2013/01/29

SEM TÍTULO



Assim se ufana

O canarinho

Num estribilho:

Liberdade é um sonho

Que não troco pela

Minha ração de alpiste

CRIME



Os ruídos saem em gorgolejos

Bolhas vermelhas

Escorrem pela túnica branca


2013/01/16

JAGUNÇO




Acabo de voltar da rua, encharcado até os ossos.

Mas não quero reclamar da chuva, nem da falta dela onde mais se precisa que aqui. Para isso temos os noticiários que não nos deixam esquecer. Na rua, lembrava-me de uma conversa que tive pela manhã.

Uma amiga reclama do fim de seu casamento e de não conseguir colocar o ex-amor para fora de casa, antigo ninho de amor, promessas e agora sonhos desfeitos.

Segundo ela, há vários dias deu ao companheiro o aviso-prévio, o caia fora, rua.

Mas ele faz-se de desentendido e continua assombrando as paredes do lar.

Dizia-me ela, que já não mais se falavam, faziam as refeições em horas diferentes, dormiam em quartos separados.

Todos os dias ao sair para o trabalho recomendava (creio que esse recomendava é eufemismo) que ele não estivesse mais em casa a hora que ela voltasse à noite, mas, ó desilusão, ao chegar encontrava o mancebo largado no sofá assistindo televisão, gritando a cada gol de seu time preferido, esperando ainda que ela lhe fizesse o jantar. Se isso remete o leitor a um samba antigo é pura coincidência. ¹

Ri de sua situação. Me diga o leitor o que se pode fazer numa circunstância dessas?

Pediu-me conselhos. A mim!

Ri uma segunda vez e perguntei-lhe se falava sério? O que poderia eu dizer-lhe, como eu poderia ajudar-lhe. Esse é caso em que terceiros não ajudam em nada e podem, ou conseguem somente atrapalhar.

Indaguei se não seria uma fase, pois o casamento como a lua tem lá suas fases. Como a maré (coisa de quem mora no litoral) tem lá seus altos e baixos...

Resumindo, fui tirando meu time de campo colocando panos quentes, saindo pela tangente.

A conversa prometia ir longe, com detalhes e mais detalhes, que só servem, no futuro, para nos deixar encabulados por tê-los ditos. A palavra como flecha, depois de disparada não tem volta (eis aqui uma pérola de profunda sabedoria), assim sendo tentei fazer a velha amiga não abrir tanto assim seu coraçãozinho.

Debalde.

A horas tantas, sim horas “e” tantas (mesmo) ela visivelmente desesperada (aqui não nos cabe julgar se seria caso para tanto desespero) me pergunta:

- Você que conhece tanta gente em tantos lugares, não conheceria algum jagunço que desse uma lição, ou mesmo leve susto nele?

Veja leitor, eu conhecendo um jagunço, eu?

Não foi possível outra vez segurar o riso.

Senti uma mágoa profunda nela, pois, agora sim, era visível sua desesperança.

Tentei desviar a conversa para outro assunto.

- Olhando pela janela vejo que vai chover logo.

Pausa.

Pensei com meus botões, ela deveria estar constrangida com seu desabafo, envergonhada da sugestão de dar um fim definitivo no futuro ex-companheiro, talvez já se imaginando nos jornais da noite, horário nobre na TV. Retalhado, encontrado num terreno baldio, pedaços espalhados numa praia, sei lá o que se passa na cabeça de uma desesperada.

A cara estampada na capa de uma revista sensacionalista!

A cena desenvolvia-se em minha cabeça...

Esperei mais algum tempo e seu silêncio continuou ate minha hora de almoço. Sem mais nenhum contato desliguei o computador e saí.

Na rua pensava ainda na sua pergunta sobre eu conhecer um jagunço, e lembrei que há uns trinta anos, quando jovem e fazendo teatro amador, sai uma noite - sim aqueles casos com o Vadinho como sempre - a procura de sanfoneiro para uma peça que montávamos à época...

Ora bolas, eu lá tenho cara de quem conhece sanfoneiros e jagunços? Poderia ter me aprofundado mais no assunto, não fosse a chuva me trazer de volta à realidade.









¹Golpe Errado

Geraldo Pereira

Lá vem ele com seu terno branco engomado/trazendo outra morena a seu lado/E a nega dele na casa da branca se acabando /E ainda leva o jantar embrulhado/É... um golpe errado/todo mundo diz que é../um golpe errado/Na hora que ele sai /pra batucada/é a hora que ela chega do trabalho/e tem de fazer de madrugada/um bife malpassado prá ele /Não ficar contrariado./É...um golpe errado

2013/01/14

IDEALISTA




Pobre homem

Cheio de amor e fé

Pela humanidade.

Padece

Planeja e sonha

Transformar lágrimas em risos

Doenças em saúde

Findar com a miséria

Criar, enfim, um mundo ideal

Te aviso pobre idealista:

- Nessa máquina as engrenagens são quadradas!

Pois saibas

Na verdade serás

Mastigado

Cuspido

E esquecido

A ti nem estátua

Nem placa de rua

Nome de manicômio

Serás pó

Esquecido

Ou pior

Hás de ser modelo de mau-exemplo!



2013/01/08

O MESMO




O despertador toca às seis horas em ponto.

Mais um dia, um dia igual ao de ontem, em suas alegrias e tristezas, o mesmo sol, as mesmas nuvens no mesmo lugar, como se fossem pintadas na tela azul do céu. O canto dos pássaros como num disco de vinil arranhado. E ele que gostava do canto dos sanhaços...

A campainha da porta toca.

- Mauro, passe amanhã. – grita da cozinha sem se dar ao trabalho de ver quem é.

- Mas você disse isso ontem – responda Mauro.

- E direi o mesmo amanhã e depois de amanhã. Responde passando manteiga no pão, o mesmo pão de ontem, que será também o de amanhã.

Os passos de Mauro descendo as escadas, a porta da rua batendo, os pneus do carro derrapando na rua e quase atropelando Mauro que escapa por um triz. Antes ele corria à janela para ver o que havia acontecido...

O mesmo dia se repetindo.

Ele abre o jornal, ainda quente, o cheiro da tinta, dobrado sobre a mesa. Na manchete a mesma tragédia, o mesmo número de mortos, seu horóscopo com a mesma previsão, “cuidado com a alimentação e falsos amigos, aproveite seu dia como se fosse o último”.

- Antes fosse! – pensou alto num longo suspiro.

O mesmo dia de trabalho, aquele processo sem solução, a mesma bronca do chefe na mesma hora da tarde – 15h30 no relógio da praça, onde mostrava ainda a temperatura, 32º -, o mesmo telefonema atrás da funcionaria Madalena da Silva – Tia Dadá do café, a mesma resposta:

- Ela está de férias. – e pensou “longas férias...”

De volta à sua casa, a mesma dose de formicida, as mesmas dores nas tripas sendo dissolvidas, o desmaio, o baque no chão quadriculado e frio, o acordar na cama no dia seguinte com despertador tocando às seis horas em ponto...

O mesmo dia se repetindo.

Se ao menos ele se lembrasse de trocar a folhinha ao acordar...



2012/12/28

RÉVEILLON





Na espuma vertical

No pipocar da rolha

No champanha no chão

Nos fogos do céu

Nas sete ondas do mar

Tanto tempo se perde

E o ano velho se (es)vai...

E o outro entra

Tal e qual o que se foi...



FIM




A cada palavra lida naquela carta ele sentia-se menor, ao fim e ao cabo da leitura (leu e releu), percebeu que viveria feliz da vida morando dentro daquele envelope. A bandida nem se deu ao trabalho de perfumar ou marcar com batom a folha em que se despedia...


2012/12/19

AREIAS




Das arábias

Num tapete

Para trás ficaram

As areias

Os camelos

As mulheres

Os mistérios

Hoje olhos vagos

Perdidos no horizonte

De concreto e fios elétricos

Só param de sonhar

Quando "a breguês"

Entra “no lojinha”




2012/12/17

NATAL, OUTRO NATAL DO RANZINZA



Me enganei, me iludi, tentei cobrir o sol com peneira, ousei ter esperanças, que furada! Nada muda nesse mundo imutável, duro de pedra. As coisas são como são e tolo é aquele (eu, por exemplo) que pensa que alguma coisa pode mudar...

Bestamente achei que esse ano (crendo talvez no fim do mundo? Pode ser!) o Natal, aquela data para sempre e sempre amaldiçoada, seria diferente.

Mas não, ela (a data) provou-se ser igual às outras passadas (e pelo que vejo futuras) será igual.

Ontem, domingo, no Café, um grupo musical cantava músicas Natalinas e eu lá me embevecia ouvindo-as acompanhando algumas cantando outras assoviando.

Feliz com aquilo, sorrindo, sorvia meu cafezinho.

Até que lá pelas tantas cantaram “Boas Festas” de Assis Valente, quando chegou a vez do:

Mas o meu Papai Noel não vem

Com certeza já morreu

Ou então felicidade

É brinquedo que não tem


Veio-me uma pontada tão aguda no coração que quase verti lágrimas. Respirei fundo, mantive a pose, a dignidade, mas com que inveja via as famílias abraçadas cantando todos juntos e desafinados aquela música!

Deus! Anos e anos de vida, mais de meio século e nunca tive um Natal que se dignasse a ser lembrado com alguma alegria, júbilo, contentamento.

Em retrospectiva meus natais são dignos de Charles Dickens. Só faltam a fome e a neve.

Nunca fui feliz nessa data, nunca ninguém ao meu lado. Sempre só, sempre me remoendo de raiva, sempre frustrado.

Se arranjasse um “bico” nessa data juro que trabalharia com prazer, faria o turno da noite.

Após o Café fui a uma Igreja ouvir mais cânticos, me sentia como um miserável diante de uma vitrine de doces ou de brinquedos vendo o que jamais teria...

Me pergunto se em minha infância meus pais enviaram mesmo minhas inocentes cartinhas para o “bom velhinho” ou se simplesmente as jogaram no lixo!

Logo esse ano se acaba e o outro começa igualzinho, igualzinho a esse que se vai. Meu fim se aproxima cada dia mais e nada de chegar a ter um feliz de Natal. Depois me perguntam por que olho atravessado para papais noeis e tenho vontade homicida de chutar pedintes, queimar árvores, enfeites e tudo mais.

Vou me entupir de programas repetidos TV, evitarei as retrospectivas, não atender telefone (como se alguém fosse realmente ligar), comer alguma bobagem aquecida no micro-ondas e dormir cedo enfiando a cabeça sob os travesseiros para não ouvir os fogos.

Antes de morrer totalmente sozinho, amargurado e com um cachorro magro e famélico amarrado no quintal, ainda mudo meu nome para Scrooge!

- Que venham meus fantasmas!

Juro que o primeiro que me desejar um “Feliz Natal” eu mato.





2012/12/12

“AQUELA DATA” OUTRA VEZ



Feliz é o Rodrigo, longe de todos e possivelmente com neve.

Nem parece que “aquela” data está chegando!

Estou anormalmente calmo, desestressado, sem rompantes, afável, agradável. Olho as vitrines enfeitadas sem engulhos ou calafrios. Não penso em dar rasteira nas velhinhas com sacolas, até cumprimento um ou outro nas ruas.

Ando sorrindo, mas percebo que assusto aqueles à minha volta. Mas compreendo que deve ser mesmo assustador essa cena.

Ok, o calor me incomoda e me enerva, mas ainda não é culpa “daquela” data.

Já comprei até alguns presentes, besteiras, umas lembrancinhas para não deixar essa data passar batida...

Para quem não me conhece, nem imagina a evolução que é isso. Uns dirão que a minha provecta idade está me amolecendo, não os contrariarei!

Vejam só, não vou contrariá-los!

Deve ser o sinal dos tempos. Ou minha esperança no fatídico fim do mundo antes daquela data. Sei lá.

Lá fora (estou trabalhando agora) o foguetório estourou possivelmente vitória do Corinthians. Conferi n e ganhou de 1 x 0.

Isso deve alegrar a patuleia e incomodar à hora do almoço, mas seguirei fleumático e superior, nada há de me abalar até o fim do ano ou fim do mundo, o que vier primeiro.

Até agora nada de convites, fugi de todos os amigos secretos do serviço, não fui à confraternização, nada de almoçar com colegas do escritório. Não quero me arriscar.

Preservo-me de aborrecimentos. Essa luta, nesse ano, não há de ser inglória como em anos passados.

Não chutarei os velhos fantasiados gritando os eternos e indefectíveis:

- Ho ho ho ho!

Não olharei para eles com sanha assassina, mas não me pouparei de desejar-lhes uma leve desidratação (ainda há um pouco do velho EU dentro de mim).

Se estou mais light não quer dizer que entreguei os pontos, que vou me irmanar com o próximo, nada de abraços, beijos e tapinhas nas costas. Não, não vou não.

Resumindo, ainda continuo o velho amargo de sempre.

Não se iludam e nem se arrisquem.


2012/12/05

COMO É EMOCIONANTE SER EU


(fragmento de uma carta)




Voltava para casa ontem à tarde quando na rua alguém chama meu nome, olho em direção de onde veio a voz e vejo “J”, notório alcoólatra. Antes que falasse meu nome outra vez fui a ele, que sentado a uma mesa de metal enferrujado, mostrava que há muito estava já bebendo. Acho que nunca o vi sóbrio, aliás², podendo evito-o.

Perguntou-me se estava tudo bem comigo.

Medi-o de alto a baixo e olhando profundamente em seus olhos vermelhos e ejetados respondi que:

- Sim.

Nada mais lhe disse ou dei oportunidade de dizer e virando-me fui embora.

Veja como é emocionante ser eu!

2012/11/27

DE LICENÇA EM CASA*



Estou em casa, de licença.
Precisei me afastar, reavaliar meus conceitos e curtir uma dor de corno. Preciso mudar de vida, achar meu Norte, me encontrar.
Sempre quis ser detetive particular, quando moleque assistia ao Columbo, muita elucubração e pouca violência...
Sou um intelectual, meu cérebro funciona a mil por hora, aposto que seria capaz e desvendar um crime sem sair da minha mesa de trabalho. Processaria as pistas fumando um cachimbo como o Inspetor Maigret.
Prenderia os bandidos, criminosos, traficantes sem um murro, uma rasteira, de mãos limpas usando só meu velho cérebro.
Mas sei que nunca serei como meus heróis. Não nasci para ser um herói... Outro dia no bar do Alemão, celebrando minha licença com meus amigos, dois sujeitos que discutiam futebol, começaram a falar alto, gritar, quando começaram a brigar um jogou uma garrafa de cerveja em direção ao outro e a dita garrafa arrebentou em minha cabeça. Fui levado para casa semi-inconsiente, passei dois dias com enxaqueca. Nem consigo lembrar a cara dos indivíduos...
Positivamente, ser detetive está fora de meu currículo.
Olho a folhinha, logo terei de voltar ao serviço, à velha mesa, minha cor está desbotando, adeus bronzeado. Só eu mesmo, queimo no serviço e desboto em casa.
Sou um total fracassado.
Procuro o que ler, mas só encontro pilhas de D.O., hoje vejo que fiz mal em me livrar de meus livros de detetives...
Tinha uma gata chamada Agatha, mas o vizinho a levou quando se mudou do bairro.
Para minha desgraça, só mais uma na minha vida, só mais uma, a vizinha da frente colocou cortina na sala dela. Sei, no fundo me minh’alma sei que a culpa é minha. Ela deu a entender que estava a fim, mas a minha fidelidade ao meu amor platônico pôs tudo a perder, outra vez.
Computando, vejo que só perco desde que comecei a anotar os meus ganhos e perdas, só tem X na coluna de perdas...
O meu mal é ser organizado assim, até na desgraça tenho tudo descriminado, analisado, medido, assim não consigo por a culpa em ninguém, fica claro que o culpado de tudo o que me acontece sou eu.
Sobre a mesa da sala, esperando entrar dinheiro para pagar, a conta de uma quantidade absurda de borboletas azuis que comprei. Serei lembrado no futuro (a quem quero enganar?) pelas minhas idiotices...
O telefone está tocando desde que acordei.
Não o atenderei que liguem pro meu celular. Não tenho celular, hahahahahahahahaha.
Deus, estou ficando louco, me assustei com minha própria voz...
Quinze dias, quinze dias de licença-prêmio! Não aguentarei isso!
Preciso fazer alguma coisa, beber está descartado, ainda sou motivo de risos no bar, o “grande detetive abatido”...
Sou uma piada, só eu não rio dela, será autocritica, ou serei sem graça mesmo? Bosta de detetive eu seria...
Certo, fiz bem em me livrar daqueles livros! Eles estavam a envenenar a minha cabeça...
Mais tarde lerei um Diário Oficial para passar o tempo.
Seguro-me para não telefonar para a repartição.
Não ligarei de jeito nenhum!
Ligarei daqui a pouco, logo será a hora do cafezinho lá.
Não ligarei, não ligarei, não ligarei, não me entregarei a essa tentação. Sou senhor de meu destino, nenhum desejo há de me fazer sucumbir.
Pronto, estou decido, ligarei quando eu quiser, não agora, mas quando eu quiser, quem sabe daqui a uns cinco minutos?
O telefone continua tocando...
Não deveria ter jogado fora o meu cachimbo...
Preciso tomar uma decisão, logo, já, rápido, urgente, imediata, preciso dar um passo á frente, preciso sair desse marasmo.
A vizinha agora fechou a janela...
Minhas alegrias estão se reduzindo a olhos vistos, olhos que nada veem através da janela.
Quando o telefone parar de tocar, ligo pro serviço e peço prá voltar.









*Para entender, click aqui



2012/11/05

COMO ALGUNS ME VÊEM

(e sem controvérsias...)





O” imbecil residente
O” cretino de plantão
O” inimigo atrás da porta




2012/10/09

DOMINGO




A primavera acabou, chegamos ao verão. O calor começa a reinar e derreter.

Recolho-me à sombra de minha casa, digo apartamento, terceiro andar, fundos. Domingo à tarde, o pior pedaço da semana, o dia que se arrasta em direção à segunda-feira. Torço para ninguém aparecer em casa, para o telefone não tocar, e se tocar não atenderei. Almoço e depois vou descansar, dormir mesmo, afinal, o resto do dia será a agonia do fim, será só estertores, aflição.

Deito, fecho as janelas, a escuridão me da a falsa impressão de frescor, o quarto torna-se minha caverna. Abraço o travesseiro e começo a adormecer.

Afundo no colchão e modorra. Lá fora, bem-te-vis e sanhaços fazem sua festa barulhenta e irresponsável...

De olhos fechados, ouço com estranha alegria essa balburdia, e vou aos pouco escutando vozes que vem do andar térreo, são crianças de seus três, quatro anos, elas brincam, gritam, correm, caem ao chão, chamam pelo pai que, calmamente, antes que elas comecem a chorar, diz que está tudo bem, não foi nada, vai passar.

Nunca fui muito fã de crianças e congêneres. Mas que coisa deliciosa de se ouvir, os sons e ruídos de uma família reunida, reunida e feliz. As vozes misturavam-se durante o que me pareceu ser um jogo de futebol entre pai e filhos.

A confiança das crianças no pai, a segurança que ele transmitia aos miúdos, como diriam os portugueses. Caíam e não choravam, marcavam gol contra e não reclamavam. Isso durou mais de meia hora, só interrompido quando a avó deles chamou para o almoço.

Antes de dormir de vez imaginei a mesa, os pratos, e a avó diligente e amorosa servindo a todos.

Pensei que isso sim era amor.

Dormi roído pela inveja.

O Domingo acabava bem para eles...

 


2012/10/08

O FIM



E tudo acabou tão rápido como uma onda batendo nas pedras, levando tudo e não deixando sequer espumas...

2012/10/03

BILHETE



Querido amigo sei que havia te prometido um Grifo aqui da Europa Oriental, mas Grifos não há mais, então te mando uma chave inglesa.
Sei que não é mesma coisa, mas em todo caso poderás consertar as torneiras que ai pingam sem parar.
Abraços fraternos desse seu eterno caçador de dragões!

2012/09/21

CÍRCULO VICIOSO




Ao limpar o velho apartamento encontrou perdido entres tantas coisas também perdidas por lá, o relógio de Higino José Dias Baptista. Ela chorou, e a saudade a levou de volta ao tempo em viviam juntos. E nessa nova chance de vida, ela tornou a cometer os mesmo erros que levaram Higino José Dias Baptista ao suicídio.


2012/09/18

CRÔNICA DE ENCOMENDA



Esvazio a segunda garrafa de rum e brinco com uma pérola fazendo-a rolar na palma da mão. Estou começando a nublar a minha mente, aos poucos as imagens daquela festa começarão a se dissipar. Logo esquecerei os rostos, as vozes, as conversas, as músicas, as risadas...
***

Na sala, cantavam o indefectível parabéns a você, nessa data querida, aí começa tudo. Data querida? Querida para quem? A velha senhora estava alheia à sua própria festa, parecia ela mais com um enfeite do que com a aniversariante. Os convidados serviam-se do bolo, dos doces, andavam pela casa da velha, mexiam em suas traquitanas, revolviam suas gavetas, quando ouvi alguém perguntar:

- Quando ela morre?

Não ouvi qualquer resposta, pois uma gargalhada preencheu o ambiente. Saí à varanda para fumar, queria ir embora, mas uma fagulha miserável de curiosidade me prendia ao lugar.
Fumei e comecei a beber.
Voltei à sala, a velha fora posta num canto onde não atrapalharia ninguém, onde pessoa alguma poderia tropeçar nela, onde não incomodaria quem quisesse circular pela sala em paz pudesse fazê-lo. Ela olha tudo à sua volta com olhos opacos, secos, olhos que olhavam, mas nada viam. Pensei que isso lhe seria benéfico. Quem suportaria testemunhar aquilo em sã consciência? Quantos anos a velha fazia? Pensei em perguntar a alguém da família, mas outra pessoa fez isso por mim e desgraçadamente ouvi a resposta:

- Mais que o necessário, ela já passou da hora.

Segurei meu copo com força e o completei com alguma coisa que saiu da primeira garrafa que vi pela frente. Continuei circulando pela casa e acabei indo ao jardim. Ar puro! Pensei erroneamente. Lá havia muito mais abutres ainda. As crianças, provavelmente bisnetas da velha, conferiam entre si o saque do seu porta-joias. Pelo visto, daquela família não escapava ninguém – pequenos abutres! Cuspi parte da bebida no chão, e como urubus sobre a carniça, elas não se abalaram com a minha presença e começaram a discutir como dividiriam o colar de pérola da bisavó. Concordaram em arrebentá-lo e dividi-lo pérola por pérola...
Pensei que no Velho Testamento, por menos que isto, a Justiça Divina já teria se manifestado.
Voltei para dentro, aquela cena me repugnara. Precisava beber e procurar a pessoa que havia me convidado para essa festa.
Fui convidado para fazer justamente o que estou fazendo, circular, recolher apontamentos e entregar depois uma crônica sobre essa reunião. Mas aposto que o amigo que me convidou, assim como eu, não tinha ideia do que iria acontecer aqui... Fui à cozinha, entrei pelos fundos, assim seria menor a chance de encontrar mais desses urubus de black-tie.
Servi-me de uns frios e uns uísques. Bebi e comi lentamente, o que eu vira e ouvira no jardim ainda me embrulhava o estômago. Após a frugal refeição voltei à sala à procura de meu amigo. Precisava encontrá-lo, desfazer o negócio e ir embora, isso não era o que eu esperava, nem estava ganhando para isso, vim para fazer-lhe um favor, seria a minha crônica seu presente para a velha senhora!

- Que presente! – pensei em voz alta.

À entrada da sala o garçom serviu-me mais bebida, não recusei. Emborquei dois ou três copos de uísque de uma vez! Precisava ser duro comigo mesmo para continuar com isso. Trôpego segui em frente.
Tropecei numa mesa com uns doces e salgadinhos que foram ao chão, as meninas que vinham do jardim correndo, pisaram neles e acabaram deixando manchas indeléveis no tapete. Ainda as vi voltando ao quarto da bisavó, imaginei que iam terminar o butim. Pequenas flibusteiras temo pela sua prole...

- O futuro corre perigo! – Gritei segurando o copo de uísque, que acabou indo de encontro ao tapete empastelado de brigadeiros e empadinhas...

Havia na sala um carrilhão de laca preta, muito antigo e consequentemente muito caro, e dois genros da velha discutiam o seu valor, quando um terceiro mais jovem chegou-se aos dois primeiros e comentou que “se essa velharia caísse em suas mãos, venderia imediatamente, pois na sua casa não entraria jamais uma porcaria velha daquelas, aquilo era um lixo anacrônico”, o que ele queria mesmo era o velho relógio de pulso, de ouro, do falecido, aquilo sim valeria uma boa grana! Riram e concordaram, nada de levar os entulhos daquela velha, o que valia mesmo eram as joias. Nesse momento as meninas passam correndo com as mãos cheias de joias em direção ao jardim.

- Outro butim. – Gritei como se fosse um brinde. Segui atrás das crianças e sentei-me num dos bancos do jardim. Continuei bebendo e por lá adormeci.

Acordei em casa, creio que meu amigo levou-me, e desde que despertei continuo bebendo para esquecer tudo isso que testemunhei.
Nada escreverei para ele, nada de crônica, continuarei a beber até que consiga esquecer tudo isso, tudo isso, tudo isso...