2016/05/11

2016/04/29

SOBRE LEGUMES E FLORES




Brigavam. Qual casal não briga? Discutem, tem lá suas diferenças! Seus pontos de vista divergentes! Contrastantes! Brigam por uma parede azul que deveria ser verde, de irem pela direita quando ela (sempre ela) que ir pela esquerda, por muito sal, por pouco açúcar!
Brigaram. Discutiram. Sabe-se por que, qual a razão (se é que havia uma razão, um com razão, ou os dois errados). Disseram-se palavras duras. Feriram-se com terríveis pejorativos, feios predicados, lembranças deturpadas, vomitaram todo o fel.
Brigaram, viraram a cara um para outro, cada um seguiu seu caminho, tropeçando em cada pedra do caminho, errando as escolhas em cada encruzilhada, trocando Norte por Sul, Leste por Oeste, erraram enfim por caminhos outros...
Separaram-se.
Mas o tempo passa, às vezes passa por cima da gente, ora por cima dos problemas, mas o tempo passou...
O fulano (não declinarei o nome, não percam tempo ligando para a redação!) tornou-se mais amigo que antes. Andávamos juntos e eu a ouvir-lhe as lamurias, a ver-lhe lágrimas correndo pela cara, assistir seu lento desmoronamento – que começava pela corcunda recém-adquirida, sola dos sapatos gastos...
Mas o tempo passa. O tempo nos afasta dos bons e dos maus...
Um dia, anos depois reencontrei esse amigo. Abraços, tapinhas nas costas e a famigerada pergunta:
- Vamos beber?
- Vamos! (fomos)
Ele me conta que hoje estão casados, felizes, sem filhos, (talvez por isso felizes?) (cartas pra a redação!) ainda pressuroso. Cheio de dedos pergunto, com muito rodeios, como foi que acabaram se acertando (bem que poderia ter perguntado sobre o sentido da vida, mas não!)...
Ele ri. (achei bom sinal, há muito não o via sorrir, quantos mais rir à bandeiras despregadas), então ele me conta:
- Louco o negócio, muito louco, até para os meus padrões de loucura. Passamos meses separados ruminando ódios, pensando besteiras, aquela desgraça toda que nos passa pela cabeça quando estamos sós, sabe? (não, não sei!, garanto-vos!). Ela não respondia meus telefonemas, as cartas eram devolvidas... Aquela miséria desgraçada que você (eu) acompanhou, (nada disse – sou discreto como um cavalheiro inglês - mas ele acabou ficando meio curvado..., mas guardei essa má impressão, afinal ele me parecia realmente feliz) até que um dia ela aparece em casa trazendo uma cesta de palha (palha? Acho que era de vime, mas deixemos isso pra lá). Olhou-me nos olhos, aqueles olhinhos amendoados, apertadinhos, míopes, úmidos, e disse que aquilo era para mim. Olhei para a cesta entre espantado e encafifado, mas sabe como são as mulheres, não é (sim eu sei, não entendo, mas sei como são...) e não disse nada, mas evitava ficar olhando muito para a cesta, quando, passada a emoção de me ver (mulher é besta mesmo) ela disse:
- Dia desses, andando pela feira lembrei de você. Comecei a chorar, mas como chovia ninguém percebeu. Quanto mais chorava mais lembrava de você (quem as entende?) até que passei por uma barraca cheias de umas flores tão exóticas, mas tão esdrúxulas (e olha que essa mulher o amava...) que não me contive, comprei essa dúzia que tinha lá, fiz essa cestinha com amor e vim aqui te pedir desculpas e perguntar se você me aceita de volta...
Confesso que quase me emocionei, mas segurei a onda, antes de tudo sou um forte!
Contou-me que se abraçaram, se beijaram e, que emocionado confessou-lhe que hoje, sim hoje, hoje mesmo, naquele maravilhoso momento ele chegara à conclusão que ela era mulher de sua vida, sua alma gêmea, a outra metade da laranja!
- Catso! - Como você chegou a tal conclusão? (já estava me irritando com tanto drama!)
- Cara, ela tinha trazido para mim uma cesta cheia de alcachofras! Ela confundiu flores com legumes, mas fez isso por amor por mim. Chorei junto com ela!
Abracei-o fortemente, (quase o quebrei ao meio), desejei-lhe toda felicidade do mundo, olhei para meu relógio, dei-me um tapa na testa e disse-lhe que tinha um compromisso inadiável.
Fui-me.
Nunca mais o vi*.









2016/03/24

2016/02/05

OS AMORES E SUAS DORES





Dia cheio quando ele chegou, um daqueles dias em que o cristão se pergunta por que não nasceu um Rockefeller, Gates, ou mesmo um “Seu Manuel” da quitandinha, que tem mais dinheiro que eu.
- Ela é casada com o careca, o garçom que nos atende – Falou-me assim de chofre enquanto eu pensava nas minhas dívidas.
-Quem? Casada com que careca? Então era por isso que ele vive com aquele chapéu?
                   - Luzia – murmurou, entre suspiros dolorosos.
 Longos cabelos negros escorridos, olhos lindos e profundos, pés pequenos, mãos brancas de dedos longos, unhas vermelhas, e sempre muito simpática pensei naquele momento, mas guardei para mim tais pensamentos...
Mas guardei para mim tais pensamentos...
Ainda atordoado pela chegada súbita dele, fiquei a olhar para o nada.
- Vi no facebook do restaurante  a foto dela abraçada com o careca...
- Mas você não achava que eles eram irmãos?
Guardei para mim a decepção! Mas logo a compartilharia com os outros colegas que iam almoçar lá só por causa dela... Afinal quem divide, multiplica!
- Me iludia, me enganava – resmungava o pobre homem - tentava cobrir o sol com a peneira... Ela me hipnotizava.
-... (Sem palavras. Segurava o riso. Tenho medo dele!)
- Pobrezinha li que ela não tem mais a mãe...
- Perdeste a chance de ser feliz duplamente... – Sou um cínico, sei!
- Como? – indagava quase babando.
- Ter a Luzia e não ter uma sogra... (por pura piedade deixei de falar que ainda assim teria um cunhado!)
- Essa é história da minha vida... (houvesse uma plateia a nos assistir, esse seria o momento do suspiro coletivo!)
- E agora? – Senti que a pergunta era como passar sal na ferida. Eu não presto mesmo!
- Volto ao Português... – declarou decidido - Lá como à vontade e pago menos. Acho que o marido a explora. Ele a colocou ali, linda daquele jeito!, só para atrair freguesia.
Feito um vereador em cima de caixote, ele continuava com seu discurso inflamado:
- Tenho certeza. – disse peremptório. Aquele cafetão! – disse seguido em soco na minha mesa.
Não fosse o susto, juro que o aplaudiria!
Tive vontade de colocar mais lenha na fogueira e acrescentar que ela gosta de coentro e quem gosta disso boa gente não é... Mas ele sabe da minha implicância com esse vegetal... Além do mais, se a  minha mesa sem dizer nada levou um murro, imagine eu? Guardei para a mim o comentário...
- Sim, afinal a comida no restaurante dela não era mesmo grande coisa, não é? – ai não sei bem se ele se engava ou tentava me convencer. - E aquele negócio do careca falando toda hora “bom dia senhores, bom dia cavalheiros, bom dia senhoritas.”, aquilo me irritava deveras... Coisa pouco máscula para um restaurante no porto... Só lamento o mau-gosto dela – quase, quase falei no coentro!.  – disse seguido de mais suspiro capaz de fazer estátuas chorarem.
Tive vontade de discordar. Mas diante daquele olhar de cachorro abandonado na chuva não tive ânimo...
- Mas no português tem a... – ele me interrompe. Não lhe agrada que eu o lembre de seus amores frustrados. Senti uma vontade muito grande de descrever a pele de seda dela, o gingado, o tratamento diferenciado, mas o medo falou mais alto, outra vez!
- Sim, tem ela, mas já a superei. Hoje a vejo com outros olhos. Sinto-me um quase irmão dela... – dessa vez sou eu que o interrompo.
- Não se iluda seu velho descarado... Tive ganas de perguntar-lhe se já havia comprado umas borboletas azuis, mas o meu bom-senso achou melhor deixar isso prá lá... Me arrependi de tê-lo xingado. Pude ver mais um futuro-pretérito desfazendo-se à minha frente. Lá se ia o sonho do casamento, da família, do Juninho, do labrador chamado Bonifácio, a criação de curiós... Tudo se desfazia...  Do cenário idílico só sobraram os pombos voando sob um céu que há pouco tempo era azul, era promessas, era um mundo que... Poetizo, deliro, viajo nesses momentos... Sou um sentimental incurável! E há quem diga que não tenho coração...
Ficamos em silêncio por um tempo...
Ele olhou para o teto, achei que fosse reclamar das rachaduras, das paredes descascadas, das sujeiras das janelas, quando ele me sai com essa:
- Hora de irmos ao quinto andar!
- Voltou a fumar passivamente?
- Não sei como consigo viver nesse mundo sem o seu cigarro!
Eu ia tocar no assunto das borboletas azuis mas resolvi deixar esse assunto pra lá...



2015/09/16

GATO



esfinge noturna
brilhantes os olhos
desse gato no escuro


LEMBRANÇAS DO TIO NENÊ

Fala-me ele de seu tio Nenê
Da mesa posta aos domingos
Da briga de irmãos e primos
Pela primazia dos bicos da baguete
Fala-la me o velho dos almoços
Dos espaguetes, das manchas na toalha da mesa
Do vinho tinto dos grandes
Dos vinhos com soda dos pequenos
Do charuto e do Gardel girando
Do tio Nenê na cadeira de balanço
Do cachorro roendo os ossos que sobraram
Ah! Ele quase chora...
As bolinhas de gude, a troca de figurinhas
Fala-me ainda do café com leite à tarde
Os bolos...
Os bolinhos de chuva
Geleia de goiaba do quintal
As histórias que tio Nenê contava...
Ele chora
Pois o que mais dói em suas lembranças
Eram os fins dos domingos!










2015/08/25

2015/08/20

2015/08/06

GALO




canta o galo no
terreiro, e mostra
quem manda no dia

                                                                                                        nasce o dia no
terreiro - e, supremo senhor -
                                                                                                     canta o galo


2015/07/17

SAPOs




Coaxa o sapo
rio, que chova
agora

que chova agora
coaxa o sapo
agora rio

o sapo
    coaxa, rio, agora
chove





2015/07/16

SEGUE AQUI UMA COLABORAÇÃO DO Sr. ALEXANDRE COSTA




NO TAPETE VERMELHO


                Corbel toma um chá na cafeteria mais famosa da cidade, enquanto Allura acorda entre os braços de Lucida a alguns quilômetros dali.
                O chá, ralo demais para seu paladar, é deixado de lado, enquanto as meninas dividem o chuveiro.
                Nem as manhãs para ele, ou a noite para elas, são capazes de evitar a fadiga de mais um dia de trabalho; no entanto é preciso, e se preciso for, preciso será feito, e ambos aceitam resignados seus destinos.
                Corbel olha no relógio e vê o tempo que ainda pode desperdiçar, Allura sai do banho, enquanto Lucida, quase pronta beija sua boca com paixão. Ele imagina olhando para o movimento na rua, que hoje encontrará alguém para dividir e compartilhar a noite; elas saem apressadas pelas escadarias de olho no tempo que não podem desperdiçar.
                E se tudo pudesse ser colocado em um livro, com certeza os três ficariam excitados com a possibilidade de um encontro assim; e essa possibilidade toma forma devagar e sorrateiramente, enquanto Corbel decide ficar ali na cafeteria até que o destino mostre sua cara.
                A quilômetros dali, Lucida e Allura esperam o mesmo para ambas, e decidem encarar o dia como se o destino tivesse enviado a mesma mensagem para as duas.
                E não há dor, nem há razão, nem há motivo ou circunstância que desvie o efeito da causa, ou do que está por vir. E assim acontece que tudo está marcado desde sempre para se realizar.
                Corbel espalha o olhar pela calçada, alcançando o máximo possível de tudo e todos ao seu redor. Lucida aponta para a cafeteria e senta-se a mesa com Allura. No cardápio, o capuccino chama atenção pelo preço e ambas decidem pelo mesmo, mostrando um sorriso cúmplice.
                Na mesa da frente, Corbel deixa escapar um sorriso malicioso e discreto ao mesmo tempo. Nos planos do destino, os três só sairiam dali com a lua em suas cabeças e o desejo em seus corpos.
                O dia estava perdido, e estava ganho também. E foi numa bobagem dita por alguém na mesa, que se juntaram de vez.
                E se essa história não estivesse num livro, onde estaria? Se não estivesse nos três onde estaria? Se não fosse tão banal e corriqueira, o que seria? E feito óculos de sol, onde se vê sem ser visto, o destino levou os três dali sem ao menos perguntar se queriam sua companhia.
                Nenhuma palavra foi dita no caminho nem no tempo, nenhuma pergunta foi feita, pois nenhuma resposta seria necessária.
                Ao entrarem no apartamento, Corbel tirou os sapatos e pisou no tapete vermelho da sala. Lucida tirou a roupa enquanto Allura fechava a porta. Lucida puxou-o com força de encontro a sua boca e Allura arrancou sua camisa. Corbel fechou os olhos e deitou-se no sofá. Lucida sentou-se em seu colo e Allura foi buscar uma taça de vinho na cozinha.
                E os três pareciam apenas um no emaranhado de corpos quentes e suados; e os três pensavam como um entre a loucura e a falta de medo. Corbel entrava e saía de dentro das duas; e os três aos gritos se saciavam um do outro.
                Os corpos espalhados pelo tapete vermelho, não indicavam o fim daquela noite, não para as duas mulheres. Corbel sentiu a boca de Lucida em seu pescoço e, enquanto gritava e debatia-se tentando em vão escapar das suas garras, sentiu seus dentes afiados atingirem seu pescoço.  Allura segurou a cabeça de Corbel apoiada em suas coxas e encheu a taça de vinho com seu sangue.
                Para sempre jovem, para sempre as duas, para sempre o eterno destino que une a presa e o predador.
                A taça de sangue estava cheia, o corpo no tapete vermelho, vazio.

                Nem todas as noites são assim, às vezes só o sono mata a fome.




Querem conhece-lo? Cliquem aqui:   ?Alexandre Costa

2015/07/14

À FERA




já não creio em panaceias
milagres ou prodígios
descuido das dores
não lambo as feridas
já não tenho lágrimas
tenho os pés duros
(quase um casco)
couro em vez de pele
não tenho mais alma
e o espírito (hahahahaha) é de porco
abri há muito mão da humanidade
pouco falta
para voltar a andar de quatro
rastejar, e
voltar prá árvore
virar de vez uma fera,
voltar a selva
(selvagem, como diria o Dante!)
ser humano não dá
isso ai não tem mais cura não


PEDAÇOS INCOMPLETOS




as luzes – longe
da comida – o aroma
o perro - magro feito a morte
a solidão – dum cobertor velho


2015/06/24

MARIAZINHA



Mariazinha, toda noite acende uma vela para o falecido. Os vizinhos ficam comovidos com tanto amor... E na janela, a vela ilumina a rua, servindo de farol nas noites escuras. Sempre de preto, coquezinho branco no alto do cocuruto, olhos fundos, olheiras enormes, passinhos curtos...
Todos os domingos, com sol ou chuva, frio ou calor, na igreja, de joelhos, orando, rezando, suspirando e comungando.
 - Triste Mariazinha! – os anjos murmuram no altar.
Mariazinha e sua rotina.
Pendurado no varal, suas camisas, calças, meias...
No supermercado, as compras, o carrinho sempre cheio das comidas que o Seu José gostava.
- Pobre Mariazinha! – sussurravam os vizinhos.
Mariazinha estoca toda a comida na geladeira que fica no porão.
Há quem ouça estranhos barulhos vindos de lá altas horas da noite...
Em tempo 1: Mariazinha não tem mais cachorro e nem gatos, eles sumiram após o falecimento do Seu José.
Em tempo 2: Suzaninha, dizem, mudou-se para o interior do Piauí, mas isso é outra história.


POSITIVAMENTE O INVERNO É CIVILIZATÓRIO POR AQUI




Frio, chuva fina, sob as marquises
perfeitos estranhos
Desejam-se sinceros – Bom dia!


2015/06/22

2015/06/15

FL




FL tem à sua frente tequila o mar
os dados e a vida (toda) pela frente
ele sempre sabe como jogar




ao pequeno-gnomo


2015/06/08

2015/04/17

ACHO QUE NÃO VALE A PENA NÃO...




não há suor no rosto
noites mal dormidas
dinheiro no bolso
cunhados na porta
ações na bolsa
esqueletos nos armários
fofoca de vizinhos
amante argentina
segredos que nem na igreja confesso
dólares no colchão
uma vela pra deus
outra ao diabo
filhos na suíça
mulher com plástica/silicone
champanha cristal e caviar
que compense
tanto trabalho meu deus...



2014/11/13

MEU DEUS, TODO ANO A MESMA COISA!




 Ele está chegando
já está nas ruas
nas lojas
nos ouvidos
nas narinas
enfim empesteia o ar
está nas luzes à noite
piscando mais que as estrelas
esta na tv
nos rádios
o magrão já rói as unhas
e angustiado espera
o vadinho
conta com os abacaxis
o comandante
“viajando” que tirar selfies
na porta “dos lojinhas”
        (1,99!)
as igrejas pedem
as pessoas imploram
as instituições clamam
pela sua participação
tsc tsc tsc
já não durmo, e
somatizo todas as dores
sofro por antecipação
evito o telefone
tremo ao ver um envelope
sim
             sim
                                sim!
o Natal está chegando
de novo...










 Pro Alexandre (Magrão)
Vadinho (Vladimir)
Que somados...

2014/11/07

POMBO



O pombo
Sua fome/seu grão
Sua sina/maldição
Uma roda/caminhão
Morre o pombo/E sua fome
Sobra o grão




2014/10/15

Antes de entrar de férias publico aqui um conto de meu amigo ALEXANDRE COSTA


O ASSASSINO



                Abro os olhos e percebo que acordei. Pego o celular do lado da cama e vejo que são sete e quinze da manhã. Estico o corpo preguiçoso e dou um grande bocejo, mas não quero levantar. Debaixo da coberta, o calor sustenta minha preguiça. Viro de lado e decido ficar mais dez minutos deitado.
                Abro os olhos e percebo que acordei. Pego o celular do lado da cama e vejo que são onze e meia da manhã. Dou um salto e caio com os pés no chinelo, mas não há como remediar o atraso. Corro até o banheiro, lavo o rosto, volto ao quarto e coloco a calça, coloco o relógio no pulso e a mochila nas costas. Abro a porta e pulo no tênis que deixei no capacho na noite anterior, abro o portão e vem a cegueira da luz do dia. O sol já tava lá a minha espera. Detestei aquele dia claro e quente. A camisa com que dormi, ainda quente em mim, ardia ainda mais agora. A noite fria engana os desavisados como eu, mas o atraso me impedia de voltar e trocar de roupa.
                No ponto de ônibus procuro uma sombra. O cachorro de rua late na esquina, talvez com fome ou com raiva do calor. Depois vem o ônibus e vou em pé até o trabalho. Viagem desconfortável. Chego cansado, e sem desculpa pra enganar o chefe, conto a verdade. Ele ri de mim. Vai trabalhar, diz. Ele vira as costas e segue rindo até sua mesa. Olho no relógio, são meio dia e quarenta e não terei almoço, nem tive café.
                Fui correndo pra minha sala, liguei o computador, peguei os óculos e o celular na mochila. Antes de sentar na cadeira o telefone toca. Boa coisa não é, penso. E o chefe tem uma missão pra mim. Por conta do atraso fui designado pra acompanhar a visita do campeão mundial de xadrez Alexei Malopov para uma demonstração para um público bem restrito. Tire uma boa foto, ele pediu.
                Botei o pé na rua a uma e cinco. Me senti caminhando sobre a cratera de um vulcão. No relógio digital de rua a temperatura de trinta e três graus tornava a minha vida um inferno. Quero desaparecer, mas preciso trabalhar. Quero estar na lua numa eterna noite fria, mas preciso fazer aquela foto. E nada se pode fazer contra a natureza das coisas, ou os desejos do universo, ou a lei de Murphy.
                Pego o ônibus de novo. Espero chegar rápido ao meu destino. Há bancos para sentar ao sol, mas prefiro ir em pé, cheirando o ar que passa apressado pela janela e foge pelo outro lado do coletivo. Um gozo fugaz quase parecido com felicidade me toma inteiro, depois tudo volta a ficar tórrido de novo. Quero apenas o sopro do Himalaia agora, mas o calor da primavera, além dos números previstos pelos especialistas, cozinha meu miolos.
                Desço do ônibus e entro no hotel, corro, estou atrasado, entro pelo saguão, todos me olham, mostro a credencial pro recepcionista, que aponta  para duas portas à esquerda de quem entra. Finjo entender, corro pra porta e sinto que ele me disse algo que perdi com a pressa.
                Entro numa grande sala cheia de pessoas em completo silêncio. Deduzo que acertei. Caminho entre elas e sento o mais perto possível de Alexei. Um homem sozinho em frente a uma mesa num palco vazio olhando para algo a sua frente é bem a cara de um enxadrista, pensei. É aqui mesmo. Um pequeno  constrangimento me atingiu quando percebi que era o único que não trajava social. Mas eu estava a trabalho, pensei. Não estou aqui me divertindo, estou trabalhando, e suando.
                Esperei que ele sentasse e que o jogo, ou a performance solo tivesse início, mas nada, só ficava em pé, imóvel. E todos em silêncio esperavam por algo, que eu não esperava.
                Coloquei a mochila na cadeira, tirei a máquina fotográfica de dentro, caminhei sorrateiramente pelo carpete vermelho, esperei o momento certo e tropecei no degrau que me levaria até o palco. Caí deixando escapar a máquina que bateu na quina do degrau, batendo a foto. Um grande flash iluminou o ambiente. Espanto geral, Alexei virou-se para mim atônito. Os convidados se entreolharam sem entender qual a razão de eu estar ali. Eu me perdi entre um pensamento e outro, ou foi quando me expulsaram de lá, tanto faz, eu perdi todo o restante do jogo. Mas eu sabia que tinha tirado a foto, e era o que importava.
                De volta ao trabalho, sentei em minha cadeira, puxei a máquina de dentro da mochila, conectei-a no micro para abrir a foto. Lembro que o sol batia na janela e aumentava o calor dentro da sala. Lembro que o telefone tocou, meu chefe entrou devagar pela porta, como em um filme de suspense. Lembro que ainda não tinha comido nada. Olhei no relógio, eram quatro e quinze da tarde. Não me lembro de mais nada depois que vi o punho do meu chefe atingir o meu queixo e eu me sentir em órbita de uma lua de saturno.
                Abro os olhos e percebo que acordei. Procuro o celular ao lado da cama, mas vejo o jornal do dia. Estico o corpo pra acordar e me lembro de um sonho estranho. Na mesa do café resolvo olhar o jornal. Um clips indicando uma página me chama a atenção. Abro e vejo a manchete: "Homem embriagado usa flash de câmera fotográfica para destruir formas de vida extraterrestres sensíveis a luz".




ASSIM ELA VIVIA A NOS CONTAR


(poema horrível, mas verdadeiro)




ela falava de sua vida
dura
que morava muito
longe
ia sempre de pé no
ônibus
que sofria muito
a infância pobre é
uma cicatriz n'alma
a barbie sem a perna direita
os cabelos ralos
entre o choro triste
e um riso louco
lembrava da bolinha de gude
única que tinha
era o olho de vidro
a avó morta
contava sempre
que subia e descia o morro
com sol ou chuva
e batia orgulhosa
nas panturrilhas grossas
mas escondia envergonhada
as varizes...
todo santo dia
sem alternância
nos contava as sua mazelas...
seu mantra diário era:
viver é sofrer!
viver é sofrer!
mas nós seus ouvintes
repetíamos silente:
- sim viver é ouvir
o sofrimento alheio...




2014/10/01

O QUE AQUELES OLHOS DE JABUTICABA PISCANDO FIZERAM COM VOCÊ VELHO COMANDANTE!


(pequena crônica do dia em que a Dilma veio fazer discurso aqui na cidade)




Te aborrecestes ontem
Quando na Praça da República a massa
Se envolvia e rejubilava-se
Como que diante do Grande Salvador
(pena os fogos terem espantado as pombas e os sanhaços)
E ao seu lado a pequena burguesa vomitava sua bílis
Seu mal herdado da Casa Grande ancestral...
Pois ela a leitora do Olavo de Carvalho
(aposto que seria capaz de declamar trechos inteiros, se desafiada fosse!)
(ainda bem que não foi!!!)
Tão pequena e
Tão sinhazinha
Transpirava seu ódio
Rancor e medo
Do populacho lá fora
Ela que te olhando nos olhos
Desafiava tua doçura e fé na Revolução
(que um dia?) virá (ou não)
Ela tão carismática e arrogante
Direitista de berço & criação
Vomitava palavras de ordens
E procurava no ar
(louca? Desvairada?)
Uma arma imaginária
Para o tiro final
Para o começo de um novo fim...
Sim ela desafiou essa doçura a virar fel
E penso que pouco faltou
- Não é?
Mas não sofras Velho Comandante
Nosso tempo está a acabar
(estamos na prorrogação, relaxe!)
O Velho Mundo Novo
(ou o novo mundo velho?)
Mostrará à burguesinha a sua face
Imutável e cruel
E ela acordará
Um dia desses
Na praia...
Na feira...
Na igreja enquanto bate palminhas e canta como se fosse ser arrebatada em meio às fumaças
dos incensos que sobem aos céus dos justos,  injustos e indiferentes...
Dando pipoca aos macacos...                                                                                                  
(pode parecer, mas isso não é uma praga deixei-me levar pela emoção)    
Não quero emitir aqui qualquer
Juízo de valor
Não comungo radicalmente
Com qualquer cor política
(sou um iconoclasta desde sempre)
Mas compartilho de sua dor
Velho Caudilho.
E parafraseando-o, Sábio Cínico:
-Ela é mesmo muito
Bonitinha para ser assim
Tão conservadora!





2014/09/25

2014/09/15

AMANHECER




O dia chegou com
                               o galo do vizinho
com o raio de sol 
                             na fresta da janela
com o espreguiçar e 
                              estalar dos ossos
um novo dia numa vida
                                                            velha



2014/09/12

DIVAGANDO NA DOMITILA




os seus olhos tristes
as costas curvadas
o sorriso amarelo
os pés que se arrastam
a meia que aparece
                                    na sandália, o
– “boa tarde senhores!”
que não convence
nem comove
o jeito como anota o nosso pedido
(que sempre é:
- dois expressos, sem leite!)
o eterno:
- sintam-se a vontade!
que nos dá vontade de levantar da mesa e ir embora
tudo isso só me leva a pensar que:
ela detesta esse emprego
ou está lá ainda à espera
do grande amor de sua vida...
e tanto divago
que o café esfria na xícara..








O Comandante entende essa