2011/08/01

MEU NOME É ERNESTO

Meu nome é Ernesto. Mais que um nome, uma maldição para alguém como eu, um leitor compulsivo e impressionável...

Já tentei ser motorista de ambulância e tudo que consegui foi ser taxista por cinco anos em Buenos Aires, mas prefiro esquecer esse assunto, haja vista nunca ter conseguido dirigir “sentado de lado”, mas vamos esquecer esse assunto, embora nos meus delírios de escrever minha biografia, pense em dedicar dois capítulos sobre os efeitos de misturar vinho tinto, parrilla e tango.

Mas...

Depois resolvi ser caçador e munido de todas as espécies de armas fui ao Seringuetí.

Mas tudo o que consegui foi me tornar fotógrafo de grã-finos fazendo safáris fotográficos. E depois de anos e anos servindo de alimento aos mosquitos mais sanguinários desse mundo sem nunca conseguir publicar uma foto sequer na National Geografic, desisti de tudo e resolvi voltar para casa frustrado; se duvidam do que digo aqui tentem procurar alguma coisa sobre mim, digitem meu nome no google e não encontrarão absolutamente nada.

Voltei mais magro do que fui, vítima de cóleras, picadas de cobras, comidas intragáveis, noites e noites mal dormidas, o barulho ensurdecedor dos mais variados insetos e outras pragas noturnas. Sem contar uma nativa que se apaixonou por mim e, dizem meus poucos amigos, ainda me procura nas areias do Saara, segundo cartão postal enviado quando de minha fuga daquele inferno.

Vendi todos os meus poucos bens – incluindo aí aquelas fotos recusadas pela National Geografic, minhas peles de zebras e outros antílopes que comprei no aeroporto quando voltei da África do Sul e fui ser pescador em Cuba.

E seguindo a tendência de fracassos em série, tornei-me a piada de Valadero. Se um dia o nobre leitor for lá, procure nos bares do cais as minhas fotos – nenhuma batida por mim, é claro – enfeitando as paredes e servindo de piada e passatempo dos bebuns decadentes.

Vocês já viram em desenhos animados em que o pobre infeliz “pesca” botas, sapatos, pneus?

Pois as minhas são reais, lá estão imortalizadas – embora embale a esperança de que um dia esses bares peguem fogo – para todo o sempre. Já conversei com turistas recém-chegados que comentaram terem visto alguém parecido comigo “posando” para fotos ridículas...

Como dói em meu peito ouvir isso todos esses anos! Tenho ganas de arrancar a minha barba branca – tingida –, meu Deus, nem para isso sirvo, pois mesmo nessa idade avançada, ela continua preta feito carvão!

Cultivo uma rotunda barriga, tornei-me briguento, birrento, grande contador de casos, mentiroso – pois colecionar fracassos me tornou “impermeável” a amores, amantes e mulheres em geral – e um imbatível bebedor.

Para que ninguém diga que passei pela vida sem conhecer qualquer tipo de afeto, apresento-lhes Penélope, uma gata vira-lata de três cores e cega do olho direito – fruto de uma briga com outra felina -; é tudo que tenho como uma “âncora” emocional.

Encontrei Penélope numa noite negra depois de uma bebedeira que me fez vomitar as últimas tripas que guardava com algum carinho dentro de mim.

Ela aproximou-se de mim com aquele olhinho esquerdo arregalado e começou a lamber a minha mão que ainda recendia a sardinha - minha única refeição naquele dia. E desde então, ela me é a única companheira e herdeira de minhas derrotas – já imaginaram o que sobrará para essa pobre criatura?

Hoje acordei com dores terríveis nas juntas, e constato que o que faltava para a total decadência – o reumatismo – chegou.

O que tinham meus pais em suas cabeças quando me batizaram com o nome de Ernesto?





Um comentário:

MIRZE disse...

Roberto,

Ernesto é um nome comum no Brasil, e não é por causa do nome que a ficção da prosa colocou o Ernesto para a vida do álcool. Normalmente, para muito poucos as coisas dão certo.

Mas todo ser assim, é sensível, e sofre de ternura por gatinhos. Não os bem tratados, mas aqueles que ninguém quis e a vida maltratou.

Gostei do Ernesto!

Beijos

Mirze