2017/07/17

DIA DE FESTA E DE ROJÕES



Caríssimo.

Ontem, domingo fui fazer meu passeio na praça, esticar as pernas, tomar um ar fresco, ver passarinhos, pisar na grama verde e tomar um sol.

Não sabia que haveria uma comemoração qualquer por lá. Essa minha vida peregrina, não me deixar guardar datas festivas, dias nacionais, estaduais e municipais... Havia barracas brancas espalhadas pela praça e arredores. A Matriz dava badaladas e mais badaladas, barracas de doce e barracas de tiro ao alvo, onde, modéstia às favas, arrebato o coração das mocinhas, gritos das criancinhas e bufadas de despeito dos marmanjos adonzelados.

O dia estava claro de romper retinas.

Postei-me à sombra de uma árvore e pus-me atentamente a ver a montagem dos fogos de artifícios feitos por uns ciganos de chapéus de abas larguíssimas, vastos bigodes e grandes adagas na cintura. Há muito tempo não vislumbrava essa gente. Por um átimo senti um misto de medo e louca apreensão, que logo passou. Afinal não sou homem de medo, loucuras ou apreensões. Procurei em meu bolso um cigarro.

Soltando fumaça pelas ventas voltei a caminhar. Chateava-me a ideia de esperar até a noite para ver os fogos...

Fui a um bar, tomei um café, comprei uma caixa de fósforos e um maço de cigarros. Ainda no balcão ouvi que os fogos seriam disparados ao meio-dia, pouco faltava para isso. Paguei e fui-me à rua.

De volta na praça lá estavam os ciganos reunidos. Não se ouvia uma palavra proferida por eles. Falavam-se por olhares, grunhidos e posição das mãos nas adagas. Tipos raros e perigosos, pensei.
Meio-dia em ponto.

Os ciganos estendendo as mãos deixavam claro que era para as pessoas se afastarem, e indo em direção a elas com olhares furiosos, elas iam  andando para trás.

Formado um círculo os ciganos dirigiram-se ao pequeno palco para começarem a queima. Caro amigo nunca em minha longa e cansativa vida já me deparei com tamanha maravilha. Nem o mar verde me espantou como esses nômades romani.

O mais velho deles, de calças largas, botas longas que lhe chegavam aos joelhos, olhos negros e fundos, feito duas cavernas, olhos para o público, puxou do bolso um isqueiro e sem mais delongas, sem qualquer outro ato dramático, acendeu o pavio dos morteiros e saiu correndo...

Lembre-se, o dia estava claro, sol a pino e era meio-dia quando o primeiro morteiro subiu aos céus como um foguete e, que espanto!, que maravilha!, coisa extraordinária!, em vez do bummmmmm a que estamos acostumados a ouvir, temer, tapar os ouvidos, o que ele fez foi – como escrever isso? – foi puxar todo o barulho da praça, puxar todas as vozes, todo o alarido para dentro de si e deixar por segundos – longos e que ecoavam dentro de nossas cabeças – um silêncio assustador. E não foi só a falta do barulho da explosão que nos deixou pasmo – veja bem não minto, nem exagero – foi que em vez do clarão, o rojão abria escuridão no céu. Escuridão que nos permitia ver a noite, as estrelas, os planetas. Houve até os que sentiram frio por alguns segundos. O sol sumia dando lugar a uma noite fora de hora, rojões que provocavam eclipses!

Após isso a praça esvaziou-se, as pessoas foram embora para suas casas, calados, ouvia-se o som de passos, quase se ouvia a grama crescer. A festa que deveria ir até a noite finou-se por ai mesmo. Acho que esses ciganos não voltam mais por aqui com esses fogos.

Fui para casa pensando nisso. Quando cheguei abri minha garrafa de absinto e pus-me a matutar sobre o mundo esse mundo...

P.S. Ouvi naquele bar um sujeito comentando sobre uma anta de trezentos quilos com enormes dentes de javali, um belíssimo horror da natureza. Imagino que o bom amigo gostaria de tê-la empalhada em sua sala...

Abraços desse escravo das maravilhas!



Um comentário:

marcelo lemos disse...

Por certo que estes ciganos eram familiares de Melquíades, se é que o próprio não estava entre eles.