2017/05/26

UMA QUESTÃO DE ORDEM


Aos amigos Kafka-Claricianos




você barganha com a barata
ou passa logo o inseticida* ?
chinelo nela ou conversa fiada?
usa aquele jornal enrolado feito
um porrete e a imprime na parede feito uma serigrafia
ou abre a porta  e pede muy
gentilmente que ela saia?
dá um olhar de enfado, de fim de caso
ou usa a  vassoura arrebentando tudo pela frente?
eis a questão...














*(me segurei para não escrever bom de flit!)



2017/05/23

LIGEIA



Caríssimo, desculpe-me a ausência, mas essa missiva traz-lhe boas novas.

Conheci acidentalmente uma moça muita linda. Encontrei-a numa inesperada ida minha à praia. Sabe bem o bom amigo o que penso de passeios à beira-mar, sobre o sol na cabeça, a luz nos olhos como sabe, isso me remete à desgraça de Mersault, mas o Destino, sim com “D” maiúsculo sempre nos prega peças...  Sim estava a andar a esmo, pensando na falta de sentido da vida, quando – Louvado seja Deus! - a vi dentro d’água (quase ouso dizer que eu a ouvi antes de vê-la)!

Sem pensar e sem dar por mim, me vi pulando ondas, mergulhando, nadando como se tivesse feito isso toda a minha vida. Não sei por quanto tempo dei braçada e mais braçadas até que me aproximei dela – e ela cheirava a sal...

Faltam-me palavras, verbos, substantivos, adjetivos, falta-me toda uma gramática, um alfabeto para descrevê-la (dominasse eu o grego!), e por isso não o farei aqui e nem em meu último suspiro, por isso peço-lhe: SIMPLESMENTE CREIA EM MIM!

Ficamos horas a conversar boiando nas ondas, mas meus olhos, minha alma, todo meu eu afundava-se naqueles olhos verdes...

Nesse mister passou-se todo o meu dia, somente ao por do sol, despedi-me dela.

Perguntei onde ela morava, como poderia encontra-la outra vez, e ela, olhando para o horizonte sem fim, respondia com doces negativas e um sorriso que levaria qualquer outro homem à loucura. Qualquer outro homem que não esse seu amigo versado em ciências do absurdo e do oculto à vista de todos...

Arrisquei-me a inquirir seu nome, e num sorriso lindo, sua resposta:

- Ligeia.

O sol já começava a se pôr, seu reflexo na água me ofuscava, e quando cheguei perto para abraça-la, num pirueta, mergulhou e desapareceu... As gaivotas grasnavam em coro, elas riam de minha angustia, de minha dor, lembrei-me nesse instante a razão de minha antipatia pelo mar.
Caríssimo, esse tempo sumido se deve à minha insensata busca por ela. Ando de praia em praia:
 - Ora gritando:

 - Ligeia!

Ora murmurando:

 - Ligeia!

Assim passo meus dias n’água, ando mais enrugado do que deveria nessa minha provecta idade. Acho que já estou ficando com meus cabelos verdes... Meu bronzeado já está transformando minha pele em papiro, há vezes em que, chegando em casa após o dia inteiro na praia, não me reconheço em frente ao espelho.

Caríssimo, o amor na nossa idade é realmente um risco fatal!

Minha vida mudou, estou irreconhecível, sem perceber, alterei drasticamente meu modo de viver e me alimentar, duvida?

Veja a receita que lhe envio:

SALADA DE ALGAS E PEPINO

Ingredientes:


– 25 g de mistura de algas secas
– 1 pepino pequeno
– 75 ml de mirin
– 75 ml de vinagre de vinho de arroz
– 2 colheres de sopa de açúcar amarelo
– 2 colheres de sopa de sumo de limão



Faça assim:

1.                                         Ponha as algas de molho numa taça com água fria e deixe repousar 15-20 minutos para amolecerem;
2.                                         Corte o pepino ao meio no sentido do comprimento e depois às meias-luas muito finas Ponha as algas, grosseiramente picadas, e o pepino numa tigela;
3.                                         Misture o mirin com o vinagre de vinho de arroz e o açúcar num tacho pequeno e leve a lume brando até o açúcar dissolver. Retire do lume e deixe arrefecer. Junte-lhe o sumo de limão;
4.                                         Deite o molho de vinagre sobre as algas e o pepino e envolva cuidadosamente. Sirva em taças pequenas ou pratos individuais.

A princípio você deve estranhar, mas com o tempo e uma paixão avassaladora, logo se adaptará.

Caríssimo, estou um homem muito velho para tais emoções, enquanto traços essas linhas, uma voz doce canta em meus ouvidos, a dúvida me rói. Será Ligeia?, será a loucura que já me come pelas beiradas?

Aguardo resposta.

P.S. Envio-lhe essas conchinhas. Uma de cada praia a que vou.

P.S². Espero que goste da salada.

Abraços salgados.






2017/05/19

CHEFE NEY SOFRE

(Drama Relâmpago!)



Local: Arquivo Geral de uma repartição pública.

PERSONAGENS:

Chefe Ney – Tido e havido por avis-rara, um abnegado e primeiro mártir do serviço público. Não tem nem dá sorte com seus subordinados.

Agente Mostarda - Típico funcionário público, com agravante de não tomar banho, não trocar de roupas por meses e meses a fio. Ladrão de comida, flibusteiro covarde que ataca a cozinha e rouba comida da geladeira e das mesas dos colegas trabalho, vagabundo, chorão e endividado em todas as praças. Quando, na falta de que fazer, liga para as ex-mulheres e as xinga, sempre usando o telefone da repartição(para economizar!). Sua única fraqueza?, o gerente do Banco do Brasil.

O “Almirante Inglês*” – Outro funcionário da mesma cepa. Um herói que enfrenta qualquer empreitada no intuito de fazer nada. Foge do trabalho com um vampiro foge da luz, o talvez explique e justifique sua cor pálida. Sonha em ser um novo Agente Mostarda, seu ídolo confesso.

Adinilza** - A Viuvinha ProfissionalEspecializou-se na sagrada arte de segurar mãos de moribundos. (e depois tentar receber uma polpuda pensão), um dia há de conseguir. Ela se esforça!

Josyanderson - Outro tipinho, típico incompetente que sonha ser chefe de alguma coisa em algum lugar. (E sim, ele chegará.).

 Tia do Café – Pessoa mais importante de qualquer repartição pública (vide a piada do leão que fugiu do zoológico) – entra muda e sai calada.

 Telefone – O eterno preterido.







PRIMEIRO E ÚNICO ATO




Telefone toca.

O Agente Mostarda tem a mesma estratégia do “Almirante Inglês*” - velho funcionário, com uma longa lista de desserviço ao serviço público - para não fazer nada, questiona tudo suavemente, interrompe qualquer argumento e desgasta o sujeito que quer fazer alguma coisa.

Chefe Ney, passado poucos segundos após sua explanação, por fim, desiste. Sai, vai tomar café, tentar acalmar-se. Ele veio de uma cidade grande no intuito de moralizar o serviço nessa repartição, mas sua missão não será fácil.


(alguns tic tacs depois...)

Chefe Ney volta.  

Agora Adinilza - A Viuvinha Profissional – também está fazendo e seu número para contra o discurso do Chefe Ney com o uso majestoso de mímica & pantomima. Ela começa com uma falsa tosse - (não consegue chamar atenção), pigarreia (o mesmo efeito), deixa a caneta cair ao chão (nada), lentamente começa a choramingar, Chefe Ney dá-lhe seu lenço e pede-lhe que se dirija ao banheiro para se recompor. Agora ela começa a chorar de verdade (percebe que seu número, tão ensaiado, falhou) e sai da sala.

Telefone continua tocando...

Chefe Ney, tenso, sai à rua. Resolveu voltar a fumar.

(passam-se alguns minutos)

Chefe Ney volta.

Telefone continua tocando...

A conversa é reiniciada e o tempo vai passando...

Agente Mostarda olha fixamente (ah! aqueles olhos baços azuis...), como se estivesse preocupado, balança cabeça de cima para baixo, da direita para a esquerda negativamente e afirmativamente, levanta o dedo indicador e já começa a tartamudear, balbuciar e emitir estranhos grunhidos emulando sugerir, aludir ou citar algo no intuito de confundir, dispara o inexorável:

 “- Veja bem!”
...e acaba por ganhar mais tempo para não fazer nada.
Consegue a atenção de todos à sua volta.  

     (mais tempo perdido!)

Sagra-se vencedor!

(a claque aplaude histérica!)

Chefe Ney, de volta ao arquivo encara o Agente Mostarda.

Chefe Ney pensa:

­- Terei dor de cabeça hoje.

Chefe Ney percebe que hoje não será resolvido mais nada e coçando a cabeça, pede licença e sai para tomar outro café, fumar outro cigarro e ir à loja de caça e pesca praticar uns tiros. 

Chefe Ney retira-se da repartição tocando seus snujs e murmurando seu mantra:

- “Ainda irei ao Ganges implorar a Ganga para que minh’alma imortal não ressuscite outra vez, vivo muito cansado de sofrer.” - Chefe Ney é fã ardoroso de George Harrison.

Telefone continua tocando...

À distância e nas sombras, o subchefe, e eterno chefe-substituto Josyanderson - O Sub-humano! - naturalmente, olha como que com sono para tudo isso e não diz nada, pois em seu intimo pensa:

- Quando o Chefe Ney cair reinarei soberano e porei essa canalha na linha! – Josyanderson, o subchefe, saliva!

O tempo passa e:

Agente Mostarda voltou para sua pocilga leve como uma libélula soprada pelo vento. Abre a gaveta e joga migalhas, tiradas do bolso de sua jaqueta, de pão velho para as moscas que cultiva em cima de folhas de alface.
Ele está satisfeito, embaralhou tudo e não fez coisa alguma, venceu mais uma vez. Em seu íntimo ele se vê como o toureiro que matou o miúra, o gladiador que matou leões, um semi-césar, ele sente-se o Grande Deus do Nada...

Amanhã será outro dia...

Outra luta.

Telefone continua tocando...

Agora Agente Mostarda está sentado em seu trono, olha para o relógio de pulso, com ar falsamente parvo comenta enquanto puxa do funda de sua gaveta um sanduiche de mortadela:

- Chefe Ney é um incompetente, fala e fala e não explica nada. - Perdigotos são disparados em todos os pontos cardeais e colaterais.

Telefone continua tocando...

A Viuvinha, decana das viuvinhas de repartição com os olhos mais fundos ainda (muita maquiagem, tá na cara!), voltando do banheiro onde estivera chorando até agora, comenta com a tia do café, de passagem no momento:

- Esse cara é envolvente, sempre sério, parece que está engajado em não produzir nada – seus olhinhos fundos de viuvinha profissional brilham lúgubres – um vagabundo fantástico... – Não a toa está galgando uma chefia aqui.

Pegando a tia do café pelo braço, indaga:

- Ele se locupleta? É solteiro?

15h23, os demais funcionários fogem.


(Som de gongo!)

Telefone continua tocando...

(Cai o pano)




*Aqui a modéstia e o medo de um processo nas costas me impedem de declinar-lhe o nome real

.** Novamente o medo e a prudência me impedem, outra vez, de declinar-lhe o nome recebido na pia batismal.




2017/03/08

UMA BELEZA DE COMENTÁRIO!

Nene Pirajui:

Borboleta
O noroeste sopra
a borboleta, azul,
de volta

Soube que noroeste é um fenômeno daí
os transtornos, mal estar, inquietação
só vivenciando...

Talvez por isso a borboleta volta.

no aroma do café
uma ideia uma
Inspiração- papel
se  eu fosse traduzir em imagem seria esta:


                      Isqueiro

a mão em concha
um sol particular
meu céu azul
Esse  foi meu preferido !!!!
Ele é cênico, tem plasticidade é muito envolvente!
As últimas folhas em branco ,
faz materializar um propósito
somos  todos poetas também
Se não pela arte da escrita ,
talvez pelo modo de olhar,
de sentir .....de viver!!!
        Parabéns
           sua sempre leitora
                                Nenê




2017/01/13

2016/11/22

O VELÓRIO



Não, não foi nada fácil estar ali. Café de coador, ralo, sem gosto e, com adoçante, pior. Gente quase desconhecidas, quase totalmente esquecidas zanzando por ali. Choro, chororô, dramas, ceninhas, um espetáculo patético...
Pois é, eu não queria estar aqui. Trabalhando o dia seria bem melhor, e olha que meu emprego é...
Mas estava lá, ponto final.
Não, antes fosse, é só um ponto e vírgula.
Arrumei um cantinho, acendi um cigarro, lamentei a falta de um café decente, e sob uma árvore fiquei quietinho.
Procurava alguém para conversar. Qualquer um serviria desde que não estivesse chorando. Sei, é pedir muito num velório, mas tinha que haver um contador de piada, um desafeto do morto ali duro.
Sei que parece uma atitude desalmada e antipática, mas velório é um pé no saco de qualquer um, imagino que até do cadáver ali, louco para ser enterrado de vez...
Olho pro relógio. Quanto tempo vou aguentar aqui? Velório em dias quentes de verão... Devia ser proibido morrer no verão. De preto, esse sol lascado na cabeça. Desumano, pro morto tudo bem, mas para os vivos... Os cheiros daquelas coroas de flores... As velas... o inferno de perfumes baratos...
Meu Deus! Onde estou com a cabeça para pensar nessas besteiras?
O sol, sim o sol - estou parecendo um Meursault* acusando o sol. Apalpo-me, não, não trago uma arma nos bolsos, graças a Deus. Começo a espanar minha roupa para disfarçar um pouco, tem gente me olhando de um jeito estranho... Outra árvore, outro cigarro. Não crio coragem para ir ver o morto, não fossem os sanhaços já teria saído correndo daqui.
O féretro saia às dezessete horas, ainda falta muito, assim sairão dois féretros.
Será que pega mal tomar uma cerveja? Muito quente hoje...
Daqui dá para ver o caixão cercado, o que será que falam, o que conversam? Será que já estão a dividir os bens do defunto? Aposto que aquela loira magrela chora de desgosto, deve estar fora do testamento dele... Cara de mercenária, maquiada daquele jeito... Querendo impressionar quem? Será mãe de algumas daquelas crianças correndo por ali? Vendo bem, vendo bem mesmo, não há ali nenhuma que se pareça nem vagamente com ela.
Tem um gordo suarento que se continuar quente assim enfarta logo - logo depois de mim. Terno de lã e gravata apertada daquele jeito num dia como hoje...
Continuo a chutar pedrinhas, evitando chegar ao caixão. Mas tenho que fazer isso logo, vejo, faço uma cara de mártir, finjo engolir um soluço, com os olhos rasos d’água olho piedoso para as pessoas à minha volta, dou minhas condolências à viúva (aproveito para ver a cara daquele biscate loira) e vou embora, mais ou menos assim: - “Missão cumprida!”
Simples assim.
É só dar uma tragada bem forte no cigarro e, feito uma locomotiva soltando fumaça, ir em direção ao caixão.
Primeiro passo...
...segundo... alguma coisa está acontecendo...
...terceiro..., a loira saiu reclamando alguma coisa...
...perfume barato, cabelos tingidos, torceu o pé por causa do salto alto nos pedriscos, passa quase voando por mim e agora está calçadas xingando alguém.
Entro, e...
Meu Deus, todo esse tempo enrolando e estou no velório errado.


















2016/05/11

2016/04/29

SOBRE LEGUMES E FLORES




Brigavam. Qual casal não briga? Discutem, tem lá suas diferenças! Seus pontos de vista divergentes! Contrastantes! Brigam por uma parede azul que deveria ser verde, de irem pela direita quando ela (sempre ela) que ir pela esquerda, por muito sal, por pouco açúcar!
Brigaram. Discutiram. Sabe-se por que, qual a razão (se é que havia uma razão, um com razão, ou os dois errados). Disseram-se palavras duras. Feriram-se com terríveis pejorativos, feios predicados, lembranças deturpadas, vomitaram todo o fel.
Brigaram, viraram a cara um para outro, cada um seguiu seu caminho, tropeçando em cada pedra do caminho, errando as escolhas em cada encruzilhada, trocando Norte por Sul, Leste por Oeste, erraram enfim por caminhos outros...
Separaram-se.
Mas o tempo passa, às vezes passa por cima da gente, ora por cima dos problemas, mas o tempo passou...
O fulano (não declinarei o nome, não percam tempo ligando para a redação!) tornou-se mais amigo que antes. Andávamos juntos e eu a ouvir-lhe as lamurias, a ver-lhe lágrimas correndo pela cara, assistir seu lento desmoronamento – que começava pela corcunda recém-adquirida, sola dos sapatos gastos...
Mas o tempo passa. O tempo nos afasta dos bons e dos maus...
Um dia, anos depois reencontrei esse amigo. Abraços, tapinhas nas costas e a famigerada pergunta:
- Vamos beber?
- Vamos! (fomos)
Ele me conta que hoje estão casados, felizes, sem filhos, (talvez por isso felizes?) (cartas pra a redação!) ainda pressuroso. Cheio de dedos pergunto, com muito rodeios, como foi que acabaram se acertando (bem que poderia ter perguntado sobre o sentido da vida, mas não!)...
Ele ri. (achei bom sinal, há muito não o via sorrir, quantos mais rir à bandeiras despregadas), então ele me conta:
- Louco o negócio, muito louco, até para os meus padrões de loucura. Passamos meses separados ruminando ódios, pensando besteiras, aquela desgraça toda que nos passa pela cabeça quando estamos sós, sabe? (não, não sei!, garanto-vos!). Ela não respondia meus telefonemas, as cartas eram devolvidas... Aquela miséria desgraçada que você (eu) acompanhou, (nada disse – sou discreto como um cavalheiro inglês - mas ele acabou ficando meio curvado..., mas guardei essa má impressão, afinal ele me parecia realmente feliz) até que um dia ela aparece em casa trazendo uma cesta de palha (palha? Acho que era de vime, mas deixemos isso pra lá). Olhou-me nos olhos, aqueles olhinhos amendoados, apertadinhos, míopes, úmidos, e disse que aquilo era para mim. Olhei para a cesta entre espantado e encafifado, mas sabe como são as mulheres, não é (sim eu sei, não entendo, mas sei como são...) e não disse nada, mas evitava ficar olhando muito para a cesta, quando, passada a emoção de me ver (mulher é besta mesmo) ela disse:
- Dia desses, andando pela feira lembrei de você. Comecei a chorar, mas como chovia ninguém percebeu. Quanto mais chorava mais lembrava de você (quem as entende?) até que passei por uma barraca cheias de umas flores tão exóticas, mas tão esdrúxulas (e olha que essa mulher o amava...) que não me contive, comprei essa dúzia que tinha lá, fiz essa cestinha com amor e vim aqui te pedir desculpas e perguntar se você me aceita de volta...
Confesso que quase me emocionei, mas segurei a onda, antes de tudo sou um forte!
Contou-me que se abraçaram, se beijaram e, que emocionado confessou-lhe que hoje, sim hoje, hoje mesmo, naquele maravilhoso momento ele chegara à conclusão que ela era mulher de sua vida, sua alma gêmea, a outra metade da laranja!
- Catso! - Como você chegou a tal conclusão? (já estava me irritando com tanto drama!)
- Cara, ela tinha trazido para mim uma cesta cheia de alcachofras! Ela confundiu flores com legumes, mas fez isso por amor por mim. Chorei junto com ela!
Abracei-o fortemente, (quase o quebrei ao meio), desejei-lhe toda felicidade do mundo, olhei para meu relógio, dei-me um tapa na testa e disse-lhe que tinha um compromisso inadiável.
Fui-me.
Nunca mais o vi*.









2016/03/24

2016/02/05

OS AMORES E SUAS DORES





Dia cheio quando ele chegou, um daqueles dias em que o cristão se pergunta por que não nasceu um Rockefeller, Gates, ou mesmo um “Seu Manuel” da quitandinha, que tem mais dinheiro que eu.
- Ela é casada com o careca, o garçom que nos atende – Falou-me assim de chofre enquanto eu pensava nas minhas dívidas.
-Quem? Casada com que careca? Então era por isso que ele vive com aquele chapéu?
                   - Luzia – murmurou, entre suspiros dolorosos.
 Longos cabelos negros escorridos, olhos lindos e profundos, pés pequenos, mãos brancas de dedos longos, unhas vermelhas, e sempre muito simpática pensei naquele momento, mas guardei para mim tais pensamentos...
Mas guardei para mim tais pensamentos...
Ainda atordoado pela chegada súbita dele, fiquei a olhar para o nada.
- Vi no facebook do restaurante  a foto dela abraçada com o careca...
- Mas você não achava que eles eram irmãos?
Guardei para mim a decepção! Mas logo a compartilharia com os outros colegas que iam almoçar lá só por causa dela... Afinal quem divide, multiplica!
- Me iludia, me enganava – resmungava o pobre homem - tentava cobrir o sol com a peneira... Ela me hipnotizava.
-... (Sem palavras. Segurava o riso. Tenho medo dele!)
- Pobrezinha li que ela não tem mais a mãe...
- Perdeste a chance de ser feliz duplamente... – Sou um cínico, sei!
- Como? – indagava quase babando.
- Ter a Luzia e não ter uma sogra... (por pura piedade deixei de falar que ainda assim teria um cunhado!)
- Essa é história da minha vida... (houvesse uma plateia a nos assistir, esse seria o momento do suspiro coletivo!)
- E agora? – Senti que a pergunta era como passar sal na ferida. Eu não presto mesmo!
- Volto ao Português... – declarou decidido - Lá como à vontade e pago menos. Acho que o marido a explora. Ele a colocou ali, linda daquele jeito!, só para atrair freguesia.
Feito um vereador em cima de caixote, ele continuava com seu discurso inflamado:
- Tenho certeza. – disse peremptório. Aquele cafetão! – disse seguido em soco na minha mesa.
Não fosse o susto, juro que o aplaudiria!
Tive vontade de colocar mais lenha na fogueira e acrescentar que ela gosta de coentro e quem gosta disso boa gente não é... Mas ele sabe da minha implicância com esse vegetal... Além do mais, se a  minha mesa sem dizer nada levou um murro, imagine eu? Guardei para a mim o comentário...
- Sim, afinal a comida no restaurante dela não era mesmo grande coisa, não é? – ai não sei bem se ele se engava ou tentava me convencer. - E aquele negócio do careca falando toda hora “bom dia senhores, bom dia cavalheiros, bom dia senhoritas.”, aquilo me irritava deveras... Coisa pouco máscula para um restaurante no porto... Só lamento o mau-gosto dela – quase, quase falei no coentro!.  – disse seguido de mais suspiro capaz de fazer estátuas chorarem.
Tive vontade de discordar. Mas diante daquele olhar de cachorro abandonado na chuva não tive ânimo...
- Mas no português tem a... – ele me interrompe. Não lhe agrada que eu o lembre de seus amores frustrados. Senti uma vontade muito grande de descrever a pele de seda dela, o gingado, o tratamento diferenciado, mas o medo falou mais alto, outra vez!
- Sim, tem ela, mas já a superei. Hoje a vejo com outros olhos. Sinto-me um quase irmão dela... – dessa vez sou eu que o interrompo.
- Não se iluda seu velho descarado... Tive ganas de perguntar-lhe se já havia comprado umas borboletas azuis, mas o meu bom-senso achou melhor deixar isso prá lá... Me arrependi de tê-lo xingado. Pude ver mais um futuro-pretérito desfazendo-se à minha frente. Lá se ia o sonho do casamento, da família, do Juninho, do labrador chamado Bonifácio, a criação de curiós... Tudo se desfazia...  Do cenário idílico só sobraram os pombos voando sob um céu que há pouco tempo era azul, era promessas, era um mundo que... Poetizo, deliro, viajo nesses momentos... Sou um sentimental incurável! E há quem diga que não tenho coração...
Ficamos em silêncio por um tempo...
Ele olhou para o teto, achei que fosse reclamar das rachaduras, das paredes descascadas, das sujeiras das janelas, quando ele me sai com essa:
- Hora de irmos ao quinto andar!
- Voltou a fumar passivamente?
- Não sei como consigo viver nesse mundo sem o seu cigarro!
Eu ia tocar no assunto das borboletas azuis mas resolvi deixar esse assunto pra lá...