2018/04/10

CASA DE CHÁ “A GUEIXA E O SAMURAI”



- “Acho que esse negócio não vai dar certo, esse povo aqui não tem sensibilidade (na verdade quis inteligência, mas achei melhor usar outra palavra, assim, mais suave...) e perfil para isso.” - falei, mas ai já era tarde demais, como vocês perceberão. Antes de qualquer coisa, mais uma caneca de saquê. Sigamos com essa triste desdita:
1.                 O Severiano – Biu - para os íntimos demorou muito tempo para entender qual o papel dele naquele drama. Aquela roupa, penteado, tamancas de madeiras, aquele chapéu de bambu que mais parecia um funil era demais para aquele pobre e minúsculo cérebro desidratado e anêmico. Vivia reclamando pelos cantos, demonstrando seu descontentamento, tantos às meninas, ao patrão e pior, aos fregueses... Não poderia dar certo mesmo... Toda hora ruminando: - O que mãinha vai pensar se me vir assim? Cadê meu facão? Homem macho de verdade não se submete a essa vergonha... – Resumindo, demorou até que demais para isso tudo dar errado.
2.                 As meninas então. As quatro que o patrão convenceu a entrar nessa empreitada... Suzaninha, a Yuriko; das Dores, a Yushiko; Tiana (Sebastiana) a Tashiko e a Mariinha, a mais nova, chamada de Flor de Lótus, não tinham o menor perfil para a empresa. Elas nem sabiam o que estavam fazendo lá. Foi um inferno do começo ao fim. Será que era assim tão difícil assim entender a diferença entre servir chá e prostituição?
3.                 A casa. Balancei a cabeça até quase cair do meu pescoço quando a vi. Não sabia qual pergunta gritar primeiro. Onde o patrão arrumou uma casa de bambu e paredes de papel ou quem foi o louco que construiu aquela obscenidade para ele? Detesto a miséria, não porque ela nos priva de muitas coisas, mas porque ela nos submete a muitas outras coisas piores... Via aquele sobradão, bandeirinhas na entrada, portas de correr – que tinha certeza seriam chutadas para frente quando entrasse o primeiro freguês. E aquelas paredes feitas de papel de seda com motivos orientais, aquelas borboletas, Monte Fuji, japonesas de sombrinhas... Tudo ali cheirava a erro e prejuízo... Consolava-me repetindo o mantra (aprendi isso com um velho careca vestido com uns panos cor de laranja que o patrão trouxe para conhecer a casa): “Isso não problema meu, esse não é meu dinheiro, meu salário está depositado no banco.” Aquilo tinha tudo para dar errado, mas por que só eu percebia isso?
4.                 Vistoriando a dispensa chamei a atenção do patrão para o detalhe das bebidas: - Saquê e chás? Explicou-me o douto empresário que ele formaria uma comunidade, educaria uma geração, prepararia aqueles miseráveis para o mundo! – Arrogância! – sibilei. Nenhuma cachaça patrão? Nada de carne de sol? Neca de farinha? Sem sanfoneiro?
5.                 Música! Toshinori-San! Nosso tocador de berimbau de arco ou coisa parecida com isso! Fracasso esperado e cumprido. Onde que, na nossa cidade, alguém ia sair de casa à noite, depois de um trabalho nesse calor dos infernos para ouvir um sujeito tocando berimbau e ainda por cima com arco, um óin-óin-óin de furar os ouvidos de qualquer cristão! Não ia dar certo, não ia dar certo, mas eu repetia: “Isso não problema meu, esse não é meu dinheiro, meu salário está depositado no banco.”.
6.                 Primeiro dia, quinta-feira: As pessoas passavam de outro lado da calçada com medo de serem visto diante daquela casa esquisita, tinham medo que com um vento noroeste mais forte ela viesse abaixo. Segundo dia, a mesma coisa. O cheiro do prejuízo começava a atrair moscas.
7.                 Sábado. O grande dia. Toshinori-San no cantinho dele tocando aquele instrumento amaldiçoado dos infernos espantava as moscas, Yuriko, Yushiko, Tashiko e Flor de Lótus, todas vestidas de quimonos com motivos florais, sentadas no chão de tatame em volta de uma mesinha esperavam pelos fregueses.
8.                 Severiano, travestido de Samurai, kataná à cintura, cajal reforçando seus falsos traços asiáticos e com cara de bravo (motivado pela briga na hora de maquiar os olhos; - Se mãinha passa aqui e me vê maquiado feito quenga?) não ajudava muito a atrair fregueses...  Aquele cheiro me perseguia. Reclamando ao patrão sobre isso, tudo o que ele fez foi mandar queimar uns incensos...
9.                Por fim, às 23h00min horas (precisei chamar as “gueixas que já haviam se recolhido com os quimonos, pois não havia modo de colocar naquelas cabecinhas que quimono não é roupa de dormir) entraram uns estudantes de Direito. – O cheiro de prejuízo nesse momento tornou-se insuportável, mas: -“Isso não problema meu, esse não é meu dinheiro, meu salário está depositado no banco.”
10.                       Os estudantes sentaram-se à volta da mesinha de laca preta com motivos iguais às cortinhas e dá-lhes Monte Fuji coberto de neve (um estranho conceitos pra essas bandas que nem inverno tem), borboletas e as japonesas com sombrinhas (segundo estranho conceito, pois aqui não chove e nunca passou pela cabeça de ninguém por aqui se proteger do sol), pediram cerveja; - Cerveja não servimos senhores, respondeu Yuriko sorrindo um sorriso de dentes amarelos e tortos causando a segunda má impressão.
11.                       - Uísque! Pediu o segundo. – Uísque também não servimos senhor, respondeu Yushiko solícita e medrosa – não sorrindo para evitar piorar ainda mais situação (o pivô do canino estava perdido desde ontem).
12.                       Toshinori-San entusiasmando-se com a presença de fregueses – alguém haveria de reconhecer seu fabuloso talento, segundo ele – furiosamente começa a executar uma peça clássica do Japão Feudal, e o óin-óin-óin come solto!
13.                       Positivamente a música não acrescentou nada de positivo ao ambiente. Por via das dúvidas pedia a Severiano, o Samurai da tabuleta na porta, que vigiasse os fregueses enquanto ia lá escritório buscar mais incensos.
14.                       Nos fundos, lá no escritório comecei a ouvir uns risinhos, sorri junto e comecei a abanar o cheiro de prejuízo das minhas narinas, abri a gaveta da escrivaninha para guardar de volta as varetas de incensos e retornei lá prá frente...
15.                       Esse é o momento que tudo fica confuso, nebuloso, turvo, pois onde eu deveria ouvir risos e selvagens óin-óin-óin-óins reinou por longos e intermináveis segundos o mais profundo e negro dos silêncios. Mal tive de recorrer aos incensos, fui apanhado pelo cheiro do prejuízo e tudo começou a se acabar.
16.                       Yuriko, Yushiko, Tashiko e Flor de Lótus corriam descalças em direção à rua aos gritos, os cabelos soltos (que trabalho tivemos para alisar aqueles fios crespos e rebeldes), os estudantes de direito atrás delas e de facão na mão, esquecido de sua kataná de bambu, Severino com os olhos manchado de cajal. As paredes de papel de seda destruídas estavam espalhadas pelo tatame, pedaços de borboletas, de japonesas com sombrinha, restos do Monte Fuji por aqui e por ali...
Dizem que encontraram Severiano andando pelas ruas murmurando palavras que ninguém entendia e segurando uns pauzinhos que soltavam fumaça...
Os mandacarus floresciam, talvez chovesse, enfim...



PELA MANHÃ


urubus sobre uma carcaça
num poste - soberbo
feito burguês – um pombo

2018/04/06

JAGUNÇO





Acabo de voltar da rua, encharcado até os ossos.

Mas não quero reclamar da chuva, nem da falta dela onde mais se precisa que aqui. Para isso temos os noticiários que não nos deixam esquecer. Na rua, lembrava-me de uma conversa que tive pela manhã.

Uma amiga reclama do fim de seu casamento e de não conseguir colocar o ex-amor para fora de casa, antigo ninho de amor, promessas e agora sonhos desfeitos e cuecas sujas.

Segundo ela, há vários dias deu ao companheiro o aviso-prévio, o caia fora, rua.

Mas ele faz-se de desentendido e continua assombrando as paredes do lar.

Dizia-me ela, que já não mais se falavam, faziam as refeições em horas diferentes, dormiam em quartos separados.

Todos os dias ao sair para o trabalho recomendava (creio que esse recomendava é eufemismo) que ele não estivesse mais em casa à hora que ela voltasse, mas, ó desilusão!, ao chegar encontrava o mancebo largado no sofá assistindo futebol televisão, gritando a cada gol de seu time, esperando ainda que ela lhe fizesse o jantar ou pipoca. Se isso remete o leitor a um samba antigo é pura coincidência.[i]

Ri de sua situação. Diga-me o leitor o que se pode fazer numa circunstância dessas?

Pediu-me conselhos. A mim, logo a mim!

Ri uma segunda vez e perguntei-lhe se falava sério? O que poderia eu dizer-lhe, como eu poderia ajudar-lhe. Esse é caso em que terceiros não ajudam em nada e podem (e) conseguem somente atrapalhar.

Indaguei se não seria uma fase, pois o casamento como a lua tem lá suas fases. Como a maré (coisa de quem mora no litoral) tem lá seus altos e baixos...

Resumindo, fui tirando meu time de campo colocando panos quentes, saindo pela tangente.

A conversa prometia ir longe, com detalhes e mais detalhes, não ninguém pela minha sala, nem um estagiário com papeis para arquivar, ninguém vendendo uma rifa de qualquer coisa, não tocava o alerde de incêndio para assim eu poder sumir dali. A palavra como flecha, depois de disparada não tem volta (eis aqui uma pérola de profunda sabedoria!), assim sendo tentei fazer a velha amiga não abrir tanto assim seu coraçãozinho.

Debalde.

As horas tantas, sim horas “e” tantas (mesmo) ela visivelmente desesperada (aqui não nos cabe julgar se seria caso para tanto desespero) me pergunta:

- Você que conhece tanta gente em tantos lugares, não conheceria algum jagunço que desse uma lição, ou mesmo leve susto nele?

Veja leitor, eu conhecendo um jagunço, eu?

Não foi possível outra vez segurar o riso.

Senti uma mágoa profunda nela, pois, agora sim, era visível sua desesperança.

Tentei desviar a prosa para outro tema menos denso.

- Olhando pela janela vejo que vai chover logo. E comentei displicente:

- Acho eu vai chover...

Pausa.

Pensei com meus botões, ela deveria estar constrangida com seu desabafo, envergonhada da sugestão de dar um fim definitivo no futuro ex-companheiro, talvez já se imaginando nos jornais da noite, horário nobre na TV. Cadáver retalhado encontrado num terreno baldio, ou pedaços de um homem e encontrado espalhados numa praia, sei lá o que se passa na cabeça de uma desesperada... Nunca coisa boa!

A cara estampada na capa de uma revista sensacionalista!

A cena desenvolvia-se em minha cabeça...

Esperei mais algum tempo e seu silêncio continuou ate minha hora de almoço. Sem mais nenhuma palavra, desliguei o computador e saí, deixei-a a contar os urubus que voam, talvez adivinhando o uma futura carcaça, sei lá...

Na rua pensava ainda na sua pergunta sobre eu conhecer um jagunço, e lembrei que há uns trinta anos, quando jovem e fazendo teatro amador, sai uma noite - sim aqueles casos com o Vadinho como sempre - a procura de sanfoneiro para uma peça que montávamos à época...

Ora bolas, eu lá tenho cara de quem conhece sanfoneiros e jagunços? Poderia ter me aprofundado mais no assunto, não fosse a água fria de a chuva me trazer de volta à realidade.






[1] Golpe Errado
Geraldo Pereira

Lá vem ele com seu terno branco engomado/trazendo outra morena a seu lado/E a nega dele na casa da branca se acabando /E ainda leva o jantar embrulhado/É... um golpe errado/todo mundo diz que é../um golpe errado/Na hora que ele sai /pra batucada/é a hora que ela chega do trabalho/e tem de fazer de madrugada/um bife malpassado prá ele /Não ficar contrariado./É...um golpe errado








SOMENTE UM CIGARRO ME BASTA AGORA



OUTRO PEQUENO DRAMA-RELÂMPAGO



Luz sobre um homem que fala.
Não se vê mais ninguém, ouve-se somente a sua voz.

- Nada, nada a declarar! – só isso tenho a dizer a cada um de vocês. Não me sinto com obrigação de falar nem uma única palavra sequer! Sim, dei o tiro, mas poderia ter sido uma facada, uma paulada, uma pedrada, uma garrafada como nos filmes de ação. Mas resolvi que deveria dar um fim naquela situação um simples e rápido tiro. - “Pum! Fração de segundo depois o corpo no chão. A mancha vermelha no assoalho. Minha arma ainda fumegante também ali caída, e no piso deixei as marcas de meus sapatos que seguiram vermelhos pela sala, para a saída do apartamento. Não pensei em correr, em fugir, em me esconder. Era patente o meu desejo, a minha ânsia, só não viu quem não quis, quem não quis se envolver, tomar partido, meter a colher.  Aqui estou dando meu depoimento. Perguntem e responderei, sequer alegarei ser réu-primário, um cigarro nesse momento me basta. Não, não sinto qualquer tipo de arrependimento, nem culpa, nem frio, nem nada, somente a vontade de fumar um cigarro. Cumpra-se a Lei, sigamos a Ordem, façam a Justiça. Eu já fiz a minha. Estou em paz. E vocês? Poupem-se de me perguntarem por que fiz o que fiz, não sou louco, logo motivos tive, e ouso dizer, tive-os e muitos! Não os enumerarei, não me justificarei, cumpram o rito e condenem-me logo. Não quero ir ao velório, nem ao funeral, por mim que joguem o corpo aos abutres ou deem de pasto às chamas. Minhas última palavras?

- Um cigarro, por favor.



Luz apaga lentamente

Silêncio.

Cai o pano




2018/04/04


MENINAS



F
oi um sentimento agudo no peito, uma pontada, fisgada –angina? -, coisa rápida, de segundos. Logo passou, mas para Fialho, Antonio Fialho da Silva, era o aviso. Voltou para dentro de casa e dirigiu-se a seu escritório, lá ele sentou-se em sua poltrona de couro e ficou fitando o telefone. Ligaria? Esperaria que o aparelho tocasse? Olhou para a garrafa de uísque, pegou o copo de cristal, mas resolveu que não beberia dessa vez. Fizesse o que tivesse que fazer, o faria sóbrio. Passados minutos, poucos minutos, resolveu ligar.

- Alô? – atendeu uma voz feminina do outro lado.

- Sou eu... – falou reticente –, você também sentiu? Coisa de meia hora atrás?

- Sim, mas dessa vez esperei que você me ligasse. Por mais que isso me aconteça, não vou me acostumar jamais – disse num misto de tristeza e certa mágoa resignada. – Minha situação aqui está insuportável... – queixou-se chorosa.

 - Mas o que você espera que eu possa fazer? Acha que eu tenho algum controle sobre isso? Pensa que faço isso de propósito? Que quero de alguma forma me vingar ou te prejudicar? Entenda, não quero nada...

(silêncio ensurdecedor...)

- Como faremos? – ela perguntou friamente, como se essa fosse uma mera transação comercial. Acha que será primeiro comigo ou com você?

- Não sei, não sei o que acontecerá... – desculpou-se em vez de responder. Vamos esperar.

(silêncio escandaloso...)

- Está certo – disse ela. - Vou preparar um quarto e meu espírito para ter que explicar tudo isso outra vez. Não sei como isso pode acontecer a alguém, muito menos quatro vezes, quatro vezes seguidas... – suspirou.

Desligou o telefone sem dar outra chance de ouvir as desculpas de Fialho, o velho, desde sempre o velho Fialho.

Uma hora e meia depois um toque de campainha fez Mariana lembrar-se do “compromisso” forçado para o dia de hoje. Desde o telefonema de Fialho passara o resto da tarde preparando um bolo e biscoitos, pois seria uma tarde muito longa para conversar de estômago vazio e garganta seca. Por via das dúvidas, caso a conversa se prolongasse muito, sempre haveria uma garrafa de Porto para socorrê-la. Deixando os pensamentos de lado foi atender a porta.

Respirou fundo e preparou-se para o “choque anunciado”.

Arrumou os cabelos precocemente – segundo ela - brancos num coque, beliscou as bochechas e abriu, por fim, a porta. E lá estava uma mulher de seus trinta anos, magra alta, longos cabelos negros e – surpresa entre as surpresas – trazia no colo uma criança de uns três ou quatro meses...

- Meu Deus, seus delírios não têm limites Fialho? – quase gritou em direção aos céus num sobressalto.

À mesa.

Sentadas, xícara de chá às mãos, as duas mulheres se encaram, e esperavam o tempo correr para quebrar o gelo e começarem a entabular uma conversa com um mínimo se sentido e nexo.

Várias xícaras foram servidas e sorvidas...

(o silêncio pesava, quase envergando os caibros da casa)

Foi preciso que a criança acordasse com fome para que enfim começassem a falar.

- Qual o nome dele? – perguntou a Velha Mariana sem jeito e sem interesse e nenhum ânimo.

- Antonio Fialho da Silva Neto – e completou – como o avô! – e riu bobamente.

- Sem dúvida ele se superou, ele foi além do imaginável, do bom-senso, ele enlouqueceu de vez. – Mariana falava e deixava a xícara de chá partir-se no piso frio da sala.

Com o grito de susto da Velha a criança voltou a chorar.

- Mãe, você poderia me explicar o que está acontecendo?

Ao ser chamada de mãe, Mariana teve um calafrio e começou socorreu-se com um cálice de Porto. Serviu-se generosamente sem oferecer à outra, e tomando as rédeas da situação começou a contar a sua história.

- Antes de começarmos a conversar permita-me somente dar um telefonema.

Sem esperar qualquer anuência da parte da outra ela começou a discar, errou três vezes o número, quando por fim começou a chamar, pareceu uma eternidade até que atendessem do outro lado.

- Mariana? – a voz denotava apreensão.

- A...? Como é seu nome mesmo? – lembrou-se então de perguntar à visita.

- Elisabeth – respondeu secamente a mulher que nervosamente chacoalhava o nenê.

- A Elisabeth chegou, é melhor você vir aqui. Desligou bruscamente, como costumava fazer quando falava com Fialho.

Cruzando as mãos Mariana começou a falar.

- Elisabeth..., pelo menos esse nome foi bem escolhido dessa vez. Essa história, minha história quero dizer, começou a mais de quarenta anos, e como estou tão farta dela, serei o mais breve, sucinta, concisa possível. Poupe-se de me pedir detalhes ouça em silêncio e faz a criança não chorar! Eu era muito jovem quando conheci o homem que hoje você conhecerá como seu pai. Foi uma paixão dessas de mocidade que não deveria ter maiores conseqüências, não fosse eu ter conhecido o Fialho e ele ter se apaixonado por mim de uma forma que o mundo nunca viu, e espero que nunca mais venha a ver, pois isso poderia abalar as estruturas da sociedade e do espaço-tempo e da realidade como a conhecemos. Mas acho estou indo longe de mais em minhas divagações, esqueça o que eu disse sobre abalar as estruturas da sociedade, à vezes esse assunto somado às doses de cavalares de Porto me deixaram assim. Em outros tempos, no começo de tudo isso, eu me emocionava e chorava, agora teço teorias calamitosas...

Elisabeth pigarreia e Mariana volta ao assunto, a criança, ressona, voltou a dormir depois de mamar.

- “Pois bem”, me apaixonei pelo Fialho, na época um poeta parnasiano-tardio – que mais tarde enveredaria pelo concretismo sem sucesso também - mas nosso romance não tinha futuro, até porque eu não tinha pretensões de nada mais sério, minha inclinação sempre foi religiosa e por fim, pouco tempo depois ingressei numa ordem religiosa e esperava que minha história se acabasse por lá, longe de tudo, do mundo e assim terminar minha vida em contemplação sem complicações. Até que um dia, quinze anos atrás, apareceu a sua primeira irmã, na verdade a caçula...

Elisabeth engasgou-se com o biscoitinho.

-”Não me faça perder tempo com tapinhas nas costas” – rosna. Preste bem atenção, pois não consigo mais contar essa história sem-pé-nem-cabeça sem acabar o dia com uma enxaqueca.

- “Um dia batem à porta do Convento procurando por mim, era uma moça, bem mais nova que você – afinal ela nasceu caçula, coisas de seu pai – contou-me que simplesmente havia dado por si ali, em frente àquela porta, sabendo que eu era a sua mãe e que precisava falar comigo. Imagine a minha surpresa, eu virgem velha – bem menos àquele tempo, claro – e com uma filha que eu desconhecia me procurando. Imagine o escândalo, e como foi minha expulsão.

“Não me peça detalhes, aliás, nada me peça. Depois de Clara, sim, Clara é o nome de sua irmã caçula, veio a Laura, a segunda, ela vem logo depois de você e a terceira é a Leonora. Mas para eu conseguir entender tudo isso foi preciso passar muito tempo, até que eu conseguisse encontrar e entrar em contato com Fialho. Resumindo, antes que eu esvazie meu Porto, seu pai me contou que nunca me esqueceu e sempre imaginou como teria sido a nossa vida, como teria sido a nossa família, e de tanto imaginar, ele estragou a minha vida, digo, criou vocês, fora de ordem, pois ele nunca foi organizado em nenhum ponto de sua vida...

“Hoje vivo da pensão alimentícia que ele me paga e só agüento mesmo essa situação graças às garrafas de Porto que ele me envia semanalmente. Não é nada pessoal, mas espero que você seja a nossa “última” filha, pois não nasci para a maternidade – olhando agudamente para a criança que agora dorme no canto do sofá –, tampouco para ser avó”.

Mariana emborca o resto do Porto, agora direto da garrafa, olha para o relógio, e diz:

- Logo seu pai chegará – suspira com forte hálito de vinho – junto com as suas irmãs. Por favor, segure o choro, senão começo a chorar junto, e não, não se engane, pois minhas lágrimas serão de desgosto, pois tudo o que eu queria era acabar meus dias no meu convento em meditação e preces.

A campainha toca e um cachorro late do outro lado da porta.

- Ah! Não! Cachorro, não Fialho!

REPUBLICANDO


NÃO CORTE OS PULSOS HOJE



não corte os pulsos
desligue a billie
não ajudará em nada essa dor
ponha o copo no chão
lentamente feche  a janela
não corte os pulsos
guarde a faca de volta na gaveta
ponha o disco de volta na capa
a billie não pode ajudá-lo nesse momento
a bebida só anestesia
mas não o faz esquecer
repita e repita
(a si mesmo)
não corte os pulsos
aquelas cartas
aquelas linhas tortas de paixão
aquelas folhas amassadas
rasgadas
rabiscadas
esqueça tudo isso
esqueça
e lembre-se
não corte os pulsos
tente amanhã
tente outra vez amanhã
mas para haver um amanhã
é preciso muito que você
não corte os pulsos




2018/04/02

O CÉU É MAIS AZUL NO OUTONO



chacais velhos encarnados
em ovelhas gordas
todos sem presas,
uns sem dentes e a maioria sem cabelos
pastam em verdes campos de
memórias, lembranças (lambanças...) e delírios
riem babentos
e quase senis
esperando pelo abate
ou pela morte natural
(o que vier primeiro está bom...)
lembram de triunfos de antanho
velhos planos de conquistar o mundo
(aquele “mundo, mundo vasto mundo”!)
das revoluções (há!)
das dinamites (bah!)
das explosões (que não houveram!!!)
e dos palcos...
agora
apagam-se as luzes
e
baixam
as
cortinas




- Aplausos, aplausos, aplausos!



(- ouço ao longe um BRAVO!?)




2018/03/29

ARTE NO BAR “MOSCA FRITA”




Vejam isso, tem coisas que só acontecem naquele bar – conhecido como “Mosca Frita”, tido e havido como o melhor pé-sujo da região.

Depois da proibição de fumar dentro do bar ou mesmo sob sua marquise, cuspir no chão, pendurar a conta, trazer uísque de casa e usar o gelo do bar os fregueses passaram a reclamar das músicas que o galego tocava lá. Era breganejo, pagode, forró, dor-de-cotovelo, dor-de-corno, dores-de-amores, sofrência, boleros e guarânias e outras tantas misérias musicais que rara era a noite que um ou outro não tentava cortar os pulsos com um caco de garrafa de cerveja, beber aguarrás ou pular debaixo de algum ônibus.

 Pois cansado dos protestos, ele resolveu inovar, e resolveu colocar cultura no boteco e vejam só a encrenca que ele criou.

Noite de sexta-feira.

Entra um casalzinho, desses moderninhos, descolados, do tipo que colocam no C.V.: “uma aventura num barzinho de subúrbio” - procuram uma mesa bem discreta nos fundos, perto da cozinha e ao lado dos banheiros, dão-se as mãos, olham-se nos olhos, pedem uma coca-cola diet com gelo de água mineral e limão siciliano e dois copos – no bar do Galego não tem canudinhos, por questão de higiene, a vigilância sanitária descobriu que o galego os reaproveitava, mais uma Vistoria Vitoriosa do Fiscal Dr. Vadinho, O Implacável...

Ela, segurando a mão do rapaz começa a falar-lhe bobagens aos ouvidos, quando de chofre a luz se apaga, surge o galego trepado uma pipa de chope e começa a declamar:

(silêncio de perplexidade)


- Galego - Atenas. O pa­lá­cio de Teseu. Entram Teseu, Hipólita, Filóstrato.

E saem dos banheiros, um homem e uma mulher com os corpos cobertos por toalha de mesas de mesa e começam a falar:

- TESEU - Depressa, bela Hipólita, aproxima-se a hora de nossas núpcias. Quatro dias felizes nos trarão outra lua. Mas, para mim, como esta lua velha se extingue len­ta­men­te! Ela retarda meus anelos, tal como o faz madrasta ou viúva que retém os bens do herdeiro.


(silêncio de perplexidade mais intenso ainda)

- HIPÓLITA - Mergulharão depressa quatro dias na negra noite; quatro noites, presto, farão escoar o tempo como em sonhos. E então a lua que, como arco argênteo no céu ora se encurva, verá a noite solene do esposório.


- TESEU - Vai, Filóstrato, concita os atenienses para a festa, desperta o alegre e buliçoso espírito da alegria, despacha para os ritos fúnebres a tristeza, que essa pálida hóspede não vai bem a nossas pompas. (Sai Filóstrato em direção ao banheiro de onde saíra.) De espada em mão (na verdade um salame ainda envolto em parafina) te fiz a corte, Hipólita; o coração te conquistei à custa de violência; mas quero desposar-te com música de tom mais auspicioso, com pompas, com triunfos, com festejos.

O galego, com uma toalha de mesa xadrez verde e vermelha enrolada à volta da cintura, torcendo os bastos bigodes, diz emocionado:

Galego - Entram Egeu, Hérmia, Lisandro e Demétrio!


(silêncio, silêncio assustador)


O rapaz que segundos antes interpretava Teseu muda de toalha de mesa que antes era amarela, para uma toalha de mesa branca.

- EGEU -­ Salve Teseu, nosso famoso duque! - E mudando a toalha de mesa amarela para branco novamente,

- TESEU - Bom Egeu, obrigado. Que há de novo? – e mudando outra vez a cor da toalha de mesa.

- EGEU - Cheio de dor, venho fazer-te queixa de minha própria filha, Hérmia querida. Vem para cá, Demétrio. Nobre lorde tem este homem o meu con­sen­ti­men­to para casar com ela. Agora avança. Lisandro. E este, meu príncipe gracioso, o peito de Hérmia traz enfeitiçado. Sim, Lisandro, tu mesmo, com tuas rimas! Prendas de amor com ela tu trocaste; sob a sua janela, à luz da lua, cantaste-lhe canções com voz fingida, versos de amor fingido, e cativaste as impressões de sua fantasia com cachos de cabelo, anéis, brinquedos, ramalhetes, docinhos, ni­nha­rias, men­sa­gei­ros de e­fei­to de­ci­si­vo nas jovens ainda brandas...

Um copo é jogado contra o chão, todos se assustam. Começa o burburinho o encanto foi quebrado, acabou-se a magia.

Nesse momento crucial, eles são abruptamente interrompidos, pois a mocinha que tudo via sem nada entender, assustada começa a chorar e pede para ir embora.

- Você me prometeu uma noite romântica e me trás num antro de loucos? Cadê as músicas de amor, cadê os músicos seus amigos? Você me trás para ver essa indecência? Homens e mulheres seminuas vestida em toalha de mesas...
(as vaias dos bêbados enchem o ambiente)


O rapaz intelectual de esquerda, barbudo, cabelos cacheados, cachecol em volta do pescoço - eterno refém da ideia de uma revolução, quer cultural, quer social – que achando que impressionava a namorada, fica sem graça, olha envergonhado para os atores - esses sim seus amigos de Diretório Acadêmico, não os músicos citados pela namorada – chama o galego, e embaraçado, pede a conta.

Sua sorte, a única pelo resto da noite, era que o dinheiro que trazia no bolso deu certinho para pagar a coca-cola e o copo quebrado...

Levanta-se e segue em direção à saída, sob apupos dos bêbados que desde que despertaram do encanto esperavam uma briga, desce para a rua e grita pro galego:

- Eu falei que essa droga de William Shakespeare, não ia dar certo, da próxima vez tem de ser Plínio Marcos, Plínio Marcos, seu elitista idiota, burguês de subúrbio, o povão não quer arte, quer palavrão.

- Olha para a namorada que continua sem entender nada, afinal ela só queria um pagode para rebolar.

E assim mais um capítulo anônimo da Historia passa sem testemunhas e registro.

No dia seguinte o Galego escreve com giz na tabuinha na porta do estabelecimento:

Prato do dia: “Buchada de Bode com lentilhas, batatas ao murro e à noite ”Navalha na Carne”.

Ainda assim em seu íntimo pedia a Deus que a “distinta freguesia não imaginasse que navalha na carne não fosse um convite a brigas...”.

- Ai qu’um dia “bolto” a Portugal e às minhas “bacas”... – suspira enquanto seca o suor da testa com sua boina de lã.