2015/04/17

ACHO QUE NÃO VALE A PENA NÃO...




não há suor no rosto
noites mal dormidas
dinheiro no bolso
cunhados na porta
ações na bolsa
esqueletos nos armários
fofoca de vizinhos
amante argentina
segredos que nem na igreja confesso
dólares no colchão
uma vela pra deus
outra ao diabo
filhos na suíça
mulher com plástica/silicone
champanha cristal e caviar
que compense
tanto trabalho meu deus...



2014/11/13

MEU DEUS, TODO ANO A MESMA COISA!




 Ele está chegando
já está nas ruas
nas lojas
nos ouvidos
nas narinas
enfim empesteia o ar
está nas luzes à noite
piscando mais que as estrelas
esta na tv
nos rádios
o magrão já rói as unhas
e angustiado espera
o vadinho
conta com os abacaxis
o comandante
“viajando” que tirar selfies
na porta “dos lojinhas”
        (1,99!)
as igrejas pedem
as pessoas imploram
as instituições clamam
pela sua participação
tsc tsc tsc
já não durmo, e
somatizo todas as dores
sofro por antecipação
evito o telefone
tremo ao ver um envelope
sim
             sim
                                sim!
o Natal está chegando
de novo...










 Pro Alexandre (Magrão)
Vadinho (Vladimir)
Que somados...

2014/11/07

POMBO



O pombo
Sua fome/seu grão
Sua sina/maldição
Uma roda/caminhão
Morre o pombo/E sua fome
Sobra o grão




2014/10/15

Antes de entrar de férias publico aqui um conto de meu amigo ALEXANDRE COSTA


O ASSASSINO



                Abro os olhos e percebo que acordei. Pego o celular do lado da cama e vejo que são sete e quinze da manhã. Estico o corpo preguiçoso e dou um grande bocejo, mas não quero levantar. Debaixo da coberta, o calor sustenta minha preguiça. Viro de lado e decido ficar mais dez minutos deitado.
                Abro os olhos e percebo que acordei. Pego o celular do lado da cama e vejo que são onze e meia da manhã. Dou um salto e caio com os pés no chinelo, mas não há como remediar o atraso. Corro até o banheiro, lavo o rosto, volto ao quarto e coloco a calça, coloco o relógio no pulso e a mochila nas costas. Abro a porta e pulo no tênis que deixei no capacho na noite anterior, abro o portão e vem a cegueira da luz do dia. O sol já tava lá a minha espera. Detestei aquele dia claro e quente. A camisa com que dormi, ainda quente em mim, ardia ainda mais agora. A noite fria engana os desavisados como eu, mas o atraso me impedia de voltar e trocar de roupa.
                No ponto de ônibus procuro uma sombra. O cachorro de rua late na esquina, talvez com fome ou com raiva do calor. Depois vem o ônibus e vou em pé até o trabalho. Viagem desconfortável. Chego cansado, e sem desculpa pra enganar o chefe, conto a verdade. Ele ri de mim. Vai trabalhar, diz. Ele vira as costas e segue rindo até sua mesa. Olho no relógio, são meio dia e quarenta e não terei almoço, nem tive café.
                Fui correndo pra minha sala, liguei o computador, peguei os óculos e o celular na mochila. Antes de sentar na cadeira o telefone toca. Boa coisa não é, penso. E o chefe tem uma missão pra mim. Por conta do atraso fui designado pra acompanhar a visita do campeão mundial de xadrez Alexei Malopov para uma demonstração para um público bem restrito. Tire uma boa foto, ele pediu.
                Botei o pé na rua a uma e cinco. Me senti caminhando sobre a cratera de um vulcão. No relógio digital de rua a temperatura de trinta e três graus tornava a minha vida um inferno. Quero desaparecer, mas preciso trabalhar. Quero estar na lua numa eterna noite fria, mas preciso fazer aquela foto. E nada se pode fazer contra a natureza das coisas, ou os desejos do universo, ou a lei de Murphy.
                Pego o ônibus de novo. Espero chegar rápido ao meu destino. Há bancos para sentar ao sol, mas prefiro ir em pé, cheirando o ar que passa apressado pela janela e foge pelo outro lado do coletivo. Um gozo fugaz quase parecido com felicidade me toma inteiro, depois tudo volta a ficar tórrido de novo. Quero apenas o sopro do Himalaia agora, mas o calor da primavera, além dos números previstos pelos especialistas, cozinha meu miolos.
                Desço do ônibus e entro no hotel, corro, estou atrasado, entro pelo saguão, todos me olham, mostro a credencial pro recepcionista, que aponta  para duas portas à esquerda de quem entra. Finjo entender, corro pra porta e sinto que ele me disse algo que perdi com a pressa.
                Entro numa grande sala cheia de pessoas em completo silêncio. Deduzo que acertei. Caminho entre elas e sento o mais perto possível de Alexei. Um homem sozinho em frente a uma mesa num palco vazio olhando para algo a sua frente é bem a cara de um enxadrista, pensei. É aqui mesmo. Um pequeno  constrangimento me atingiu quando percebi que era o único que não trajava social. Mas eu estava a trabalho, pensei. Não estou aqui me divertindo, estou trabalhando, e suando.
                Esperei que ele sentasse e que o jogo, ou a performance solo tivesse início, mas nada, só ficava em pé, imóvel. E todos em silêncio esperavam por algo, que eu não esperava.
                Coloquei a mochila na cadeira, tirei a máquina fotográfica de dentro, caminhei sorrateiramente pelo carpete vermelho, esperei o momento certo e tropecei no degrau que me levaria até o palco. Caí deixando escapar a máquina que bateu na quina do degrau, batendo a foto. Um grande flash iluminou o ambiente. Espanto geral, Alexei virou-se para mim atônito. Os convidados se entreolharam sem entender qual a razão de eu estar ali. Eu me perdi entre um pensamento e outro, ou foi quando me expulsaram de lá, tanto faz, eu perdi todo o restante do jogo. Mas eu sabia que tinha tirado a foto, e era o que importava.
                De volta ao trabalho, sentei em minha cadeira, puxei a máquina de dentro da mochila, conectei-a no micro para abrir a foto. Lembro que o sol batia na janela e aumentava o calor dentro da sala. Lembro que o telefone tocou, meu chefe entrou devagar pela porta, como em um filme de suspense. Lembro que ainda não tinha comido nada. Olhei no relógio, eram quatro e quinze da tarde. Não me lembro de mais nada depois que vi o punho do meu chefe atingir o meu queixo e eu me sentir em órbita de uma lua de saturno.
                Abro os olhos e percebo que acordei. Procuro o celular ao lado da cama, mas vejo o jornal do dia. Estico o corpo pra acordar e me lembro de um sonho estranho. Na mesa do café resolvo olhar o jornal. Um clips indicando uma página me chama a atenção. Abro e vejo a manchete: "Homem embriagado usa flash de câmera fotográfica para destruir formas de vida extraterrestres sensíveis a luz".




ASSIM ELA VIVIA A NOS CONTAR


(poema horrível, mas verdadeiro)




ela falava de sua vida
dura
que morava muito
longe
ia sempre de pé no
ônibus
que sofria muito
a infância pobre é
uma cicatriz n'alma
a barbie sem a perna direita
os cabelos ralos
entre o choro triste
e um riso louco
lembrava da bolinha de gude
única que tinha
era o olho de vidro
a avó morta
contava sempre
que subia e descia o morro
com sol ou chuva
e batia orgulhosa
nas panturrilhas grossas
mas escondia envergonhada
as varizes...
todo santo dia
sem alternância
nos contava as sua mazelas...
seu mantra diário era:
viver é sofrer!
viver é sofrer!
mas nós seus ouvintes
repetíamos silente:
- sim viver é ouvir
o sofrimento alheio...




2014/10/01

O QUE AQUELES OLHOS DE JABUTICABA PISCANDO FIZERAM COM VOCÊ VELHO COMANDANTE!


(pequena crônica do dia em que a Dilma veio fazer discurso aqui na cidade)




Te aborrecestes ontem
Quando na Praça da República a massa
Se envolvia e rejubilava-se
Como que diante do Grande Salvador
(pena os fogos terem espantado as pombas e os sanhaços)
E ao seu lado a pequena burguesa vomitava sua bílis
Seu mal herdado da Casa Grande ancestral...
Pois ela a leitora do Olavo de Carvalho
(aposto que seria capaz de declamar trechos inteiros, se desafiada fosse!)
(ainda bem que não foi!!!)
Tão pequena e
Tão sinhazinha
Transpirava seu ódio
Rancor e medo
Do populacho lá fora
Ela que te olhando nos olhos
Desafiava tua doçura e fé na Revolução
(que um dia?) virá (ou não)
Ela tão carismática e arrogante
Direitista de berço & criação
Vomitava palavras de ordens
E procurava no ar
(louca? Desvairada?)
Uma arma imaginária
Para o tiro final
Para o começo de um novo fim...
Sim ela desafiou essa doçura a virar fel
E penso que pouco faltou
- Não é?
Mas não sofras Velho Comandante
Nosso tempo está a acabar
(estamos na prorrogação, relaxe!)
O Velho Mundo Novo
(ou o novo mundo velho?)
Mostrará à burguesinha a sua face
Imutável e cruel
E ela acordará
Um dia desses
Na praia...
Na feira...
Na igreja enquanto bate palminhas e canta como se fosse ser arrebatada em meio às fumaças
dos incensos que sobem aos céus dos justos,  injustos e indiferentes...
Dando pipoca aos macacos...                                                                                                  
(pode parecer, mas isso não é uma praga deixei-me levar pela emoção)    
Não quero emitir aqui qualquer
Juízo de valor
Não comungo radicalmente
Com qualquer cor política
(sou um iconoclasta desde sempre)
Mas compartilho de sua dor
Velho Caudilho.
E parafraseando-o, Sábio Cínico:
-Ela é mesmo muito
Bonitinha para ser assim
Tão conservadora!





2014/09/25

2014/09/15

AMANHECER




O dia chegou com
                               o galo do vizinho
com o raio de sol 
                             na fresta da janela
com o espreguiçar e 
                              estalar dos ossos
um novo dia numa vida
                                                            velha



2014/09/12

DIVAGANDO NA DOMITILA




os seus olhos tristes
as costas curvadas
o sorriso amarelo
os pés que se arrastam
a meia que aparece
                                    na sandália, o
– “boa tarde senhores!”
que não convence
nem comove
o jeito como anota o nosso pedido
(que sempre é:
- dois expressos, sem leite!)
o eterno:
- sintam-se a vontade!
que nos dá vontade de levantar da mesa e ir embora
tudo isso só me leva a pensar que:
ela detesta esse emprego
ou está lá ainda à espera
do grande amor de sua vida...
e tanto divago
que o café esfria na xícara..








O Comandante entende essa