2011/10/26

O ALMOÇO E A RUA

As praças estão para os mendigos como os céus para os urubus
Saio para almoçar com o sentimento de culpa a me roer por dentro
As ruas coalhadas de pedintes
De crianças que me dão medo
Nessa neurose afasto-me delas
(as leprosas de hoje)
De loucos falando sozinhos
Desvio do mendicante na porta da farmácia
(Me dá pena do cachorro que está com ele, estarei assim tão duro de coração?)
No restaurante sento-me ao fundo
Assim não vejo e não sou visto da rua
Escondo-me atrás do cardápio
E quase me desculpando, peço o prato do dia
Mal acabo de comer
(afinal tenho que voltar ao trabalho)
E antes de por os pés na rua
Uma mão magra e suja surge à minha frente
A comida nem bem digerida revolve-se no estômago
Sigo ao café
Para tirar o amargo que me subiu à garganta
Nem lá escapo
Outro, a guisa, de porteiro me estende a mão e sorri
Um sorriso sem dentes numa cara (suja) e já sem humanidade
Bebo meu café temperado com um misto de pena
Raiva e nojo
Por que eu me sinto culpado?
Que fiz para ter tal sentimento?
Nada tirei deles
Nada tenho de mim para dar a eles!
(como se dando o pouco que tenho algo fosse mudar)
O inferno se espalha pelas ruas...
Será que só eu penso assim?
Será que outros olhos não vêem o mesmo que os meus olhos?
Atravesso uma selva de mãos descarnadas
Olhos famintos
Lamúrias, choros e reclamações
Pragas e graças
Na porta de outra igreja um velhinho destroça uma gaita
Com notas desafinadas e um chapéu puído aos pés
Ele é velho
Seus pés são cascos duros e machucados
Olho meus sapatos e deixo para engraxá-los outro dia
Penso em tomar um sorvete...
Mas acabo deixando isso prá lá também
E, agora sim, acintosamente, acendo um cigarro!

Um comentário:

MIRZE disse...

LINDO, Roberto!

Esse sentimento de culpa, nós todos carregamos.

Pura filosofia este texto!

Parabéns,

Beijos

Mirze