2011/12/07

O CAFÉ

Esnobar
É exigir café fervendo
E deixar esfriar.
- Millôr Fernandes


- O negócio começou muito mal, olha a barata correndo aqui debaixo da mesa, rápido ela está indo para a mesa perto da parede!

- Ela saiu da caixa da geladeira...

- Só podia ser de lá!

Complicado o diálogo? Vamos começar do começo.

Como já citei anteriormente, após o almoço, diariamente, vamos tomar um cafezinho. Antes éramos assíduos da Bolsa Oficial do Café de Santos, nome pomposo, mas o atendimento, os freqüentadores, o preço, e por fim, não abrir às segundas-feiras foi a gota d’água para nos mudarmos de uma vez de lá.

E descobrimos esse novo, de onde vem essa história de hoje.

Desde a primeira vez que lá entramos, nos “entocamos” numa mesa de dois lugares atrás do caixa. Lugar muito aprazível, pois não éramos vistos por nenhuma pessoa, o que era de grande ajuda para nós, pseudos-cronistas de mundanidades. Um ponto estratégico para estudar a humanidade. Ah, esse nosso empenho em compreender o próximo...

O café é de bom preço, atendimento, até agora, sem reclamações. Éramos muitos felizes em nosso domicílio, éramos.

Mas o lugar acabou por ficar muito freqüentado e com fregueses exigentes, tão exigentes que passaram a demandar por outras marcas de cervejas.

Pausa!

O leitor deve ter se assombrado pois falei até agora em café, e passo para fregueses reclamando de cervejas! Pois lá é também um restaurante, espaço grande, mas exploramos somente a cafeteria, tudo o mais nos é desimportante.

Voltemos, pois ao drama inicial.

Para atender a sua seleta clientela (entra aqui um ranço de amarga ironia) ele nos informou que teria que sacrificar nosso “cantinho” para instalar ali, bem ali, naquele espaço sacro-santo de nosso cafezinho cotidiano, a bendita geladeira.

- Mas ainda vai demorar uns dias. – falou de forma a nos confortar.

Mas não tardou muito e o dia chegou, e o dia foi hoje.

Já estávamos sentados, quando o gerente chegou e nos disse:

- Ela chegou! – Disse isso e juntando ação às palavras começou a levar nossas xícaras para outra mesa no extremo oposto do salão.

E lá sentados, tristes, vimos a caixote que trazia a tal da geladeira. Exemplar antigo, com puxador, modelo anos sessenta, numa cor entre bege e o amarelo, desbotada, feia e antipática.

Três pessoas para carregá-la e depositá-la.

Na mesa, quase escrevo “canto”, ficamos observando a operação de desencaixotamento do refrigerador e foi quando, para nossa mal-sã alegria, vimos aquele ortóptero supra-citado sair do meio das madeiras e correr entre as mesas.

- Ta vendo? – disse eu com uma placidez invejável – Se tivessem nos deixado quietinhos em nosso canto isso não teria acontecido...

Mas essa é a minha versão do caso, deixo que o Sr. Costa, relate, um dia, o seu ponto de vista.

Muito embora, não haja ponto de vista que devolva a nossa velha mesinha abrigada atrás do caixa e que nos dava uma visão privilegiada das mulheres que subiam as escadas para se servirem no bufe do primeiro andar ...

É meu ídolo tem razão, a vida não presta!

Em tempo, quase que intitulei esse texto de A BARATA E O CAFÉ, mas pensando bem, ficaria alguma coisa entre kafkiano e repugnante e conhecendo bem o Magrão, ele iria reclamar disso também.

Em tempo², achei por bem não declinar, em nome bom gosto, a cafeteria.

3 comentários:

Anônimo disse...

Adorei a BARATA E O CAFÉ !!!!
Ontem tive um "encontro" desse na minha casa. Bem na minha gaveta de escovas de cabelo e secador, no meu banheiro!!!! A cretina estava lá toda envernizada quando abri a gaveta ! Além do grito ( porque a idiota resolveu andar ) peguei o inseticida e lá se foi um spray de quase 2 minutos na gaveta e em todos os lugares por onde eu achei que ela pudesse se esconder, ainda que tonta. Resumo: com o grito, veio o socorro do marido e aquele ser horrendo foi vencido.
O problema foi depois ter que lavar todos os apetrechos que estavam na gaveta, cuidar do secador ( porque na minha cabeça neutórica achei que uma delas poderia entrar nele ) limpar umas 500 vezes a gaveta e os pentes com limpadores a base de amoníaco, enfim, um inferno. Uma barata me causa um gde transtorno e se eu estivesse com vc qdo a maldita saiu da caixa, teria subido na mesa e ficado lá até que ela fosse detonada. Seria melhor do que ficar em baixo da escada "observando" as mulheres subindo para o 1º andar, vc pode imaginar a cena ?

Maria Auxiliadora

MIRZE disse...

Muito Bom!

Analiso o texto e o conteúdo e a única estranha é a pobre baratinha.
Não tenho medo, mas não é bom em ambientes onde existe alimento e um escritor.

Beijos

Mitxe

Ranzinza disse...

Só vc Mirze para analizar um texto assim