2012/03/27

DUAS AMIGAS NO BAR

Estava sentado na mesa de um bar outro dia, e sem querer comecei a ouvir uma conversa entre duas mulheres. Devo confessar que esse é um hábito que cultivo, pois costumo usar esses dramas da vida real em meus contos, afinal a realidade é muito mais interessante que a ficção. Vamos lá.



- Você sabe que dia é hoje?

- Ai meu Deus!, outra de suas datas...

- Não começa.

- Não começa você. Olha aí. Já começou a chorar. O dia de hoje te lembra o quê?

- O quê?, não! Quem! Me lembra quem!

- Tá certo, tá certo. Te lembra quem?

- O Célio, me lembra o Célio. Se estivéssemos juntos hoje comemoraríamos quinze anos de casados Quinze anos...

- Mas ontem você estava falando do Jorginho...

- Ah! O Jorginho seria - se estivéssemos juntos ontem - treze anos de namoro, treze anos.

- Mas como você consegue guardar tantas datas?

- Sou uma romântica incurável...

- Só por isso você vive relembrando todos os seus relacionamentos?

- É muito amor nesse coraçãozinho...

- Você tem que beber mais. – Estala o dedo, chama o garçom e pede mais dois martinis e outra porção de pistache.

- Quinze anos, quinze anos e tudo o que me resta são bolachas dos chopes que bebemos...

- Como você pode pensar ainda num cara que te levou tudo?

- Tudo não!

- Certo. Tudo não! Ele te deixou as bolachas dos chopes que vocês bebiam... Como você consegue achar esses mondrongas?

- Eles não são mondrongas. São pessoas que não foram bem-amadas, que não tiveram o carinho necessário...

- E o Márcio, aquele cafajeste?

- Ah! O Marcinho..., ele sabia fazer uns ovos mexidos...

- Ovos mexidos? Como alguém pode se apaixonar por um homem que sabe fazer ovos mexidos?

- Sábado passado faríamos doze anos de casados se...

- Ele não tivesse te largado na José Paulino...

- Não foi na José Paulino, foi na Ladeira Porto Geral, e não fique envenenando o Marcinho desse jeito.

- José Paulino, Porto geral, o que interessa é que você foi a-ban-do-na-da. Abre os olhos mulher! Procure alguém que preste, que te dê alguma coisa concreta, qualquer coisa, menos lembranças e mais lembranças e marcas nas folhinhas- Você não me entende mesmo! – Esvazia o copo de Martini e fica jogando o caroço da azeitona de um lado para o outro na boca.

- E pare com esse cacoete nervoso!

- Que cacoete?

- Esse de ficar chupando caroço de azeitona. Admita, você não sabe escolher homem! Você é incapaz de reconhecer um homem decente e honesto. Olhe à sua volta.

Ela olha e dá com o olhar do garçom que lhe sorri. Ela sorri de volta e dá-lhe uma piscadela.

- Não adianta mesmo. Você nunca vai aprender nada.

- Agora você vai implicar com o garçom só porque ele é um humilde trabalhador? Ele não pode merecer nosso respeito, nosso amor, um pouco de carinho?

- Sua burra! Tudo o que ele quer é que você beba mais. Ele só quer te encher de martinis. Esse humilde trabalhar carente de “seu amor, seu respeito e um pouco do seu carinho”, vive dos dez por cento do que vender aos clientes, ou seja, ele é quase um cafetão!

- Mas, mas...

- Engole esse choro que o garçom está vindo aí, engole esse choro.

O garçom chega e anota mais um pedido de Martini e pistaches. Antes de ir embora olha para a moça de olhos vermelhos e percebendo que ela está chorando, oferece-lhe um lenço.

- Obrigada. – Sorri e devolve-lhe o lenço.

- Você viu que cavalheiro ele é? Você viu?

- Vi, e vi como você é burra sua tonta. Olhe embaixo da mesa.

- O quê tem embaixo da mesa?

- Só te matando. É nessa hora que agradeço a Deus minha mãe ter me dado uma educação religiosa.

- O que tem a ver uma coisa com outra?

- Na minha fé creio na reencarnação! Assim eu te mato, espero você voltar e te mato outra vez. Quem sabe renascendo uma terceira vez, você volte menos burra! Sua tonta, quando ele te passou o lenço, junto veio um bilhetinho, que caiu debaixo da mesa enquanto você assuava o nariz. Estou começando a achar que você tem muita sorte de acabar seus relacionamentos sem ficar só com a roupa do corpo!

- Você me ofende falando assim...

- Ora, como você pode dizer que eu te ofendo? Olha só que você faz consigo mesma, olhe! – Diz apontando para o garçom que vem trazendo outra rodada de martini.

– Olhe só o sorriso de sátiro no cio, olhe.

A amiga olha, sorri, pisca e fala:

- E pensar que logo-logo esse aí vai estar marcado na folhinha...

- Ah! Quer saber? Você não tem jeito mesmo! – Toma o martini num só gole, levanta-se e vai embora do bar.

Eu que já havia acabado o quinto chopinho, paguei a conta e fui embora também. Não queria ver como ia começar aquele novo drama.





4 comentários:

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

Eu iria para o sexto chopinho.

aline. disse...

hahahahaha !

pobre moça.

Mirze Souza disse...

Muito bom, Roberto!

O pior é que existe gente assim. Esse mundo!!!!!!

Beijos

Mirze

Folhetim Cultural disse...

o velho bar