2018/04/24

O CAFÉ CONSTRANGIDO



 Meio dia e vinte.

Acabado o almoço apressado, vou ao café. Sim, sempre o café no meio. Estou sentando à mesa com colegas de trabalho.

À mesa, ao meu lado o Comandante Castro e o Deco.  Não falamos coisa com coisa, hora de descanso, ver as mocinhas dos escritórios indo almoçar, indo às lojas, flanando sob esse sol lindo de outono, nada de importâncias, nada de urgências, urge sim nos distrairmos para encarar o resto do expediente.

Fomos servidos pela mocinha que não sorri. (logo inferimos que há algum problema que a impede de sorri!) Discutíamos o que a levaria a ser tão séria. Seria realmente só uma moça séria? Faltar-lhe-ia um dente? Seria somente triste, mofina? Ou puramente só antipática e pronto, como sugeriu o Deco? Vá saber...

Pernas esticadas sob um céu azul digno de Montevidéu (se duvidam, vão lá conferir), cigarros acesos. Sim o bom Deus deu-me companheiros que tomam café e fumam![1] E ainda de lambuja nos deu uma cafeteria com mesas à rua, o que nos permite ver a paisagem e fumar em paz.

Tudo parecia seguir um bom rumo, estávamos já no segundo espresso quando um mendigo (ou devo escrever cidadão em situação de rua?) aparece. Como eu estava de costas para ele, de costas continuei. Há muito perdi as esperanças de salvar a humanidade e esse mundinho. Deixei que o Comandante Castro ou o Deco falassem com ele.

Os dois, assim me pareceu, deviam estar invisíveis aos olhos do dito pedinte, que nada pedia a eles, e continuava a me importunar.

Nada. Ele tocou-me as costas de novo, virei e antes que ele pronunciasse aquela lengalenga, disse-lhe que nada tinha e que os companheiros na mesa estavam pagando o café hoje.

Os dois a partir desse momento passaram procurar carneirinhos no céu...

Não adiantou e para minha estupefação, ele ajoelhou-se no chão chorando. As pessoas que passavam pela calçada me olhavam.

Uns com reprovação pelo nosso coração duro, outros, talvez irmanados no meu constrangimento viravam o rosto para o outro lado.

A cena desenvolvia-se em câmera lenta.

Eu não sabia o que fazer, no único e esperado momento do dia em que relaxo aquele indivíduo ali de joelhos, as lágrimas prestes a descer-lhe pela barba imunda me constrangendo, quase me obrigando a dar-lhe uma esmola, um óbulo, ou em caso de maior desespero, um tiro para acabar com aquele drama.

Situação horrível de se viver.

Virei-me e o deixei chorando ali sozinho, o café amargou-me a boca e cigarro perdeu a graça.

Passados longos segundos, por fim ele levantou-se e foi embora (não sem antes, sarcasticamente, me agradecer por nada e me recomendar ao bom Deus).

Não pudemos deixar de reparar que ele usava bermuda de surfista mais cara que a calça que usávamos, sem contar o tênis de marca, daqueles que se matam facilmente hoje em dia para roubar.
Esse mundo não tem mais salvação.

Amanhã tomarei café num lugar mais reservado e, de preferência, sozinho.







[1] Viu Magrão, viu?

OS AMORES E SUAS DORES




Dia cheio quando ele chegou. Um daqueles dias em que o cristão se pergunta por que não nasceu um Rockefeller, Gates, ou mesmo um “Seu Manuel” da quitandinha, que tem mais dinheiro que eu.

- Ela é casada com o careca, o garçom que nos atende – Falou-me assim de chofre enquanto eu pensava nas minhas dívidas.

-Quem? Casada com que careca?

                   - Luzia – murmurou, entre suspiros dolorosos.

- Então era por isso que ele vive com aquele chapéu? – murmurei com meus botões. Longos cabelos negros escorridos, olhos lindos e profundos, pés pequenos, mãos brancas de dedos longos – mãos de pianista -, unhas vermelhas e sempre muito simpática pensei naquele momento, mas guardei para mim tais pensamentos...

Ainda atordoado pela chegada súbita dele, fiquei a olhar para o nada.

- Vi no facebook do restaurante a foto dela abraçada com o careca..

- Mas você não achava que eles eram irmãos? - Guardei para mim a decepção! Mas logo a compartilharia com os outros colegas que iam almoçar lá só por causa dela... Afinal quem divide, multiplica!

- Me iludia, me enganava – resmungava o pobre homem, nosso capitão a espera da eterna revolução socialista que não vinha - tentava cobrir o sol com a peneira... Ela me hipnotizava.

-Nos... (parei a frade na metade, acho que ele não gostaria de saber que todos nós sonhávamos com ela)

- Pobrezinha li que ela não tem mais a mãe...

- Perdeste a chance de ser feliz duplamente... – (Sou um cínico, sei!)

- Como? – indagava quase babando.

- Ter a Luzia e não ter uma sogra... (por pura piedade deixei de falar que ainda assim teria um cunhado!)

- Essa é história da minha vida... (houvesse uma plateia a nos assistir, esse seria o momento do suspiro coletivo! – pensei comigo)

- E agora? – Senti que a pergunta era como passar sal na ferida. Eu não presto mesmo!

- Volto ao Português... – declarou decidido - Lá como à vontade e pago menos. Acho que o marido a explora. Ele a colocou ali, linda daquele jeito!, só para atrair freguesia. Isso é quase prostituição...

Feito um vereador em cima de caixote, ele continuava com seu discurso inflamado:

- Tenho certeza. – disse peremptório. Aquele gigolô!

Não fosse o susto, juro que o aplaudiria! Tive vontade de colocar mais lenha na fogueira e acrescentar que ela gosta de coentro e quem gosta disso boa gente não é... Mas ele sabe da minha implicância com esse vegetal... Além do mais, se a  minha mesa sem dizer nada levou um murro, imagine eu? Guardei para a mim o comentário...

- Sim, afinal a comida no restaurante dela não era mesmo grande coisa, não é? – aí não sei bem se ele se engava ou tentava me convencer. - E aquele negócio do careca falando toda hora “bom dia senhores, bom dia cavalheiros, bom dia senhoritas.”, aquilo me irritava deveras... Coisa pouco máscula para um restaurante no porto... Só lamento o mau-gosto dela – quase, quase falei no coentro!  – disse seguido de mais suspiro capaz de fazer estátuas chorarem.

Tive vontade de discordar. Mas diante daquele olhar de cachorro abandonado na chuva não tive ânimo...

- Mas no português tem a... – ele me interrompe. Não lhe agrada que eu o lembre de seus amores frustrados. Senti uma vontade muito grande de descrever a pele de seda dela, o gingado, o tratamento diferenciado, mas o medo falou mais alto, outra vez! O que me mata é essa minha covardia...

- Sim, tem ela, mas já a superei. Hoje a vejo com outros olhos. Sinto-me um quase irmão dela... – dessa vez sou eu que o interrompo.

- Não se iluda seu velho descarado... - Tive ganas de perguntar-lhe se já havia comprado umas borboletas azuis, mas o meu bom-senso achou melhor deixar isso prá lá... Me arrependi de tê-lo xingado. Pude ver mais um futuro-pretérito desfazendo-se à minha frente. Lá se ia o sonho do casamento, da família, do Juninho, do labrador chamado Bonifácio, a criação de curiós... Tudo se desfazia...  Do cenário idílico só sobraram os pombos voando sob um céu que há pouco tempo era azul, era promessas, era um mundo que... Poetizo, deliro, viajo nesses momentos... Sou um sentimental incurável! E há quem diga que não tenho coração...

Ficamos em silêncio por um tempo...

Ele olhou para o teto, achei que fosse reclamar das rachaduras, das paredes descascadas, das sujeiras das janelas, quando ele me sai com essa:

- Hora de irmos ao quinto andar!

- Voltou a fumar passivamente?

- Não sei como consigo viver nesse mundo sem o seu cigarro!

Eu ia tocar no assunto das borboletas azuis, mas resolvi deixar esse assunto pra lá...



ELOCUBRAÇÕES





Seis horas, toca o despertador, acordo e me deparo com o chão coalhado de baratas mortas, suas pernas finas tremendo ao vento que entra pela janela.

As cortinas dançam com a mesmo aragem. Só faltava ouvir Marcha Fúnebre - de Chopin...

Começar o dia assim...

Essa cena me faz voltar no tempo e me lembrar de frei Justino, - que Deus o tenha em um bom lugar! – que num domingo na hora da comunhão de repente quedou-se paralisado, em choque com a hóstia em suas mãos estendidas ao alto, quando sente uma barata passar sobre seus pés e correr em direção ao altar, com olhos esbulhados olhando em direção as fiéis, babando começou a murmurar para o coroinha:

- Tire esse cágado da igreja, tire esse cágado da igreja...

Patética era a sua situação, pois ninguém via em nenhum lugar na igreja o tal do cágado, e o pobre homem, por fim, surtou, enlouqueceu, e foi retirado da igreja á base de muito conversa...

Volto - essas minhas idas ao passado me dão vertigem - ao presente e as baratas continuam ali no chão, mortas de barriga para cima.

Nunca mais tive notícias de frei Justino...

Desvio-me delas, senão com nojo, com muita cautela...

O sol promete mais calor, a continuar assim esse clima logo os vizinhos me encontrarão morto, duro e suado na cama, e tal e qual essas “Periplaneta americana”- eu as odeio, mas as conheço - em decúbito ventral e como o velho Justino, de olhos esbugalhados, talvez ainda balbuciando:

- Os cágados, os cágados...

Vou à cozinha, reviro o armário, acho o inseticida que usei à noite passada, leio as instruções.

Penso com meus botões:

- Arma de destruição em massa, genocida... – como sou hipócrita, meu Deus! Sentia-me feliz, livre e mais limpo com a morte delas..
.
Por via das dúvidas resolvo jogar fora esse veneno. Não quero em minha consciência os fantasmas de meu passado me assombrando a cada inseto morto – e há tantos nessa cidade!
Vou dar uma volta, quando voltar arrumo alguém para limpar o apartamento. Creio passarei uns dias fora...

Na rua, enquanto jogo o veneno no lixo, decido-me:

- Domingo vou à missa!






2018/04/16

A VIRGEM VITORIANA




“O velho sátiro entrou no quarto da mocinha, ela estava estendida na cama, lânguida e ofegante.
Na verdade a mocinha era uma fada, de asas tão diáfanas que pareciam com as de libélulas. Magra, fina, frágil e branca feito uma porcelana chinesa, ela tremeu ao ver a figura priápica, perdeu o fôlego e sorriu.
Seu sorriso excitou ainda mais a monstruosa figura que avançou e baixou lentamente seus cascos eqüinos, evitando assim qualquer barulho que chamasse a atenção dos guardas que ficavam do outro lado da porta.
Sua respiração fazia vibrar o ar à sua vota.
A fada agitava suas frágeis asinhas e também arfava fazendo com que as chamas das velas tremeluzissem e produzissem sombras fantasmagóricas.
A besta lentamente achegou-se aos pés do leito da donzela...”




Abanando-se com as folhas manuscritas, a virgem vitoriana, afogada em uma desconhecida agonia, dirige-se à janela de sua casa de grossas paredes de pedras.  Na velha lareira uma acha de lenha estala assustando-a. Ela vira-se para trás e pensa ver a sombra do velho sátiro, encosta-se na parte mais escura da sala, e entre amedrontada e ansiosa pede a Deus que sua criatura tenha conseguido fugir do reino da fantasia e venha resgatá-la dessa vida insossa e sem cor. Mas outro estalo da lenha levanta uma minúscula faísca, que mesmo assim produz uma luz fugaz o suficiente para iluminar a sala e fazê-la sentir-se uma idiota.

Abana-se com mais força, fazendo com que as folhas se espalhem pelo chão, mas ela não pensa em recolhê-las de imediato. Antes de tudo o mais precisa respirar, precisa urgentemente respirar e chamar uma aia para libertá-la do espartilho, soltar-lhe os cabelos, trazer-lhe uma jarra de água – água, não – uma jarra de vinho tinto – vermelho cor de sangue – sente que precisa recuperar a cor.

Da janela a virgem vitoriana olha para a vila lá embaixo no vale. Mas é pouco e difuso o que se pode ver a essa hora, pois já é noite de lua nova e uma névoa muito espessa cobre tudo. Ela fecha a janela a tempo de evitar que um morcego entre em sua casa.

- Um morcego! – ela murmura – um morcego iria muito bem à minha história. Volta à escrita, relê, toma da pena de ganso – que cria exclusivamente para isso – e volta escrever.

“A criatura meio-homem, meio-bode estica sua gigantesca mão em direção à virgem. Ela sofre de angústia, desejo, escrava de um desejo até então desconhecido. Seria o forte odor caprino do mitológico ser que a enfeitiçava? Seriam seus olhos negros feito carvão?”

Outro estalo da lenha a fez jogar a pena de ganso para o alto, e quase cair da cadeira, onde se sentava na beirada, vítima, ela também, do encanto de sua história.

E com o susto, ela acaba por olvidar a introdução do morcego na história.

A virgem vitoriana resolve, enfim, chamar a sua criada, e pedir uma jarra de água e outra de vinho tinto. Com uma mataria a sede e aproveitaria para limpar o suor que lhe brotava na testa, com a outra, recuperaria a cor e a coragem para seguir em frente com a história.

Somente bebendo ela poderia imaginar a consumação do ato de amor entre a Besta e a Virgem. Enquanto esperava a velha serviçal chegar ela aproveitou para acender mais velas, a criada não deveria pegar jamais uma dama vitoriana como ela sozinha com uma história contendo sátiros príapicos, alcovas e virgens prestes a deixar de sê-lo. Ela era uma mulher vitoriana ciente de seus deveres sociais.

Passados poucos minutos, ela torna à sua pena de ganso (outra, pois aquela outra só seria achada anos depois do... - bem isso é outra história e eu não vou contar nada aqui) e à escrita. Como que possuída por mil demônios, escreve e bebe, escreve e bebe e de quando em quando, sacudindo a cabeça, ri.

Descreve com impressionante riqueza de detalhes as preliminares (que ela descrevia da lembrança de uma noite em que, procurando a chave das adegas, viu sem querer sua serviçal namorando com o chacareiro, protegidos pelas sombras dos corredores da velha mansão), trinta e três páginas depois, ela finalmente chega ao momento da consumação, e...

Para.

Estaca.

Petrifica-se, pois não sabe como continuar a partir daí, afinal, desgraçadamente, ela é uma virgem vitoriana, velha e feia.

Por exaustivos minutos, ela escreve, rabisca, rasga as folhas e nada consegue produzir. Olha para o chão agora coberto de folhas amassadas e chora.

Chora frustrada, pois:

1.      Desconhece as delícias do sexo, e;
2.     Precisa chamar a aia para, (que humilhação!) perguntar-lhe o que acontece depois das preliminares.

Gemendo, amaldiçoa ser uma virgem vitoriana...





2018/04/13

CAFÉ DEMAIS NÃO FAZ BEM


(Um drama nervoso com muita cafeína)
Um monólogo
Cenário: Uma cafeteria no Centro da cidade.



É claro que ela reparou em você quando entramos, ela até te desejou uma boa tarde. Como ela é uma fútil que diz isso prá todos? Há formas e formas de se desejar uma boa tarde a alguém. Para você ela foi mais gentil, carinhosa, e aquele sorriso não me parecia um sorriso profissional, mais parecia um sorriso de alegria, satisfação, de ter visto você aqui. Agora tente sentar-se à mesa sem chamar a atenção de ninguém e, por favor, por favor, peça o seu café que eu peço o meu. Sossega, para de tremer e enxugar o suor das mãos nas pernas das calças. Repita comigo: - Está tudo bem, está tudo sobre controle, sou o senhor absoluto de mim mesmo e nada pode me abalar, há em volta de mim uma muralha que me isola de todos os problemas desse mundo! - Vamos lá repita! Repita como se isso um mantra fosse! Ora, deixe de ser chorão, é claro que você consegue memorizar isso tudo, vamos lá, repita. Diabo, fale baixo, repita só prá você, como se estivesse rezando. Chega a garçonete, simpática e solícita, como sempre. - Olá! Mais um café, por favor. Se gosto do café daqui? Tenho certeza de que esse é o melhor café deste lado da existência... Se um sou pastor, religioso ou filósofo? Não, isso foi só uma brincadeira da minha parte. O que o um amigo aqui tem? Nada. Acho que está com alguma coisa grudada na palma da mão. Sim, vou tomar o café com adoçante, obrigado. Se ele vai tomar café também? Não sei. Talvez ele queira antes ir ao toalete tirar seja lá o que for que o está incomodando antes de pedir alguma coisa. Isso, então depois você vem aqui na mesa outra vez. Ela estava sorrindo para você, mas quando viu essas mãos se movimentando debaixo da mesa, acho que se assustou. O que foi que te falei sobre esse tique nervoso de ficar secando as mãos nas calças? Assim você não vai conseguir nada mesmo, e me faça o favor de parar de engolir em seco, me dá aflição esse pomo-de-adão subindo e descendo... Volta a garçonete - Olá outra vez...! Sim, vou aceitar mais café. Nossa isso está parecendo um daqueles filmes americanos em que a garçonete aparece servindo café nas mesas, só falta uma torta de maçã. Não, não, não só estou falando no sentido figurado, não gosto de tortas, muito menos gosto de maçãs, vivo fugindo do pecado..., não, como lhe disse antes não sou um pastor. Onde está o meu amigo? Ele foi ao toalete tentar tirar alguma coisa que estava grudada em suas mãos. Ah! Sim, sim, ele encostou numa parede vindo para cá e alguma coisa colou em suas mãos. Nossa, que suspiro mais profundo esse. Alívio? Por que alívio? Ok vamos deixar isso para lá então. Olhe, ele já está vindo. A moça se retira de volta ao balcão. Não começa com isso, não faça cena, segura essas lágrimas, e não esfregue as mãos nas calças. Ela não fugiu quando você chegou, ela só foi buscar outro café para mim. Claro que eu não agüento mais tomar tanto café assim. Ainda vou ter um enfarto na minha gastrite. Sentido figurado, não existe enfarto em gastrites! Olha, ela está vindo ai. Peça um café, chocolate, cerveja, formicida, diabo-verde; eu sei que você não bebe cerveja – se eu tiver que repetir a palavra “sentido figurado” outra vez, vou matar um, e não fique balançando a cabeça e dando sinal para eu falar baixo, porque eu estou falando baixo. Pare de tremer! - Olá. Não, não me canso de dizer olá, acho olá uma palavra tão simpática, aliás, em matéria de simpatia, olá, só perde para você. Sim, é claro que eu vou tomar outra xícara de café. Meu estômago? Ora, estômago forte é o meu. O quê? Não, onde você ouviu falar nisso? Enfarto de estômago não existe, não existe. Sim, é por isso que me enveneno, digo, bebo tanto café assim. Ô rapaz, responde prá moça, você quer uma xícara de café ou não? Que tosse é essa? Cara, você está ficando vermelho, acho melhor você voltar ao toalete e passar uma água no rosto. Vá lá, vá lá. - Olá você! Achou isso engraçado? Acho que ouvi essa besteira na TV, não tenho cá muita certeza. Como?, se meu amigo está melhor? Está sim. Ele quase não se machucou com o tropeção na mesa. Quê? Uns cacos de louças? Aquilo não é nada para ele... Sangue, que sangue? Besteira. Ele sangra muito mais que isso quando se barbeia... Não! Graças a Deus ele não é hemofílico... Você acha mesmo que ele está demorando tanto assim no toalete?  Ok, então vou aceitar mais uma xicrinha de cafezinho dessa vez com leitinho. Se eu tomar mais uma xícara de café, eu morro. O amigo volta. - Preste bem atenção ao que vou te falar: pára de tremer, não interessa se ela está vindo ai, não me interessa se ela está te olhando de um jeito esquisito, não me interessa se ela está ao meu lado colocando mais uma xícara daquele amaldiçoado café na minha mesa, não me venha com a desculpa de que ela está aterrorizada, não me interessa se minhas mãos em seu pescoço estão te deixando sem ar. Pare de tossir e preste bem atenção ao que eu vou te dizer, vamos olhe para mim e pare de esbugalhar os olhos, ou você se declara para ela agora ou nunca mais vai tomar café comigo. Entendeu? Entendeu? Me diga logo se entendeu. Vamos, pisque duas vezes para sim e três para não! Não baba.

Interlúdio.

Dias depois...

- Como ela teve a coragem de te dizer isso? Eu que sempre fui tão gentil e educado. Eu que dizia olá toda vez que ela surgia feito uma aparição na minha frente com aquela bandeja cheia de xícaras e xícaras e xícaras e xícaras e xícaras de café...? Eu não estou nervoso! Como você pôde ouvir tudo e não me defender? Como você deixou que ela dissesse que eu sou violento? Eu não estou nervoso! Ora, não me venha com “essas marcas de dedos que eu deixei no seu pescoço”. Ela disse isso? Eu não estou nervoso! Ela disse que o meu vício por café vai me levar a cometer um crime e que a vítima ainda será você? E você quer eu não fique nervoso? Eu não estou nervoso! Você falou para ela que:

1.      Eu ia à cafeteria por sua causa?
2.      E que você ia à cafeteria por causa dela?
3.      E que por causa de vocês dois eu bebia tanto café?

Você falou isso para ela? Falou? Eu não estou nervoso! Para de balançar a cabeça desse jeito. Assim você me deixa nervoso! Que veia saltada, que veia saltada? Eu já disse que não estou nervoso! Já te falei que não existe enfarto de estômago, não existe, eu não estou nerv...


Apaga a luz

Cai o pano com estrondo


2018/04/11

O JANTAR




- Passe-me o arroz. – esse pedido foi seguido não do arroz, mas de um silêncio que prenunciava outra discussão. A noite prometia, as crianças olharam para o chão, o menorzinho começou a chorar, a menina do meio, fez-lhe um sinal, discreto, com a cabeça.

 - Não chora, não comece, engula o choro- pediu baixinho - por favor. O esforço seria demais, pois ai ele começou a chorar mais alto ainda...

A mãe tremeu, sabia o que viria seguir, e sabia que o “seguir” não seria a travessa de arroz. O filho mais velho fez menção de levantar-se e pegar a travessa, mas o pai o interrompeu olhando duro, tanto que o caçula desandou a chorar ainda mais.

A mãe desistindo do jantar levantou-se para tirar o filho pequeno da mesa.

- Deixe ele ai, ainda não acabei de comer! – rosnou duramente o pai mastigando uma coxa de peru. A menina do meio tentou servir a mãe, mas o irmão mais velho, o Júnior, orgulho do pai e da escola militar disse-lhe que não, lhe explicando.

- Isso é briga de cachorro grande – disse, encarando raivosamente o pai.

O pai esbofeteou-lhe a cara. Na mesa dele, na casa dele, debaixo do teto dele, ninguém falaria desse jeito com ele, se ele quisesse falar como um vagabundo que fosse para a rua, lá era lugar de proferir essas palavras, não a casa dele. O filho envergonhado baixou a cabeça, o irmão menor já estava chorando por ele.

O menor estava banhado em lágrimas, chorava de soluçar, a irmã, olhava ora para a mãe, ora para travessa de arroz, ora para o pai furibundo, ora para o Júnior que esfregava o rosto vermelho.

Perdida, olhava para a mesa e via a comida esfriando, o relógio da parede fazia tanto tictactictac que parecia que sua cabeça iria estourar, não sabia o que fazer, estava com medo até de respirar e lentamente foi segurando a respiração, com sorte desfaleceria e não veria o fim desse drama.

O pai gritou com o menor, que parasse de chorar - já! - ou ele lhe daria motivos de sobra para chorar muito.

A mulher continuava estática com o pedido de arroz, congelado no ar. O que teria acontecido para o marido agir daquela forma? O quê? Por Deus, o que ela ou as crianças haviam feito para deixá-lo assim tão transtornado?

Ela não conseguia tirar de sua cabeça  o pedido do arroz, sentia-se idiota, como poderia sentir medo com uma cara que lhe disse:

- “Me passe o arroz?”

Os tic-tacs começaram a tornarem-se lentos, o tempo parecia estar parando, parando, parando...

Todos, com exceção do pai, queriam sair daquela mesa, queriam ir para seus quartos, pular a janela e nunca mais voltar àquela casa, mas o tempo não passava, a comida esfriava, os ânimos alteravam-se, os olhos do pai brilhavam e a noite lá foi ficando mais escura.

Nesse momento entram os comerciais!





2018/04/10

CASA DE CHÁ “A GUEIXA E O SAMURAI”



- “Acho que esse negócio não vai dar certo, esse povo aqui não tem sensibilidade (na verdade quis inteligência, mas achei melhor usar outra palavra, assim, mais suave...) e perfil para isso.” - falei, mas ai já era tarde demais, como vocês perceberão. Antes de qualquer coisa, mais uma caneca de saquê. Sigamos com essa triste desdita:
1.                 O Severiano – Biu - para os íntimos demorou muito tempo para entender qual o papel dele naquele drama. Aquela roupa, penteado, tamancas de madeiras, aquele chapéu de bambu que mais parecia um funil era demais para aquele pobre e minúsculo cérebro desidratado e anêmico. Vivia reclamando pelos cantos, demonstrando seu descontentamento, tantos às meninas, ao patrão e pior, aos fregueses... Não poderia dar certo mesmo... Toda hora ruminando: - O que mãinha vai pensar se me vir assim? Cadê meu facão? Homem macho de verdade não se submete a essa vergonha... – Resumindo, demorou até que demais para isso tudo dar errado.
2.                 As meninas então. As quatro que o patrão convenceu a entrar nessa empreitada... Suzaninha, a Yuriko; das Dores, a Yushiko; Tiana (Sebastiana) a Tashiko e a Mariinha, a mais nova, chamada de Flor de Lótus, não tinham o menor perfil para a empresa. Elas nem sabiam o que estavam fazendo lá. Foi um inferno do começo ao fim. Será que era assim tão difícil assim entender a diferença entre servir chá e prostituição?
3.                 A casa. Balancei a cabeça até quase cair do meu pescoço quando a vi. Não sabia qual pergunta gritar primeiro. Onde o patrão arrumou uma casa de bambu e paredes de papel ou quem foi o louco que construiu aquela obscenidade para ele? Detesto a miséria, não porque ela nos priva de muitas coisas, mas porque ela nos submete a muitas outras coisas piores... Via aquele sobradão, bandeirinhas na entrada, portas de correr – que tinha certeza seriam chutadas para frente quando entrasse o primeiro freguês. E aquelas paredes feitas de papel de seda com motivos orientais, aquelas borboletas, Monte Fuji, japonesas de sombrinhas... Tudo ali cheirava a erro e prejuízo... Consolava-me repetindo o mantra (aprendi isso com um velho careca vestido com uns panos cor de laranja que o patrão trouxe para conhecer a casa): “Isso não problema meu, esse não é meu dinheiro, meu salário está depositado no banco.” Aquilo tinha tudo para dar errado, mas por que só eu percebia isso?
4.                 Vistoriando a dispensa chamei a atenção do patrão para o detalhe das bebidas: - Saquê e chás? Explicou-me o douto empresário que ele formaria uma comunidade, educaria uma geração, prepararia aqueles miseráveis para o mundo! – Arrogância! – sibilei. Nenhuma cachaça patrão? Nada de carne de sol? Neca de farinha? Sem sanfoneiro?
5.                 Música! Toshinori-San! Nosso tocador de berimbau de arco ou coisa parecida com isso! Fracasso esperado e cumprido. Onde que, na nossa cidade, alguém ia sair de casa à noite, depois de um trabalho nesse calor dos infernos para ouvir um sujeito tocando berimbau e ainda por cima com arco, um óin-óin-óin de furar os ouvidos de qualquer cristão! Não ia dar certo, não ia dar certo, mas eu repetia: “Isso não problema meu, esse não é meu dinheiro, meu salário está depositado no banco.”.
6.                 Primeiro dia, quinta-feira: As pessoas passavam de outro lado da calçada com medo de serem visto diante daquela casa esquisita, tinham medo que com um vento noroeste mais forte ela viesse abaixo. Segundo dia, a mesma coisa. O cheiro do prejuízo começava a atrair moscas.
7.                 Sábado. O grande dia. Toshinori-San no cantinho dele tocando aquele instrumento amaldiçoado dos infernos espantava as moscas, Yuriko, Yushiko, Tashiko e Flor de Lótus, todas vestidas de quimonos com motivos florais, sentadas no chão de tatame em volta de uma mesinha esperavam pelos fregueses.
8.                 Severiano, travestido de Samurai, kataná à cintura, cajal reforçando seus falsos traços asiáticos e com cara de bravo (motivado pela briga na hora de maquiar os olhos; - Se mãinha passa aqui e me vê maquiado feito quenga?) não ajudava muito a atrair fregueses...  Aquele cheiro me perseguia. Reclamando ao patrão sobre isso, tudo o que ele fez foi mandar queimar uns incensos...
9.                Por fim, às 23h00min horas (precisei chamar as “gueixas que já haviam se recolhido com os quimonos, pois não havia modo de colocar naquelas cabecinhas que quimono não é roupa de dormir) entraram uns estudantes de Direito. – O cheiro de prejuízo nesse momento tornou-se insuportável, mas: -“Isso não problema meu, esse não é meu dinheiro, meu salário está depositado no banco.”
10.                       Os estudantes sentaram-se à volta da mesinha de laca preta com motivos iguais às cortinhas e dá-lhes Monte Fuji coberto de neve (um estranho conceitos pra essas bandas que nem inverno tem), borboletas e as japonesas com sombrinhas (segundo estranho conceito, pois aqui não chove e nunca passou pela cabeça de ninguém por aqui se proteger do sol), pediram cerveja; - Cerveja não servimos senhores, respondeu Yuriko sorrindo um sorriso de dentes amarelos e tortos causando a segunda má impressão.
11.                       - Uísque! Pediu o segundo. – Uísque também não servimos senhor, respondeu Yushiko solícita e medrosa – não sorrindo para evitar piorar ainda mais situação (o pivô do canino estava perdido desde ontem).
12.                       Toshinori-San entusiasmando-se com a presença de fregueses – alguém haveria de reconhecer seu fabuloso talento, segundo ele – furiosamente começa a executar uma peça clássica do Japão Feudal, e o óin-óin-óin come solto!
13.                       Positivamente a música não acrescentou nada de positivo ao ambiente. Por via das dúvidas pedia a Severiano, o Samurai da tabuleta na porta, que vigiasse os fregueses enquanto ia lá escritório buscar mais incensos.
14.                       Nos fundos, lá no escritório comecei a ouvir uns risinhos, sorri junto e comecei a abanar o cheiro de prejuízo das minhas narinas, abri a gaveta da escrivaninha para guardar de volta as varetas de incensos e retornei lá prá frente...
15.                       Esse é o momento que tudo fica confuso, nebuloso, turvo, pois onde eu deveria ouvir risos e selvagens óin-óin-óin-óins reinou por longos e intermináveis segundos o mais profundo e negro dos silêncios. Mal tive de recorrer aos incensos, fui apanhado pelo cheiro do prejuízo e tudo começou a se acabar.
16.                       Yuriko, Yushiko, Tashiko e Flor de Lótus corriam descalças em direção à rua aos gritos, os cabelos soltos (que trabalho tivemos para alisar aqueles fios crespos e rebeldes), os estudantes de direito atrás delas e de facão na mão, esquecido de sua kataná de bambu, Severino com os olhos manchado de cajal. As paredes de papel de seda destruídas estavam espalhadas pelo tatame, pedaços de borboletas, de japonesas com sombrinha, restos do Monte Fuji por aqui e por ali...
Dizem que encontraram Severiano andando pelas ruas murmurando palavras que ninguém entendia e segurando uns pauzinhos que soltavam fumaça...
Os mandacarus floresciam, talvez chovesse, enfim...



PELA MANHÃ


urubus sobre uma carcaça
num poste - soberbo
feito burguês – um pombo

2018/04/06

JAGUNÇO





Acabo de voltar da rua, encharcado até os ossos.

Mas não quero reclamar da chuva, nem da falta dela onde mais se precisa que aqui. Para isso temos os noticiários que não nos deixam esquecer. Na rua, lembrava-me de uma conversa que tive pela manhã.

Uma amiga reclama do fim de seu casamento e de não conseguir colocar o ex-amor para fora de casa, antigo ninho de amor, promessas e agora sonhos desfeitos e cuecas sujas.

Segundo ela, há vários dias deu ao companheiro o aviso-prévio, o caia fora, rua.

Mas ele faz-se de desentendido e continua assombrando as paredes do lar.

Dizia-me ela, que já não mais se falavam, faziam as refeições em horas diferentes, dormiam em quartos separados.

Todos os dias ao sair para o trabalho recomendava (creio que esse recomendava é eufemismo) que ele não estivesse mais em casa à hora que ela voltasse, mas, ó desilusão!, ao chegar encontrava o mancebo largado no sofá assistindo futebol televisão, gritando a cada gol de seu time, esperando ainda que ela lhe fizesse o jantar ou pipoca. Se isso remete o leitor a um samba antigo é pura coincidência.[i]

Ri de sua situação. Diga-me o leitor o que se pode fazer numa circunstância dessas?

Pediu-me conselhos. A mim, logo a mim!

Ri uma segunda vez e perguntei-lhe se falava sério? O que poderia eu dizer-lhe, como eu poderia ajudar-lhe. Esse é caso em que terceiros não ajudam em nada e podem (e) conseguem somente atrapalhar.

Indaguei se não seria uma fase, pois o casamento como a lua tem lá suas fases. Como a maré (coisa de quem mora no litoral) tem lá seus altos e baixos...

Resumindo, fui tirando meu time de campo colocando panos quentes, saindo pela tangente.

A conversa prometia ir longe, com detalhes e mais detalhes, não ninguém pela minha sala, nem um estagiário com papeis para arquivar, ninguém vendendo uma rifa de qualquer coisa, não tocava o alerde de incêndio para assim eu poder sumir dali. A palavra como flecha, depois de disparada não tem volta (eis aqui uma pérola de profunda sabedoria!), assim sendo tentei fazer a velha amiga não abrir tanto assim seu coraçãozinho.

Debalde.

As horas tantas, sim horas “e” tantas (mesmo) ela visivelmente desesperada (aqui não nos cabe julgar se seria caso para tanto desespero) me pergunta:

- Você que conhece tanta gente em tantos lugares, não conheceria algum jagunço que desse uma lição, ou mesmo leve susto nele?

Veja leitor, eu conhecendo um jagunço, eu?

Não foi possível outra vez segurar o riso.

Senti uma mágoa profunda nela, pois, agora sim, era visível sua desesperança.

Tentei desviar a prosa para outro tema menos denso.

- Olhando pela janela vejo que vai chover logo. E comentei displicente:

- Acho eu vai chover...

Pausa.

Pensei com meus botões, ela deveria estar constrangida com seu desabafo, envergonhada da sugestão de dar um fim definitivo no futuro ex-companheiro, talvez já se imaginando nos jornais da noite, horário nobre na TV. Cadáver retalhado encontrado num terreno baldio, ou pedaços de um homem e encontrado espalhados numa praia, sei lá o que se passa na cabeça de uma desesperada... Nunca coisa boa!

A cara estampada na capa de uma revista sensacionalista!

A cena desenvolvia-se em minha cabeça...

Esperei mais algum tempo e seu silêncio continuou ate minha hora de almoço. Sem mais nenhuma palavra, desliguei o computador e saí, deixei-a a contar os urubus que voam, talvez adivinhando o uma futura carcaça, sei lá...

Na rua pensava ainda na sua pergunta sobre eu conhecer um jagunço, e lembrei que há uns trinta anos, quando jovem e fazendo teatro amador, sai uma noite - sim aqueles casos com o Vadinho como sempre - a procura de sanfoneiro para uma peça que montávamos à época...

Ora bolas, eu lá tenho cara de quem conhece sanfoneiros e jagunços? Poderia ter me aprofundado mais no assunto, não fosse a água fria de a chuva me trazer de volta à realidade.






[1] Golpe Errado
Geraldo Pereira

Lá vem ele com seu terno branco engomado/trazendo outra morena a seu lado/E a nega dele na casa da branca se acabando /E ainda leva o jantar embrulhado/É... um golpe errado/todo mundo diz que é../um golpe errado/Na hora que ele sai /pra batucada/é a hora que ela chega do trabalho/e tem de fazer de madrugada/um bife malpassado prá ele /Não ficar contrariado./É...um golpe errado








SOMENTE UM CIGARRO ME BASTA AGORA



OUTRO PEQUENO DRAMA-RELÂMPAGO



Luz sobre um homem que fala.
Não se vê mais ninguém, ouve-se somente a sua voz.

- Nada, nada a declarar! – só isso tenho a dizer a cada um de vocês. Não me sinto com obrigação de falar nem uma única palavra sequer! Sim, dei o tiro, mas poderia ter sido uma facada, uma paulada, uma pedrada, uma garrafada como nos filmes de ação. Mas resolvi que deveria dar um fim naquela situação um simples e rápido tiro. - “Pum! Fração de segundo depois o corpo no chão. A mancha vermelha no assoalho. Minha arma ainda fumegante também ali caída, e no piso deixei as marcas de meus sapatos que seguiram vermelhos pela sala, para a saída do apartamento. Não pensei em correr, em fugir, em me esconder. Era patente o meu desejo, a minha ânsia, só não viu quem não quis, quem não quis se envolver, tomar partido, meter a colher.  Aqui estou dando meu depoimento. Perguntem e responderei, sequer alegarei ser réu-primário, um cigarro nesse momento me basta. Não, não sinto qualquer tipo de arrependimento, nem culpa, nem frio, nem nada, somente a vontade de fumar um cigarro. Cumpra-se a Lei, sigamos a Ordem, façam a Justiça. Eu já fiz a minha. Estou em paz. E vocês? Poupem-se de me perguntarem por que fiz o que fiz, não sou louco, logo motivos tive, e ouso dizer, tive-os e muitos! Não os enumerarei, não me justificarei, cumpram o rito e condenem-me logo. Não quero ir ao velório, nem ao funeral, por mim que joguem o corpo aos abutres ou deem de pasto às chamas. Minhas última palavras?

- Um cigarro, por favor.



Luz apaga lentamente

Silêncio.

Cai o pano