2011/08/02

A Não-Declaração


Quanto estava ali? Nem lembrava, estava ali encostado na coluna fumando um cigarro e olhando para os olhos dela. Mergulhado naqueles olhos, naqueles olhos que não o viam, não o enxergavam, que olhavam através dele…
Mas aqueles olhos, aqueles malditos olhos… Se ao menos conseguisse se livrar daquele torpor, daquele feitiço ele lhe diria tudo o que passava em seu coração. Da sua paixão, da sua idolatria, do seu beijar o chão que ela pisa, da sua…

- Ei! Você está ouvindo o que eu estou dizendo?

Por um segundo ele baixou à terra, olhou em volta como quem acaba de acordar e percebe a guimba do cigarro preste a queimar-lhe os dedos. Do quê ela falava? Mas mesmo assim, meneou a cabeça afirmativamente, e fez-lhe sinal que continuasse a falar.

- Lembra do Antenor?

- Vagamente- responde; e ele a ouve contar sobre uma cantada recebida há tempos atrás, contado a ele em segredo – Olha só te conto isso em segredo, não vá espalhar por aí - de um colega de trabalho, que sim ele conhecia também (não gostava dele). Parece-lhe, que vagamente ouviu os detalhes, mas as palavras entravam-lhe nos ouvidos como chumbo derretido, as palavras lhe queimavam por dentro.

Ela deu todos os detalhes sórdido, detestáveis, repetiu as palavras que o sujeito usara, descreveu as inflexões, descreveu-lhe até o hálito de hortelã da bala que ele chupava para disfarçar o bafo da marmita do almoço.
Em seu íntimo, olhando para os olhos dela pressentia seu mundo ruir, desmoronar, se acabar, e chegar ao fim suas pretensões de declarar-se hoje, abrir-lhe de vez o peito, contar-lhe da idéia de largar a mulher, os três filhos, os canários, a valiosa coleção de selos, tudo, tudo, tudo.

- Argh!

Gritou um grito de dor, mas foi da chama do isqueiro que queimou-lhe o dedo ao acender, com as mão trêmulas, outro cigarro.
Seus olhos marejados viam a boca dela mover-se, as mãos sacudirem-se fazendo desenhos no ar, a cabeça virando de lado para outro, mas já não conseguia concentrar-se me mais nada.
Em sua cabeça desenhava-se o quadro de sua infeliz e desgraçada existência sem ela. Tragava o cigarro de forma a sufocar-se na fumaça, mas só conseguiu deixar tudo mais enevoado ainda.
Ela continuava a falar, mas nada mais lhe importava, nem ela, nem o outro, nada mais, ou assim pensava até que para colocar o último prego em sua cruz ela diz:

- Afinal eu amo o meu marido, tão pensando o quê?

O zumbi acende mais outro cigarro…

3 comentários:

MIRZE disse...

EXCELENTE!

Um conto que juro não contar. Muito bem escrito e envolvente.

Beijos

Mirze

Ranzinza disse...

Obrigado Mirze, nada como o comentário abalizado de uma escritora de verdade.

solaris disse...

Esse mundo realmente cheio de zumbis!