2011/08/30

UMA NOITE NA TABERNA ”A PORCA QUE RI”



Um marinheiro musculoso, de camiseta azul marinho, ruivos cabelos desgrenhados e olhos vermelhos injetados, completamente bêbado, estava sentado à mesa esperando pelo centésimo copo de cerveja. À sua esquerda, uma viúva chorava e ria, enquanto entornava copos e copos de uísque; à sua volta seus parentes mais próximos a acompanhavam bebendo cervejas, enquanto uma ou outra lançava olhares lúbricos para ele que, a cada gole, olhava aflito para a porta de entrada da taberna. Parecia esperar alguém. Alguém que, pela quantidade copos, estava muito atrasado.
Sobre o balcão, na falta de um palco, um mágico apresentava espetáculo, anunciando que seria esse o último de sua carreira, já que completava nesse dia seu ducentésimo aniversário e se encontrava cansado demais, prometendo a todos que, após o espetáculo, se aposentaria e sumiria junto com a sua jovem assistente, uma dinamarquesa de vinte e cinco anos de idade. Jovem sim, embora aparentasse setenta e dois anos, dez meses, vinte e dois dias, dezessete horas e quinze segundos...
A dona da taverna, uma senhora gorda, rosada, simpática, rotunda e levemente assemelhada a um suíno, mais guinchava que ria, um riso agudo e estridente, enquanto atendia a freguesia.
Mas assim como o marinheiro, ela também não tirava os olhos da porta de entrada, que se encontrava fechada por causa da chuva fina e fria que assolava a rua.
Duas gêmeas cobrindo a boca escondiam os dentes encavalados e sujos. Riam das piadas que o mágico contava entre um truque e outro, mas na verdade esperavam pelo fim do espetáculo, quando ele iria presentear a assistência com os coelhos que sairiam da velha cartola.
O ar estava turvo de fumaça de cigarros, charutos e do cachimbo de espuma que o velho lobo-do-mar pitava entre um gole e outro de cerveja.
As parentes da velha viúva não tiravam os olhos de cima do marujo e cutucavam-se umas às outras entre risinhos débeis, comentando que poderia ser impressão delas, mas, a medida que o marinheiro bebia, as tatuagens moviam-se em seus braços.
Os arpões atacavam os dragões, o coração de mãe já não sangrava mais, mas juravam que ele estava soluçando e chorando. Enquanto isso, a loira tatuada no braço esquerdo tirava a roupa.

- Uma pouca vergonha! - dizia a mais velha de todas, bebendo mais um cálice de absinto.

Os aplausos para o mágico espantaram os pombos que, saídos anteriormente de seus punhos e pousados sobre os caibros, voaram assustados sobre os fregueses. As gêmeas, numa demonstração de inconcebível agilidade felina, pegaram dois deles no ar, arrancando suas cabeças e rindo histericamente, comendo-os como se fossem duas gárgulas famintas.
No canto mais escuro da taberna, sob uma escada, um chinês amarelo e enrugado pelo tempo e pelo vício fumava ópio e mendigava um copo de bebida.
Lenços coloridos. A assistente serrada ao meio, que, diga-se de passagem, não voltou mais ao palco, foi substituída por outra mocinha: uma árabe ruiva que recendia a camelo. Cartas de baralho encardidas, dobrões espanhóis que apareciam atrás das orelhas de velhinhas bêbadas e outros truques baratos entretinham os solitários freqüentadores da taberna.
As gêmeas olhavam para o relógio e se perguntavam quando os coelhos sairiam da cartola, visto que elas só estavam lá por causa deles.
O marinheiro chegara ao ducentésimo copo de cerveja e começara a ficar tonto. Suas tatuagens, enjoadas de tanto álcool, saíam de sua pele em direção à porta dos fundos, alcançando a rua e respirando um pouco de ar puro, correndo o risco de serem apagadas pela chuva.
A fumaça de seu cachimbo misturava-se à do cachimbo do chinês, formando imagens de feras e criaturas fantásticas digladiando-se entre si.
Mas a contenda não foi longe, pois o bater de asas dos pombos, assustados pelo rufar dos tambores chamando a atenção dos fregueses para o número final do mágico, espalhou-as no ar.
Rindo e salivando, as gêmeas esfregavam as mãos encarquilhadas, esperando pelos coelhos que finalmente saíram da cartola. Já nem prestavam mais atenção aos columbinos que passaram em frente à mesa.
Ao fim do rufar dos tambores, todas as luzes se apagaram e um spot de luz vermelha focou o mágico. Ele repetiu que este seria seu último show e que, uma vez aposentado, se retiraria da vida artística, casaria com sua assistente e dedicar-se-ia a escrever suas vastas memórias.
Então tomou da cartola e dramaticamente olhou nos olhos de cada pessoa, em cada uma das mesas. Procurou pelo marinheiro e o viu em sua mesa totalmente bêbado, agora sem nenhuma tatuagem. Olhou nos olhos da viúva, que agora nem ria nem chorava, parecendo aliviada de todas as dores. Olhou em direção às suas parentes, que antes choravam como carpideiras e que agora, mesmo alcoolizadas, pareciam mais sóbrias que antes. Olhou as gêmeas e vislumbrou a fome que as devorava. Olhou para a dona da taberna cada hora mais e mais rotunda, risonha e rosada. E como já sentindo saudades, olhou com nostalgia para seus pombos que voavam, tentando fugir tanto de dentro da taberna como da fome das gêmeas.
O mágico suspirou, pediu silêncio, olhou dentro da cartola, mostrou à audiência que ela estava vazia, virou-a de um lado para outro, colocou-a no chão, subiu em uma cadeira que havia pedido a uma das gêmeas e - espanto geral - pulou dentro dela e desapareceu para todo sempre!

Epílogo.

Num átimo, as pombas que ainda revoavam dentro da taverna arremessaram-se para dentro da cartola seguindo seu mestre. As gêmeas furibundas e famintas entredevoraram-se aos gritos e maldições recíprocas. A viúva chorando clamava pelo falecido, que volta dos mortos e a leva consigo para o além. O marinheiro acorda com os gritos, resmunga e grita impropérios.
Nesse exato momento a porta da taberna se abre e da rua surge uma sereia molhada de chuva. Vendo isso, o marinheiro diz:

- Isso lá são horas de você aparecer? Olhe isso! – diz apontando para os braços sem tatuagens. - As outras se cansaram de esperar e foram embora.

Com dificuldade levanta-se da mesa derrubando as mais de duas centenas de copos no chão. De tão embriagado, tropeça nas próprias pernas e cai junto com os copos.

- Não sei por que ele bebe tanto! – desculpa-se a pobre sereia que, arrastando-se com dificuldade, carrega-o de volta ao seu navio ancorado não muito longe dali.

O chinês lá no fundo ri de tudo, acendendo outra vez o cachimbo de ópio...

3 comentários:

MIRZE disse...

Como sempre, Roberto, tão bem descrito e quase real, que salpicou sangue em mim.

O ópio do chinês roubou a cena. Ele ri. RI, depois de tanta desgraça e de um ambiente tão sinistro que nem Edgar Allan Poe ousaria pensar.

Parabéns, amigo!

Beijos

Mirze

Ranzinza disse...

Pobre Edgar, não sabe o que está perdendo...

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

Chinês enriquecendo afegão, conheço essa história.

Dá-lhe papoula!!!!!!!!!!!!!!