2010/08/18

DETETIVE

Tudo começou assim:

- Detalhes! Detalhes, minúcias, ca-da de-ta-lhe sór-di-do, quero ver o vermelho do sangue correndo pelas suas palavras!

- Sorvi – não – engoli de uma só vez o “sórdido” vermelho do “sórdido” vinho que ele me serviu. Um arrepio de arrependimento e nojo subiu-me pela espinha e arrepiou-me os cabelos da nuca, fiquei triste, houve um tempo em que todos os meus cabelos se arrepiavam... Tossi, fiz um certo charme – quis tornar cara as minhas informações. Mas da parte de meu interlocutor, insensível, ouvi somente:

- Vamos, tempo é dinheiro e não espere que eu lhe ofereça outra taça de vinho!
Agradecendo a sorte de não ser envenenado outra vez com aquele tóxico rubro, comecei a falar.

- Tudo o que sabemos é que ele embarcou numa terça-feira, saiu do escritório na segunda à noite, deu “boa-noite e até amanhã” a todos, passou no bar tomou a cervejinha de sempre, pendurou-a como sempre e foi para casa.

- Até aí temos total conhecimento, o quê você tem de novidade para mim?

Olhei para o relógio que continuava mostrando a mesma hora de quinze dias atrás, na minha frente a taça com aquilo rubro dentro – mais da metade – , pigarreei sentindo que havia engolido uma das minhas amígdalas, e disse:

- Parece-me que ele fugiu para o Mato-Grosso.

- O que aquele duro foi fazer em Mato Grosso? Por acaso ele tem família lá? Amigos? Alguém que possa emprestar-lhe dinheiro para me pagar o que deve?

Duvido muito que ele fosse buscar dinheiro para pagar alguma coisa a alguém, pensei cá com meus botões – embora estivesse usando uma blusa com zíper - mas nada falei, afinal, estava sendo pago para encontrá-lo e na minha profissão, quanto menos informações, mais dias de trabalho é mais dinheiro.

- Estou vendo isso. Nesse momento meus auxiliares – entendam uma certa mocinha de um Call-Center que ando cantando está vendo isso para mim. Minto-lhe que sou agente secreto e sempre a presenteio com minha coleção de livros de espionagem que minha senhoria ameaça jogar fora.

– Muito em breve devo ter uma resposta concreta para lhe dar.

- Como ninguém percebeu que ele estava fugindo? Quero que você confirme onde ele está até às cinco horas de hoje.

Por sorte meu relógio estava quebrado, senão eu teria caído fulminado ali mesmo, pois meu cebolão marcava exatamente dezesseis e cinqüenta e cinco com o ponteiro dos segundos correndo desenfreadamente. Contava com o dinheiro desse serviço para dar entrada num novo...

- Sim senhor, vou sair agora mesmo...

Já me levantava da mesa quando fui bruscamente segurado pelas gigantescas mãos de primata de meu contratador.

- Não pense que sou rico! Beba o vinho. Não gosto de desperdiçar nada. Beba!

Fiz das tripas coração, e encarando aqueles caninos de carnívoro emborquei o resto daquele veneno vermelho. Sabia que atrasaria meu trabalho, pois o líquido descia fazendo estrago. Senti uma câimbra violenta no fígado, dois espasmos no estômago e minha visão ficou turva por mais de quarenta minutos. Se meu empregador fazia isso a si mesmo, o que faria com o devedor foragido? Mas isso não era problema meu, me pagam e eu procuro, sejam gatinhos desaparecidos, mulheres adúlteras com amantes, documentos perdidos, me pagam e eu encontro. Sempre trabalho durante o dia, por uma questão genética (conheço um sujeito que diz: Genético de família) sofro de cegueira noturna, o que atrapalha muito em minha profissão, por isso tenho de aproveitar bem a luz do dia.

Saí à rua, mais tateando que enxergando e pensando em ir para casa, que não posso chamar de escritório nem de minha, pois vivo de aluguel onde minha senhoria exercita seu mau-hábito de viver me cobrando o aluguel quinze minutos após o vencimento para ter a certeza de que será a primeira a ver a cor do meu dinheiro.

Não me envergonho do que faço – da profissão que exerço nem da menina do call-center – mas se tem alguma coisa que me dá um nó nas tripas é procurar devedores, sou sensível e acabo me envolvendo emocionalmente nesses casos. Passo na relojoaria para ver as horas e aproveito para namorar o modelo que um dia - se tiver sorte ou um bom caso, o que vier primeiro – hei de comprar. Ele é de plástico, azul e digital com apenas dois pinos para acertar as horas, o dia do mês, da semana e o ano. Com os olhos marejados, não sei se de desejo por ele ou por causa do vinho, segui em frente, afinal, ainda tinha que trabalhar. No caminho passei num bar para pedir uma garrafa de água e ir ao banheiro, o vinho continuava a me torturar. Quando devolvi a chave do mictório perguntei ao português se poderia usar seu telefone, ele disse “não”, voltei á rua.

- A caça continua! Falei de mim para mim, tentando me encorajar, já que ficaria muito mal dar tapinhas nas minhas costas, três quarteirões depois me lembrei que tinha pago pela garrafa de água e a havia esquecido por lá, voltei ao bar, e ao perguntar pela minha água o português falou alguma coisa em sua língua que eu não entendi direito – e nesse momento lembrei que meus poucos amigos, dois ou três, dependendo do dia do mês, vivem me dizendo que o português é a minha segunda língua – saí de lá com sede, a língua parecendo uma lixa de parede, o vinho ainda cobrando seu tributo, e chateado, pois havia gasto um dinheiro que não seria reembolsado, mas lado bom de tudo isso era que com essa caminhada a minha visão estava começando a desembaçar.

Fui ao escritório de um colega para ver se lá poderia usar seu telefone, estava na hora do café da minha “namorada” do call-center, precisava saber se ela havia conseguido alguma coisa.

Bom amigo. Com o juramento – mão sobre a Bíblia, pois é um católico fanático e conhecedor de toda a história das cruzadas – de que lhe pagaria as cervejas que lhe devia e mais os sanduíches de mortadela – minhas únicas refeições nos últimos meses – ele me permitiu vinte segundos de ligação. Cronometrados em “seu” relógio, pois ele sabe que os segundos do meu não são confiáveis...

Mas valeu, ela me mandou procurar o judeu da loja de penhores em frente ao açougue ao lado do shopping da praça central. Era só perguntar a ele qual era o item mais bizarro dos últimos dias.

Estava ficando muito estranho esse serviço, quase se parecia com os livros que eu a estava presenteando.

Dez minutos, eu acho que foram dez, mas poderia ter sido vinte ou uma hora, afinal vocês já estão fartos dos meus problemas cronológicos criados por esse relógio quebrado.

Com a visão agora em ordem entrei na lojinha de penhor. Dizem que o universo é vasto, mas os que repetem isso nunca entraram numa lojinha de penhor, nunca. Lá havia “de um tudo”, roupas, sapatos, próteses de todos os tipos, pernas de pau, olhos de vidro, e ah!, relógios de pulso, de parede, despertadores, de bolso, móveis, livros, muitos livros, enciclopédias, romances, livros de medicina, técnicos em eletrônica e uns livros policiais em que reconheci meu nome rabiscado nas segundas páginas. Depois vou ter que perguntar para minha “namorada” como eles foram parar lá, pois sem que ela soubesse eu a presenteava com o intuito de salvá-los da sanha louca de minha senhoria, pois no meu íntimo eu pressentia que viria o dia em que ela os tomaria como reféns para o caso de um atraso maior de meu aluguel.

- Mais uma rasteira da vida! – resmunguei.

O velho proprietário vendo-me folhear emocionado os tomos perguntou-me se estava interessado em comprá-los.

- Outra vez não, obrigado!

Aproveitei o gancho para entabular conversa, perguntei-lhe sobre o preço dos relógios – estavam mais baratos ainda na relojoaria – e sobre alguma coisa estranha penhorada nos últimos dias. Ele empalideceu, eu me excitei, senti que estava perto de alguma coisa grande, um trunfo estava ali estampado em seu rosto enrugado feito um pergaminho amarelado. Olhei-o com firmeza, senti que fraquejou – meu segundo trunfo era somente outra câimbra no fígado, o vinho agora estava jogando a meu favor.

Mostrei a ele minha funcional comprada na Praça da Sé, e que com a pouca luz do ambiente não reconheceu a falsificação nem a foto, que não era minha.

- Vamos, conte-me! Quase gritei com a outra câimbra, e nesse momento percebi que para continuar nessa profissão precisaria de um bom estoque desse maldito vinho. Ele “afinou”, hesitante, pegou-me pelo braço e levou-me ao fundo ainda mais escuro daquele mafuá. Não nego que senti um receio misturado com o mais primitivo pavor subir-me pelas pernas quando vi ratos nas minhas calças, logo espantados pelas palavras gritadas em hebraico pela velha múmia. Lá nos intestinos da loja vi estocado objetos que o velho jamais exporia nas vitrines, eram caixões recém usados, ossos humanos, um maravilhoso carrilhão de laca preta “fun-ci-o-nan-do” ainda. Aquele ancestral de velhas múmias ainda segurando meu braço me puxava para um cantinho ainda mais escuro, e numa parede descascada, que era só tijolo com dois ou menos centímetros quadrados de reboco mostrou-me o que havia sido penhorado!

***

Já na rua, esbaforido, branco feito cera, tremendo, completamente descrente da humanidade, abanava-me a procura de ar. Levei muito tempo para me recuperar, tentava me recompor, tentava olhar para o meu próximo sem asco, sem nojo, sem vergonha, mas não conseguia, nunca mais conseguiria, nunca mais eu seria o mesmo homem. Ali naquela loja de penhor vi a que ponto um homem pode chegar. Trôpego, me arrastei até um restaurante, lá entrei, almocei umas lagostas com champanhe Cristal, bebi do melhor vinho, passei na relojoaria, comprei um Patek Phillipe, pus em meu pulso, e tomando um taxi segui em direção ao aeroporto, onde comprei uma passagem, em cash, para Mato-Grosso, na certeza de nunca mais voltar. Não terminaria meu caso, bom até aí não haveria qualquer problema, pois não me lembro de ter encerrado nenhum antes. Deixei na caixa do correio uma carta me despedindo de minha senhoria com uma boa soma de dinheiro para compensar os eternos atrasos nos alugueres e fui-me incompleto e coberto de infâmia. Para minha namorada, nada, ela que fosse feliz com o dinheiro ganho com meus livros policiais.

***

Enquanto olhava pela janela do avião, lembrava e assim lembraria para o resto da minha vida do diálogo que tive com o velho, e o que havia visto pendurado no prego daquela parede.

- Isso é o que estou pensando que é? – Gaguejava e temia enquanto perguntava o óbvio.
- Sim, é. - Riu o velho. E apontando com aquele dedo fino, branco, encarquilhado de unhas imundas de tanto contar dinheiro completou:

- Veja, há outros pregos, estou aberto a negócios.

- Então vamos conversar. – Nesse momento senti que havia perdido a minha alma.

Após alguns balanços que fizeram os passageiros gritarem e vomitarem, desci no aeroporto, tomei outro taxi me e perdi na cidade.

Hoje tenho dinheiro, um relógio que não atrasa nem adianta, mulheres que só encontro à noite, pois morro de vergonha de dizer o que penhorei, como o sujeito que procurava para meu empregador, que à essas horas já deve ter contratado um detetive para me encontrar, e que também penhorei meu cú para fugir daquela vida de merda que levava...

2 comentários:

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

Este detetive está parecendo os EUA vendendo título público aos chineses para custear seu consumo desenfreado. Virou um peixinho no aquário do credor.

MIRZE disse...

Roberto!

Tipicamente seu. Penhoraste TUDO mesmo.

Mas escreves bem

Beijos

Mirze