminescu Vlahuţă cumprirá pena pelo seu crime hediondo: - empurrar a entrevada e louca Mariska Voivodina Porumbescu em cadeira de rodas para a frente de um trem de carga.

Constantina Eminescu Vlahuţă morrerá em vinte e nove de julho, e em seu último suspiro, amaldiçoará sua avó, sua bola de cristal e o espírito do brasileiro que lhe causou tudo isso.

2 comentários:

Mirze Souza disse...

Preciso de uma bola de cristal.Tem muito brasileiro que precisa. Saber o dia em que vai morrer já é uma ajuda!

Abraços

Mirze

Ranzinza disse...

Gostaria de saber o dia em vou começar a viver antes de morrer!